Baralho de Cartas 33

Marta,

Pensei em escrever um livro, tosco, rude, como um tecido gordo de roupas usadas e lã grossa acabada de cortar. Um tapete de trapos, rústico, pequeno, pesado, bom para ter na rua, debaixo dos pés. À noite apareciam-me coisas escabrosas que me faziam corar, cresciam com as sombras em redor do candeeiro, ficava deslumbrado com as paixões desatinadas e os crimes por realizar. Conhecia mal a minha loucura. Antes de ter as mãos sebosas do ofício já me divertia com os truques e as manhas que viria a usar, como desdobraria as fraquezas, as faltas, as traições. Ensopava cada trapo de saliva e suor, de uma sobriedade austera, até serem um rio vivo de gozos e punições. Já lhe sentia o peso, o fedor que largaria. De noite sou grande e idiota como um São Bernardo, farejo o lixo debaixo da neve, invento desordens e países, sujo-me todo. De manhã mando tudo fora, falta-me a paciência dos tecelões, as madrugadas disponíveis, as noites mansas dos fartos. Quando o sol nasce, cedo terreno às ameaças, à utilidade arbitrária. Resta-me o escuro com o focinho no lixo, onde as baratas zunem na frequência dos mortos.

 

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por Ricardo Norte
A ler | 12 Agosto 2026 | Baralho de Cartas