"O que nós estamos a pedir é que as pessoas possam amar", entrevista a Falcão Nhaga sobre "Sabura"
Um jovem casal guineense reencontra-se na periferia de Lisboa, numa casa partilhada com outros imigrantes. Tony trabalha na construção civil, Cadija acaba de chegar e, quando parece finalmente possível ensaiarem uma vida em comum, surge-lhe uma oportunidade noutro país europeu, voltando a colocar a distância no horizonte. O desejo de estarem juntos cruza-se com os projetos de cada um, com os desencontros entre fases da vida e com a incerteza de saber se os caminhos que lhes permitem construir um futuro são também aqueles em que podem acompanhar-se. Ser a rapariga a conseguir uma oportunidade mais ambiciosa, a poder sonhar mais alto e a ponderar uma nova partida introduz uma questão de género interessante no filme, que acompanha o que essa possibilidade provoca na relação.
Esta segunda curta-metragem de Falcão Nhaga, apresentada agora no FIC Luanda, aborda a imigração através de uma história de amor, entrando num território em que as condições materiais e a vida afetiva se encontram permanentemente: onde morar, com quem partilhar a casa, que trabalho aceitar, quanto tempo esperar, até onde podemos acompanhar alguém sem abdicar de nós próprios. São dilemas que muita gente terá vivido, embora as possibilidades de lhes responder estejam longe de ser iguais para todos. As decisões que parecem pertencer apenas ao casal dependem também de uma geografia de oportunidades desiguais, de uma Europa que recebe trabalhadores e distribui de forma muito diferente as condições para uma vida florescer. Num contexto de crescente hostilidade contra os imigrantes, filme-se a ternura.
Falcão Nhaga (das redes do Cinema Batalha)
Na casa onde Tony e Cadija se reencontram, a intimidade precisa de encontrar espaço entre a presença dos outros e os horários do trabalho, entre quem chega e quem está prestes a sair. Ali se cruzam origens, línguas e percursos, numa convivência feita da proximidade possível entre pessoas que partilham um lugar sem necessariamente se conhecerem bem. A cena do jantar reúne essa mistura de conforto e constrangimento, de familiaridade e distância, mas também a possibilidade de, por instantes, a comida partilhada acolher a saudade de cada um. É nesse quotidiano, nos pequenos gestos e na atenção aos corpos, que o filme vai construindo a relação amorosa e dando a perceber o que está em jogo numa eventual separação.
«Sabura», palavra usada nos crioulos da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, pode nomear o contentamento, a delícia de uma comida, o prazer de um momento ou de uma memória. Há qualquer coisa desse sentimento na maneira como o filme procura dar corpo ao desejo, na música que convoca as festas e os convívios da geração dos pais, na ternura que persiste entre o cansaço e a discussão do futuro. Como diz o realizador nesta entrevista, é um filme de amor sem beijo nem sexo, mas em que o toque e a aproximação dos corpos procuram exprimir uma intensidade que um beijo, por si só, talvez não alcançasse.
Nascido em 2000, filho de mãe cabo-verdiana e pai guineense, Falcão Nhaga cresceu na Linha de Sintra e estudou Cinema e Antropologia. A sua primeira curta-metragem, Mistida (2022), foi selecionada para a secção La Cinef do Festival de Cannes e premiada no IndieLisboa e no Curtas Vila do Conde. Em Sabura (2025), parte de histórias que conhece, próximas da sua família e reconhecíveis noutras comunidades migrantes, para filmar pessoas cuja vida amorosa encontra pouco espaço no cinema.
Falcão Nhaga fala das experiências que alimentaram a escrita, do encontro entre os atores, da nostalgia musical e da importância de fazer filmes que deem esperança e força às pessoas que quer ver representadas e a quem deseja chegar. Recorda também uma exibição na acampada do Rossio, em Lisboa, onde o calor dos corpos reunidos lhe devolveu uma imagem do próprio filme e daquilo por que as suas personagens lutam: poder estar com quem se ama, ter tempo e condições para esse encontro, ter liberdade para repetir um gesto de carinho. «Bem lá no fundo, o que nós estamos a pedir é que as pessoas possam amar.»
Sabura é exibido no FIC Luanda no sábado, 31 de outubro de 2026, às 15h00, integrado na sessão de curtas-metragens.
De que forma as experiências que conheces, pela tua família e por teres crescido na Linha de Sintra, entraram na escrita do filme?
Já tinha acesso a histórias de amor parecidas, através da minha família mais próxima. Mas o que senti é que eram histórias muito presentes em qualquer comunidade imigrante. Se calhar, na nossa imigração, seja guineense ou cabo-verdiana, as maiores vagas já aconteceram, e Sabura foi escrito numa altura em que já estava a acontecer uma nova imigração, de pessoas do sul da Ásia e de África, que já não era definida maioritariamente por países lusófonos.
Foi isso que me inspirou, mais do que tudo: uma história de amor que poderia ter acontecido em várias comunidades, embora seja muito específica. Vemos aqui representadas duas etnias, duas religiões ligadas a essas etnias, numa representação da Guiné-Bissau que tentei que fosse detalhada. Mas aquele amor é algo que é muito possível acontecer em várias comunidades, e foi essa universalidade que me interessou muito.
Ao contrário do meu primeiro filme Mistida (2022), esta era uma história que tinha de ser mais aberta, mais acessível. Apesar das muitas especificidades do filme, queria que nos víssemos naquelas personagens e acreditassemos no amor delas, antes de pensar nas circunstâncias sociais, políticas, em que estão. Queria que primeiro pensássemos nesse amor e acreditássemos nele. Portanto, as minhas experiências foram mais distantes, e isso ajudou-me a escolher de onde partir para esta história. Quis partir desse amor.

Escolheste abordar a experiência migrante através de uma relação amorosa, em que o desejo de estar juntos se cruza com os projetos e os sonhos de cada um. O que te interessava explorar nessa tensão entre construir uma vida a dois e a possibilidade de emigrar, nesses desencontros de fases de vida?
Apesar de ser um filme bastante político em vários sentidos, não me interessava colocar as mensagens do filme — se posso dizer que tem uma mensagem predefinida — à frente daquelas personagens e da sua história. Seria demasiado panfletário, escusado de alguma forma. Interessava-me contar essa história com intimidade, com carinho, com atenção. Estas pessoas existem. São pessoas que conheço, com quem já vivi, que amo e que sigo, da minha família, dos meus amigos. A minha perspetiva tinha de partir desse amor. Se não acreditássemos nele, acho que tudo o que vem depois, em termos dessas mensagens políticas, não ia servir de muito.
Para além do mais, grande parte daquilo que defendemos, ou que podemos defender, em termos de políticas justas de imigração, tem base nas possibilidades das pessoas amarem e serem amadas, viverem em condições dignas, terem direito à saúde, à habitação, serem tratadas com respeito no trabalho, terem direitos como qualquer pessoa que vive cá. Bem lá no fundo, o que nós estamos a pedir é que as pessoas possam amar. Penso sempre nisto ao ver o filme. Já não o via há algum tempo, mas vi-o recentemente, porque foi mostrado na acampada no Rossio, em Lisboa. Foi muito bonito, já de noite, logo depois de as pessoas começarem a montar as tendas. Lembro-me de pensar que é um filme também sobre desejo. Aquele abraço, ou gesto, que eles partilham no final, ou os vários pequenos gestos que acontecem no filme: é para isso que eles estão a lutar. É para isso que estão cá e que estão a discutir o seu futuro. É para aquele gesto acontecer várias vezes e terem a liberdade desse gesto.
É um desejo tão simples, o de estar com quem amas, que acho que dá um bom contraste com a complexidade de tudo o resto no filme, com todos os problemas que são muito maiores do que eles. Em contraste, aquilo que eles querem é aquele gesto. Sempre achei muito bonito esse contraste e quis vincá-lo dentro do filme.
A casa partilhada reúne pessoas de diferentes origens, línguas e percursos. Como trabalhaste esse espaço e a relação com os atores para construir a intimidade do casal?
A casa onde filmámos era realmente muito pequena, na Amadora. Não tivemos muitos ensaios. O Amarjit, que faz de estafeta, por exemplo, tinha sido futebolista do Estrela da Amadora, uns anos antes. O Mamadou é músico. Eram sobretudo o Joãozinho, que interpreta o Tony, e a Binete, que interpreta a Khadija, que estavam mais habituados ao palco e à câmara. Todos eles eram muito boas pessoas, e, na cena em que estão a jantar, essa falta de ensaio acabou por entrar um pouco. Já se tinham conhecido uma ou duas vezes, mas não se conheciam assim tão bem. Esse desconforto de não conheceres bem a pessoa e não estares inteiramente à vontade, mas, ao mesmo tempo, ser aquele o teu espaço neste país, é uma mistura interessante de sentimentos que se vê refletida na cena. É um espaço com essa mistura de origens, de línguas e de passados, um lugar que devia ser de conforto, porque é a tua casa, mas que no filme também tem um pouco de tensão. O casal tem os seus problemas, cada um está longe da família e está lá para trabalhar. Um chega à noite quando o outro tem de sair, e, mesmo em termos de horários, está tudo trocado. A relação deles é mais feita de passagem. Mas é isso que faz daquele momento, espero eu, um momento bonito, em que há outra dinâmica através de um gesto, o de partilhar comida. Essa mistura foi muito interessante de ver, porque diz-te tudo: o conforto, conheceres a pessoa ou não tanto, partilhares a língua ou não. E isso esvanece quando estamos a fazer algo muito quotidiano, que é comer, mas estamos a comer juntos. Há ali um peso dessa saudade que, de certeza, todos eles sentem. Sempre achei isso bonito, e acho que conseguimos alcançá-lo na cena do jantar.


Que sentido tem a palavra «Sabura», tão usada em Cabo Verde e na Guiné-Bissau, para ti e como orientou o filme, incluindo as escolhas musicais?
«Sabura» é uma palavra usada em ambos os crioulos: é contentamento, é delícia. Podes usá-la em relação à comida, mas também a momentos, a memórias. É uma palavra muito flexível nesse sentido. É engraçada essa ligação à escolha musical. Eu próprio paguei os direitos para ter aquela música, porque é, primeiro, uma memória que tenho. «Ádia», do Ngoma, é mais da geração dos nossos pais, e de certeza que as pessoas da minha idade, ou mesmo um pouco mais velhas, se lembram desta música em festas, em convívios, em casa. É definitivamente um ponto de nostalgia, e eu precisava desse ponto para o final. Como é um final em que há uma mistura trágica e melodramática, o desejo comunicado nessa música ajuda a cena a elevar-se e a alcançar aquilo de que precisa para acreditarmos nela. Não consegui encontrar outra música do mesmo género que chegasse lá. Pela tecnologia das coisas, consegues perceber que piano elétrico corresponde a cada década de música. Dá para ouvir essa diferença entre os anos 70, 80, 90. Toda aquela produção, a música de kizomba, de funaná, o próprio Ngoma, tudo isso é tão nostálgico que ajuda a cena a alcançar esse nível. Sem isso, acho que não teria acontecido. É uma boa ligação essa entre «Sabura» e a música, porque, de uma forma estranha, a palavra corresponde àquela música em termos de sentimento. Nunca tinha pensado nisso, mas de certeza que informou a escolha. Essa música sabe a sabura.
Que importância atribuis a filmar e afirmar o prazer, a ternura e o desejo?
Penso na sessão no Rossio. Como já está a ficar um pouco frio, entras mum grande grupo de pessoas e sentes calor, porque estás rodeado de outros corpos. Achei bonito que o próprio filme te faça pensar nisso, no calor, no desejo, no toque. É um filme sobre amor que não tem um beijo e não tem sexo, mas que, de uma forma ou de outra, chega a esse lado tátil. São dois miúdos de uma sociedade conservadora em vários aspetos, e estão numa casa cheia de outras pessoas. Também há um impedimento à intimidade que se calhar queriam ter.
Como representar a intimidade no filme?
Sempre foi uma questão. Por isso tentei chegar a um nível diferente, especialmente na cena final, de como representar o amor físico: ser quase animalesco, um desejo tão grande que é inexprimível, algo que não fique só num beijo. Se fosse só um beijo, se calhar não ia transmitir a mesma coisa, a mesma potência. Tentámos focar-nos na dança dos corpos entre os dois atores, e isso diz mais do que um beijo mais comum. São também o tipo de personagens sobre as quais sempre pensei que não há muitas histórias de amor. Gosto muito de comédias românticas, mas é um universo muito cosmopolita, pouco centrado na classe trabalhadora. Eu trabalho para amar, para estar com as pessoas de quem gosto e viver uma vida digna. Não é mais do que isso.
Quero mostrar os filmes às pessoas que conheço, às pessoas que de certeza se vão refletir de alguma forma no filme. Quero que a audiência seja a maior possível, obviamente, mas que atinja no coração essas pessoas de quem quero saber. Não me interessa fazer filmes que não deem esperança, sentimento, que não nos deem força de alguma forma. Relembrarmo-nos de que fazemos as coisas por amor dá-nos um pouco mais de força. Acho que não vale a pena, hoje em dia, fazer um filme pessimista, ou pelo menos um filme que não mereça esse pessimismo, que não nos dê a informação sobre aquilo por que é importante estarmos a lutar. Queria merecer esse fim, que é mais ambíguo, com esse amor que é representado no filme.