Baralho de Cartas 6

Ricardo, 

Engraçado falares do kispo do homem da estação. Acabo de comprar um kispo roxo na Feira da Ladra, daqueles enchumaçados com padrões coloridos. Talvez o tenha adquirido para ir ao encontro do nosso tempo que, como todos os outros, reabilita modas antigas para forjar um novo qualquer. Talvez não seja alheio a esse processo o facto de me sentir imediatamente ridícula, ao subir a rua da Verónica vestida com ar de chic négligé ou de quem vai fazer ski. 

Abro o computador numa padaria de bairro com wifi, kispo roxo no cadeira. Expressão compenetrada, aquela posição em que parece que vai acontecer algo extremamente importante. O computador coloca-nos nesta patética performatividade: para quem nos vê de fora, não passamos de uns alienados a teclar, vacilantes ou impetuosos, como quem insiste em tocar num piano desafinado a partitura errada.

Que pessoa seria eu se ocupasse os dias a distribuir pizzas ou a coser kispos numa fábrica do Bangladesh, em vez de bater com os dedos num computador?

Pergunto também como coincidir com o tempo em que estamos, nesse sincronismo de que falas, nem à frente nem atrás? Como corporizar esse moderno fugidio, transitório e contingente? Será no Largo da Graça que estão os dândis e os flâneurs? Serão os passeadores de cães, os casais estilosos, a velha fadista que fala demasiado alto no Centro Ideal da Graça, ou os “colaboradores” desta padaria? Será este o tempo dos monstros de que fala Gramsci, entre o tempo velho que não morreu e o novo que ainda não foi criado? Lembrei-me do Henry Miller quando se afirmou como o monstro de uma realidade inexistente. Era 1940 e ele seguia numa viagem de barco, observando o cenário americano, quando escreveu, numa das dezenas de cartas à doce Anaïs Nin, que se sentia a “viver no meio de um povo que ainda não nasceu, entre monstros que fugiram do útero antes do tempo”. Que não estava em comunicação com coisa alguma, mas sim num “mundo de cascas de ovos partidas”. Talvez Miller preconizasse o Ocidente de hoje: um corpo inerte que respira sem nunca despertar. Uma sociedade sustentada por uma ordem social que se vai partindo aos bocadinhos, incapaz de reiventar numa nova consciência. 

Por falar num tempo que ainda não encontrou forma, daqui a uns dias serei mais do século XXI do que do século XX. Assusta um pouco. Por mais tentação de registar este século indomesticável, é difícil enquadrarmo-nos no que chamamos, de modo desajeitado, “o nosso tempo”. O mais avisado será equilibrarmo-nos, agarradinhos uns aos outros, neste tempo difuso, fluido, hiperestimulado, deprimido, bélico e sem futuro - mais no sentido da gravidade do que do fulgor punk. E que grande falácia é a expressão “pós-guerra” à luz do presente. Pode ter funcionado como marco para movimentos artísticos e urbanos, mas as guerras nacionalistas, imperialistas e híbridas proliferam como as mentiras. Assim as guerras cibernéticas e as guerras dentro de casas. Nunca acabou.

*

Passo uns dias no Baixo Alentejo. Choveu em abundância, charcos tornam-se lagoas e os animais e os humanos andam atarantados. Fluindo veloz, a água submergiu em riachos nunca antes navegados, apesar dos sulcos já lá estarem. Confirmo o que dizes sobre a água escolher sempre os mesmos caminhos, escavando os sete leitos dos rios, tal como a nossa pele muda sete vezes. Uma amiga contou que, na terapia, também há sete sessões para abrir novos canais e sinapses sem insistência no “canal do trauma”. Admiro a determinação feroz da água, empapando a terra, nutrindo-a para que aguente uma muito provável seca. Em cenários que vão desde mediúnicos a realistas, é já em 2030 que os recursos de água estarão à míngua e o país será assolado por secas severas; ao mesmo tempo, o litoral vai desaparecendo e as calamidades da água - cheias, inundações, tempestades e ciclones, rutura de barragens, povoações alagadas, casas e infraestruturas destruídas – vão desesperando por todo o lado. 

Great Wave, Kanagawa, 1850Great Wave, Kanagawa, 1850

No verão, a planície tem o tom de pele dos bichos que, ao longe, mal se distinguem da terra, à exceção da ovelha negra, em quem sempre se repara, e se julga, tanto no campo como na cidade. Por ora, verde dos campos é tão intenso que os borregos parecem de porcelana. Tens de conhecer. É o melhor que posso oferecer: um espaço onde tudo se regenera. Nem é preciso esperar pela primavera para ver as mutações do que é indubitavelmente vivo. As feromonas sensuais entram-nos na corrente sanguínea e o espaço torna-se belo, concreto e hospitaleiro. Convido-te a vires, sozinho, acompanhado, a passar uns dias nesse pequeno ninho de paz, amor e inspiração, talvez ajude a apaziguar os teus temores.

Já pensaste nessa verdade simples: as mulheres dão vida e laboram por restabelecer a vida, num trabalho tão discreto e fundamental como o ciclo da água, nos antípodas da destruição totalizadora dos machos poderosos? Sustentam os fluxos da vida como rios subterrâneos, numa resistência quotidiana e silenciosa, que contrapõe a prática do cuidado ao espetáculo dos poderes hegemónicos arrasadores. Cultivam, regeneram, protegem, mantêm comunidades inteiras de pé. O ecofeminismo vê as mulheres como vítimas mais afectadas pela violência ambiental e patriarcal, mas também, e isso é mesmo importante que não se esqueça, agentes centrais de um futuro mais próximo da vida e da justiça.

De volta à cidade, recolho descontentamentos e planos de vida, meus e alheios. Almocei com uma amiga que se mudou para a China há uns anos, grandes aventuras e encantos pela China profunda, e embates num sistema um pouco mais implacável no que toca à individualidade. Com outras amigas, lamentámos e a crise do Bloco de Esquerda. Num debate sobre a situação da Guiné-Bissau na Tigre de Papel, falou-se da hipocrisia dos políticos portugueses que respaldam governos criminosos e ditatoriais para preservar o pouco que resta da relação diplomática que facilita o acesso a recursos, numa África Ocidental que vira costas aos europeus e ameaça a “francofonia” e as relações neocoloniais viciadas. Já lhes basta a hegemonia europeia.

Esta semana saiu um artigo sobre a poesia e os mapas poéticos para a revolução, de Maria Lis, que nos garante que “um mundo novo não virá, o comunismo não virá, o homem novo não virá”, impelindo-nos a “pegar nas coisas que já temos, no mundo como o temos, e a levá-lo para o campo do impossível”, com a ressalva de que “só os putos sabem fazer isto”. Testemunho diariamente essa imaginação radical das crianças que a Maria nos relembra.

Ah, e fui assistir ao filme História de Souleymane. Catalogam-no como cinema realista, ou social, mas entrou-me pelos sentidos todos. Seguimos um desses “serviçais invisíveis” que sobrevivem a entregar comida, rasgando de bicicleta o alcatrão das urbes europeias, a chicote da conta alugada na aplicação. Entre conseguir documentos, perder um amor distante, ser traído e enganado por quase todos, até ao breve descanso no dormitório para logo o pesadelo recomeçar, tudo é difícil, sôfrego e esmagador.

Mas o que mais me ficou do filme tem a ver com a força das palavras. Souleymane vai decorando uma história oficial, ficcional que lhe venderam, para tentar passar na prova do apoio aos refugiados, escapar à deportação e legalizar-se como imigrante. É competente a narrar, mas atrapalha-se com a história emprestada e corre tudo mal. Depois de um silêncio cortante perante a assistente social, vira o jogo e decide contar a sua própria história, com toda a sua verdade, as coisas pelas quais realmente passou. Nesse twist exerce-se uma brutal transferência emocional e ficamos na mão do protagonista. É cinema, espetáculo, manipulação, sei, mas reforça aquilo que facilmente se esquece em nome de modos instrumentais: só vale a pena dizer aquilo que somos pelos nossos próprios termos. Vim do cinema caminhando longamente, com o frio da noite de fevereiro na cara a pensar na irrelevância de papaguear as histórias que nos impingem, de como vale a pena exprimir-nos, inscrever e reinventar o guião dos nossos próprios filmes. 

Tal como a ti, as insónias desarmam-me, e quanto. Para lá de atormentarem as noites, fazem-me atravessar os dias pestilentos como um cãozinho desorientado, tentando espremer alguma eficácia para sobreviver às funções e tarefas, quimeras sempre adiadas. Uma boa notícia: li que a insónia é um superpoder evolutivo, uma adaptação para nos proteger quando os nossos ancestrais dormiam na savana. Nesse artigo, o autor vê esta hipervigilância como positiva e observa que “muitas pessoas no hemisfério norte e no Ocidente gostam de problematizar o sono”. Atenção que pode haver algum ganho no mundo das trevas. Assim, nós os dois, amigos desconhecidos que pertencemos a esse grupo problematizante dos insones, temos duas coisas em comum so far: 1) insónias - o que faz de nós pessoas hipervigilantes; e 2) infâncias fortes a decorrer connosco. Será que há uma relação entre ambos os factores?

Há coisas que me andam a desorientar e a dar cabo da paciência, por outro lado, sinto-me inspirada e desejante. Talvez ande a brincar aos pirómanos. E temos de lidar com o que fica de fora das cartas: os interditos, as paixões privadas. Se me vires cair na autocelebração do hedonista contra a qual tão bem te pretendes distanciar, avisa-me.

Deixo-te uns versos da tua Hilda Hilst:

Enquanto caminhas 

Em lúcida altivez, eu já sou o passado.

Esta fronte que é minha, prodigiosa 

De núpcias e caminho 

É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo 

E vou morrendo. Entre terra e água 

Meu existir anfíbio. Passeia 

Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:

Noturno girassol. Rama secreta.

 

Ler Carta 5 do Ricardo. Carta 4 da Marta. Ler Carta 3 do Ricardo. Ler Carta 2 da Marta.  Ler Carta 1 do Ricardo.


(troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)

por Marta Lança
Mukanda | 5 Fevereiro 2026 | Baralho de Cartas