Baralho de Cartas 23

Marta

Sabemos realmente o que é o velho mundo para que nos libertemos dele com um prefixo? O que vem não continua a ser velho? A construção do novo, não teria de partir das possibilidades deixadas em aberto pelo velho? A guerra está por todo o lado. Não nos toca, as imagens, a miséria, a destruição, não nos tocam, emocionam-nos, irritam-nos, tiram-nos o sono, e depois? Sabemos o que se passa? De que forma nos inscrevemos simbolicamente no mundo? Se fosse real, o saber, levar-nos-ia à ação ou à loucura. O real é insuportável, junto dele ou temos um surto, ou alucinamos, ou… Ganhamos ou perdemos a vida quando enfrentamos o real.

A virtualidade do que acontece é equivalente à virtualidade da minha vida. 

Diziam-me que não se escolhem os amigos, que se encontram, uma treta… Encontram-se, sim, mas não por uma afeição vazia, encontram-se porque se descobrem afinidades, direcções, verdades comuns e desafios. A língua prega-me rasteiras constantemente. Julgo que me safo da minha má consciência com uma leitura, com um poema? Que efeito tem um poema, se não nos arrancar um gesto diverso do que costumamos fazer, se não nos mostrar outros mundos?

Gaza continua a ser transformada num deserto de cadáveres. A servir de cobaia para políticas futuras. Vivemos uma fase nova do mundo, para lá do horror do massacre televisionado, presenciamos o apagamento de um povo e de uma terra. Extraem um pedaço do mundo, como se o Planeta, e os seus habitantes, fosse um corpo que os mestres submetem a uma cirurgia plástica. Uma destruição que a IA ajudará, para além de física, a ser cultural e histórica. A destruição concreta e a construção espectral coexistem num jogo de espelhos infernal.

Veem bastantes israelitas a Óbidos. Por vezes, dou por mim a observá-los, a tentar ler as  expressões que fazem, a medir olhares e sorrisos, como se procurasse um embaraço. Perguntam-me se tenho livros em hebraico, respondo – só em árabe! – São poucos os que reagem, mas, por vezes, há um que sai a esbracejar e larga umas postas para o ar, fico contente, como um puto que prega uma rasteira. Para lá do ridículo da situação, e da pequena malevolência, sei bem que podem estar contra o que acontece, reajo à sensação bizarra de um povo estar a ser massacrado nas suas fronteiras enquanto veem buscar souvenirs a Portugal. É uma maneira covarde de sossegar a minha impotência. Como se houvesse outra moral aqui para além de vender livros. Tento subverter isso como posso, mas, numa tal maré de gente, o primeiro a afogar-se sou eu. Acabo por não ter tempo para responder como queria, por acumular frustrações, e vingar-me nos pequenos jogos do irrita. Torno-me num polícia do templo, abro e fecho as portas, impeço que entrem com gelados e bebidas, que entornem ginjas e soltem crianças em cima dos livros. 

Félix Teynard - Assouan, Cimetière Arabe - Inscription Funéraires, 1853Félix Teynard - Assouan, Cimetière Arabe - Inscription Funéraires, 1853

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 (Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)

por Ricardo Norte
Mukanda | 5 Junho 2026 | Baralho de Cartas