Baralho de Cartas 26
Ricardo,
Já te contei que ando a revisitar uns textos, memórias organizadas a partir das casas onde vivi, mas desta vez para publicação, o que me deixa particularmente insegura perante a exposição de tal gesto. Encontro tanto reconhecimento como estranhamento nessas várias versões de mim, dispersas por tempos e lugares diferentes. Um eu em sucessivas camadas, apenas tolerável porque, nestas páginas, pesa mais a percepção de cada época do que qualquer exercício de intimidade. Aspirações, contradições e indignidades de um meio, sem saber bem o que é isso de pertencer a um “certo meio”.
Falámos sobre autoficção. Pouco me importam as críticas ao género ou a sua apropriação pelo mercado editorial, menos ainda os autores de auto-ajuda disfarçada de autoficção. Mas “La vie, il faut la mettre en scène…”, só assim se consegue expressar a sobrecarga invisível e destrutiva no quotidiano das mulheres como faz, por exemplo, a personagem Jeanne Dielman no filme de Chantal Akerman. Trazer a vidinha ao barulho é um processo que pode ser narcísico ou radical, depende da abordagem e do engenho de quem esmurra esse pão. Na pior das hipóteses, servirá como exercício de aceitação.
[Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles, de Chantal Akerman (1975) - caracterizado por um ritmo contido, tomadas longas e trabalho de câmera estática, o filme é uma representação da vida de uma dona de casa viúva (Delphine Seyrig) ao longo de três dias.]
Nas minhas tentativas pueris de escrita, desbarato uma prosa coloquial e fragmentada prisioneira da vivência - sorte senti-la menos como prisão do que fonte jorrante de espanto. O sonho de ser escritora é tão premente como a prática constante de adiar o finalizar um livro - (o Ramalho que o diga). Publiquei centenas de textos, mas nunca o livro. Preciso de voltar ao ponto de partida, àquela criança de peito cheio a afirmar que queria fazer “grandes coisas”, explodir cenas, à atitude “tudo ou nada” para me reorientar. É possível que, entre a afirmação da criança e a mulher do presente - ambas despudoradas e megalómonas - se tenha dado um apagamento conivente com a merda que denunciamos.
Sofremos todas de auto-boicote - a anuência involuntária ao corpo controlado e disciplinado que nos oprime desde a caça às bruxas.
Trazer para a prosa uma espécie de vida própria, faz-me mais sentido do que criar uma ficção alheia. Não conseguimos escapar de viver as nossas biografias. Concordo contigo que o real é insuportável, mas pensar aqui e agora, implicando-nos, será sempre melhor do que um «fora de nós» embora reclame, com Glissant, a opacidade como resistência. Não para cultivar o mistério, mas garantir que nem tudo será totalmente inteligível aos olhos do outro. Rejeito a transparência absoluta até porque nem me creio com capacidade - sequer interior - de saber explicar-me.
Então, escrever a partir da tal vida real mas opaca, é preciso largar os arquétipos que nos fazem corresponder a uma mitologia patética, mas abandonar também a ideia de um narrador competente.
Como fazer um bom narrador? É impossível analisar fenómenos com a neutralidade e rigor exigidos à ciência, também não almejo a formalidade e virtuosismo que se exige à literatura.
A escrita a partir do breve encontro, brisas pensantes que logo se perdem, pedras ardentes que nos vão caindo nas mãos e talvez dê para atirar ao próximo.
Como entende Benjamin, o verdadeiro narrador nasce da experiência (Erfahrung) vivida ou escutada, trabalhando-a como um artesão que molda a matéria e a devolve aos outros sob uma narrativa. É um processo coletivo: o que se conta não pertence apenas a quem fala, incorpora-se na memória dos ouvintes, tornando-se património comum. Prolonga-se para além de cada geração. Narrar tem sido esse saber acumulado e transmitido entre gerações. Se agora estamos no reino da informação imediata, fragmentária e descartável, seremos menos capazes de partilhar sentidos comuns.
E calha bem aqui a feminista Andrea Dworkin que, tal como tu, descobri lamentavelmente tarde. Em 1974, Dworkin escreve «Muitos compreendem que o triunfo da consciência autoritária consiste em esvaziar de sentido as palavras faladas e escritas, tornando impossível que nos falemos e escutemos uns aos outros.» Leio isso como um alerta quanto ao silêncio histórico imposto às mulheres. Quando a linguagem é esvaziada, as experiências de opressão deixam de ser nomeadas e reconhecidas. E hoje as redes, o excesso de ruído, a circulação de fake news, a IA e todos os truques discursivos, esvaziam a palavra. Quando já não conseguimos distinguir verdade e falsificação, qual o sentido de dialogar? Como fica a capacidade de nos ouvir? As polarizações crispadas não permitem um consenso para definir realidade. Então, mais do que um problema de comunicação, ou através dele, o autoritarismo contemporâneo armadilha-nos no seu manto ao criar isolamento.
Assim, proteger o sentido da palavra é também defender a convivência (viver com), ou seja, a política.
Viste os protestos de L.A.? Noites quentes e sirenes ecoam entre os arranha-céus. As ruas enchem-se de vozes a reclamar dignidade, a erguer cartazes contra a violência das operações do ICE, e à polícia migratória que caça famílias de imigrantes. Entre bombas de gás lacrimogéneo e o estrondo seco das balas de borracha, os manifestantes avançam determinados, pelo direito a existir, resistindo ao medo.
Já o genocídio na Palestina continua todos os dias, eu sei que sabes como isto é tão demoníaco. (2025)
Cena de 'Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles'
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(Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)