Baralho de Cartas 24

Ricardo, 

Escrevo-te de uma cidade cujo nome vem de “casa no pântano”, adivinha! Há personagens de BD nas carruagens de metro - até os tecnocratas são bonecos nesta sede da UE e da Nato. De tão cosmopolita e multicultural, não se percebe o credo racista que ainda esperneia por aí. Depois de um extenso programa na universidade, devorei um gorduroso kebab com duas professoras, ouvindo com apreço as suas impressionantes histórias de migrações. 

Dá-me uma certa ancoragem o facto da história humana ser, desde sempre, uma história de partidas, fugas, exílios e sobrevivências. Todos nós, basta perguntar a qualquer transeunte, teremos uma ou mais deslocações tatuadas. É que migrar provoca acontecimentos e sustenta uma série de imaginários, e que seria da literatura e dos almoços em família sem histórias para contar… Encantam-me os caminhos proliferantes das gerações.
Entretanto Trump continua a erguer muros, a deportar mexicanos, venezuelanos, africanos. Crianças arrancadas das escolas, famílias separadas por continentes, gente enviada para países onde não conhece ninguém, requerentes de asilo fechados em centros de detenção, como se a procura de uma vida melhor fosse um delito. Corpos abandonados no deserto do Arizona ou engolidos pelo Mediterrâneo. Parece que nunca saímos dos Blues.
De volta ao kebab, a professora conta-me o seu percurso desde a pequena aldeia de Mortágua para Paris, depois São Salvador da Baía e, desde há décadas, residente em Bruxelas. Passou por todos os estatutos de migrante e por todos os motivos - necessidades económicas, fugir da ditadura, objetivo de estudar, trabalhar e o motivo de maiores abalos, o amor.
Temos tido maravilhosos anfitriões na cidade do pântano. A Ana que me desafiou para pensar uma exposição de artistas africanos pós-independência, e já me tinha convidado, e à Marta Mestre, para irmos a Kinshasa, foi um sonho! Adoro o seu riso franco muito aberto, numa cabeleira encaracolada. É um força da natureza, apesar da expressão tonta porque mais viril que a natureza não poderá haver. E hoje jantámos com um casal de tal modo complementar e generoso que comove. Ela natural do norte de Portugal (o pessoal do sul tem menos espírito aventureiro e empreendedor do que os do minifúndio) e está cá desde os quinze anos; ele é belga de família protestante e fala num português dedicado, é que o amor ensina línguas à perfecionista. Ambos doutorados em biologia molecular e, pós-reforma, prosseguem as suas pesquisas à procura de entender os padrões de vida na genética…. blá blá, depois não consigo reproduzir. Casaram no verão mais quente da Europa, no ano em que nasci, e viajam anualmente aí ao sul da Europa de camioneta ou de carro «porque já não dá para andar de avião, não é?», «ups!», pensei eu. Dinamizam a Associação José Afonso por cá. Foi bom saber que o Zeca passou regularmente pelos caminhos da Flandres. Como não conseguiam tocar no Portugal salazarista, e durante o PREC se abusava da militância não paga, vários cantautores tentaram ganhar uns trocos desdobrando-se em concertos para as comunidades expatriadas. Contaram-nos que, em Bruxelas, o 25 de Abril foi ferverosamente vivido, uma esperança revolucionária depois do triste balde de água fria com outra luz na noite ditatorial da América Latina - o golpe no Chile, o assassinato de Salvador Allende. Fiquei ainda a saber um pouco sobre o complexo funcionamento das comunas urbanas, entre zona flamenca e francesa, as políticas de língua e do governo.

Por falar em cantores, na Fundação Jacques Brell apreciei o seu desejo de mundo e de vida aventurosa, para depois morrer de tuberculose aos 49 anos, numa viagem a velejar de porto em porto. Perante estes criadores fenomenais de existências brevíssimas, e intensas, a partir de agora tudo o que vivermos será um extra das deusas afortunadas. É triste constatar, mas também ajuda a não perder tempo com merdas.

Brell tem lindas frases sobre a ternura, que diz ser o elemento que distingue um verdadeiro homem. Também tendo a confiar na ternura como ligação entre seres. A ternura é um sentimento profundo que nada deve aos interesses, aos meios e à auto-satisfação. Por vezes, sou levada pela ternura na voracidade de uma adolescente que não sabe nada de nada, mas tem certezas absolutas sobre tudo. 

O’Neill, no Adeus Português: 

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

O meu pai partilhou comigo os dramas da idade na solidão, a fragilidade de quem vive sozinho, a nostalgia que, ao fim do dia, lhe sobe com um ardor no peito.

Espero que faças o possível para ouvir vozes e risos, por sentires mãos no cabelo e ar na cara, por não te isolares. Devemos dar tudo por um pouco de ternura, como cantou o Brell:

Qu’au sommet de leurs chants / Empereurs et ménestrels / Abandonnent souvent / Puissances et richesses ? / Pour un peu de tendresse 

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 (Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)

 

por Marta Lança
Mukanda | 8 Junho 2026 | Baralho de Cartas