Estamos em guerra mas não basta sobreviver

Ecologia sem luta de classes é jardinagem, a formulação atribuída ao seringueiro e ativista brasileiro Chico Mendes, continua a resumir bem a tensão das lutas climáticas mais ou menos politizadas.

O livro do Climáximo, Quebrar em Caso de Emergência Climática, é uma resposta ao desafio da editora Tigre de Papel para contarem a história  dos seus dez anos de existência. Surge num momento histórico em que o colapso (climático e social) deixa de ser uma hipótese remota, um filme distópico alucinado, para se tornar condição material do presente - todos os dias na televisão e todos os dias na nossa vida até que as situações anómalas passem a ser «o novo normal».

(Enquanto digito estas palavrinhas, por toda a Europa os governos e os media alertam precisamente sobre recordes de subida de temperatura nos próximos dez dias, calor extremo, incêndios flagrantes, e de como ainda vamos achar este verão o menos quente dos últimos tempos.)

Vamos ao livro, sobre o qual tive o prazer de moderar a primeira conversa na Feira do Livro, com dois elementos do Climáximo - ou duas, porque falam sempre no plural feminino -, o João e a Leonor, e a atriz Joana Seixas. Foi numa tarde abrasadora de junho. O calor funcionava como elemento silencioso (e pastoso) enquanto falávamos da emergência climática e da força coletiva que exponencia qualquer coragem ou “heroísmo” individual. Os testemunhos que foram lidos (a título de exemplo dos que constam no livro), deixam-nos entrar nas ações, e seus problemas, sem cair em formulações sobre um elemento tão acima das nossas capacidades como o “clima”, seja lá o que isso for.

Primeiro, o coletivo Climáximo apresenta-se no site por estas palavrasSomos pessoas que trabalham, estudam e tentam sobreviver. Queremos que todas as pessoas tenham uma vida boa, com tranquilidade e acesso a comida, casa, educação e saúde. Porém, isto foi-nos roubado.

É a partir desse lugar implicado de pessoas normais que tentam sobreviver que as autoras do livro, do coletivo Climáximo, escrevem: não reivindicam uma posição de exterioridade nem de autoridade científica absoluta, mas oferecem-nos uma experiência política acumulada de ativistas que se atravessam pela causa do futuro, o que torna a descrições mais convincentes. Não há uma voz de autoria/dade a partir de uma confortável distância analítica, um tom frequentemente professoral que apresenta uma sucessão de dados destinados a convencer os já convencidos, mas uma voz coletiva de anos de organização, campanhas, manifestações, fracassos, aprendizagens e confrontos. 

Embora assente numa vasta bibliografia científica e dialogue constantemente com relatórios internacionais, o livro assume esse lugar de enunciação muito claro, e não se esconde atrás de uma falsa objetividade nem cultivar a distância confortável do especialista. É um livro militante, no melhor sentido da palavra. Escrito por um coletivo, recusa a figura do autor - ou do líder iluminado - e substitui-a por um nós que é um património de saberes construído na experiência da organização, nas campanhas, nos fracassos, nas vitórias parciais e na aprendizagem permanente. O “nós” não é apenas uma opção estilística, não pretende apagar diferenças entre elas nem falar em nome de toda a sociedade. É um convite permanente à participação: o leitor deixa de ser um espectador a esclarecer para ser constantemente convocado para dentro da narrativa. Ou seja, é um livro que procura transformar conhecimento em capacidade coletiva de agir. 


Uma das questões centrais é a desigualdade da produção e dos efeitos da crise climática nessa experiência quotidiana. Nem todos sofrem o mesmo calor, nem têm acesso aos mesmos mecanismos de proteção, nem pagarão o mesmo preço pela devastação em curso. Outra é a insistência em nunca desligar a emergência climática da questão social. Os incêndios, as secas, as ondas de calor, as cheias ou a subida do preço da energia não atingem uma humanidade indiferenciada. Incidem sobre sociedades já organizadas por classe, raça, género, nacionalidade e heranças coloniais e portanto há grupos humanos e territórios muito mais vulneráveis nesta equação.Os responsáveis históricos pela destruição ecológica não coincidem com aqueles que hoje suportam os seus custos mais violentos.  A recusa da ideia abstrata de uma «Humanidade» comum confere densidade política à luta da Climáximo. 

Quebrar em Caso de Emergência Climática também desmonta uma das ilusões persistentes no discurso comum: a de que será possível resolver a crise ecológica mantendo intactas as estruturas económicas que a produziram. A promessa de um capitalismo verde, limpo, eletrificado e digital é uma narrativa para adiar problemas - que, mais do que energéticos, são políticos como quase todos -  e prolongar as condições de acumulação que o tornam rentável. A sustentabilidade é, muitas vezes, uma falácia. Muda-se a tecnologia, mantêm-se as relações de exploração, substituem-se combustíveis, mas preserva-se a lógica infinita da acumulação e o capitalismo a canibalizar as crises para o lucro. Assim, uma das linhas do livro é recusar frontalmente a linguagem anestesiante e colaboracionista da «transição verde», da sustentabilidade corporativa ou da responsabilidade individual enquanto único horizonte de mudança. Crescemos com essas mezinhas e lembretes segundo os quais é o comportamento de cada um que faz a diferença, mas os nossos filhos continuam a ser educados para «salvar o planeta» fazendo o bem, limpando lixo nas praias e pondo coraçõezinhos na Terra.

O livro também se desmarca da tentação, hoje bastante difundida, de transformar o colapso climático numa espécie de religião secular do fim do mundo, com adeptos de um apocalipse paralisante. A catástrofe é descrita com toda a gravidade que merece, mas nunca como um destino inevitável que só nos faria dizer: nada vale a pena, os nossos filhos e netos estão condenados. Sabemos como o discurso catastrofista, quando desligado da possibilidade de intervenção, produz conformismo. O Climáximo tenta gritar a urgência disto tudo mas  transformar o medo em organização, a consciência em conflito político.

Andamos saturados de discursos impotentes que nos imobilizam e retiram vitalidade, tolhidos pelo fatalismo do discurso apocalíptico, que bom  perceber este tom propositivo, apesar da crítica e da denúncia. É um livro-participação, um livro-apelo, escrito a partir da urgência do momento histórico e da consciência de que o futuro está a ser disputado e condenado. Recusam instalar-se na posição de observador indignado e escolhe aceitar o desconforto de entrar no conflito político, em que a indignação se torna estratégia e reinvenção. 

Por exemplo, neste último apelo:

A crise climática piora a olhos vistos. Os verões estão a transformar-se em estações infernais que nos sufocam, ora com ondas de calor no campo e na cidade, ora com as chamas e os fumos dos incêndios que arrasam o interior do país.

Enquanto os governos, as empresas e os ultra-ricos culpados pela crise climática se põem ao fresco nas suas piscinas, casas de luxo aclimatizadas e lugares longe desta fornalha, o povo fica a arder com as consequências mortais de uma crise que não criou.

Ao povo resta-nos organizar uma resposta popular e solidária para fazer frente aos ataques da guerra climática, ao mesmo tempo que construímos poder popular para acabar rapidamente com os combustíveis fósseis e este sistema de morte.

Ao contrário de tantas narrativas tecnocráticas que reduzem o problema a metas de carbono ou inovação energética, confirmamos por este livro que a Climáximo recoloca a política no centro da discussão: quem decide, quem lucra com este sistema de morte, quem morre primeiro e quem se torna descartável no novo regime climático global. Então, é essencial ligar a devastação e o colapso em curso às estratégias de exploração, à greve geral, às lutas dos trabalhadores, formas de exploração tão antigas que encontram sempre maneira de se renovar. O Climáximo identifica claramente o nexo estrutural entre capitalismo fóssil, colonialismo, militarização, exploração do trabalho e destruição ecológica, mostrando como a crise climática não é um acidente do sistema, mas a consequência lógica de um modelo económico fundado na acumulação infinita, na extração e no sacrifício permanente de territórios e populações. 

Nesse sentido, a abordagem do Climáximo aproxima-se de uma tradição ecossocialista internacional que compreende que não haverá saída ecológica sem transformação radical das relações de produção, redistribuição da riqueza, desmercantilização da vida e construção de formas coletivas de sobrevivência.

Outra estratégia igualmente interessante destes textos é evitar o jargão abstrato. Cruzam análise histórica, ciência do clima, militâncias e experiência concreta de organização, insistindo sempre na necessidade de construir força popular e imaginação coletiva. 

Gostei particularmente da abertura do livro. Em vez de começar pelo colapso, começa por imaginar retrospectivamente um futuro em que a humanidade conseguiu atravessar esta época e olhar para trás como quem recorda uma guerra vencida. Essa escolha narrativa suspende, por momentos, o tal fatalismo dominante dos discursos ambientais. A esperança não surge como uma disposição sentimental nem confiança ingénua e cega no progresso tecnológico, mas como exercício político de imaginação que foge à «servidão» de obedecer só porque sim. Antes de explicar como chegámos até aqui, as autoras perguntam como seria um mundo que tivesse conseguido quebrar o curso aparentemente inevitável da destruição. É uma inversão simples: primeiro imagina-se a possibilidade de vencer, só depois se descreve a dimensão da derrota em curso.

O diagnóstico rigoroso do desastre em curso é sempre acompanhado por uma insistência obstinada em que ainda existe a possibilidade de travar o pior - desde que se rompa com a lógica sacrificial do capitalismo e se reorganize a sociedade em torno da vida, do cuidado e do comum. Um comum que não tem de ser necessariamente gerido nem pelo privado nem pelo Estado, mas por comunidades de outra natureza.

O livro dá densidade política à ideia de justiça climática, que não pode ser um nicho ambiental, mas uma luta transversal contra todas as formas de exploração, racismo ambiental, violência de classe e destruição colonial que sustentam o mundo atual. Contribui para pensar a ecologia como campo central de conflito político do século XXI.

A honestidade do discurso do Climáximo, ao admitir que também falhou, que os prazos científicos foram sendo ultrapassados apesar de uma década de ativismo e que o próprio movimento teve de rever estratégias e abandonar ilusões, é uma das dimensões mais interessantes do livro. Estamos saturados de certezas instantâneas; esta vulnerabilidade política torna o movimento mais credível precisamente porque expõe dúvidas, revisões e aprendizagem, em vez de construir uma imagem de infalibilidade.

É também interessante a forma como o discurso científico vai aparecendo, não como um argumento de autoridade destinado a fechar o debate, mas como um instrumento para compreender relações de poder. O primeiro terço do livro explica, com uma clareza notável, aquilo que sabemos sobre o aquecimento global, os gases com efeito de estufa, os mecanismos de retroalimentação ou os chamados tipping points. Mas a intenção não é produzir divulgação científica despolitizada. Pelo contrário: compreender a física do clima serve para demonstrar que não estamos perante uma fatalidade natural, mas perante uma sequência de decisões económicas e políticas tomadas ao longo de décadas. Não há aqui uma dicotomia entre natureza, de um lado, e sociedade, do outro, mas uma economia que reorganiza a própria biosfera em função da acumulação de capital.

O livro rejeita, aliás, a expressão «crise climática» quando esta é utilizada como se estivéssemos perante uma catástrofe sem responsáveis. Uma das suas teses mais provocadoras é caracterizar o presente como uma verdadeira guerra, não como uma metáfora particularmente expressiva, mas como uma descrição política. É uma guerra porque existem interesses perfeitamente identificáveis que continuam a acelerar a exploração de combustíveis fósseis apesar do conhecimento científico acumulado; guerra porque os impactos recaem de forma profundamente desigual sobre determinadas populações; estamos em guerra porque a militarização das fronteiras, a ascensão da extrema-direita e a disputa por recursos fazem já parte do novo regime climático. A formulação pode ser discutível, mas tem a vantagem de retirar a crise climática do campo da abstração moral e das campanhas de bom comportamento para recolocá-la no terreno do conflito e da responsabilidade política.

Elas — as Climáximas — fazem esse esclarecimento quase didático, sem perder o gosto da provocação, de incomodar e de formular perguntas que precisávamos tão urgentemente de voltar a fazer.

A passagem entre diagnóstico e organização é provavelmente o seu contributo mais interessante. Vivemos rodeados de informação sobre a crise climática. Relatórios sucedem-se, gráficos tornam-se cada vez mais alarmantes, recordes de temperatura batem recordes anteriores. No entanto, essa abundância de conhecimento produziu frequentemente um efeito paradoxal: mais ansiedade do que mobilização, mais sensação de impotência do que ação política. O livro identifica esse bloqueio contemporâneo e insiste que, para o ultrapassar, é necessário construir sujeitos políticos capazes de alterar relações de força.

No contexto português, são particularmente corajosas ao assumirem que a neutralidade perante o colapso é cumplicidade. Aliás, «ficar em cima do muro», em praticamente tudo, hoje em dia, é quase criminoso. O livro denuncia a captura das democracias pelos interesses fósseis, a normalização da extrema-direita enquanto mecanismo de gestão da crise e o modo como o capitalismo contemporâneo já governa através da administração da catástrofe.

Não interessa apenas o que pensamos sobre a crise climática, mas onde estamos colocados dentro dela. O livro obriga-nos a reconhecer que também a neutralidade é uma posição política e que, perante processos de destruição em larga escala, a distância crítica pode facilmente transformar-se numa forma elegante de passividade. As Climáximas não querem apenas informar ou tranquilizar consciências. Quebrar em Caso de Emergência Climática escolhe interpelar o leitor enquanto potencial participante de um conflito que já começou.

Aprecio o modo como o livro trata a questão do tempo. Quase toda a literatura climática trabalha entre dois tempos: a urgência e o longo prazo. Vivemos permanentemente divididos entre a aceleração da catástrofe e a lentidão das instituições. As Climáximas falam do tempo necessário para construir organização coletiva, com a consciência de que nenhuma transformação profunda acontece sem paciência estratégica, sem aprender com derrotas, sem criar laços de confiança. Assim, apesar da “emergência” encontramos aqui a defesa implícita da persistência e do trabalho político paciente. 

Voltando à jardinagem, é preciso perguntar quem destruiu o jardim, quem lucrou com essa destruição e quem continua impedido de entrar. É no terreno da desigualdade, do conflito e da imaginação política que elas intervêm.

por Marta Lança
A ler | 3 Julho 2026 | clima, Climáximo, crise, livro, movimento