Poderes malignos

De entre os vários milagres praticados por Santo António, elencados na Wikipédia como prova dos seus divinos dotes de taumaturgo, um deles despertou a minha curiosidade. Consta que uma mulher italiana deu à luz uma criança mas, sobrepondo-se à alegria do nascimento do filho, encontrava-se ansiosa devido à desconfiança do marido sobre a verdadeira paternidade do mesmo. Ao ter conhecimento da situação, Santo António de Pádua, como bom justiceiro, dirigiu-se à casa da família para apaziguar o conflito conjugal. Uma vez que a palavra da mulher não seria suficiente para dissipar dúvidas, pegou no recém-nascido ao colo e ordenou-lhe que esclarecesse, afinal, a questão do progenitor. O obediente bebé terá apontado, sem qualquer hesitação, para o marido da parturiente e, embora contasse ainda poucos dias de vida, proferiu o nome do pai.

Tal pitoresco milagre fez-me pensar na sombra duvidosa que paira na cabeça dos homens sobre se tal filho ou filha será ou não fruto do seu sémen. Diz-se até que a natureza muitas vezes se encarrega de destacar nos recém-nascidos as semelhanças com os pais, para diminuir desconfianças. Mas levou-me sobretudo, por um lado, à questão do poder, por outro, ao carácter aleatório da palavra. Se o milagre não tivesse sido obra e graça de Santo António de Pádua, e fosse atribuído ao bebé, era caso para dizer que este bebé tinha suprapoderes. Consoante a narrativa da crença, os poderes (inventados ou não) podem ser tanto milagrosos como maléficos, muitas vezes usados contra o seu suposto autor. 

Bem sei que será bizarra a associação, mas lembrou-me uma “criança-feiticeira” que conheci em Luanda. Já ouvira falar destes desafortunados infantes, vivendo às centenas pelas ruas de Kinshasa, depois de expulsos e abandonados pelas famílias, acusados de bruxaria. Acredita-se que os pequenos demiurgos podem comunicar com o mundo dos mortos e usurpar ou “devorar” a força vital de outras pessoas, o que causa desgraça, doença e morte às vítimas. Assim, tudo o que acontece de mal no lar ou na aldeia, é projetado naquele ser, aparentemente frágil, mas aprisionado num corpo e mente de suprapoderes malignos. Uma justificação mais terra-a-terra prende-se com razões de pobreza. Na impossibilidade de sustentar tantos filhos, escolhe-se um para acusar de feiticeiria e depois afugentar: menos uma boca para alimentar. As cabeças pueris, propícias a acreditar no fantástico, auto-convencem-se de que estão possuídas por espíritos maus. Muitas crianças de rua transportam consigo estas tenebrosas estórias. 

Luanda, foto de Marta LançaLuanda, foto de Marta Lança

Ao chegar ao meu local de trabalho na baixa de Luanda, cumprimentei o Strong, miúdo de rua por quem passava todos os dias. Com a sua t-shirt encarnada, fez-me sinal, disse que me queria mostrar uma coisa e insistiu para o acompanhar ao Sambila. Não sei que me deu para confiar assim num miúdo de rua e ir com ele até ao Sambizanga. Mas a sua convicção mostrava que era caso sério e a verdade é que confio nos meus gestos impetuosos (o que, diga-se, nem sempre corre bem). Esperou que eu saísse, e lá fomos no Starlet, comprado em terceira mão, de passeio ao subúrbio. Pelo caminho soube que ele vinha das Lundas. Perguntei-lhe porque estava em Luanda sozinho então. 

– Fugi. Me acusam de feitiçaria. 

Não explicou, logo aí, as circunstâncias da sua fuga e a difícil provação, apenas disse que não voltaria ao Norte. Ainda nem imaginava os pesadelos com fogueiras e morcegos, cães que saem de arbustos e urubus a pairar sobre a sua cabeça. Contar-me-ia mais tarde.

– Sonhos tão ruins que nem me deixam acordar. 

Obrigavam-no a assistir ao ritual até ao fim: linchamentos de mulheres, árvores a desfazerem-se em pó e criminosos incendiados em pneus.

Chegámos ao imenso Sambizanga, um bairro intenso na história, miséria e identidade de Luanda, que durante anos albergou o famoso Mercado Roque Santeiro — um dos maiores a céu aberto, em África, onde podemos encontrar todo o tipo de bens, desde armas, asas de aviões, pilão, carne crua ao ar cheia de moscas, produtos de higiene, roupa, aparelhagens hi-fi, movéis, e até assistir a números de circo e cinema. Metemos pelo bairro Uíge e de lá em direção à comuna de Ngola Kiluanje. Strong estava particularmente nervoso. Eu também, pois não sabia o que andávamos a fazer por aqueles becos. Estacionámos em frente de umas casas isoladas do resto do bairro, pelos visos usadas como igreja. Apesar de serem casas banais de musseque: inacabadas, com cimento à vista, sem saneamento nem espaços individualizados, emanavam uma energia perturbadora. Arrepios. Demos a volta ao casarão, enquanto um segurança cochilava, de cabeça pendente. Strong começou a tremer mas queria muito que eu visse, com os meus próprios olhos, o que se passava lá dentro. Apontou então para uma janela de cortina entreaberta, enquanto vigiava o segurança. Espreitei, curiosa. Naquele quarto estreito, as imensas velas permitiam iluminar, além de sombras assustadoras, muitas crianças sentadas e encostadas no rodapé das paredes, e uma fogueira a fumegar ao centro. Pensei que se tratava de um qualquer ritual de iniciação bakongo, ou uma das milhares de seitas que pululam pelo mundo, uma benção dos inocentes, um grupo de escuteiros ou de refugiados. Porém, olhando melhor, as expressões das crianças impressionavam pelo terror. Strong encarou-me muito sério: 

– Estão no castigo! 

– O que se passa ali? Castigados, como e porquê? - perguntas estupidamente jornalísticas para uma situação insólita. 

– São bruxos. Estão a espantar os espíritos deles. A fogueira tem malaguetas a arder e o ar sufoca, fere a vista. 

Strong conduzira-me àquele hediondo espetáculo, fiquei sem saber o que fazer. Agarrei-o, fugimos assustados, dos olhares dos miúdos, do desespero e da dor cortante ali instalada. De regresso ao carro, ele contou que um amigo se encontrava entre o grupo e que ele próprio fora castigado, noutro lugar. Pedi-lhe para explicar melhor a sua história, desde a Lunda a Luanda.

– É triste. Se quer saber eu falo, mas promete que não tem pena, não quero que fique com pena, madrinha.

– Pena não. 

Longo momento de silêncio… 

– Eu tinha nove anos quando o meu pai morreu. Morte de repente. E foi mistério para toda a família e até para o médico lá da cidade que mandaram vir na buala. Ninguém percebeu porque o meu velho tinha parado. Ele estava bem e era novo. Depois, a minha mãe e o meu tio começaram a me olhar de forma estranha, um olhar que me fazia soluços na barriga. Até que um dia cheguei da escola e me apanharam e me amarraram as pernas com uma corda. Me penduraram numa árvore, de cabeça para baixo. Me obrigaram a confessar que tinha bondado o meu pai. Eles gritavam ‘bruxo! Bruxo!’. Toda a gente gritando comigo ao mesmo tempo. Eu não fiz mal nenhum ao meu pai, mas já a cabeça estava quente com o sangue a descer, sem conseguir respirar e eles não paravam de gritar comigo ali pendurado de papagaio ao contrário. Obrigaram-me a dizer que matei, assim bem alto: “Matei sim!”, para me libertarem da corda. Mal pus os pés no chão desatei a correr sem olhar para trás. Inventei essa mentira de matar para não me matarem a mim, ‘tá a ver?  

Regressámos ao centro de Luanda. Contei o que vi às pessoas de casa que não acreditaram totalmente. Falei com um inspetor ao telefone, que me disse, após grandes rodeios, que já tinha conhecimento, para não me preocupar. Estava montada uma operação para acabar com esse crime contra crianças e igrejas ilegais, mas que teria de ser executada com cautela para não os espantar. Qualquer descuido podia significar desaparecerem com as crianças. Em dois dias o pesadelo estaria acabado, garantia o inspector.  

O bando de Strong pousa na falésia do Miramar, como pássaros à espreita, a semear desacatos e a colher tempestades. A cidade é a perdição de recomeço. Miúdos que fugiram, não da guerra, mas das suas consequências, praticamente a mesma coisa. Só que sem tiros. Farrapos humanos, assim são vistos, com o seu património de famílias desfeitas, padrastos agressivos e mães exaustas. Situações que já não têm retrocesso. Strong contou-me que a vida de rua é um vício, uma aventura incessante, nunca dá tréguas. Sofrem abusos — verbais, físicos e sexuais, dos mais velhos, de polícias, de pessoas que passam. Já conhece de cor todos os loucos de Luanda e só chegou há três meses. 

– A rua é o teu apoio, o teu chão, a tua inspiração, onde estão os teus tropas, ‘tá a ver? O people cresce aqui, tudo se aprende na rua. Levaste porrada da polícia na rua, chamaram-te nomes na rua, andaste à porrada na rua. Então você vai só recolher o portfólio de vivências e imagens desta rua.

Pergunto-lhe se já o levaram para alguma espécie de reformatório. Ficou apenas uma semana.

– Bazei logo, era complicado, não podia fazer vida à minha vontade. 

Dormem em qualquer canto, às vezes no chão de areia junto à roda gigante na ponta da Ilha, quando os clientes abandonam as barracas de cerveja e choco grelhado. Quanto mais tempo permanecem na rua mais aflitas as equipas das ONG para os tirar de lá, isto na ilusão de que se pode tirar a rua das crianças. Na rua não há regras, andam em grupos, não confiando necessariamente uns nos outros, fazem o que querem. Pode ser atraente por uns tempos, mas nada de romantismo à Capitães da Areia, quanto mais tempo passam na rua, mais desgaste e cicatrizes somadas. Com o olhar pesado e triste, apesar da sua força e doçura de criança, Strong elogiou-me com o melhor piropo que alguma vez ouvi: “tua mãe fez bem em ti nascer!”.

Strong podia ser o bebé com superpoderes do milagre de Santo António, noutro continente, a tentar exprimir ao pai o desejo de reconhecimento e de amor. 

por Marta Lança
Cidade | 20 Setembro 2020 | criança-feiticeira, crianças, feiticeiro, luanda, poderes, Santo António