Baralho de Cartas 34
Alô Ricardo!
Uma brisa morna de verão corre pelas janelas do carro onde seguem mãe e filha, sob o anátema de 44 graus para o fim de semana. A luz quente do fim do dia deve pintar-nos um ar meio onírico. A criança viaja no banco da frente, não tem idade para isso, mas o trajeto é curto. Vai feliz e preenchida, com as auspiciosas e longas férias de verão pela frente. Férias, promessa de suspensão da vida, para tanta gente um breve intervalo entre duas formas de cansaço. Bem sei como ficam gravados os nossos primeiros verões. Os meus dividiam-se entre o Baixo Alentejo e o sotavento algarvio, no fulgor sazonal de Cabanas de Tavira. A ria atravessava-se a vau e, ao fim do dia, partíamos amêndoas na mesma açoteia de onde, à noite, víamos as estrelas. Partir amêndoas é a roleta russa da vida: a sorte das boas é o azar das amargas (parecido mas um pouco mais aleatório que a lógica das desigualdades sociais).
Voltávamos de um encontro-piquenique na Voz do Operário que marca o fim do ano letivo. Nesse convívio intergeracional, observando pais e filhos no pátio da escola, reconheci o privilégio, um pouco bacoco, do nosso grupo de adultos. A geração ativa que agora aparece nos jornais, nos cartazes das peças, nos festivais, uma certa esquerda da cultura: escritoras, performers, produtoras, académicos, influencers, malta do cinema, programador de teatro, curadora, bailarina, um candidato à presidência. Trabalhadores do “sensível”. Todos desejamos o melhor para os nossos filhos que frequentam esta escola de pedagogia moderna, onde se estimula a autonomia e a criatividade, e para a qual seguem felizes de manhã. “O tipo de escola que devia ser para todos”, dizemos nós, frutos do Estado social e que escolhemos (pudemos escolher) pôr os miúdos numa escola especial.
Desejo sobretudo um verão descansado, de preferência sem piolhos, depois da tortura do ano passado a passar o pente fino diariamente por três cabeças. Já estou a imaginar-me na areia, um chinelo perdido, livro meio deformado pela água com um recibo de supermercado a fazer de separador, conchinhas à volta do umbigo. Está muito quente e ouve-se, ao longe, o som repetitivo das ondas, misturado com notícias sobre incêndios, escândalos políticos, e vozes de trabalhadores sazonais. Uma ventoinha roda lentamente, sem refrescar ninguém.
Gostava muito de ler o teu livro tosco e rude, adjetivos que não combinam contigo que és delicado e assertivo, e anotas os livros dos outros com letra miudinha, ideias fartas e linhas em pensamento.
«Habitar poeticamente o mundo é o oposto de habitar tecnicamente o mundo», diz Christian Bobin, citado no anúncio ao novo número da revista Flauta de Luz. Que raio é habitar poeticamente o mundo? Criar mundo, criar tempo fora do controlo: isso seria o pensamento crítico. Escreveste algo assim a partir de Raoul Vaneigem, não foi?
Tento sentir a pulsação do mundo. Antes, até pensava quão interessante seria conhecê-lo a fundo, tornar-me uma dessas viajantes profissionais, forjar a minha identidade nas razões políticas e geográficas de cada lugar, defender as boas causas e ser muito solidária com os esquecidos e invisibilizados pela hegemonia ocidental. Agora quero interromper a inércia de qualquer identidade, escapar às variadíssimas versões de si sem perder possibilidades de transformação, que ainda se abrem no mundo.
Não ganhei desdém pelo mundo, pelo húmus onde moram os lapidadores, pelas curiosidades que nos levam em novas direções, mas também não me vou perder nesses desafios engraçadinhos. «Não queremos um mundo onde a garantia de não morrer de fome se troca pelo risco de morrer de tédio.» Que brincalhões foram os soixante-huitards!
[Por falar em Maio de 68, há uns anos fez-se uma festa-benefit chamada Fuck Mai 68, Fight Now!, quando o pessoal ligado à revista Tiqqun foi acusado de terrorismo pela sabotagem de uma linha férrea. Entre as provas da acusação estaria a suposta autoria do livro A Insurreição que vem, assinado pelo Comité Invisível.]
Não dá para fingir desconhecer que há donos do mundo. Hoje acordámos com o presidente do Ocidente a falar de um espetacular sucesso militar no Irão. Haverá algo mais perverso do que estes dois mundos em que estamos? Por exemplo, uns amigos fazem jejum intermitente para desintoxicar gorduras e culpas, ou enquanto preparação espiritual; noutras partes do mundo, matam-se crianças à fome e violam-se mulheres como arma de guerra.
Não escapamos a nada disso: nem aos fins de um certo mundo, a acontecer por todo o lado, nem à crise generalizada. «Talvez o que a gente tenha de fazer é descobrir um paraquedas. Não eliminar a queda, mas inventar e fabricar milhares de paraquedas. Paraquedas coloridos, divertidos, inclusive prazerosos», sugere Krenak.
Habitar poeticamente o mundo será … Inventar o tempo que não sirva apenas para recuperar forças e regressar ao trabalho,retirar a ideia de destino aos lugares e a utilidade às relações. Umas férias da identidade, da produtividade e das posições coerentes sobre o mundo. Abrir um paraquedas para cair devagar e conseguir, durante a queda, olhar em volta.
Continuo sob a tortura das insónias, e a manhã, quando finalmente chega, é ao mesmo tempo revigorante e opressiva, trágica e bela. Ainda assim traz consigo a promessa de um recomeço. Por isso, não deixes que a manhã te empurre para o vão de escadas.
The Last Resort © Martin Parr / Magnum Photos
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(Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)