Baralho de Cartas 28

Ricardo,

Creio que estou a ter um início de burnout. Coincidiu com o aviso da Google: devia libertar espaço ou comprar armazenamento, sob pena de deixar de receber emails a partir de 26 de junho. Projetei, com toda a verdade, o meu cérebro a crashar juntamente com a memória externa - nem saberia distinguir memória externa de interna. A minha cloud precisava de fazer upgrade para continuar obrigando-me à dependência dos donos do capital para funcionarmos.

Coincidiu também com a organização de uma intensa programação de conferências e debates, numa liberdade de pensar e discutir na Biblioteca Nacional, que talvez deixe saudades em tempo de protofascismos e de ameaças à expressão de expressão. Esse seminário era um marco no ano, mas vinha antecedido e precedido de outros encargos, trabalho multifórmico, pago e não pago, muito dele ao computador, onde não há meio de fechar tantos separadores abertos, textos a editar e a «subir», pagamentos, emails a responder, os prazos todos a colidir num calendário cheio de cores e lembretes. Validades que expiram, subscrições a renovarem-se sozinhas, um débito direto em dívida constante. Planear antecipadamente as atividades da filha, que já vai ficar sem aulas e há que entretê-la. A velhice dos pais que agora são filhos, a desobediência vital da minha mãe, que repete a mesma sequência de perguntas e conclusões sobre a sua vida, mantendo, ainda assim, uma invejável vivacidade. Os médicos e as medicações de ambos, cada um em distantes pontos da área metropolitana de Lisboa. A culpa por não ter mais tempo para os acompanhar nesta fase de crepúsculo. Em casa, reergue-se a pilha da roupa, somos quatro, nunca abranda o motor. O pó branco acumula-se, deve vir dos cruzeiros desde o rio, com ricos a espreguiçarem-se, olhando para os nossos prédios entre uma típica colina imensamente fotografável, e eu a topá-los com os telefones deles espetados, ou nos escorregas e cabines do barco-monstro poluente; já nem há tédio a bordo nas discotecas ambulantes e fogos de artifício de trinta minutos a atazanar-nos, e aos pássaros, sobretudo às pessoas com traumas de guerra.

A saga do quotidiano não tem propriamente um fim de deveres à vista. Desculpa este rol de queixinhas, mas é terapêutico. Sensação permanente de atraso, os códigos e passwords na cabeça misturam-se e dão erro, o excesso de tudo, até de coisas prazerosas, mas da ordem da obrigação. Os avisos vêm: se a tua mente não tem descanso, o corpo pode falhar. Ou pode até continuar a funcionar, a andar, a tomar banho, a vestir-se; é um invólucro para a cabeça autómata e sem agência. De repente, a mão pára o que está a fazer, já não se lembra por que o está a fazer. Então é preciso resgatar a continuidade entre corpo e mente, mantê-los juntos de algum modo, motivando-se mutuamente ou se enganando. Tão errada a razão iluminista que nos fragmentou entre cabeça e corpo, somos uma só prisão.

Principais sintomas de burnout«falta de energia, sentimentos negativos e queda da produtividade». Vamos lá abrandar a produtividade, ora aí está.

Talvez tenha sido também sugestionada por uma reportagem alertando para os perigos dos ecrãs. Mostrava as miúdas influencers com horas e horas de lixo na tola, a dopamina da recompensa imediata, o combate feroz com a concorrência por k de likes, o quotidiano transformado em ações apalermadas e narcísicas, filtradas, e corroboradas por emojis. Que doença terrível. Adolescentes que parecem bonecos monitorizados pela Pixar, transferiram a infância e a puberdade para um retângulo de luz, na procura vã da vida ali no regime algorítmico, bolha fechada, entre seguidores, comentários, reels, um infindável e merdoso nada. Uma miúda, acompanhada por psicóloga, após prolongado tratamento de desintoxicação digital, preparava-se para dar baixa de todas as redes: TikTok, Facebook, Instagram, OnlyFans, e essa era a decisão mais importante da sua vida, um segundo de turnout. Entregara a sua vida ao mercado da atenção e agora queria sair para sobreviver (alguns tornaram-se fundamentalistas do offline, uma nova seita que pode ser a nossa esperança).

«Quem nos salva da possibilidade de, cedo na vida, nos termos desperdiçado?», leio a propósito das três histórias de esquecimento de Djaimilia Pereira de Almeida. Ainda na reportagem, explicava-se que os trabalhadores do Silicon Valley não deixam, nem de longe, os seus filhos verem ecrãs nem terem telemóvel até aos 14 anos. Sabem bem o veneno que andam a injetar ao pessoal. Entre a Google e o Facebook fica um colégio Waldorf frequentado por filhos dos tecnológicos para garantir que estes não caiam no vício. Fazem as babás das suas crianças assinarem compromissos de honra (e vigiam-nas com câmaras) de que não vão sequer permitir-lhes olhar para o telefone. Hipócritas do caralho!

No dia seguinte, fomos jantar a uma esplanada na Graça com um amigo. As nossas filhas seguem munidas de um tablet e de uma bola de futebol. Exigem, interrompem e respondem de modo insolente. Para elas, tudo é uma seca, não conseguem ficar só a ouvir as conversas dos adultos. Lembro-me da sensação desafiadora de observar pessoas a passar, o desfilar da rua, e tentar perceber a comunicação entre adultos, as certezas e contra-argumentos, as histórias de quem parecia ter tido muitas vidas. Agora sou eu a adulta com mil vidas para trás e se esforça por não espreitar o telefone enquanto conversa, que é má educação. Sou uma adulta com coisas a «transmitir», no entanto, a comunicação enigmática nem sempre surte efeito para as mais novas, que devolvem aborrecimento. Talvez se falasse em frames de 30 segundos, elas se interessassem.

Regressamos a casa, há aulas no dia seguinte, mas as miúdas pegam displicentes nos tablets e põem-se a comentar um vídeo, um jogo, uma canção. E então, com toda a minha frustração acumulada, segue-se um ataque de fúria desproporcional. Deve ser um espetáculo desconcertante - uma adulta fora de si, a berrar contra tudo o que «esta geração» tecnológica representa, porque não se interessam, porque não leem, porque fazem tudo automático, escrever, criar músicas e imagens na inteligência artificial, basta dar ordens às máquinas? Mas somos máquinas agora? Damos orgens? Grito contra o lixo que as, nos, devora, na permanente disputa com os ecrãs, fonte de todas as discussões e problemas. Que estão numa fase essencial da sua formação e que a merda nos ecrãs lhes destrói a sensibilidade, a criatividade, a curiosidade, tornando-as pessoas agressivas, perdidas em ilusões e mentiras do consumo. Faço comparações com a amiga que só vê 30 minutos por semana, e como é boa aluna, e que as crianças em África são muito mais autónomas, e que não se pode com meninas mimadas sem uma palavra de reconhecimento. No meio do chorrilho, ensaiando uma autoridade que, na realidade, não consigo, assumo que nós, os adultos, também somos viciados, apesar de o uso estar relacionado com o trabalho. Não lhes digo, mas sei que sou vítima e agente de todas essa comunicação calamitosa e mesquinha, também fico apreensiva com determinados posts, comentários, não-likes, tribalismos, enfim, toda uma vigilância pidesca e um calculismo involuntário que mostra bem o grau da nossa doença. Faço lembrar uma toxicodependente a desatinar com o dealer, a dar lições de moral, como se fosse possível parar o vício na fonte. Uma das miúdas responde que na escola fala-se de coisas da internet, que «não pode não ver» senão não entra nas conversas. Lá renegociamos os minutos permitidos por dia e esperamos não quebrar as combinações, de um lado e do outro.

Bom, depois de novas negociações com as crianças - tudo virou negócio, o capitalismo mora em casa - vou deitar-me exausta, rebentando de nojo pela rede infernal e por estarmos integralmente enredados na virtualidade. Pergunto-me como deixámos naturalizar esta demência. Vi uma criança de um ano a ver um aquário com lagostas numa cervejaria e a fazer scroll com o polegar no vidro para mudar o cenário. Claro que há vínculos e afetos das pessoas que por aqui acompanho à distância. Partilhas de artigos incríveis, filtros para pensamento crítico, poetas e humoristas de Facebook, polémicas que nos despertam da vidinha, para logo recairmos no bocejo. Mas acima de tudo frustra, de manhã à noite esta devoção à cultura digital - o ar que me tira, os livros que não leio, os passeios que não dou. O portal online que edito há muitos anos faz-se de milhares de artigos, milhões de horas de vida, um arquivo bestial de argumentos para desmontar o velho mundo, na tentativa de criar um novo fora das novidades. Mas, tal como eu, tal como a caixa de entrada que atingiu a linha vermelha dos 100%, também pode crashar. Somos nós o arquivo a proteger.

Uma guerra pelo comércio da atenção tem tanto de grave como de absurdo. Tento lembrar-me de como era a vida até 2005, quando a internet entrou em casa e, logo depois, num telefone portátil. De como era a infância nos momentos de espera, sem o automatismo de sacar ecrãs para entreter miúdos minúsculos, que serão sempre impacientes, adultos irritáveis. De como era escrever sem ter tantos auxiliares de memória, não poder confirmar uma informação sem abrir um livro.

Como era não ser constantemente interrompida por um email, uma notificação, um link, um story, alguém a querer partilhar-se, e às suas coisas, saber, talento, e até emoção e beleza. De como era estarmos juntos, ficarmos a olhar para a cara uns dos outros, a reparar nas coisas para viver e não para ver, sentávamo-nos a escrevinhar cadáveres esquisitos, a beber minis e a fumar, enredados numa teia, sim, mas de conversas com mãos que desenhavam ideias no vazio. As conversas não eram nem mais ingénuas nem menos agressivas ou sarcásticas, talvez fossem menos cínicas, desconfiadas e alcoviteiras. Ai, o tipo afinal escreveu aquele post, ela pôs like no programa do outro, é amiga de não sei quem…

Não é possível voltar atrás à vivência pré-internet portátil e redes sociais do ressentimento. Os lampejos dessa vida prévia são matéria de arqueologia. Lamento quem cresce sem a temporalidade da efabulação, dos poemas mentais e dos passeios sem geolocalização. Lamento ver os nossos filhos mergulhados no digital desde que nasceram. Preocupa-me a saúde mental de todos. Perdemos o controlo, deles e nosso, em relação a um perigo do qual somos responsáveis, mas que ultrapassa a responsabilidade pessoal. Somos, simultaneamente, vítimas e culpados, estamos num beco sujo sem grande hipótese de regeneração.

Tento dormir mas nem a benzodiazepina acalma. Ouço os Enterrados, na sua impetuosidade de tudo abarcar, o Diogo está visceral no prognóstico de qual das crises se abate primeiro: climática, tecnológica, fascismos, ou tudo junto? Estamos por saber. Um texto seu avança que talvez o «momento de euforia e de maior ingenuidade em relação às maravilhas do progresso tecnológico tenha já terminado».

Sim, também fui das entusiastas, até me fugiu o pé para o otimismo com os levantamentos populares via redes, as Primaveras Árabes, os motins nas cidades africanas, as vozes que saíam do silêncio e dos armários, cruzando ideias e estratégias na esfera digital, diretamente para a gula insaciável dos oligarcas tecnológicos.

Talvez os Cheganos, que agora brincam a políticos, e todos os que votam neles como decrépitos salvadores, sejam mesmo produto disto tudo, dos reality shows, das vidas na mira do consumo, de sermos uma versão de nós ao lidar «com algoritmos, que nos entregam uma e outra vez àquilo que já somos, ou acirram os nossos preconceitos, transformando-nos em réplicas cada vez mais caducas de nós próprios», explica o mexicano Juan Villoro, que vê na cultura do livro alguma hipótese de «preservar o pensamento complexo, o multiculturalismo».

Leio o excerto do Franco Bifo que tu postaste: «A demência é sistémica, não patológica: tem vindo a alastrar-se desde que a aceleração do estímulo neural começou a produzir efeitos de pânico e depressão. E tem gradualmente tornado impossível o pensamento sequencial, crítico, racional, ou apenas razoável.» Gostei dos seus diários da pandemia, Crónicas da Psicodeflação (alívio da tensão psíquica), e de o ouvir quando a Ana Bigotte o trouxe ao TBA, em 2018. A conferência «Poesia e Caos» partia do «I can’t breathe», proferido por Eric Garner quando estrangulado às mãos da bófia americana. A certa altura, Bifo citou a frase de Keynes: o inevitável nunca acontece, porque acontece sempre o imprevisível. O diagnóstico da crise, talvez da mais terrível crise da nossa humanidade, com e pela tecnologia, inscreve-se nesse imprevisível descontrolado. O ritmo demencial faz esboroar todos os valores: «O colapso do tempo de elaboração, tanto cognitivo como emocional, é o colapso da compreensão ética, da compaixão e também da racionalidade crítica.»

Terá sido essa desconexão ética, esta doença mental e cultural, que nos fez chegar aqui, a assistir, em tempo real, ao extermínio do povo palestiniano?

Eishhhh! Começo a perder a paciência, tudo me mete nojo, o auto-sarcasmo, a falsa ligeireza da piadinha, o ressuscitar de mortos e autorias, tanta (recom)postagem e palavreado. A insensatez e a imaturidade emocional das relações também. Tudo demove de uma hipótese de cura e de mobilização coletiva.

Precisamos de encontrar linhas de fuga, de contornar este horizonte viciado.

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Escrevo-te agora dentro de um avião, viagem de quatro horas e meia sem rede, até uma ilha cabo-verdiana. Respiro de alívio ao ver as veias da cidade à noite e por deixar Portugal por uns dias. A Natália Correia escreveu assim num livro de viagem: «Quando parto, sou como um lagarto a quem cortaram o rabo e fica sem saber em que fração do corpo lhe ficou a vida.» Ao contrário de Natália, é quando parto que o meu corpo se encontra, que me devolvo a mim própria. O melhor do avião é a desconexão, ponho-me logo a pensar, não num sentido derivativo, mas a organizar as ideias em escrita. Começo a escrever, a escrever-te. Tenho passado muito tempo da minha vida entre aviões, embarques e desembarques invariavelmente sozinha, o que me faz estranhar quando viajo acompanhada. Adoro estas pequenas injeções de solidão numa cápsula no céu, ajudam a focar, como se diz agora. Lembram-me em que ponto estou.

Antes de levantar voo, o assistente de bordo veio avisar-me de que viajo no lugar da saída de emergência e de que, caso haja uma «emergência» - circunstância que eles determinarão -, é meu dever colaborar e abrir a porta do avião, sair e deixar sair.

O que achas, saltamos?

À minha frente segue o cantor Paulo Flores e a sua banda, cuja música e doçura acompanho há anos. Conhecemo-nos, mas fingi não o ter visto para não criar os constrangimentos próprios à realidade não virtual.

Ainda podemos ressuscitar a dignidade de si, não designada ou espetacularizada.

Las hojas muertas, Remedios Varo (1956)Las hojas muertas, Remedios Varo (1956)

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 (Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)

por Marta Lança
A ler | 7 Julho 2026 | Baralho de Carta