"Não há realmente diferença entre poesia e vida", entrevista a Patrícia Lino

"Não há realmente diferença entre poesia e vida", entrevista a Patrícia Lino Se deste lado do mundo, o assunto é debatido há já algum tempo e institucionalmente desde os anos 80, o interesse pelo tema começa, decisivamente, a chegar ao lado de lá. O Kit de Sobrevivência materializa, com recurso ao exercício paródico e interdisciplinar, esse movimento. Uma mulher portuguesa escreve tão cínica quanto criticamente sobre o grande passado português cujos paradoxos e ilusões decorativas, e penso nas audiências que conheci ao longo de 2021 e 2022, são familiares para as leitoras e os leitores de muitas outras línguas e culturas. Afinal, assim como não há mistério algum no riso, não há mistério algum na violência. As suas dinâmicas desdobram-se em vários idiomas e lugares do mapa.

17.06.2022 | por Alícia Gaspar

6ª Edição do "Chá de Beleza Afro" | Entrevista a Neusa Sousa

6ª Edição do "Chá de Beleza Afro" | Entrevista a Neusa Sousa Sabemos que vivemos numa sociedade estruturalmente racista, com escassa representatividade da mulher negra nos vários setores importantes e relevantes da sociedade. Cada vez mais é notória a invisibilidade que a mulher negra sofre na sociedade. A mulher negra é o pilar da sociedade, pois é ela que limpa as cidades, no entanto, são marginalizadas ao nível da empregabilidade, de tratamento em setores públicos, de valorização e ascenção profissional, entre outros. Então, tornar o "Chá de Beleza Afro" um dos maiores eventos de afroempreendedorismo e networking feminino de Portugal, vai não só mostrar às mulheres negras e racializadas, que elas têm um lugar de referência onde podem discutir as suas problemáticas, mas acima de tudo, um ambiente seguro onde podem promover os seus negócios, promover-se a si. Pretendemos que seja uma espécie de Websummit de mulheres negras.

03.06.2022 | por Alícia Gaspar

A literatura, uma arte triunfal. Entrevista a Lídia Jorge

A literatura, uma arte triunfal. Entrevista a Lídia Jorge Enquanto escritora sinto-me uma construtora da vida marginal, ou mais propriamente uma espécie de testemunha do tempo que passa. No plano da mudança social, o facto de nos termos integrado na Europa, depois da Revolução, colocou em estado de stress um país que mantinha demasiados traços arcaicos, e o percurso rápido que precisou de fazer pôs em evidência conflitos profundos da sociedade portuguesa. Foi necessário um esforço estoico por parte da população. Em situações desse tipo, as questões ontológicas colocam-se com grande agudeza. Faço parte do grupo dos escritores que tornaram essa mudança social e histórica literariamente visível, mas a partir do palco interior das personagens, a partir de uma olhar individual transfigurado.

20.05.2022 | por Margara Russotto e Patrícia Martinho Ferreira

Entrevista com Miguel Sermão. “A pergunta que faço é: O que é uma cara africana?”

Entrevista com Miguel Sermão. “A pergunta que faço é: O que é uma cara africana?” Acho que existe um preconceito, não só na sociedade, mas no meio artístico também. Não podemos ter em conta que um personagem tenha a cor de quem a representa, a não ser para certos personagens históricos, que impliquem zelar pelo que escreveu o autor. Qualquer personagem é feito por qualquer outra pessoa, só que, infelizmente, quem dirige ou coordena as companhias, ao pensar num espectáculo não pensam nos actores negros, sejam africanos ou afrodescendentes. Não existe esse pensar de que há no meio artístico português actores negros. Quando se pensa tendencialmente, os pápeis são característicos digamos.

27.04.2022 | por Sílvia Milonga

Ângelo Varela – “As minhas curta-metragens são reflexões de problemas que me rodeiam e sobre os quais acho que se deve falar”

Ângelo Varela – “As minhas curta-metragens são reflexões de problemas que me rodeiam e sobre os quais acho que se deve falar” As pessoas têm de perceber que a arte não tem de ser adaptada. Ela é uma forma de expressão. Estou muito curioso para ver como serão os próximos tempos e como é que os artistas visuais vão lidar com a nova criação de vídeos na vertical. A adaptação não é algo necessariamente negativo, mas acima de tudo não deveria ser algo que inibisse o artista de ser ele próprio. Uma coisa é certa, apesar de tudo, a sociedade tem aberto mais olhos para as pessoas com menos representação nas esferas sociais e tem havido criações mais diversificadas, com perspetivas mais originais e críticas.

26.04.2022 | por Arimilde Soares

As histórias da história de África, entrevista a Isabel Castro Henriques

As histórias da história de África, entrevista a Isabel Castro Henriques A história dos muitos Outros é uma história autónoma, longa no tempo, muito para além da história colonial e dos períodos do colonialismo, que permite compreender todo o seu percurso e todo o seu passado histórico. Já em meados do século XIX, uma das figuras fundadoras da historiografia africana panafricanista e do pensamento africano anticolonial, o afro-antilhês, depois liberiano, Edward Blyden, afirmava que na muito longa história multimilenar africana, a colonização e a dominação colonial europeias, corolário lógico e previsível da escravatura e do tráfico negreiro, não representavam mais do que um momento a ser rapidamente ultrapassado.

20.04.2022 | por Elisa Lopes da Silva, Bárbara Direito e Isabel Castro Henriques

Entrevista a Virgílio Varela. Afinal, o que nos faz sentir realmente vivos?

Entrevista a Virgílio Varela. Afinal, o que nos faz sentir realmente vivos? Isto demonstra o quanto a sociedade em que vivemos nos convida a ser apáticos. A não sentir. É exatamente por não sentir que nós permitimos atrocidades perto de nós. É por não sentir que passamos por um mendigo na rua e continuamos com o nosso caminho, como se essa pessoa não estivesse ali. É por não sentir que vemos acontecer alguma injustiça e ignoramos por não ser nada connosco. É por não sentir que vemos o nosso planeta ser destruído, mas não ligamos por não se passar no nosso país, mas num outro. Não é aqui, mas ali e por isso, não tem nada que ver comigo. Então, uma sociedade que sustenta a vida e isso de se sentir vivo é a possibilidade de ativar toda as minhas potências, sejam elas todas as minhas emoções, os meus sonhos, a minha imaginação e colocar tudo isto em serviço de algo maior, de modo a trazer saúde para todo um sistema vivo.

25.02.2022 | por Arimilde Soares

Vandrea Monteiro. Atriz nas horas vagas.

Vandrea Monteiro. Atriz nas horas vagas. Pisar palcos internacionais não só era um sonho como uma oportunidade para evoluir enquanto atriz e profissional, até porque ela nunca conseguiu separar os dois mundos. Entre organizar eventos, escrever textos, briefings e sem esquecer as inúmeras viagens, mal teve tempo para os ensaios. Nas poucas vezes que acontecem têm de ser aos fins de semanas, à noite ou online. Vê-se muitas vezes entre um gole de café e uma fala. Dormir? Só depois de tudo estar na ponta da língua.

14.02.2022 | por Denise Fernandes

O que é o Sistema?, entrevista a Cristiano Mangovo

O que é o Sistema?, entrevista a Cristiano Mangovo “O Sistema”, sob curadoria de Katherine Sirois, é a mais recente exposição de Cristiano Mangovo, um artista contemporâneo natural de Cabinda, Angola. De entrada livre, na galeria .insofar, a mostra de obras do artista no estilo de expressionismo figurativo, retrata questões sociopolíticas intrincadas através da liberdade das suas pinceladas e escolha de cores fortes. É assim que decide retratar e endereçar a problemática das hierarquias e o exercício de poder. Sentados frente a frente conversámos sobre o seu passado, as inquietações que o movem a pintar e a reflexão sobre o que é “O Sistema”, as injustiças causadas pelo mesmo e como o podemos combater. A realidade, ou melhor, os resultados finais são merecedores de serem observados com todo o tempo e minúcia.

07.02.2022 | por Alícia Gaspar

"Moçambique nunca conheceu momentos de paz”, entrevista a Paulina Chiziane

"Moçambique nunca conheceu momentos de paz”, entrevista a Paulina Chiziane Foi a primeira mulher a publicar um romance no seu país. E a primeira africana a ganhar o Prémio Camões, em 2021. Ser tudo isto levou-a a perguntar: “Porquê agora?” A resposta ocupa a conversa com o Expresso. Nela recua-se aos inícios, fala-se do rumo do continente africano, da autocolonização e da colonização da língua

19.01.2022 | por Luciana Leiderfarb

Keyezua

Keyezua Pensei em ser embaixadora, diplomata, coordenadora, não, vou mesmo é ser presidente do meu país… Ainda tenho fé. Eu falo sobre essas coisas porque acho que existe essa necessidade, não só da minha parte mas também porque o povo quer ver retratada a sua vida. E também porque eu gosto de investigar o relacionamento que temos com o resto do mundo – somos vistos como dependentes mas esta geração é independente.

18.01.2022 | por Miguel Gomes

O canto do cisne: a monumentalidade enquanto indício do colapso civilizacional

O canto do cisne: a monumentalidade enquanto indício do colapso civilizacional Na arqueologia dos anos 40 e 50, o difusionismo era a interpretação dominante. O difusionismo considerava que as comunidades do mediterrâneo oriental, mais evoluídas, vinham para o mediterrâneo ocidental numa perspectiva de procura de recursos, de colonização. As gerações do pós-25 de abril vão assumir um combate a estas explicações difusionistas e, dentro do materialismo histórico, vão à procura de respostas relacionados com evolução local. O seu objectivo é a construção de um discurso onde a emergência da desigualdade social, a emergência da exploração do homem pelo homem, esteja presente.

27.12.2021 | por Lana Almeida, Beatriz Barros e António Valera

'Futur passod na presente', entrevista ao rapper Revan Almeida

'Futur passod na presente', entrevista ao rapper Revan Almeida Entender como é que funciona a política, qual é a sua ideia em relação à política, para que serve, como se posicionar, perante as desigualdades, nomeadamente em termos de oportunidade em relação a outros lugares por nascerem naquele meio: questões de habitação, alimentação, situação económica, oportunidade de frequentar espaços abertos para todos, habitação, por que razão são empurrados para a periferia, etc. Tem a ver com tudo isto.

20.12.2021 | por Marta Lança

“Tornei-me quem sou pela relação de amor com a transgeneridade”, entrevista a Gaya de Medeiros

“Tornei-me quem sou pela relação de amor com a transgeneridade”, entrevista a Gaya de Medeiros Acho que em geral, não só aqui, eu sinto que é muito mais mediático o tema da transgeneridade. É muito mais conversado e ao mesmo tempo que sinto que é uma temática um pouco cansada, um pouco desgastada nas mesmas narrativas, e o meu trabalho aqui em Portugal e no Atlas da Boca é tentar renovar essas narrativas, é falar assim: nem todas as travesti, nem toda mulher trans vai se identificar pela dor, pelo problema com o corpo, pela não aceitação, pela disforia.

19.11.2021 | por Alícia Gaspar

Angola e os lugares do afeto. Entrevista a Kalaf Epalanga

Angola e os lugares do afeto. Entrevista a Kalaf Epalanga Eu me inicio a partir daquele lugar (Angola), mas tenho em mente que não me encerro naquele lugar. Sou angolano, sou africano, sou um homem, mas, mais do que isto, eu sou as somas de todos os lugares por onde eu passei, de todas as pessoas com quem me encontrei e que causaram alguma espécie de impacto na minha formação e na minha personalidade. Angola é importante para mim, mas não Angola no sentido de nação, no sentido de pátria, porque essa é uma construção e é uma construção que não foi iniciada por angolanos…

19.11.2021 | por Doris Wieser

Que lugar para África na cena artística portuguesa? (2015)

Que lugar para África na cena artística portuguesa? (2015) Para começar não me parece que haja propriamente uma cena artística africana em Portugal. Há algumas intervenções, promovidas sobretudo por agentes culturais portugueses (e alguns africanos, sobretudo angolanos), na música, cinema, artes plástica, teatro, mas não consistiu nenhuma « cena artística ». Mas é uma aparição bastante recente e com um grande atraso em relação a outros países. Na década de 80 houve uma grande amnésia, não se falava muito sobre África, ainda na ressaca de descolonização.

25.10.2021 | por Maud de la Chapelle

O labor da memória como “intervenção radical” e “reparação”: entrevista com Marita Sturken

O labor da memória como “intervenção radical” e “reparação”: entrevista com Marita Sturken O campo dos estudos da memória é desafiado mais do que nunca pela crescente volatilidade dos debates sobre o que as nações lembram e, consequentemente, o que esquecem. Monumentos e memoriais estão a ser vandalizados, demolidos e oficialmente removidos. Estes já não podem mais ser simplesmente vistos como parte de uma paisagem histórica. Em grande medida, muito do que se passa hoje pode ser entendido como um combate pelas narrativas históricas dos monumentos e do seu poder, mas também se trata de tensões em torno de quem a nação lamenta e quem esta vê ou não vê como tendo uma "vida digna de luto" para usar o conceito de Judith Butler. Portanto, vejo o activismo da memória como um lugar chave para a produção de investigação sobre a memória.

25.10.2021 | por Inês Beleza Barreiros

“As minhas raízes são africanas e as minhas asas são europeias”, entrevista a Yara Monteiro

“As minhas raízes são africanas e as minhas asas são europeias”, entrevista a Yara Monteiro Condição feminina, da condição da mulher no mundo atual, no mundo africano também e até europeu: a imposição do casamento, a imposição da obediência ao homem, que vem muito da religião católica, e isto está relacionado, por um lado, com a negação da mulher e, por outro lado, com a sua contribuição tanto num contexto extremo de guerra como no contexto social em geral.

14.10.2021 | por Doris Wieser, Yara Monteiro e Paulo Geovane e Silva

Uma noite do tamanho de um país

Uma noite do tamanho de um país Trabalhar sobre este momento traumático para história da cidade implica focar vítimas e agressores, mas implica também falar da estrutura social. Num breve retrato: um país com o mais longo império colonial, saído há duas décadas de uma guerra de grandes proporções pela manutenção das suas colónias e com acentuados fluxos migratórios vindos dessas ex-colónias, num momento marcado pela assinatura dos acordos de Schengen e por uma série de políticas nacionais de criminalização das migrações, vê, num dia de revisitação solar do seu passado colonial, um linchamento racial de largas proporções ser motivado pelas comemorações da efeméride.

11.10.2021 | por Filipe Nunes

O fetichismo da marginalidade (II)

O fetichismo da marginalidade (II) Não creio que a Argentina se transforme no Brasil. Penso que as igrejas aqui nunca terão tanto poder como lá têm. A Argentina é uma sociedade bastante secular. Agora, é preciso compreender plenamente o que acontece numa igreja, as pessoas não vão apenas em busca da promessa do paraíso, que é normalmente a primeira coisa que se pensa a partir de um lugar secular; não, as pessoas vão à igreja para encontrar colectividade, entusiasmo partilhado, dançar, gritar, êxtase. Uma pessoa cuja vida é bastante monótona, limitada e com muito esforço físico no trabalho, como poderia não querer ir para um lugar onde sente tantas emoções positivas? Porque se eliminarmos Deus e o simbolismo, quem entre nós não tem uma crença?

22.09.2021 | por César González, Tomás Guarnaccia e Miguel Savransky