Baralho de Cartas 32
Ricardo,
Reconheço esse céu transformado em superfície lisa de que falas. Onde até o tempo morto é um intolerável desperdício. O sentimento de expropriação da vida, de sermos progressivamente afastados da experiência em nome da gestão mesquinha das nossas breves vidas, numa planície de ninguém. Mas insisto em procurar acidentes no terreno. Intervalos frágeis e imperfeitos onde seja possível respirar e imaginar outros modos de habitar o mundo e o tempo. Na noite mais popular de Lisboa, estive no arraial do RDA, nos Anjos. Lá dançámos, marionetas animadas por dedos tremidos de DJs e copos de cerveja. Fragmentos de vida antiga reativados num olhar de esguelha, uma certa suspeição. Enfim, somos pouco piedosos uns com os outros, mas, no fundo, no fundo, há carinho. Na verdade, gosto quando figuras que admiro voltam a ser de carne, com cabelo, rabos e purpurinas. E comem sardinhas.
O Santo António terá sido um dos acontecimentos mais interclassistas da cidade, ainda que meio tonto e inventado, como toda a tradição que se preze. Um pequeno “rebenta-bolhas”, apesar de já se escolher o arraial de acordo com gostos e tendências, apesar do projeto economicista e turístico que vem destruindo algumas habilidades. A altas horas iniciei o regresso a casa, subindo a encosta até à Graça, para logo descair em direção ao rio, onde moro. Ainda me cruzei com muitos bêbados, pequenos grupos, discussões parvas de namorados, pessoas acotovelando-se na calçada, a enfilar para a imperial, bailaricos. Caminhava devagar, a noite ia bela e vaporosa, vital. Quase senti os batimentos cardíacos de quem se enamorava. Por momentos, desapareciam os maus espíritos e o cheiro a morte que nos cerca. Não sei se eram os fumos das grelhas ou o ar coletivizado da festa, mas ainda vislumbro neste ar assardinhado um pouco da nossa Lisboa vadia. Às vezes, a leveza, e a familiaridade de Lisboa conseguem consolar-me. Depois de morar em megápolis latino-americanas e africanas, passei a valorizar esta calma e, sobretudo, a possibilidade de andar sozinha por Lisboa. À noite, à noite, à noite. Numa esquina, uns quantos resistentes dançavam afrobeat; noutra, cantavam “Então bate, bate coração / A idade assim não tem valor”, para ganhar coragem até chegar às respectivas camas.
Julie Mehretu, Seven Acts of Mercy (detail), 2004
Por falar em idade, o primeiro livro que na adolescência me pôs a pensar sobre liberdade foi A Idade da Razão, o primeiro volume da trilogia “Os Caminhos da Liberdade” de Sartre. Recordo os dilemas pessoais e políticos do protagonista, que regressam agora como um bumerangue: Mathieu deixa de ser jovem sem nunca se transformar na pessoa que imaginara ser. Hesita entre uma vida confortável, mas algo vazia, e a possibilidade de assumir compromissos - uma causa coletiva, uma militância coerente - que dariam outro sentido à existência. Ele deseja, eu desejo, realmente envolver-me numa ação mais assumidamente política? Ando a pensar nisso, a que dedicar a minha energia, não há tempo a perder. Somos responsáveis pelas nossas escolhas e a concepção existencialista da liberdade como condenação à escolha continua a inquietar-me. Que diria hoje o Sartre sobre a liberdade de escolher neste sistema? Como funciona a condenação à escolha num estado geral onde as condições da escolha são profundamente desiguais e quase só ligadas ao consumo. Não escolhemos o contexto social em que nascemos, o género, a cor da pele, o país, a intensidade das guerras que nos rebentam os miolos - mais ou menos literalmente. E, no entanto, é num terreno desigual que somos chamados a escolher.
Nem saberia dizer o que foi verdadeiramente escolha minha, o que decidi de facto, no interior dessa ilusão de livre-escolha. Se pensar na ideia ingénua de ser uma mulher livre, dona do seu destino - não é uma liberdade individualista ou triunfal, faz-se de experiência, de tentativa e erro, de alguma insensatez. É uma liberdade construída na luta de inúmeras mulheres antes de mim, que rasgaram as vestes, recusaram a servidão, o esgotamento e a mudez. Tenho vivido sem grande coerção sobre a liberdade de falar, pensar, amar, desfrutar, fazer merda e recomeçar. Talvez ainda consiga baralhar as cartas do jogo profissional. Que mais se pode desejar? Mas, na armadilha em que vivemos e perante a violência generalizada, as nossas liberdades são absolutamente parciais. Há sempre alguém excluído na liberdade que julgamos possuir. A liberdade é uma disputa permanente contra tudo aquilo que reduz o campo do possível.
Passemos da liberdade enquanto escolha individual para a liberdade entendida como construção histórica e coletiva. Também por causa da ideia de liberdade andei a rondar o calhamaço O Princípio de Tudo – Uma Nova História da Humanidade, ali se defende que a liberdade acompanha a experiência humana desde sempre. Algumas comunidades antigas, anteriores as Estados e até à agricultura, exerciam já três liberdades fundamentais. Sabes quais eram? A de partir, a de desobedecer e a de reinventar a vida social. Contrariando a narrativa de sociedades inevitavelmente rígidas e hierárquicas, descrevem múltiplas formas de organização política. Deixa então de ser um ideal abstrato - antigo, moderno ou futuro - para se tornar uma prática quotidiana de reinvenção, sempre negociada, sempre ameaçada e em perda.
É espantoso como o mito do progresso e determinismo histórico continuam tão enraizados. Mais do que nunca, recuperar a memória de radicalidades antigas pode ajudar-nos a imaginar presentes e futuros mais livres e mais justos. Herdámos um património político e imaginativo imenso. Experiências extraordinárias. Como é possível que as nossas ambições sejam agora tão rasteiras e nocivas? Como nos deixamos esvaziar assim de sentidos políticos? Como estamos reféns destas guerras híbridas e velhas hegemonias, agora com o apoio tecnológico?
Para sobrevivermos procuro num saco sem fundo uma narrativa encorajadora, não necessariamente pacificada mas contra-apocalíptica. Ou pelo menos resistente à neura. Que convoque tudo aquilo que escapa à domesticação das mentes e dos corpos; respigue-se tudo o que recuse o papel de espectadores da morte, a catástrofe tornadas rotina. Cada encontro importa, cada conversa, cada gesto que continue a sulcar os nossos rostos e arrancar-nos as roupas de condenados, impedindo que nos resignemos. Tudo o que nos preserve de entregar os dias apenas ao somatório de funções e tarefas vãs. De sacrificar vidas na manutenção do eu e dos nossos. Uma narrativa que nos fortaleça, com muitos gestos gratuitos, fraternidade e festas, formas de cuidado que escapam, ainda que provisoriamente, à lógica da captura e à aceleração. É que só reconhecemos a alegria na memória de já a termos vivido. Onde nos encontramos, então? Qual é o plano?
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