Uma cidade à superfície, sobre "O nosso último filme sobre Lisboa", TheLeftHandRotation
Entre cruzeiros, despejos, demolições e festas, Lisboa oferece-se a quem chega e torna-se cada vez mais difícil para quem nela vive. Em O Nosso Último Filme sobre Lisboa, os Left Hand Rotation perguntam que vestígios ficarão das lutas partilhadas nas suas ruas. Um percurso pela cidade que se perde e pelas pessoas que insistem em fazer-lhe lugar, nas casas coletivas, na solidariedade e na recusa de sair.
still do filme
1.
A imagem de uma mulher a andar entre três implacáveis cruzeiros, a ocuparem o plano, fala por si sobre o esmagamento da cidade para os moradores, e diz-me muito particularmente porque moro aqui em frente aos monstros poluidores. A parede flutuante de varandas, camarotes e equipamentos de lazer e, em baixo, no tapume da obra anuncia-se que Lisboa se prepara para o futuro. O cruzeiro parece ter atracado vindo desse futuro distópico, onde garantidamente o lugar de figurantes que nos resta não é muito convidativo porque a desproporção entre a escala do turismo e a vida de quem habita (e não consegue habitar) a cidade é total. A promessa, o negócio e o lucro ocupam todo o horizonte numa cidade onde as formiguinhas trabalham sem perdão para conseguir pagar uma renda ou empréstimo da especulação.
O Nosso Último Filme sobre Lisboa, do coletivo Left Hand Rotation, trabalha nessa distância entre o que a cidade anuncia e o que faz às pessoas, moradores expulsos, economias desajustadas, mas aqui retratadas como pessoas que resistem e defendem a cidade.
Lisboa vai submergindo nas águas da irresponsabilidade, por mais fachadas recompostas e zonas inteiramente requalificadas. Aliás, à primeira vista, tudo prospera, os passeios cheios, os restaurantes multiplicam-se, o Terreiro do Paço está preenchido por esplanadas iluminadas a preços de Paris para cima. E o Tejo continua verdadeiramente lindo. A metáfora da água ameaça afogar, mas também permite pensar aquilo que circula, aproxima margens e insiste em encontrar passagem.
A cidade perfeita nos instagrams dos turistas é já uma cidade estranha a quem nela vive. Lisboa continua a apresentar-se como um destino feliz, e não digo que não gostasse de ser turista em Lisboa (com poder de compra de preferência), embora mais cedo ou mais tarde fosse desconfiar da forma como o turista é enganado. Também é preciso dizer que continuo a amar profundamente a Lisboa onde cresci e escolhi viver. Mas não dá para ignorar a enorme amargura de saber que ainda morar aqui tornou-se um privilégio absoluto para uns poucos e não uma escolha acessível. Muita gente deixou de poder pagar as casas, imigramos para a grande área metropolitana (os Alfamenses marcham orgulhosamente por Alfama mas já não conseguem morar no bairro) ou emigram para longe, ou ficam a envelhecer com os pais, diversas associações comunitárias de ponto de encontro potente fecham. Tudo é para consumir, o mercado é totalitário.
A pergunta do início do filme especula sobre o desaparecimento da cidade: se a água engolir Lisboa, que vestígios restarão das lutas partilhadas nas suas ruas? É sobre o futuro, mas formulada a partir de perdas já acontecidas. Antes da água subir, a cidade já se vai fechando com as máquinas a perfurá-la, as notificações dos despejos, as rendas incomportáveis, as portas escancaradas, os sacos azuis carregados de lençóis que a empregada negra vai lavar para a patroa que tem mais de 30 apartamentos em AL. Portanto, o seu desaparecimento foi avançando à luz do dia.
O título do filme é uma despedida. Não sabemos se esse “último” encerra um ciclo, traduz cansaço ou mera provocação. O coletivo tem manifestado uma atenção prolongada, já em Terramotourism, de 2016, aproximava o Terramoto de 1755 de um abalo contemporâneo que deslocava os habitantes do centro de Lisboa. Em 2019, O Que Vai Acontecer Aqui? acompanhava os movimentos pelo direito à habitação. Questionar o destino dos lugares dava corpo a uma disputa em curso. Neste novo filme, questiona-se a memória: o que ficará de termos lutado por tantas causas de direito à cidade? Nós, os que vamos cá ficar a continuar a assistir à morte da cidade - não queremos senti-la como inevitável.
O coletivo apresenta o filme como um encontro de materiais sobre movimentos pela habitação, antirracistas, climáticos, anticoloniais, LGBTQ+, de solidariedade com a Palestina e de luta contra a punição e os despejos. Ligar essas experiências é assumido desde a origem e o pronome possessivo do “nosso” filme no título pode ser lido a partir daí. Tem a dimensão de quem filma, mas estende a autoria às lutas coletivas, a todos os que partilham ruas e conflitos, que defendem a cidade que é palco das suas lutas.
Acho valioso o lugar de implicação dos autores, que produzem conhecimento regressando ao assunto, escarafunchando mais as feridas, e reencontrando as pessoas nas lutas (valorizadas pela sua persistência) e acompanhando o destino dos espaços. Filmar participa nessa escolha consciente, quase uma disputa, sobre o que merece ficar.
2.

No filme vemos a Lisboa enfeitar-se para grandes eventos e vitórias de futebol. As bandeiras nacionais cobrem uma multidão em festa “às armas, às armas”, as marcas comerciais organizam o espetáculo, recebem- se visitantes, montam-se palcos. A bifana a custar o dobro por ocasião da final da Liga dos Campeões de 2014 é uma medida cómica desta economia. Um pormenor diante das projeções de receita, dos investimentos e dos números de visitantes, mas que nos diz muito, a bifana era um dos nossos acessos à cultura popular. A escala do sucesso económico de eventos e de quem conta trocos para o petisco. O que os grandes números apresentam como sucesso pode ser vivido, à mesa e à porta de casa, como encarecimento. A repetição da bifana introduz uma espécie de refrão material num discurso público que gosta de falar de cidades como se nelas ninguém precisasse de almoçar. O preço da bifana é o preço do convívio, de estarmos juntos, portanto um alerta para as cidades que começam a prescindir dos corpos e das suas necessidades. Algumas das pessoas que festejam a vitória de Portugal no Europeu terão graves problemas de habitação, sugere-se. O humor dos Left Hand Rotation tem esta capacidade de perturbar a solenidade do poder. Podemos festejar juntos e regressar a condições de vida brutalmente desiguais. A multidão, vista de longe, parece uma comunidade; é preciso acompanhá-la no caminho de volta para perceber o que essa aparência esconde.
A concentração de recursos na visita do Papa e as Jornadas da Juventude Católica (em 2023) continua a escrutinar quem merece acolhimento e com que condições, por que razão a cidade mobiliza tão depressa meios para a exceção festiva e tão lentamente recursos para a vida de todos os dias. O comentário aproxima o grande palco, o aparato da celebração e o Parque do Perdão das vidas. A passagem dos confessionários construídos por pessoas presas à crítica da punição procura expor uma ordem que distribui de modo muito desigual a dignidade e o direito ao perdão.
A narração detém-se também na declaração Dignitas Infinita, que apresenta a mudança de sexo como uma ameaça à dignidade da pessoa. O filme confronta essa doutrina com a violência sobre as pessoas trans. Fica a pergunta sobre o que vale uma dignidade proclamada como infinita quando se recusa a alguém o reconhecimento da sua própria vida, e sobre quem acolhe os corpos que esta ordem afasta.
O sarcasmo é cortante e por vezes arrisca encerrar depressa demais o sentido das situações. A fé pode sustentar práticas de obediência, mas também compromissos com quem sofre; há crentes nas lutas pela habitação e pessoas precárias entre os peregrinos. O ponto mais fecundo da crítica está em tornar visíveis as prioridades institucionais e as suas consequências. Atribuir indiferença aos peregrinos ou reduzir a experiência religiosa à disciplina e à punição corre o risco de fechar a contradição que outras passagens tornam tão fecunda. A força da crítica aumenta quando consegue mostrar como as mesmas pessoas vivem dentro de relações que as prejudicam, às quais aderem e que podem também transformar.
3.

Outro objeto que prende o olhar é um balão vermelho em forma de coração, pessoas de costas diante dos carris da calçada da Glória a olhar para o lugar do acidente fatal de 2025. O desastre do elevador da Glória ainda tão fresco e tão absurdo. A imagem torna dolorosa a proximidade entre a circulação turística, a vida quotidiana e essa fatalidade, como dizendo que a Lisboa dos elevadores e elétricos hiper-fotografados pelos turistas é a mesma cidade que exige manutenção, segurança e cuidado.
O filme convoca os simulacros de emergência e reconstituições de catástrofes nos quais se representa o desastre, treina resposta e garante que sabemos reconhecer as vítimas quando aparecem. De facto, o que significa preparar uma cidade ou uma cidade estar preparada? Interessa- me essa deslocação: perguntar o que se torna imprevisível por conveniência, o que deixamos de ver enquanto funciona, que formas de manutenção e cuidado ficam fora da imagem de uma cidade bem administrada. Uma catástrofe tem o instante da sua ocorrência, mas tem igualmente uma história anterior, feita de decisões e prioridades que importa escrutinar. Escrutinemos a vulnerabilidade acumulada antes de qualquer acontecimento fatal. A aproximação proposta pelo comentário entre o descarrilamento, as cheias ou um terramoto, e uma cidade submetida à rentabilidade tem um sentido político; a determinação das causas da tragédia exige o seu próprio apuramento. O filme interroga as prioridades que organizam a vida urbana.

As máquinas que perfuram o alcatrão, as obras de drenagem introduzem a promessa de prevenção. Uma máquina ergue-se diante do casario e da cúpula do Panteão, por cima de um tapume onde se avisa, em inglês, que Lisboa está a ser preparada para o futuro. Estamos a ser convencidos de que tudo está a correr bem?
O abate de árvores em Alfama, denunciado na narração, é colocado em relação com uma campanha municipal de florestas exuberantes. A verdade é que a preparação para a crise climática exige infraestruturas, mas também participação nas decisões sobre o que vamos sacrificar e continuar a tornar possível a presença dos habitantes. A aproximação expõe um desfasamento entre a linguagem ambiental e a experiência de perder uma sombra. Uma árvore adulta é tempo acumulado num lugar, abrigo do calor, presença que acompanha a vida de uma rua. A sua ausência altera o corpo do bairro muito antes de entrar num balanço de compensações.
Uma cidade pode investir na sua sobrevivência física e continuar a tornar impossível a permanência dos seus habitantes.
A narração aponta ainda à fé no capitalismo verde, à ideia de que o mercado e a inovação tecnológica acabarão por resolver a crise climática sem ser preciso limitar o crescimento. Aqui em frente, os cruzeiros continuam a chegar. Prepara-se a cidade para escoar a água que há de vir, enquanto se alimenta a economia que ajuda a fazê-la subir.
4.
Um pequeno lembrete estatístico: Em Lisboa, a dificuldade dos jovens em arrendar casa traduz-se numa conta cada vez mais impossível: no segundo trimestre de 2026, a renda mediana dos novos contratos atingiu 17,79 euros por metro quadrado, mais 5,1% do que um ano antes e cerca de 75% acima do valor nacional. Aplicando esse preço a uma casa de 50 metros quadrados, chegamos a cerca de 890 euros mensais — um cálculo ilustrativo que representa 74% de um rendimento líquido de 1.200 euros, antes de água, eletricidade, alimentação ou transportes. Mesmo a alternativa de partilhar casa pesa: um quarto anunciado em Lisboa custava cerca de 550 euros mensais, enquanto a procura aumentava 17% e a oferta diminuía 8%, segundo o idealista. São quase 46% daquele rendimento líquido e 60% do salário mínimo bruto de 2026, fixado em 920 euros.
A falta de políticas públicas com escala e eficácia suficientes para garantir habitação acessível faz que o pessoal fique dependente da ajuda familiar, de salários excecionais ou da aceitação de condições precárias. É urgente mais habitação pública, proteção efetiva para os inquilinos, aumento de salários e uma intervenção sobre os preços que permita aos jovens viver nas cidades onde estudam e trabalham. Tudo parece confluir para que não aconteça nada disto com as diretivas dos governos agora PSD mas anteriormente PS, e com o lobby dos proprietários e sector imobiliário a bloquear qualquer alívio no custo da habitação.
É neste contexto que importa o timing do filme que sai agora no Doc Lisboa, no rescaldo das manifestações de 10 de outubro em Lisboa e no Porto, prolongadas pela acampada na Praça D. João I, que deram expressão coletiva à impossibilidade de continuar a viver nestas condições: milhares de pessoas saíram à rua contra o custo de vida e uma habitação que as empurra para longe ou as mantém em casa dos pais depois dos trinta. No Porto, a resposta policial na madrugada de 15 de outubro foi brutal: os organizadores denunciaram 37 feridos e os bombeiros confirmaram ter assistido oito pessoas, encaminhando duas para o hospital. A PSP invocou resistência à retirada das tendas; a Amnistia Internacional, após verificar imagens e recolher testemunhos, manifestou preocupação com o uso excessivo da força e exigiu uma investigação independente. A 17 de outubro protestos por várias cidades, a persistência do Porto e a acampada no Rossio.
A indignação destes jovens encontra eco noutras cidades europeias: em Paris, Lyon, Estrasburgo e Nantes, os protestos estudantis de 13 de outubro por melhores condições de ensino foram também marcados por cargas policiais e gás lacrimogéneo, embora a maioria se tenha manifestado pacificamente. Claro que as reivindicações provêm de contextos distintos, mas aproximam-se na exigência de condições materiais para construir uma vida, para ter acesso aos básicos: escolas em condições, acesso a casa para morar, salários dignos. Responder com bastonadas a quem reclama esses direitos básicos (e até da Constituição) agrava tudo, as instituições do Estado e a violência institucional criam inimigos numa geração que tem razões concretas e muito válidas para estar revoltada. Jovens que não têm nada a perder.
A violência da falta da habitação, um direito básico e da constituição é a maior e mais atroz violência. Mas os telejornais preferem dirigir a violência para as vítimas e falar dos confrontos e desacatos, desviando sempre do problema que levou as pessoas à rua. Se recuarmos às condições que levam as pessoas à rua, perguntamos que ordem é que os políticos, comentadores e polícias exigem repor.
Os comentadores agarram-se à ordem pública, mas muito pouco sobre uma vida sem casa acessível, sem salários dignos nem perspetivas. O filme devolve à notícia dos confrontos uma duração que o enquadramento televisivo tende a cortar: antes daquele momento houve despejos, demolições, pedidos sem resposta, anos de desgaste. Quando a notícia começa no confronto, toda essa violência anterior fica fora de campo.
5.
A água obriga-nos igualmente a olhar para a margem sul e para as demolições na margem sul. O Segundo Torrão e a Jamaica pertencem à história de Lisboa, tal como o bairro do Talude. Famílias empurradas para longe e bairros sem serviços. Os trabalhadores que constroem, limpam e mantêm em funcionamento a cidade, a massa trabalhadora que atravessa o rio de manhã cedo, espera transportes, acumula distâncias, empregos e cansaços, não tem à sua espera casas, apartamentos acolhedores. A sua relação com Lisboa tem a ver com as horas extraídas ao descanso e ansiedade para manter um simples abrigo.
A história de Sebastião, que trabalhou na construção de pontes e estradas e viu a sua casa demolida, condensa esta desigualdade. As obras em que participou com todo o seu suor e saúde continuam a servir a cidade. Mas nem a contribuição de uma vida de trabalho lhe assegurou um lugar onde morar. O filme devolve uma pessoa àquilo que a linguagem administrativa tende a tratar como situação habitacional. No Talude, Ivania e Daysi protestam pela demolição das suas casas.


Moradores e ativistas da Habita e do Stop Despejos juntam os corpos numa barricada humana diante das máquinas. É uma desproporção quase impossível de suportar: ter de pôr o corpo à frente de uma escavadora para defender a casa que se construiu, quando nenhuma outra nos foi garantida.
Uma mulher, vista de costas, transporta um bebé junto ao corpo, entre destroços de casas, enquanto outras pessoas atravessam o terreno. Ao fundo, postes e linhas elétricas desenham a paisagem. Como continuar depois da demolição? O bebé continua a ter fome, será preciso encontrar abrigo, mudar roupa, descansar. A destruição da casa retira as condições imediatas para responder.
O braço de uma escavadora, um agente de capacete e viseira; à sua volta, eletrodomésticos, peças de mobiliário, guarda-chuvas abertos. O espaço doméstico foi exposto à chuva e à operação policial. Um frigorífico já não está na cozinha, mas continua a lembrar que houve ali uma cozinha. A intervenção à bruta, e muitas vezes com racismo, a desfazer as casas das pessoas, torna-se visível nesta desarrumação forçada das coisas que permitiam viver.
A decisão de Dona Alda Chaves, no bairro da Jamaica (Vale de Chícharos), no Seixal, dá à solidariedade uma expressão concreta. Já tendo uma solução habitacional, permanece com as vizinhas, um gesto de recusa que o realojamento individual encerre a responsabilidade pelo destino do bairro. O relato documentado por telemóveis da agressão policial de que foi alvo, na manhã de 20 de janeiro de 2019, mostra o preço dessa solidariedade. Resistiu a ficar e foi brutalmente violentada. O facto deste gesto, certamente do quotidiano dos bairros empobrecidos com pessoas não brancas que vivem em tensão permanente, ter viralizado nas redes, fez com que muita gente saísses à rua e se mobilizasse pela grave crise de habitação, pelo racismo sistémico, pelas condições de vida segregadas na cidade.
6.
Nos Anjos, pessoas dormem na rua junto de instituições destinadas ao acolhimento e ao atendimento de migrantes. A proximidade física torna a falha mais difícil de esconder. Algumas dessas pessoas dirigem-se ao Cinema São Jorge, onde se projeta um filme sobre a viagem de dois jovens senegaleses para a Europa, e sobem ao palco para dizer que aquela realidade está a acontecer na cidade de quem acabou de a ver. Quando as pessoas filmáveis entram na sala como sujeitos que interpelam o público, essa distância deixa de ser confortável.

É uma interpelação ao cinema e a todos nós que gostamos de reconhecer a injustiça quando ela nos aparece organizada numa narrativa mediada. Podemos comover-nos numa sala e passar depois pelas pessoas que dormem no passeio, acampadas durante meses no adro da igreja dos Anjos.
A Cozinha Migrante dos Anjos, acolhida na Disgraça, dá continuidade material a esse encontro. Durante meses, donativos e trabalho voluntário asseguram refeições a quem ficou na rua. Cozinhar exige compras, organização, limpeza, turnos, gente que regresse no dia seguinte. A solidariedade ganha aqui uma duração pouco espetacular, feita da repetição necessária. A cidade consegue ainda produzir lugares de amparo porque há quem os mantenha, muitas vezes para lá do limite das próprias forças.
A operação policial na Rua do Benformoso abre a ligação à história colonial e à exposição de pessoas trazidas das colónias para a Exposição do Mundo Português de 1940. A aproximação convoca modos de olhar, classificar e exercer autoridade e desumanizar os corpos racializados. Esses “outros” das ex-colónias e os imigrantes africanos e sul-asiáticos de hoje continua a persistir a desigualdade no direito de estar, circular e não ter de justificar a presença.
Diante do Padrão dos Descobrimentos, uma linha de polícias separa-se de um grupo de manifestantes por uma estreita faixa de chão. Atrás dos agentes, as figuras de pedra prolongam a narrativa monumental. A composição torna visível o conflito sobre quem pode ocupar e interpelar aquele lugar. De um lado, a história nacional fixada no monumento; diante dela, pessoas que exigem discutir os seus legados. A presença policial inscreve-se nessa relação entre património, autoridade e contestação.
Lisboa conserva cuidadosamente os seus símbolos imperiais e tem sido muito menos diligente a garantir condições de vida a tantas pessoas vindas dos territórios outrora colonizados. Esta desigualdade atravessa a cidade que se oferece à visita turística pela grandeza do seu passado imperial. É preciso assumir que os monumentos têm uma história política e que complexificar os seus significados e símbolos pertence à vida democrática.

O Padrão dos Descobrimentos participa também da disputa sobre a cidade visível. A monumentalidade protege uma narrativa nacional que se oferece como património comum, enquanto as intervenções que a contestam são tratadas como perturbações. Lisboa tem dificuldade em reconhecer a violência inscrita nos seus lugares de celebração.
É esse o limite e o risco produtivo de um comentário tão interventivo: estabelece relações, denuncia, ironiza, mas por vezes antecipa a conclusão antes de deixar a situação respirar. A cidade permite que essas histórias se encontrem; não as torna equivalentes.
Vamos vendo os conflitos a multiplicar-se: habitação, racismo, violência contra pessoas trans, crise climática, Palestina. E desculpem tanto spoiler. Mas a relação entre todos estes conflitos parece-me estar na vontade de reconhecer estruturas de dominação e de aproximar lutas de modo intersecional. Esse trabalho precisa de preservar a singularidade de cada história.
Perto do fim, a Palestina obriga-nos a sair de qualquer conforto que ainda pudesse haver nesta conversa sobre Lisboa. A narração pergunta como se engole um genocídio diante do telejornal, como se continua a jantar, a trabalhar, a cumprir os dias. Nas ruas da cidade, há quem procure interromper essa normalidade, recusar que nos habituemos. É a força desses afetos e desses corpos em movimento que, nas palavras do filme, nos traz de volta à superfície.
7.

Regresso por isso às casas coletivas, às associações, à Sirigaita, à Disgraça, à breve abertura do Centro Social Ocupado de Santa Engrácia. É aí que o filme encontra uma resposta à ameaça de desaparecimento. São experiências frágeis, sujeitas a despejos e ao desgaste de quem as sustenta. A sua importância está no que permitem fazer enquanto existem: reunir, comer, discutir, experimentar formas de decisão, entrar sem que a primeira pergunta seja quanto se vai gastar.
A solidariedade torna-se mais exigente quando procura compreender as diferenças entre as pessoas que reúne. É nas casas coletivas, nas associações e nos espaços ocupados que esta possibilidade ganha lugar. O estandarte amarelo da Sirigaita, fotografado contra o céu, introduz uma alegria que também pertence à luta. O desenho, a cor e o nome afirmam uma presença. Há raiva, mas há igualmente prazer em estar junto, vontade de inventar uma festa, uma conversa, uma refeição. A resistência precisa dessa energia para durar.
Estes espaços autogeridos têm de pagar contas, distribuir tarefas, gerir conflitos e lidar com o cansaço de lutas inglórias. A sua existência depende de trabalho continuado. São pequenas ilhas heroicas onde tudo lhes é tanto exigido, nomeadamente a segurança, para garantir usos da cidade que deveriam ser possíveis em muitos mais lugares. Uma porta aberta onde não temos obrigação de consumir tornou-se um bem raro. A possibilidade de ficar, conversar e organizar alguma coisa com outras pessoas é parte da infraestrutura de uma vida democrática.
O Centro Social Ocupado de Santa Engrácia, que abriu ao bairro durante uma semana, foi uma experiência efémera mas muito bem recebida pela vizinhança e é a nota que os edifícios vazios são um crime na cidade. Que poderíamos decidir do seu uso uma vez que estão vazios e tanta gente sem casa e sem lugares de encontro.
Em Santa Engrácia, uma semana basta para dar a conhecer outros usos possíveis de um edifício. A ruína posterior não apaga esse conhecimento. Quem ali esteve passa a saber que aquele lugar podia ter servido o bairro, porque chegou a servi-lo. A demolição produz entulho, mas não consegue devolver inteiramente a experiência ao domínio do impossível. Fica uma comparação concreta entre o que aconteceu e o que se decidiu impedir.
O comum faz-se nessa prática de usar, cuidar e decidir com outras pessoas. Obrigada a lidar com os conflitos e relações de poder, e criar condições para os tornar discutíveis. A experiência de Santa Engrácia vale também por essa possibilidade de um lugar aparentemente encerrado ser vivido de outra maneira, para depois virar um monte de entulho.
8.


Apetece responder que os vestígios já estão por toda a parte, embora nem sempre saibamos lê-los. Estão numa casa que deixou de existir, num jardim onde se cozinhou para quem dormia na rua, numa porta aberta durante uma semana. O problema é que a cidade não conserva todas as memórias com o mesmo cuidado. Há acontecimentos a que se erguem monumentos e vidas cuja passagem tem de ser defendida contra as máquinas.
A persistência do ato de documentar é relevante porque a violência urbana depende do nosso esquecimento - e a memória é realmente curta, não há volta a dar, tenho de me esforçar para me lembrar da Lisboa dos anos 80 e 90. As demolições sucedem-se, lojas e referências do bairro desaparecem, bairros mudam completamente, e as políticas desacertadas fazem-nos regredir em imensas conquistas. Cada década da história da cidade está ligada aos seus momentos políticos e à nossa fase de vida, aos episódios que nela vivemos, à nossa implicação por esta casa coletiva com serviços municipalizados e privados que é uma cidade. É assim que a percecionamos. As imagens recolhidas ao longo dos anos e os filmes permitem juntar o que a atualidade vai sempre anulando num permanente palimpsesto.
Onde ficam os vestígios das lutas ? Nem sempre ficam paredes, placas ou arquivos organizados. Fica o conhecimento de que se conseguiu alimentar cem pessoas, permanecer ao lado de uma vizinha, interromper uma operação, abrir um edifício. Ficam relações que podem voltar a ser ativadas. O filme participa nessa transmissão, guardando a experiência para lá da duração dos espaços.
«Sem medo nem saudade», ouve-se na narração. Gosto desta recusa da saudade como programa para a cidade. Há muita coisa na Lisboa de antes à qual não quero voltar, e tanta gente que nunca teve nela o lugar que agora se lamenta ter perdido. Ficar implica também mudar a cidade, poder desejar nela uma vida que ainda não tivemos.
Essa cidade que vai atrás de quem parte tem também um peso material. O poema de Cavafis convocado no final devolve-nos à cidade que acompanha quem parte. Leio-o aqui a pensar nas pessoas que Lisboa empurra para longe e que continuam a trazê-la nos horários, nas amizades, nas deslocações, no dinheiro gasto para regressar. A cidade segue-as de maneiras desiguais. Para umas é uma lembrança; para outras, uma distância percorrida todos os dias.

Não me interessa defender uma Lisboa imóvel, guardada para aqueles que chegaram primeiro. Interessa-me a possibilidade de criar raízes sem ter de provar uma pertença anterior, de envelhecer numa casa, de abrir uma porta a outras pessoas. O direito à cidade inclui essa capacidade de a mudar através da vida que nela se constrói.
Lisboa faz-se também de quem vem de fora, de línguas que se cruzam, de vínculos que se vão criando, as interdependências, a pertença constrói-se na possibilidade de viver e de participar. Queremos poder criar raízes, redes, coletivizar o cuidado, envelhecer numa casa, ver as crianças a crescer perto das pessoas que a conhecem, e crescem com ela, ter portas abertas.
Lisboa, custa ver-te tão disponível para quem te compra e tão difícil para quem precisa de ti. Há dias em que a tua beleza parece participar no encobrimento e submergir rápido, em que a luz sobre o rio torna quase indecente as milhentas fotografias que te fazem. Depois alguém chama para um copo, põe mais um prato na mesa, chama outra pessoa pelo nome, e eu conheço tanta gente e tenho tantos amigos que são parte da cidade, que me reconcilio tantas vezes. Nessas alturas, a cidade volta a ter uma medida em que cabemos. Enquanto houver quem encontre outra pessoa pelas tuas ruas e lhe faça lugar.
O que este último filme deixa à superfície, é a memória do que fizemos juntos e a capacidade de voltar a fazê-lo. Creio que a despedida anunciada no título ficará por cumprir.
O filme vai passar no Doc Lisboa 22 Out / 21:30 / 66’ Cinema São Jorge - Sala M. Oliveira.