Racismo institucional, legado do colonialismo

Racismo institucional, legado do colonialismo Passados mais de 45 anos das independências das nações ocupadas por Portugal, o colonialismo continua vivo, sendo o racismo o seu maior legado. O império acabou, o colonialismo foi derrotado. Contudo a narrativa construída nesse período continua patente na ideologia identitária nacional e influencia profundamente as relações entre os indivíduos, assim como a organização social. Reconhecer as continuidades coloniais patentes na sociedade portuguesa é fundamental para desmontar a história única, a ficção contada e recontada sobre esse período da nossa história coletiva. O racismo em Portugal é estrutural e institucional, privando dos seus direitos fundamentais as pessoas afrodescendentes e de outras comunidades racializadas.

15.01.2021 | por Beatriz Gomes Dias

Construir uma parceria UE-África entre iguais

Construir uma parceria UE-África entre iguais A construção de uma parceria mais forte e mais estratégica com África também obrigará os países da UE a abandonarem a sua obsessão com a “ameaça” das migrações e a reconhecerem a importância estratégica do continente. Um debate sincero sobre a expansão das vias judiciais para garantir a mobilidade, nomeadamente as migrações circulares, seria benéfico.

17.12.2020 | por Carlos Lopes

O direito ao protesto está sob cerco

O direito ao protesto está sob cerco Os profissionais da comunicação social e os jornalistas-cidadãos podem desenvolver uma potente contra-narrativa relativamente aos que procuram demonizar os manifestantes. E, enquanto indivíduos, podemos todos sair à rua ou expressar a nossa discordância on-line. Sem esta solidariedade, o direito ao protesto será sempre vulnerável. E onde este direito não for defendido, poucos direitos estarão seguros.

17.12.2020 | por Sharan Srinivas

São Tomé, “a jóia do império”

São Tomé, “a jóia do império” Em 1907, as roças de São Tomé estavam no centro de uma rede que se estendia aos principais interesses industriais, financeiros e coloniais de Portugal e da Europa. São Tomé era, de facto, a “jóia do império”, moderna, rica, lucrativa. Importa, no entanto, não ignorar o passado de trabalho forçado, de violência e de racismo que criou essa “jóia” e lhe deu forma. Essa é a história que nunca deve ser esquecida.

15.12.2020 | por Marta Macedo

Direito à memória e antirracismo: reivindicar o movimento negro de 1911-1933

Direito à memória e antirracismo: reivindicar o movimento negro de 1911-1933 Partindo da história silenciada do movimento negro em Portugal de 1911-1933 e da experiência de uma exposição sobre o tema, propõe-se neste artigo que a Escola tenha um papel ativo na criação de contranarrativas. Estas devem disputar falsas perceções históricas e incluir, por exemplo, a importante presença de negros, roma ou muçulmanos no passado do país, contribuindo, assim, para a criação de uma maior igualdade social.

11.12.2020 | por Pedro Varela

Mano Preto, Mano Branco: Uma estratégia pedagógica na disciplina de História

Mano Preto, Mano Branco: Uma estratégia pedagógica na disciplina de História A estratégia pedagógica implementada para a construção do livro “Mano Preto, Mano Branco” vai de encontro a um tema central na formação cívica e da história de Portugal na sua relação de séculos com as colónias de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe e Timor Leste. As fontes orais disponíveis no bairro cingiram-se a Angola e Moçambique. Foi realizado por seis turmas do 9º ano da Escola Secundária João II de Setúbal e por três docentes de História, a partir de uma série de entrevistas com 50 pessoas que viveram nas colónias de Angola e Moçambique entre 1950 e 1974.

11.12.2020 | por Jaime Pinho e Vasco Caleira

Fomos para África, só que agora cá dentro

Fomos para África, só que agora cá dentro Em 1998, Portugal ainda era a ex-metrópole naïve que festejava os Descobrimentos na inconsciência de que haveria uma ressaca do dia seguinte, e de que até o Padre António Vieira se tornaria tóxico. Vinte anos, algum pós-colonialismo e muito kuduro depois, África tornou-se um sujeito e um objecto recorrente nas práticas artísticas que irradiaram de Lisboa para o resto do país — ou, nalguns casos, do resto do mundo.

10.12.2020 | por Inês Nadais

Descolonização em, de e através das imagens de arquivo “em movimento” da prática artística

Descolonização em, de e através das imagens de arquivo “em movimento” da prática artística Este ensaio examina a forma como as práticas artísticas contemporâneas têm contribuído para uma descolonização epistémica e ético-política do presente através da investigação crítica de vários tipos de arquivos coloniais, quer públicos, quer privados, quer familiares, quer anónimos. Tomando como estudos de caso obras dos artistas Ângela Ferreira, Kiluanji Kia Henda, Délio Jasse, Daniel Barroca e Raquel Schefer, este ensaio indagará até que ponto a estética destas práticas videográficas, fotográficas e escultóricas implica uma política e uma ética da história e da memória relevantes para pensar criticamente as amnésias coloniais e as nostalgias imperiais que ainda caracterizam uma condição pós-colonial marcada por padrões neo-coloniais de globalização e por relações difíceis com comunidades migrantes e diaspóricas.

06.12.2020 | por Ana Balona de Oliveira

Resistir às Máquinas Identitárias

Resistir às Máquinas Identitárias A resistência às máquinas identitárias também passa pela sua compreensão, pela análise de exemplos, que são efectivações e não modelos. Por isso, neste texto pretende-se analisar alguns aspectos de dois textos recentemente publicados e que se propõem reflectir sobre a actualidade em Portugal – O texto de Luís Trindade, «Fado, Futebol, Fátima, Foices e Martelos. Combates pelo senso comum no século XX português», e o livro de José Gil, com o título Portugal Hoje. O Medo de Existir.

03.12.2020 | por Silvina Rodrigues Lopes

Lembranças, Souvenirs, Recuerdos | Fragmentos de um diário de pesquisa de fotografias de emigrantes portugueses no Brasil – II

Lembranças, Souvenirs, Recuerdos | Fragmentos de um diário de pesquisa de fotografias de emigrantes portugueses no Brasil – II   Os relatos eram acompanhados, entrecortados, muitas das vezes ditados por fotografias, revolvidas em álbuns, caixas de sapatos, molduras, envelopes; fotografias que me mostraram, nas quais peguei, e que quase sempre digitalizei e voltei a arrumar nos álbuns, caixas de sapatos, molduras, envelopes… Aqui fica a segunda parte de fragmentos de impressões dos diários de “campo”, que relatam episódios da pesquisa dessas imagens fotográficas.

30.11.2020 | por Ana Gandum

O embarque do meu irmão para a guerra em Moçambique no ano de 1969

O embarque do meu irmão para a guerra em Moçambique no ano de 1969 Não existia muito diálogo entre nós, não discutíamos os nossos problemas comuns perante a tropa e a previsível mobilização para uma guerra que ambos detestávamos. Só assim se compreende que ele nunca me tenha falado sobre o assunto, ou tenha sequer esboçado uma tentativa de encontrar uma solução (uma eventual deserção?) para evitar a guerra, apesar de ele saber bem quais eram as minhas ideias sobre a guerra e sobre o regime fascista.

30.11.2020 | por Fernando Mariano Cardeira

Em Portugal, os trabalhadores asiáticos apanham fruta e vivem precariamente

Em Portugal, os trabalhadores asiáticos apanham fruta e vivem precariamente À medida que a noite cai em São Teotónio, as luzes ainda estão acesas na escola. Três vezes por semana, permanece aberta até à meia-noite para realizar aulas para adultos da região, que aqui vêm ao fim de um longo dia nas estufas - sabendo que precisarão de falar um pouco de português para se qualificarem para residência permanente. Existem actualmente 500 estudantes adultos inscritos para as aulas nocturnas - quase correspondendo à entrada diurna de 600 crianças. O moldavo Vitali Siminionov, que colhe flores para viver, e cujas duas crianças estudam ambas na escola, brincaram: "Eles estão sempre a corrigir-me dizendo: 'Pai, não é assim que se diz!"

24.11.2020 | por Ana Naomi de Sousa

A Revolta da Chibata foi há 110 anos

A Revolta da Chibata foi há 110 anos Os rebelados advertiram as fortalezas de Santa Cruz, Laje e São João a não dispararem os seus canhões sobre as naves de guerra rebeladas, sob pena de serem arrasadas. Os navios fizeram alguns disparos de aviso, aos quais as fortalezas não responderam, mantendo-se mudas. O poder de fogo dos couraçados era muito superior ao das fortalezas e aos contratorpedeiros que não entraram na revolta. João Cândido, o primeiro marinheiro a comandar uma frota de navios, era consciente do seu poder. Na torre do Minas Gerais, permanecia com o seu uniforme de marinheiro, ao qual apenas acrescentara um lenço vermelho, símbolo da rebelião. Se quisesse, teria arrasado o Rio de Janeiro. Mas não era esse o objetivo do “Almirante negro”, como passou a ser conhecido.

23.11.2020 | por Luís Leiria

O assassinato de Amílcar Cabral

O assassinato de Amílcar Cabral O assassinato de Amílcar Cabral desencadeou a imediata iniciativa dos Comités de Desertores no sentido de realizar manifestações públicas de protesto nas principais cidades suecas. Juntamente com outros responsáveis do Comité de Malmö-Lund, estabelecemos de imediato os contactos necessários para a realização de manifestações, muito bem sucedidas, tanto em Malmö no dia 26, como em Lund, no dia seguinte. Antes disso já havia distribuído panfletos um pouco por todo o lado, logo no dia seguinte ao crime.

21.11.2020 | por Fernando Mariano Cardeira

Investir numa Paz Feminista

Investir numa Paz Feminista A 23 de Março, no início da pandemia, o Secretário-Geral das Nações Unidas António Guterres apelou a um cessar-fogo global, a fim de permitir aos países concentrarem-se na crise da COVID-19 e permitir que as organizações humanitárias cheguem às populações vulneráveis. Mais de 100 organizações de mulheres do Iraque, Líbia, Palestina, Síria e Iémen juntaram-se rapidamente ao apelo com uma declaração conjunta que defendia uma ampla trégua COVID-19, que poderia constituir a base para uma paz duradoura. Não deve ser surpresa que as mulheres tenham sido das primeiras a apoiar o apelo a um cessar-fogo.

18.11.2020 | por Phumzile Mlambo-Ngcuka

A solidariedade como democracia radical e não-oficial (parte 2)

A solidariedade como democracia radical e não-oficial (parte 2) O que me chocou, no início da pandemia, foi o quanto o debate se focou na desresponsabilização do ser humano. Ali, no sudeste asiático, são sociedades totalitárias e conformistas, usam máscara de qualquer maneira. Esse discurso é de divisão e este paralelo entre a migração se deixar explicar como algo vindo de fora e o vírus como algo apenas biológico e não político. A divisão nasce da ilusão de que na Europa do norte fomos atingidos e, como tal, não só não reconhecemos a causa destes problemas como também caímos nos nossos nacionalismos para resolver este problema, não para o mundo mas para nós.

18.11.2020 | por Gisela Casimiro

A solidariedade como democracia radical e não-oficial (parte 1)

A solidariedade como democracia radical e não-oficial (parte 1) Devemos constatar que a selecção das vidas acontece e aconteceu já muito antes do hospital. Como é que a economia nacionalista se transforma num cuidado necropolitico na qual o gesto de curar pode ferir ou até matar? Estamos, de certo modo, isolados nas nossas vida privatizadas pela crise sanitária em que usamos o sentido da vida contra o outro. Quando os migrantes chegam à Europa, não é realmente pela primeira vez. Há algo que faz falta na melancolia racial que apagou o que constitui o estrangeiro aqui e lá porque fere a nossa nostalgia. Esta força que os migrantes têm de fugir dá uma nova força à coragem política e ao amor pela vida.

15.11.2020 | por Gisela Casimiro

"A terra é nossa, até morrer!": resistências contra a corrida do lítio em Portugal

"A terra é nossa, até morrer!": resistências contra a corrida do lítio em Portugal No seguimento da publicação da Estratégia Nacional para o Lítio, residentes nas zonas identificadas para concessão, e organizações em todo o país questionam os impactos desse plano de mineração em larga escala e quem realmente beneficiará dele, por oposição a um investimento na conservação e protecção de ecossistemas florestais e rurais. Face ao exaurimento de recursos naturais cada vez mais escassos, a exploração de minerais raros para a construção de baterias constitui um campo sensível para o equilíbrio dos ecossistemas e para o respeito dos Direitos Humanos.

14.11.2020 | por Oficina de Ecologia e Sociedade

Manifestações de estudantes em Lisboa e Coimbra em Novembro de 1968

Manifestações de estudantes em Lisboa e Coimbra em Novembro de 1968 Foram algumas destas cópias o único rasto que ficou, por exemplo, de um rolo de fotografias que fiz no Plenário de Estudantes realizado na Cantina da Cidade Universitária de Lisboa em 20 de Novembro de 1968. Neste dia, foi convocada uma manifestação para a Reitoria da Cidade Universitária a contestar o evento. Da Reitoria os manifestantes acabariam por se dirigir à entrada da Cantina Universitária onde já estava concentrada a Polícia de Choque. O Plenário realizou-se depois no interior da Cantina.

09.11.2020 | por Fernando Mariano Cardeira

As cinzas vivas do colonialismo português

As cinzas vivas do colonialismo português O Portugal de hoje não é o mesmo Portugal que se apresentou como uma potência imperial nem o mesmo que atravessou boa parte do século XX enquanto metrópole colonizadora. Mas no país habita, ainda hoje, o que se poderia definir como um caldo de imperiofilia, definidor de uma parte significativa dos discursos sobre a sua identidade e a sua história. O peso de uma história colonial negada desponta no racismo manifesto na atuação das polícias, nas políticas de habitação e segregação, nas leis de nacionalidade, o discurso de crescentes setores políticos, bem como numa auto-representação do país, do seu povo e do seu passado marcada pelo lastro duradouro do lusotropicalismo.

30.10.2020 | por Miguel Cardina