Baralho de Cartas 21
Marta,
“When you’re in the shit up to your neck, there’ s nothing left to do but sing.” (Beckett). Gostava de dizer-te que consegui fazer da ansiedade um estimulante, um catalisador, uma arma contra o adormecimento. Na maioria das vezes, consigo. Por vezes, no entanto, ainda prendo a cabeça em teias de aranha, fico mumificado como uma mosca que só consegue mexer os olhos. São as insónias que me fodem, de resto, tenho mais pernas do que tinha. Faço das teias algodão doce e volto os olhos para fora, porque é aí que vivo, encostado aos outros, aos que desconheço.
Que bom ouvir-te falar da passarada, gostava de saber mais nomes de bichos, é mundo que perco. Fico encantado quando agarro num livro da Ivone porque, para além de escrever com pólen nos dedos, sabe dar os nomes aos bois. Mas, o mundo desapareceu, restam farrapos, nesgas de selva, nacos de mato, as cidades são retalhos, os homens falam aos gaguejos. A lei parece ser a dispersão, o imundo. Mundo havia quando as coisas se seguravam umas às outras como um queijo a fermentar. Hoje a curiosidade parece estar sempre acompanhada com a repulsa, uma demência que se recusa a relacionar com qualquer tipo de verdade. Cioran fala num tipo com um olhar de azeite e metal, de um louco que vive numa aspereza interesseira, sem qualquer relação com a verdade ou com a mentira. Mesmo esse tipo, entregue às suas contínuas dissimulações, que se perdeu de vista há anos e se dá à impostura e à infâmia às claras, fala. É com palavras que vê os farrapos do mundo, mas as palavras metem-se entre os dentes, entopem-lhe as artérias, são como pequenos ventos que lhe vão do ouvido ao enorme tédio cinzento do seu espírito.
Há palavras escondidas entre as outras, como seixos. Um dia acorda com os dentes partidos sem saber por quê. Em pânico, por uma mão cheia de palavras. Se não desfiarmos o novelo verbal acabamos com um enfarte mudo entre os grunhidos das feras.
Obrigado pela leitura do artigo. Escapei-me a falar da parentalidade, também me assusta. Um beijo
René Burri 'peace hotel', Xangai, China, 1989
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(Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)