Cartas africanas do outro lado da URSS

A família está reunida em volta da rádio. O Ministério da Educação vai anunciar os nomes dos estudantes que receberam bolsas para estudar no estrangeiro. O locutor lê o nome, a área de formação, o destino. Quando chega a vez de Gilbert, fica decidido: Física, Voronej, na União Soviética. A irmã tenta esconder as lágrimas, o pai preferia a Bélgica ou a França. A mãe ouviu dizer que os soviéticos tinham uma cauda a crescer nas costas.

É uma boa entrada para uma história da Guerra Fria. Antes de chegarmos aos acordos de cooperação, às organizações estudantis e ao marxismo-leninismo, estamos nessa sala, a sentir a apreensão de uma família. O mundo vinha sempre pela rádio e anunciava levar o filho para longe. Mas a bolsa é a grande oportunidade, sobretudo num país onde, como o estudante ruandês Gilbert escreve, o acesso à educação continua tão difícil para alguns ruandeses, em particular os tutsis. A oportunidade exige separar-se da famíla, de amores, da sua terra e o destino da oportunidade vem acompanhado de fantasias mirabolantes sobre pessoas e territórios que ninguém naquela sala conhece.

Em Je t’embrasse, Gilbert (2026), a artista Sandra Muteteri Heremans1 parte de um arquivo de cartas para acompanhar a experiência de um estudante da África Oriental na URSS durante os anos 1970. O filme, de 31 minutos, combina imagens de arquivo (a preto e branco, a cores, fotografias, pequenos vídeos) com uma narração em francês, na voz do realizador e escritor Ganza Moïse2. O registo epistolar permite entrar numa história política através de uma narração particular que tenta traduzir a sua experência a um amigo. 

Gilbert parte de Kanombe a 23 de agosto de 1974. Passa por Entebbe, Cartum, Cairo e Odessa antes de chegar a Moscovo. Estes nomes desenham uma geografia que raramente são centrais às narrativas sobre a mobilidade africana. No mundo pós-colonial habituámo-nos tanto a pensar as viagens a partir de África em direção às antigas metrópoles que perdemos de vista outras rotas, outros centros de formação e de circulação do conhecimento e lutas.

A primeira imagem de Moscovo que Gilbert conta é vista através de uma janela, durante a quarentena. Depois vêm as palavras russas que vai  decifrando e a viagem de comboio para Voronej. No compartimento encontra Michel, um estudante malgaxe e, como nenhum dos dois domina a língua, tentam pedir comida imitando uma galinha, com os braços a fazer de asas. Recebem uma omelete. Não era bem o que queriam, mas aproxima-se.

Esta passagem devolve-nos os embaraços e imprevistos das viagens, os desafios improváveis. Os jovens, escolhidos para futuros quadros dos seus países, têm de aprender a pedir uma refeição, o básico e a sua formação começa nestas pequenas coisas, que exigiam as temporadas fora dos trópicos, muito concretamente no mundo eslavo.

Em Angola ouvi muitos testemunhos de que tinha ido estudar para a União Soviética, foram formar-se em engenharia, saúde, economia e várias profissões técnicas, além da formação militar. Os dois presidentes desde logo: José Eduardo dos Santos estudou no Instituto de Petróleo de Baku, no Azerbaijão soviético. João Lourenço frequentou a Academia Político-Militar Lenine, em Moscovo. Muitos frequentaram escolas técnico-profissionais: era preciso preparar pessoas para construir e manter os serviços de um país que acabava de conquistar a independência, depois de décadas de acesso profundamente desigual à educação, e todas as desumanizações coloniais. Essa experiência aparecia nas conversas como uma parte importante das suas vidas e remetia para uma época em que estudar fora era parte desse programa de construção de um país independente e do homem novo. E depois havia pormenores engraçados das diferenças culturas, amigos que contaram que, para aguentar o frio, faziam aguardentre destilando tudo o que tivesse açúcar, inclusive pasta de dentes, que de Moscovo traziam os discos e livros mais interessantes, etc.

As cartas de Gilbert fizeram-me regressar a essas histórias. 

A relação entre os movimentos de libertação africanos e os países socialistas passou muito pela educação e, claro, por alianças militares e trocas de recursos etc. A luta precisava de pessoas capazes de organizar, formar outras pessoas e assumir responsabilidades técnicas e administrativas. A independência colocava a questão urgente de consolidar instituições próprias depois de um sistema colonial que restringira profundamente o acesso da população africana ao ensino.

Mas já vinha de trás. A investigação de Constantin Katsakioris sobre os estudantes das colónias portuguesas na URSS mostra que as bolsas integravam o apoio soviético ao MPLA, ao PAIGC e à FRELIMO antes das independências. A cooperação educativa fazia parte da aliança anticolonial, juntamente com outras formas de assistência. Os percursos passavam por organizações de solidariedade e redes dos movimentos, com dificuldades de documentação, deslocação e preparação escolar. 

Nas cartas, Gilbert encontra angolanos que chegaram através das redes do MPLA, ainda em luta pela independência. A residência universitária reúne temporalidades distintas: alguns estudantes vêm de países já independentes; outros preparam-se para um país ainda em debate pela soberania. Para Gilbert, vindo com uma bolsa de estudos, a situação é diferente. Esta diversidade importa, estar na União Soviética não significava ter a mesma origem política, nem subscrever um programa comum.

A educação era também um terreno de influência internacional. A expansão das bolsas soviéticas para estudantes africanos, a partir do final dos anos 1950, acompanhou a procura de alianças com países em descolonização. A Universidade da Amizade dos Povos, fundada em Moscovo em 1960 e posteriormente associada ao nome de Patrice Lumumba, tornou-se uma instituição emblemática dessa política. Mas a presença africana estendia-se a muitas outras universidades e cidades. 

Havia interesses estratégicos soviéticos nessa aproximação. Havia igualmente necessidades e escolhas africanas. Os movimentos procuravam recursos para combater o colonialismo e preparar a independência; os estudantes procuravam uma formação que lhes era inacessível ou difícil de obter em casa. Reduzir esta história a uma disputa entre potências deixa pouca margem para perceber o que os africanos fizeram com as oportunidades, as alianças e as contradições que encontraram.

Gilbert escreve que há mais de vinte e cinco países representados entre os estudantes. Vietnamitas, alemães de Leste, latino-americanos, nigerianos, ganeses, angolanos. Discutem independência, dinheiro, religião, liberdade. Alguns são comunistas, outros abertamente anticomunistas. Enquanto as discussões que não parecem incomodar ninguém.

As residências tornam-se lugares onde África se encontra fora de África e o debate proliferava, sendo que o convívio permitia reconhecer problemas semelhantes em histórias nacionais diferentes. A referência a Dar es Salaam nas cartas, inscreve estas conversas numa rede mais ampla de encontros pan-africanos e de movimentos de libertação. As ideias viajam com as pessoas e transformam-se quando são confrontadas com outras experiências, fortalecem as lutas. Assim foi também com o movimento negritude e outros encontros de africanos nas diásporas como os da CAsa de EStudantes do Império, em Portugal. 

Também a música viaja. Gilbert levou cassetes de pop americana que circulavam de quarto em quarto. Os jovens soviéticos interessam-se pelas roupas, pelos relógios e pelos sons que os estrangeiros traziam. E era um modo do estudante africano, que chegou para aprender, descobria que os seus acessos despertam a curiosidade dos seus anfitriões. O historiador Maxim Matusevich tem chamado a atenção para este papel dos estudantes africanos na abertura cultural da sociedade soviética. A sua presença trouxe contactos, referências e comportamentos que excediam os objetivos oficiais da cooperação. 

Interessa-me esta inversão em que o jovem africano deixa de aparecer apenas como destinatário de uma modernidade produzida noutro lugar e por outros. Também leva mundo consigo. Tem música para partilhar, opiniões para defender e experiências políticas que os outros desconhecem.

Isso não o protege do olhar que racializa, o diferencia e de muitos episódio racistas contra africanos na Rússia. Mas Gilbert conta apenas que algumas crianças apontam para ele na rua, surpreendidas por verem uma pessoa negra. Às vezes, ri-se. Portanto respeito a maneira de narrar, sem impor a cada episódio uma gravidade que ele não lhe atribui. Mas a curiosidade situa-se numa história mais difícil, e a proclamação oficial da amizade entre os povos coexistia com discriminação e violência contra estudantes africanos.

Por exemplo, em dezembro de 1963, a morte do estudante ganês Edmund Assare-Addo, em circunstâncias controversas, desencadeou uma manifestação africana na Praça Vermelha. O protesto tornou públicas preocupações com a segurança e experiências de racismo que as autoridades tinham dificuldade em reconhecer. O apoio à libertação africana não eliminava os preconceitos dentro da sociedade soviética. Essa contradição exige ser pensada. Uma vez que as bolsas abriram possibilidades concretas de formação, deu a quem delas beneficiou essa consciência e limites da igualdade anunciada.

Entretanto, inverno chegando e Gilbert vê neve pela primeira vez (“extreamanente branca e extremanente gelada”), um frio inominável de quinze graus negativos. O corpo aprende esta realidade que nenhuma preparação política resolve. Nos dias livres, os estudantes reúnem-se em bares e as aulas tornam-se mais fáceis à medida que o russo deixa de ser uma barreira. As lições obrigatórias de marxismo-leninismo impressionam-no, acha-as fascinantes. Pergunta-se se certas sociedades africanas não se organizavam comunalmente antes de Marx ter dado um nome a essas relações sociais, garanta que as práticas em África precediam a ideologia marxista.

Aprecio este movimento de aproximar a teoria daquilo que conhece, que permite interrogar a pretensão tão banal de explicar-se experiências africanas através de conceitos recebidos como universais. As formas de vida comunitária não correspondem necessariamente ao socialismo à soviet, nem ausência de hierarquias ou conflitos. As reflexões sobre práticas de partilha de Gilbert deslocam o lugar da elaboração política. África tem histórias sociais a partir das quais se pode pensar, e experiências de viver em comum e de sustentabilidade que, apesar da razia colonialista, sobreviveram e podem ser modelos a inspirar noutros lugares. 

Nos livros sobre comunismo, escreve, tudo parece coerente. Nas residências, um pouco menos. Os próprios estudantes soviéticos questionam o sistema, frequentemente com humor. Esta atenção às conversas vai dando espessuraa ao país anfitrião, que deixa de ser ser uma entidade uniforme. Também nele há pessoas que duvidam, fazem piadas e procuram formas de dizer o que pensam.

Mais tarde, em Odessa, Gilbert encontra um marinheiro cubano com quem conversa em russo. O marinheiro aprendera a língua em Havana. E dá-se esta maravilha de um ruandês e um cubano se entendem numa cidade portuária da então República Socialista Soviética da Ucrânia. Gilbert espanta-se: o mundo tornou-se estranho. É uma pequena cena que contém uma história vasta de cooperação, formação e circulação. O russo torna possível aquele encontro. E Odessa, através do porto (onde há imensa presença negra, além de turcos, gregos, ucranians) oferece uma experiência diferente das fronteiras ideológicas: os produtos ocidentais condenados nos jornais são avidamente procurados quando chegam os navios. O mercado informal mitiga os acessos, o discurso público e os desejos quotidianos não conincidem totalmente.

Gilbert observa, compara e vai alterando as suas convicções - à medida que os anos passam (6 longos anos), escreve, acredita menos em respostas simples. A sua transformação e maturidade intelectual parece-me uma das forças da correspondência. Porque a educação traz a possibilidade de questionar aquilo que a tornou possível, os regimes de um lado e de outro. A verdade é que a distância, porém, não suspende a política do país de origem. Entre os estudantes ruandeses crescem os conflitos em torno das organizações, do etnicismo e do regionalismo. Gilbert recebe notícias de expulsões de estudantes e de tensões em Kigali. A experiência internacional não impede que as divisões nacionais atravessem as residências.

Quando parte em 1974, o Ruanda vive sob o regime de Juvénal Habyarimana, que tomara o poder no ano anterior. Em fevereiro e março de 1973, tinham ocorrido purgas contra tutsis nas escolas e na administração. Em 1975 seria criado o MRND, o partido de Habyarimana. Estes acontecimentos ajudam a perceber o peso das referências políticas nas cartas e a dificuldade de acesso à educação mencionada logo no início. 

É preciso dar a esse passado a sua duração própria. Conhecer o genocídio de 1994 não deve transformar cada frase dos anos 1970 num presságio. Gilbert escreve sem conhecer o futuro. Procura compreender as decisões do governo, as disputas estudantis e as possibilidades de regresso a partir do presente em que vive.

Depois de seis anos sem voltar a casa, os estudantes organizam reuniões e redigem um memorando. Fala-se de greve. Querem que Kigali os ouça. A embaixada responde que não recebeu instruções. Entre o pedido e a decisão um tempo de espera pesa sobre vidas concretas. A bolsa, celebrada como abertura, também cria dependência. Dúvidas: Quem paga a viagem de regresso? Quem autoriza? Que margem tem um estudante para discordar do governo do qual depende? Gilbert não quer entrar em conflito aberto com Kigali, mas também não apoia cegamente o partido.

A história dos estudantes ligados aos movimentos de libertação das colónias portuguesas também conheceu tensões próprias entre formação, lealdade e autonomia. Aqui se documentam conflitos com dirigentes, críticas à URSS, interrupções de bolsas e repatriamentos. Estes casos ajudam a compreender como a expectativa de formar quadros podia colidir com a liberdade de quem estudava. As situações não são equivalentes, mas deixam esse desconforto comum: o que acontece quando a pessoa enviada para aprender regressa com ideias que os seus dirigentes não querem ouvir?  Aproximando-se do fim dos estudos, Gilbert receia o desemprego, sabe de antigos estudantes formados na URSS que não conseguiram trabalho no Ruanda. A promessa inicial torna-se incerta. A formação pode não encontrar lugar no país ao qual se destinava.

Mas a carta não termina nessa inquietação. Gilbert envia diapositivos de Leninegrado e de Moscovo, explica as legendas, espera que o amigo goste. A beleza das cidades continua a merecer ser partilhada, mesmo quando o futuro se torna difícil. Conta que comprara uma máquina fotográfica e que revelava as imagens no quarto. Que ainda não sabia exatamente o que procurava captar. Esse gesto aproxima-se da questão que o filme coloca ao arquivo: como guardar uma experiência enquanto ela ainda está a acontecer, o que registar, antes de sabermos que história será possível contar a partir dela? Revi-me muito nesse processo de selecionar memóriar, no processo de fixá-las. Nos cadernos, nas máquinas analógicas, parecia mais fácil. A verdade é que é sempre precioso regista as memórias de juventude, mesmo num contexto mais previsível, todo oambiente social muda e nós queremos saber que pesso formos. Mais ainda as memórias de quem partiu para formação, regressou e acabou por se estabelecer noutro lugar, e outros que voltaram para os seus países e esses anos de formação (ideológica tambem) foram-se esfumando nas demandas do presente.

Uma carta tem um destinatário e escolhe detalhes, omitindo outros, procura tranquilizar, com um certo humor ou pedindo atenção. Não oferece acesso integral à sua vida. O trabalho de Heremans com imagens encontradas e correspondência deia-nos nessa incompletude entre várias pistas. A voz e os vestígios visuais podem aproximar-nos de Gilbert sem tornar tudo visível ou explicado. Também fica o mistério do destinatário, nada sabemos sobre o amigo do outro lado. A despedida repetida nas cartas mantém esse amigo por perto. Escrever é uma maneira de contrariar a distância, de sustentar uma conversa durante os anos em que não se pode voltar. Gilbert pode não saber onde vai trabalhar nem o que o espera em Kigali. Ainda assim, há alguém a quem promete mais notícias. 

Penso novamente nos testemunhos que ouvi em Angola. Histórias da cooperação internacional que vem nos tratados e nos arquivos dos Estados, mas que interessa muito mais a partir das vidas pessoais, esses que aprenderam uma língua, passaram anos longe de casa e regressaram com relações e conhecimentos que não cabem na palavra “quadros”. É essa dimensão que gostaria de ver mais trabalhada, o que cada um fez da experiência e o que a experiência fez de cada um, sobretudo num tempo que precisamos tanto de novas formas de internacionalismo solidário. 

Je t’embrasse, Gilbert dá tempo a uma dessas vidas. De um estudante interessado no marxismo, observador das contradições soviéticas, participando nas discussões sobre África e inquieto com o regresso e a política do seu país. A política parte sempre de uma existência e do mundo que nos é dado a experimentar para pensar sobre ele, e posicionar-nos. 

 

Je t’embrasse, Gilbert integra a exposição The Space Between the Silences, de Sandra Muteteri Heremans, na Lumiar Cité, em Lisboa, de 10 de outubro a 20 de dezembro de 2026. O filme foi comissionado pela Maumaus/Lumiar Cité e pelo WIELS, em Bruxelas, e produzido pela Auguste Orts. A inauguração, a 10 de outubro, será precedida, às 17h, por uma conversa entre a artista e Manuela Ribeiro Sanches.

maumaus.org

+ info

  • 1. Sandra Muteteri Heremans is a Rwandan-Belgian visual artist and filmmaker with a background in art history and anthropology. Working across film, archival research, installation and lecture-performance, her practice explores the ways in which personal histories intersect with the artistic and political legacies of the twentieth century. Her work often moves between Rwanda, Belgium and histories of the former Soviet Union, bringing archival traces, family narratives and historical research into dialogue. Her films include La Mazda jaune et sa sainteté (2018), which premiered internationally at International Film Festival Rotterdam (IFFR) and was subsequently shown at festivals including DOK Leipzig, Ann Arbor Film Festival and International Short Film Festival Oberhausen. Her work and performances have been presented at institutions including Bozar, Brussels, The Mosaic Rooms, London, Contour Biennale, Mechelen, and Boghossian Foundation, Brussels.
  • 2. Ganza MOISE is a published picture book author and an independent filmmaker based in Kigali, Rwanda, where he co-founded Kiruri MFN, an independent production company. In 2015, he wrote and directed his first short film called Despair. Since then, he has worked on more than 10 short films and one feature film as Assistant Director. To date, he has directed six short films that have screened at various film festivals worldwide. His short film, Sensory Overload (2020), had its world premiere at the 67th Oberhausen International Film Festival, where it won the Jury’s Special Mention.

por Marta Lança
Afroscreen | 7 Outubro 2026 | estudantes, Ruanda, Sandra Muteteri Heremans, URSS