Ai eu estive quase morta no deserto e o Porto aqui tão perto

Ai eu estive quase morta no deserto e o Porto aqui tão perto Desde que cheguei a Portugal há quase meio ano, vinda de um Rio de Janeiro suado e exausto da pandemia, sinto que a adaptação não tem sido fácil, por vários motivos, mas a única coisa que consigo perceber por entre o atordoamento dos contrastes, é que me falta pele, aqui. E que isso tem a ver com tantas coisas, impossíveis de explicar a quem não vive no abraço constante do calor, nesse estado de ânimo violento dos trópicos, na exuberância imprevisível das falas, o taxista que inventou um refrão que fala do amor safado, a atendente que ri das atribulações da paquera, o perfume forte do abricó-de-macaco, a água sendo abençoada nas cachoeiras do Horto e o dengo na fila do supermercado. Faz-me falta a doçura, tão concreta no Rio de Janeiro. Mesmo que ela conviva hoje com outros demónios. Faz-me falta a doçura.

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10.10.2021 | por Rita Brás

249 filmes, 51 estreias mundiais, 46 filmes portugueses e 62 países representados no 19º Doclisboa

249 filmes, 51 estreias mundiais, 46 filmes portugueses e 62 países representados no 19º Doclisboa Está anunciada a programação da 19ª edição do Doclisboa, que decorre entre 21 e 31 de Outubro, nas salas habituais do festival – Culturgest, Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema e Cinema Ideal, às que se juntam ainda o Cinema City Campo Pequeno, Museu do Oriente e Museu do Aljube.

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07.10.2021 | por vários

O fetichismo da marginalidade (I)

O fetichismo da marginalidade (I) O que diz sobre como o cinema antecipou, por exemplo, o Holocausto, também o podemos transferir para uma cenário mais próximo, como a Argentina nos anos 70, onde havia um cinema militante que se concentrava nos sectores marginalizados e avisava ou alertava, por assim dizer, sobre o neoliberalismo e a miséria planeada. Com o passar do tempo, este fio foi cortado ou não recebeu importância; houve um aviso, mas não foi atendido (ou, pior ainda, foi reprimido). É interessante porque, face a estas imagens antecipatórias, havia uma maquinaria que tinha de responder com outras imagens para as encobrir. Face a imagens que anteciparam, foi necessário criar imagens que serviram para fortalecer o neoliberalismo, que serviram para fazer as pessoas quererem este modelo de vida. Não se responde a imagens com um pedido de nulidade ou censura, responde-se a elas com outras imagens.

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20.09.2021 | por César González, Tomás Guarnaccia e Miguel Savransky

A travessia dos sertões e a promessa de um filme de Miguel Gomes

A travessia dos sertões e a promessa de um filme de Miguel Gomes Alimentando a fé e congregando os fiéis em grupos de seguidores, surgiram no Sertão todo o género de líderes que, com frequência, se transmutavam no processo: de conselheiros a pregadores, de padres a messias, de beatos a santos, todas as combinações eram possíveis. Quando as congregações assumiam dimensões políticas contestatárias, rapidamente passavam a ser consideradas uma ameaça à ordem estabelecida. Para as autoridades e representantes do catolicismo oficial, o líder religioso passava então à qualidade de impostor, revolucionário ou bandido. A polícia ou o exército ocupavam-se de reduzir os rebeldes - líder e seguidores.

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16.09.2021 | por Anabela Roque

Conexão Brasil-Portugal pelo cinema negro

Conexão Brasil-Portugal pelo cinema negro O cinema pode ser uma ferramenta privilegiada para combater e romper com esses modelos hegemônicos de ver, pensar e representar o outro dentro de uma lógica de opressão. Ver-se em outra perspectiva, imaginar-se, descrever-se e reinventar-se pelo cinema é uma forma de descolonizar imaginários, interrogar as matrizes de representação opressoras e criar estratégias para a construção de outras, que em vez de reduzir, multiplicam as possibilidades de existência na ideia de diversidade.

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15.09.2021 | por Fernanda Polacow

Sarah Maldoror, a poesia da imagem resistente

Sarah Maldoror, a poesia da imagem resistente Esta é uma retrospetiva praticamente integral da obra de Sarah Maldoror (1929-2020), realizadora conhecida sobretudo pela dimensão mais militante do seu cinema associada às lutas contra o colonialismo, e autora de uma obra multifacetada determinante para a afirmação de uma cultura negra, que, permanecendo em grande parte invisível, assume particular relevância no contexto português pela sua ligação ao nosso passado colonial.

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18.08.2021 | por Joana Ascensão

“Em nome da moral fazem-se guerras”, entrevista a Sarah Maldoror

“Em nome da moral fazem-se guerras”, entrevista a Sarah Maldoror A câmara de Sarah Maldoror captou os primórdios da luta pela libertação de países africanos, ao lado de nacionalistas como Mário Pinto de Andrade, seu marido, Amílcar Cabral ou Agostinho Neto. "Sempre convivi com este problema da mestiçagem. Um mestiço pode ser um africano que defende uma causa. Mas também aprendi com a minha experiência que não devemos lutar pela moral. Em nome da moral fazem-se guerras. Quando me falam de moral eu calo-me. O que é a moral? Há é que falar de respeito."

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17.08.2021 | por Pedro Cardoso

“O cinema para uma luta anti-racista”, entrevista a Joseph da Silva

“O cinema para uma luta anti-racista”, entrevista a Joseph da Silva O cinema militante tem precisamente o objetivo de, através da força das imagens, mostrar a realidade sem a suavizar para que se tenha em conta a real dimensão dos problemas e a partir daí suscitar o espírito crítico, em última instância para procurar soluções, mas em primeira instância para possibilitar abrir portas à consciencialização da existência desse problema. O cinema tem esse papel e tem essa importância de, através da força das suas imagens, da força da sua linguagem, retratar realidades, retratar personagens que dão a dimensão que nos falta no nosso dia a dia para entendermos o real problema que as comunidades marginalizadas enfrentam diariamente.

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19.07.2021 | por Alícia Gaspar

Regina Guimarães: uma poética do devir

Regina Guimarães: uma poética do devir A descoberta não aconteceu de facto, pelo menos no sentido de um reconhecimento capaz de activar os mecanismos da crítica, esse discurso de mediação entre os autores e os leitores, discurso de apresentação e de revelação (mesmo quando veicula juízos negativos), e discurso último da legitimação e do reconhecimento. Talvez a popularidade que a banda rapidamente alcançou tenha afinal contribuído para a diluição da imagem da poetisa na imagem da letrista, com todos os preconceitos que esta imagem ainda carrega: a ideia de ligeireza, de facilidade, etc. Assim, a poesia de Regina continua a ser até ao presente uma poesia de minorias. Jogo, com alguma ironia, com as palavras de um título que fui buscar a um jornal de há alguns anos, numa pesquisa frustrada sobre a obra poética da autora

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13.07.2021 | por Maria de Lurdes Sampaio

Conversas sobre racismo e pós-colonialismo - "Pele escura - da periferia para o centro", de Graça Castanheira

Conversas sobre racismo e pós-colonialismo - "Pele escura - da periferia para o centro", de Graça Castanheira Pele escura - da periferia para o centro", de Graça Castanheira, parte de uma ideia original de Kalaf Epalanga. Representa a viagem da periferia ao centro de seis amigos afrodescendentes, inscrevendo-se na paisagem branca e nas suas marcas exteriores de prosperidade.

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24.06.2021 | por vários

Esculpir a paisagem com o tempo (e os gestos) em "O movimento das coisas"

Esculpir a paisagem com o tempo (e os gestos) em "O movimento das coisas" Este é um filme de restituição. Um dos legados de António Ferro e da sua “política do espírito” foi a estetização e aportuguesamento do mundo rural – dos gestos, dos modos de vestir e de habitar e mesmo da paisagem, com uma tentativa de definição estrita da “casa portuguesa”. O modelo, nacionalista, eliminou a crónica da pobreza, abstraiu-se dos caminhos de mau piso, alagados; escondeu o estrume e as lenhas, escamoteou que pessoas e animais partilhavam espaços.

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16.06.2021 | por Maria do Carmo Piçarra

Já são conhecidos os vencedores do Arquiteturas Film Festival

Já são conhecidos os vencedores do Arquiteturas Film Festival De 1 a 6 de junho, no Cinema São Jorge, em Lisboa, o Arquiteturas Film Festival reafirmou a importância de uma plataforma para a disseminação da cultura arquitetónica. Celebrou também o cinema produzido em Angola, país convidado. Para além do programa de filmes, o tema do festival foi explorado através de exposições e de um ciclo de debates abordando questões culturais, territoriais e sócio-económicas próximas da comunidade angolana e afrodescendente em Lisboa.

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09.06.2021 | por vários

Fantasmas do Império

Fantasmas do Império Por uma simplicidade de categorização Fantasmas do Império é um filme pós-colonial mas ao testemunhar no presente o que foi um determinado passado e ao constatar que o presente está cheio desse passado, ele tem toda a força de um filme de luta anti-colonial, situado num mundo que nos é contemporâneo. Um mundo em que os vestígios do passado que permeiam o nosso presente sob a forma de fraturas, são objeto de um trabalho simbólico que começa a produzir novas formas híbridas e cosmopolitas de cultura próprias de um novo tempo pós-colonial, transnacional e pós-migratório.

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30.05.2021 | por António Pinto Ribeiro e Margarida Calafate Ribeiro

Arquiteturas Film Festival — 1 a 6 Junho 2021

Arquiteturas Film Festival — 1 a 6 Junho 2021 A 8ª edição da Arquiteturas tem como objetivo refletir sobre a construção social do espaço conectado a um fio que circula dentro de suas próprias narrativas de dominação. Narrativas também sobre identidade que muitas vezes é retirada ou forçada a representar o nosso corpo. Contra algumas suposições atuais, vemos este paradigma perceptivo — um epítome da visão de nossos tempos — como fundamentalmente social, espacial e corporal. A arquitetura trabalha com poderes administrativos, económicos, políticos e estruturais que controlam, segregam e colonizam, mapeando ativamente os territórios espaciais habitados pelos nossos corpos.

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30.05.2021 | por vários

Encontros de mulheres nas descolonizações - Modos de Ver e Saber

Encontros de mulheres nas descolonizações - Modos de Ver e Saber Como é que as mulheres olharam as lutas de libertação nas ex-colónias portuguesas? Como é que os seus olhares foram integrados ou não na imaginação do colonialismo? Houve um olhar específico das mulheres sobre a libertação do colonialismo português? Que saber e consciência temos de/sobre esses olhares? E como é que esses olhares se cruzam com os das realizadoras, artistas, curadoras e académicas que hoje questionam os arquivos, públicos e privados, interrogam e recriam visualmente as suas memórias e re-imaginam o colonialismo? Que acção é que a investigação académica, as políticas de conservação de arquivos, os gestos de programação e curadoria podem ter no questionamento ou, pelo contrário, no prolongamento das “políticas (oficiais) da memória”?

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22.05.2021 | por Ana Cristina Pereira, Inês Beleza Barreiros e Maria do Carmo Piçarra

"A Febre" de Maya Da-Rin. Uma narrativa indígena, um cinema para a coexistência

"A Febre" de Maya Da-Rin. Uma narrativa indígena, um cinema para a coexistência A primeira longa-metragem de ficção da realizadora brasileira Maya Da-Rin, A Febre (2020), deixou uma sólida contribuição para o cinema brasileiro com um filme que traz o universo indígena para o centro da narrativa cinematográfica, resultado de um trabalho construído a partir de alianças entre indígenas e não-indígenas que cuidaram de forma empenhada e objetiva a representatividade de uma cosmovisão ancestral.

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19.05.2021 | por Anabela Roque

KinoYetu apresenta: Ciclo de Cinema Pós-Colonial

KinoYetu apresenta: Ciclo de Cinema Pós-Colonial O conjunto de obras aqui propostas constitui-se pós-colonial, não apenas porque revela facetas de sociedades que foram colonizadas e que preservam marcas dessa colonização, mas principalmente porque contém e ultrapassa relações entre identidades e alteridades nascidas durante o colonialismo. Neste ciclo veremos: “Alma ta Fika” de um cineasta português citado quase 30 anos mais tarde em “Kmê Deus” por um cabo-verdiano; depois, “Mãos de Barro” de um cineasta brasileiro, radicado em Moçambique desde meados dos anos 1970; e finalmente “Luanda, a Fábrica da Música”, uma obra de uma cineasta portuguesa e de um cineasta angolano.

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11.05.2021 | por vários

Navegando nas artes audiovisuais afro-amazônicas – uma conversa com Francisco Ricardo

Navegando nas artes audiovisuais afro-amazônicas – uma conversa com Francisco Ricardo Francisco Ricardo vive em Manaus desde sua infância e desde então vem desenvolvendo um olhar sensível e crítico para a arte. Em conversa com o artista conheci um pouco da sua trajetória no cinema como diretor de arte que culmina recentemente com o Kikito do Festival de Gramado de 2020 com o filme O barco e o rio (2019). A arte de Francisco conflui dentro de um cenário pulsante de artistas não brancos do norte brasileiro que questionam nossas relações étnico-raciais contemporâneas.

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04.05.2021 | por Marco Aurélio Correa

Raoul Peck: “Não quero provocar só por provocar. Quero revelar”

Raoul Peck: “Não quero provocar só por provocar. Quero revelar” Já ultrapassámos a questão das queixas. Ao fim de centenas de anos de queixas que nunca foram ouvidas, a queixa não resulta! Além do mais, se eu me queixar, vão-me reduzir mais uma vez ao estado de vítima. E, lamento, mas não sou uma vítima. É também uma maneira educada de me dirigir ao outro, de lhe dizer: “Quero só conversar consigo, não esteja tão na retranca.” Quero manter o espectador numa situação permanente de expectativa, sem saber o que virá no plano seguinte, para o manter desperto, atento. Quero bombardear o espectador com coisas fortes, belas, tristes, chocantes, mas verdadeiras. E quero convidá-lo a viajar comigo, não para o magoar, mas para que juntos nos tornemos melhores.

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12.04.2021 | por Jorge Mourinha

Representações do feminino na cinematografia do realizador brasileiro Karim Aïnouz

Representações do feminino na cinematografia do realizador brasileiro Karim Aïnouz No cinema brasileiro, Karim Aïnouz (Fortaleza, Ceará) não trabalha exclusivamente com o universo feminino, mas quando o faz trata-o de um modo muito particular. Entre a ficção e o documentário, ou misturando as duas linguagens, o realizador, que também assina os guiões dos seus filmes, explora a identidade feminina a partir dos seus desejos e frustrações, das suas aspirações sociais e condição económica, do lugar que ocupa na família, no trabalho, etc. Constrói uma galeria de personagens femininas que atravessa os tempos, num contínuo de histórias de opressão, e atualização de resistências. São mulheres fortes, ativas frente a uma sociedade hipócrita.

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31.03.2021 | por Anabela Roque