Questões raciais no debate cultural

Questões raciais no debate cultural Em que medida a presença de artistas negros apenas em exposições destinadas ao tema não geram uma dupla reificação: uma redução do artista e de sua obra a apenas um aspecto de sua identidade? É suficiente reunir a produção de artistas negros, apenas por sua etnia? Ou, ainda, a redução de uma exposição à discussão racial não acaba por perder de vista uma série de singularidades formais e conceituais diversas, além de especificidades de linguagem e da especificidade desse assunto dentro da produção de cada artista?

Palcos

11.02.2021 | por Leandro Muniz

N’gamabô

N’gamabô É costume ver-se inúmeras pessoas agrupadas na rua durante qualquer horário do dia e da noite simplesmente a falar, trocando ideias ou jogando jogos de mesa. Crianças de todas as idades a praticar desporto durante várias horas seguidas. Crianças construíam bicicletas da madeira desde raiz. Inacreditável. Crianças a brincar com fisgas. Lembro-me de pensar, esta felicidade não tem comparação. Algumas destas diferenças culturais provinham certamente da minha subconsciente postura etnocêntrica, muito forte na adolescência. A viagem ajudou-me a ser mais humilde comigo próprio e com os outros e, além disso, a perceber as diferenças entre seres humanos idênticos mas diferentes em tanta coisa.

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10.02.2021 | por Álvaro Amado

“O Teatro Viriato ainda é um oásis no país”

“O Teatro Viriato ainda é um oásis no país” Sento-me em qualquer sítio e toda a gente tem uma história com o Teatro Viriato. O Teatro é da cidade. E, ainda assim, sentimos que há novos públicos, há novas energias, novas possibilidades. É isto que um teatro deve ser. É uma casa onde nos encontramos todos, vindos de não sei de onde. Com coisas em comum para partilhar mas também com coisas que nunca tínhamos visto antes. Por vezes incómodas.

Cara a cara

25.01.2021 | por Mariana Carneiro

Um abraço em escuta

Um abraço em escuta Os angolanos e angolanas têm-se construído socialmente também fora de Angola e em diálogo com o mundo. Nessas partidas e chegadas levam uma bagagem do intangível, o imaterial: a intuição, a fé, a dança e o olhar triste e profundo da permanente incerteza. E o sorriso como resistência última de se esconder a tristeza, os infortúnios da vida. Talvez à chegada e na partida não seja preciso falar muito. Talvez seja preciso escutar em silêncio e num abraço. Um abraço em escuta.

Afroscreen

21.12.2020 | por André Castro Soares

Arte e cultura: aprendizagens informais na Afro-Lisboa

Arte e cultura: aprendizagens informais na Afro-Lisboa A forma como as práticas artísticas estimulam aprendizagens informais entre os jovens da periferia de Lisboa é a principal preocupação deste artigo. A partir de três bairros “racializados” – Arrentela, Cova da Moura e Quinta do Mocho –, enquadramos algumas das mais inovadoras produções artístico-culturais para debater a escola, o racismo, as desigualdades e os engajamentos político-cidadão. Numa Afro-Lisboa que tarda em assumir a agência das populações afrodescendentes, arte e cultura se tornam instrumentos privilegiados para reconfigurar o papel da “raça” nas questões relacionadas à cidadania, marginalidade e educação no Portugal pós-colonial.

Cidade

10.12.2020 | por Otávio Raposo

Fomos para África, só que agora cá dentro

Fomos para África, só que agora cá dentro Em 1998, Portugal ainda era a ex-metrópole naïve que festejava os Descobrimentos na inconsciência de que haveria uma ressaca do dia seguinte, e de que até o Padre António Vieira se tornaria tóxico. Vinte anos, algum pós-colonialismo e muito kuduro depois, África tornou-se um sujeito e um objecto recorrente nas práticas artísticas que irradiaram de Lisboa para o resto do país — ou, nalguns casos, do resto do mundo.

Jogos Sem Fronteiras

10.12.2020 | por Inês Nadais

Não dá para ficar parado: Vítor Belanciano assina livro sobre a “música afro-portuguesa”

Não dá para ficar parado: Vítor Belanciano assina livro sobre a “música afro-portuguesa” Esta “música afro-portuguesa” que gira à volta de “celebração, conflito e esperança” é uma ideia em constante construção: “Há imensos agentes relevantes. Acaba por estar tudo ligado. O impacto dos Buraka Som Sistema foi central, mas ele só existiu porque antes o hip hop em Portugal se afirmou e depois houve Cool Hipnoise ou Spaceboys e tantas outras coisas. Da mesma forma que o percurso internacional de Batida ou da Príncipe Discos beneficiou desse efeito Buraka. A redescoberta do Bonga, por exemplo, está também conectada com esta dinâmica, porque existe um recontar da história, um trabalho de memória que importa fazer. E depois, hoje, tens imensos vectores, desde a crioulização do Dino D’Santiago, à atitude combativa de Scúru Fitchádu, ou novas gerações que tanto se inspiram em motivos da cultura global como local, como o Tristany.

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08.12.2020 | por Alexandre Ribeiro

"É do chinês"

"É do chinês" Ao longo da história da sinologia portuguesa colonial, os sinólogos portugueses e macaenses parecem ter sido motivados pelo seu amor e pela sua curiosidade em relação ao que os rodeava e ter construído o seu saber sobre a China através dos arredores imediatos em Macau. Foi deste amor e desta curiosidade que nasceu uma rede de documentos testemunhos da cultura popular cantonense da época – que os portugueses designavam por “cultura chinesa”.

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18.11.2020 | por Cheong Kin Man e Mathilde Denison Cheong

“Qualquer lugar é um lugar potencial para o teatro acontecer” entrevista a Joana Craveiro

“Qualquer lugar é um lugar potencial para o teatro acontecer” entrevista a Joana Craveiro A fundadora e diretora artística do Teatro do Vestido, Joana Craveiro, fala, entre outras matérias, sobre a reivindicação do espaço público, de poder fazer teatro em qualquer sítio. (...) Continua a ser difícil para uma artista criar em Lisboa? As e os artistas continuam a ser empurrados para fora? Tenho de ser sincera, foi sempre muito difícil em Lisboa. Estamos a falar das estruturas de programação da cidade. Éramos completamente underground não por opção, mas porque, objetivamente, e durante muitos anos, não conseguíamos uma única coprodução em Lisboa. Esta era a nossa realidade até aqui há uns anos atrás. Aí as coisas começaram a mudar e conseguimos aceder a essas estruturas que têm dinheiro para financiar a criação dos artistas.

Cara a cara

10.11.2020 | por Mariana Carneiro

"Strangers Abroad" - Uma análise aos crimes de colonização na Austrália

"Strangers Abroad" - Uma análise aos crimes de colonização na Austrália Perante esta campanha de ódio contra outras culturas, foi-se tornando cada vez mais imperativo difundir conhecimentos concretos e documentados, de modo a que, as pessoas que de nada verídico conheciam acerca dos povos pudessem ver que também estes são constituídos por pessoas normais, que praticam as mesmas atividades que os demais, apenas se expressam de maneira diferente. Embora tenha existido um esforço por parte dos autores para defender os povos aborígenes, estes sempre foram mal compreendidos, e algumas tribos chegaram mesmo a ser erradicadas por homens brancos que sentiam o seu privilégio racial posto em causa.

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16.10.2020 | por Alicia Gaspar

A Cruz que Fala

A Cruz que Fala Cruzam-me duas linhas ou duas ordens: a LGBT e a Igreja Católica. E a triangular educação académica feminista que tanto me motivou a ter voz e até por uns anos câmara. Foram as ondas que me tranquilizaram o espírito e me trouxeram esta imagem. Boa praia, diria. O mar enrola na areia, ninguém sabe o que ele diz, enrola na areia e desmaia porque se sente feliz. É verdade que bate devagarinho uma felicidade na praia, que vai rompendo amarras ao stress e de repente zás, sentimo-nos felizes, pelo menos contentes e depois vêm aqueles pensamentos mais leves e mais pacíficos, a clareza do "ai é isto." Penso eu? Pensa o mar? Penso eu e o mar, diria. Será que estou a voltar a casa, finalmente, dos meus anos de errância?

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20.08.2020 | por Adin Manuel

Algumas ideias sobre a Economia da Cultura e a Pandemia

Algumas ideias sobre a Economia da Cultura e a Pandemia Seria bom que houvesse uma sensibilização política nacional, pilotada pelo Governo ao mais alto nível, para que todas as instituições públicas se envolvam. É ideal que haja uma recomendação expressa para que todos se engajem na execução dos seus programas culturais. Essa nova postura não precisa de incentivos fiscais ou ajuda financeira pública extra. Basta que aconteça com os meios que já estavam e estão previstos, e que estejam disponíveis, mas com a concepção de que, em vez do público ir aos eventos, agora os eventos vão ao público

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25.06.2020 | por Mário Lúcio Sousa

Estado de emergência cultural

Estado de emergência cultural O contínuo desaparecimento de importantes segmentos da memória artística e cultural do nosso país, bem como a falta de atenção à grande parte da actual “cultura viva” não são metáforas catastrofistas: são factos que assistimos dia após dia, sem dizermos nem fazermos nada com medo de sofrer represálias até mesmo quando, na verdade, a culpa é colectiva e chamamos à responsabilização de todos.

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09.02.2019 | por Adriano Mixinge

Achille Mbembe “Por que julgamos que a diferença seja um problema?”

Achille Mbembe “Por que julgamos que a diferença seja um problema?” Em entrevista, o filósofo camaronês fala sobre xenofobia, nacionalismo, o lugar do estrangeiro, os perigos de “culturas únicas” e espaços de articulação para a diferença. A diferença se tornou um problema político e cultural no momento em que o contato violento entre povos, por meio da conquista, do colonialismo e do racismo, levou alguns a acreditarem que eram melhores que outros. No momento em que começamos a fazer classificações, institucionalizar hierarquias em nome da diferença, como se as diferenças fossem naturais e não construídas, acreditando que são imutáveis e portanto legítimas, aí sim estamos em apuros.

Cara a cara

30.04.2018 | por Katharina von Ruckteschell-Katte

Jogos sem Fronteiras #2 - Editorial

Jogos sem Fronteiras #2 - Editorial Luta-se hoje contra a pobreza crescente, contra formas mutantes e disfarçadas de exploração capitalista administrada sob o véu das “políticas de austeridade” na Europa e outros lugares. Mas resistir – re/existir, numa etimologia de algum modo ficcional – também significa inventar modos de existência. Inventar não é criar algo a partir do nada, mas agregar forças já presentes (sociais, espaciais, materiais e simbólicas) – invenção, neste sentido, corresponde a uma recomposição de forças. REVISTA JSF#2

Jogos Sem Fronteiras

08.03.2016 | por Sandra Lang

Entrevista a José Luís Mendonça

Entrevista a José Luís Mendonça As relações entre Angola e Portugal, durante a primeira fase da guerra pós-independência (1975-1992), foram muito marcadas pela postura de Mário Soares, na sua aversão ao poder estabelecido em Angola. Com a abertura da economia angolana à omnipotência do Mercado, as relações amenizaram-se, embora, mesmo no período de contenção, as relações humanas e familiares conseguiram escapar às questões políticas dos dois governos.

Cara a cara

05.10.2015 | por Maud de la Chapelle

O racismo começa onde acaba a cultura?

O racismo começa onde acaba a cultura? A premissa luso-tropicalista, assente numa falácia histórica, minada por um misto de hipocrisia e cinismo políticos, vai ganhando sedimentação ideológica e dificultando um debate sério e frontal sobre o racismo. Em Portugal, o racismo e a sua negação são estruturais no confronto ideológico sobre o lugar da diferença numa sociedade potencial e estruturalmente racista, porque estrutural e historicamente coloniais.

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20.11.2014 | por Mamadou Ba

O Andanças fala sempre muitas línguas

O Andanças fala sempre muitas línguas Culturas não coincidem com linhas de nações e continentes. Culturas são formas vivas, mutáveis e transcedem fronteiras fazendo encontros. No Andanças sente-se África entre a Europa, a América, a Oceânia, a Ásia. A integração de ritmos, danças e instrumentos de origem africana é feita por pessoas que se ligam a África, não se centrando exclusivamente em identidades de cores da pele e heranças familiares, mas também nas vivências pessoais, nas dedicações ao estudo e à pesquisa, por vontade de mergulhar numa cultura, de descobrir e encontrar o outro.

Vou lá visitar

16.09.2014 | por Maria Prata

Qual cultura e de quem?

Qual cultura e de quem? Viviam nos subúrbios brancos ou em bairros resguardados pelas áreas industriais e comerciais. Um par de ruas principais ligavam o bairro ao resto do mundo e essas ruas podiam ficar vedadas pela polícia quando os pais do meninos começavam a fazer barulho a propósito dos direitos humanos e das condições de vida na zona. A julgar pela forma como a polícia se comportava, os episódios esporádicos em que perseguiam os pretos com cães, motocicletas e veículos anti-motim, por vezes, para as crianças, parecia ser uma brincadeira de crescidos. Fazia tudo parte da paisagem cultural urbana. Uma pequena comunidade branca de origem europeia tinha governado o Zimbabwe desde 1896 e ‘construído’ uma nova ‘nação’, chamada Rodésia, cultura incluída.Qual cultura e de quem?

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07.10.2013 | por Farai Mpfunya

“A voz underground”, por Reem Kassem (Egipto)

“A voz underground”, por Reem Kassem (Egipto) Reem Kassem é uma jovem mulher muito determinada. Aproximadamente um mês após a revolução do ano passado no Egipto, quando as principais preocupações das autoridades eram paz e ordem nas ruas, Reem convenceu os militares em Alexandria a autorizar um festival de música ao ar livre, que juntou dezenas e dezenas de voluntários, desde as pessoas que pintaram o palco num dos parques abandonados da cidade aos músicas que actuaram. Poderia ouvi-la contar a história das suas negociações com os militares vezes sem conta. Desde então não tem parado e tenho a certeza que o seu papel será determinante para o futuro do sector cultural no Egipto.

Vou lá visitar

20.06.2012 | por Maria Vlachou