Cabo Verde: partidos, por todos, e por quem constrói o cidadão

Cabo Verde: partidos, por todos, e por quem constrói o cidadão Há precisamente cinquenta anos, entre a comoção do poder estatal para se fazer valer perante o "povo" e a cooperação internacional e os ideais revolucionários do Partido-Único para a construção do "novo homem", uma possível via de atuação no setor da construção civil foi experimentada. Um modo de fazer construção civil que, com todas as suas limitações, tinha uma relação direta com a formação do que se considerava ser, naquele momento histórico, a necessária sociedade civil.

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07.10.2026 | por Hugo Lopes

Celebrar os setenta anos da FUNDAÇÃO do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e de Cabo Verde)

Celebrar os setenta anos da FUNDAÇÃO do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e de Cabo Verde) Nos 70 anos da fundação do PAIGC, José Luís Hopffer C. Almada revisita a luta pela independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde e o legado de Amílcar Cabral. Defende que a criação do PAICV, em 1981, pôs fim ao carácter binacional do partido e questiona a permanência de Cabo Verde no nome e na sigla do atual PAIGC guineense. O texto recorda ainda o papel decisivo da luta conduzida na Guiné-Bissau nos processos de descolonização e termina com uma declaração de solidariedade aos dirigentes do partido.

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23.09.2026 | por José Luís Hopffer Almada

Afrocalipse: o fim de um mundo e a reinvenção de África, conversa com Mário Lúcio de Sousa

Afrocalipse: o fim de um mundo e a reinvenção de África, conversa com Mário Lúcio de Sousa A propósito de *Afrocalipse*, o seu mais recente romance, conversei com Mário Lúcio Sousa sobre a fabricação dos ditadores africanos, a responsabilidade dos países depois das independências e a persistência das estruturas coloniais na exploração do continente. Fala também das formas comunitárias de organização, da relação entre Cabo Verde e a Guiné-Bissau, do lugar das mulheres na reparação da violência, dos processos de reconciliação e dos saberes africanos que sobreviveram ao apagamento. Uma conversa sobre poder, memória e escuta, mas também sobre a possibilidade de recomeçar depois do fim de um mundo.

Cara a cara

21.09.2026 | por Marta Lança

Amílcar Cabral e a reprodução da vida

Amílcar Cabral e a reprodução da vida Pensar a reprodução da vida a partir de Amílcar Cabral é pensar a terra, a resistência e as condições materiais da liberdade. Da Guiné-Bissau a Cabo Verde, da luta anticolonial às violências racistas do Portugal contemporâneo, o seu pensamento continua a ensinar-nos que defender a terra é defender o ser humano — e que nenhum povo se liberta sem organização, comunidade e djunta-mô.

Mukanda

08.09.2026 | por Benvinda Lima

A Melhor história deste Mundial

A Melhor história deste Mundial Cabo Verde atirou-se ao jogo com o desespero de quem sabia que o lugar deles era ali, ao contrário do que muitos dos seus jogadores ouviram a vida inteira. Não vou reproduzir os palavrões quando, do mesmo lugar de onde fizera o golo, mas agora num livre directo, Sidny faz um remate igual, mas o guarda-redes argentino defende in extremis para canto. Cabo Verde caiu de pé, e muitos argentinos venceram deitados no chão, derreados pelo esforço. Que orgulho devem ter os cabo-verdianos numa equipa verdadeiramente inspiradora. Nem todas as histórias bonitas têm um final feliz. Esta tinha-o merecido sobejamente.

Vou lá visitar

04.09.2026 | por Pedro Goulão

Notas de reconciliação Algumas reflexões sobre o hino, a bandeira e a língua kabuverdianu

Notas de reconciliação Algumas reflexões sobre o hino, a bandeira e a língua kabuverdianu Com a participação de Kabuverdi, vi-me depressa envolvido num mar azul de emoções que em vão tentei suprimir. Subestimei a capacidade que este tipo de eventos tem para nos mobilizar e encantar. O entusiasmo, porém, não era propriamente pelo futebol em si, mas pela mensagem contagiante de união e convicção transmitida por aqueles jogadores que, na sua maioria, nasceram na diáspora e que, sob a liderança de Bubista, tão bem nos representaram. Mas também, e sobretudo, pela capacidade da nossa gente em fazer povo e formar um só corpo em torno de um objetivo comum: vencer coletivamente.

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06.07.2026 | por Apolo de Carvalho

"há o mal, logo, a dignidade existe", entrevista a João Vário

 "há o mal, logo, a dignidade existe", entrevista a João Vário Chamo a isso o "princípio da mais-valia inversa", os nossos compatriotas são capazes de gastar muito dinheiro numa jantarada mas incapazes de gastar mil escudos para comprar um livro, são manhentos. O Tchalé e o Vasco escreveram uns textos sarcásticos que serão acompanhados pelo novo género musical: a merdrada (vamos lançar não pedradas mas rolos de merda neste charco). O altifalante vai destilar passagens do nosso manifesto que diz o seguinte: "nós sonhamos com uma república moderna de Cabo Verde em que deixará de haver bláblólogos e bláfilólogos" (entenda-se gente que passa o tempo a dizer blá-blá e uma vez que o estado da nação é um bluff...), "em que o cidadão não será mais tratado como pedacinho de merda" (um indivíduo vai a um hospital ou a qualquer repartição pública e é assim que é tratado), "onde o dirigente será um verdadeiro cavalheiro" (que assume a palavra dada, pois a palavra de um cabo-verdiano vale menos do que um...micrograma de merda). Isto está muito mau aqui, ninguém se preocupa com a palavra dada, é uma coisa horrível.

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30.06.2026 | por Marta Lança e António Tavares

Cabo Verde não cabe nas ilhas, parte 2

Cabo Verde não cabe nas ilhas, parte 2 Cabo Verde tem uma relação muito concreta com os limites: repartir o que há, desenrascar o que falta. Num sistema que continua a identificar progresso com crescimento infinito - e das crises ecológica e social produzidas por esse mesmo modelo -, o talento de países pequenos e sem recursos como Cabo Verde, capazes de transformar sobrevivência em comunidade, é uma inspiração. Um modo de lutar por condições que talvez venha da experiência histórica de sobreviver à fome. Da prática de djunta mon - de partilhar mãos e recursos, inter-ajuda entre vizinhos, parentes e emigrante. A música, que transformou perda e dor em coisas bonitas. Das mulheres que sustentam praticamente a economia doméstica durante décadas de emigração masculina. Toda essa energia não se reduz aos diagnósticos e político-sociais-económicos e aos indicadores internacionais.

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24.06.2026 | por Marta Lança

Cabo Verde não cabe nas ilhas, parte 1

Cabo Verde não cabe nas ilhas, parte 1 Passadas as celebrações dos cinquenta anos de independência e conquistado esse lugar de respeito internacional, as interrogações internas são muitas. O que fazer com o sucesso democrático? A estabilidade é muito boa, mas não basta. A quem chega o crescimento e a prosperidade? Se há salários de trabalhadores hoteleiros que equivalem ao preço de uma noite nesse mesmo hotel, a quem beneficia afinal o turismo, a única indústria nas ilhas? Existe um pensamento estratégico sobre cultura ou esta tem sido tratada como mero ornamento? A língua materna continuará a ser tolerada como «língua dos afetos», institucionalmente secundarizada? Há condições para a juventude ficar nas ilhas ou segue no vapor di imigrason? A diáspora é apenas fonte de remessas e fábrica de saudades, ou será chamada a participar realmente na reinvenção do país?

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22.06.2026 | por Marta Lança

Em nome da fraternidade e da solidariedade histórica, ativa e combativa

Em nome da fraternidade e da solidariedade histórica, ativa e combativa O relatório denuncia ainda perseguições políticas, repressão policial e um clima generalizado de impunidade, incluindo detenções massivas e restrições ditatoriais ao espaço público. O espancamento e assassinato de pessoas que se erguem para denunciar este sistema tornaram-se parte do seu modus operandi. “Pensar pela própria cabeça e agir para transformar”, ensinamentos preciosos deixados por Cabral, parece ter-se tornado um crime de lesa-Estado na República da Estrela Negra.

Mukanda

16.04.2026 | por Apolo de Carvalho, Alexssandro Robalo, Sumaila Jaló e Yussef Marta

Olime

Olime Do outro lado, Maria Isabel responde, hesita, defende-se, acusa (o Estado, os outros?). Um conjunto de critérios - casa pequena, rendas impossíveis, salário mínimo, trabalho noturno, falência de rede de apoio - associam precariedade a perigo e fazem desta mãe, pobre, negra e do bairro, que ainda por cima ousa ser artista, suspeita.

Palcos

06.03.2026 | por várias

Guiné-Bissau: one «capitalismo do caju» é uma mina terrestre

Guiné-Bissau: one «capitalismo do caju» é uma mina terrestre  Geração após geração cresceu envolta na mesma violência estrutural que o poder colonial institucionalizou. O cajueiro permanece não apenas como símbolo da violência colonial e do apartheid económico; sobreviveu também à queda do colonialismo, às reformas da revolução e às austeridades do ajustamento estrutural. A castanha de caju — e a instabilidade política — são o mais próximo que a Guiné-Bissau tem de continuidade.

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02.02.2026 | por Klas Lundström

A narrativa Janeirista e a crescente tentativa de uma calendarização hipervalorizada

A narrativa Janeirista e a crescente tentativa de uma calendarização hipervalorizada   Numa perspetiva jurídico-constitucional, o 13 de Janeiro abriu efetivamente espaço para a expansão quantitativa e qualitativa dos direitos e garantias individuais, sem alterar substancialmente os direitos coletivos. O ápice do direito coletivo reside na formação de um Estado soberano enquanto representação política e simbólica da coletividade.

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19.01.2026 | por Abel Djassi Amado

Di Povu Pa Povu: mobilizar sem organizar?

Di Povu Pa Povu: mobilizar sem organizar? Perante um membro do partido, o povo cala-se, torna-se «carneiro» e manifesta alguns elogios ao governo e ao dirigente. Mas, na rua, pela noite, no sossego da aldeia, no café ou junto do rio, ouve-se essa amarga decepção do povo, essa desesperança, mas também essa raiva contida. (Fanon, 1961: 189)

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09.01.2026 | por Apolo de Carvalho e Alexssandro Robalo

Fomes coloniais, arquivo e silenciamento: Portugal colonial e a (necro)política da vida

Fomes coloniais, arquivo e silenciamento: Portugal colonial e a (necro)política da vida As fomes moldaram a história de Cabo Verde, a nossa identidade e a forma como nos relacionamos com a materialidade da vida. Contudo, persiste ainda uma enorme produção de silêncio em torno deste facto. Não será exagerado dizer que interiorizámos profundamente a censura dos tempos coloniais, quando era proibido usar a palavra “fome” ou indicar “inanição” como causa de morte nas certidões de óbito.

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16.12.2025 | por Apolo de Carvalho

“Quando o algodoeiro responde em silêncio”, Rita Rainho

“Quando o algodoeiro responde em silêncio”, Rita Rainho Quando criança todo mundo escuta. É no crescer dos ossos que nos fragmentamos. Ouvir com todos os sentidos pode ser doloroso em alguns momentos, constrangedor em outros. Fica difícil ser um adulto funcional e se manter sensível à microescuta dos seres. Tantas vezes em que tivemos que ouvir desaforos e responder entre gritos silenciosos. As vozes que engolimos falam muito mais alto dentro e ensurdecem nossos receptores. É o que dizem as estudiosas da microaudiologia, nove em cada dez mulheres adoecem por tudo que escutam em silêncio.

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09.10.2025 | por Gabriela Carvalho e Rita Rainho

Desmontando a montanha de mentiras do governo, construindo os pilares do futuro linguístico

Desmontando a montanha de mentiras do governo, construindo os pilares do futuro linguístico   A política governamental para a língua cabo-verdiana deverá ser incumbência de uma unidade de missão a funcionar junto do conselho de ministros, atuando também como provedoria da língua, seguindo e coordenando, com força legal, todos os desenvolvimentos nesta matéria até à oficialização plena. Ao mesmo tempo deverá ser implementada uma política de formação alargada em linguística e ensino, com incidência no estudo da língua cabo-verdiana e estudos comparados com outras línguas crioulas, através da concessão de bolsas pelo estado e pela Universidade de Cabo Verde, e o incentivo à criação de cursos de âmbito linguístico, nomeadamente crioulística, pelas universidades privadas.

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19.09.2025 | por José Luiz Tavares

A caminho do tribunal, na tentativa de limpeza da montanha de cagada, e novas de desonestidade e desespero das parturientes do monstruoso pandialeto

A caminho do tribunal, na tentativa de limpeza da montanha de cagada, e novas de desonestidade e desespero das parturientes do monstruoso pandialeto Além do atropelo de todos os comandos legais sobre a língua cabo-verdiana, que é, nem mais, e por lei da Assembleia Nacional, «fundamento de soberania», e por isso objeto de proteção especial, e daí a exigência constitucional da intervenção do senhor presidente da República, não podendo nenhuma intervenção técnica num simples manual escolar mudar a sua feição, há ainda a incompetência orgânica do ministério da educação para a realização de um ato de padronização linguística, ainda que encapotada, pois as mentes engendradoras de tal façanha, apesar das evidências em contrário, e por todos apontadas, juram por este mundo e pelo outro que não se trata de tal coisa.

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10.09.2025 | por José Luiz Tavares

Proposta de ante-projecto de revisão do artigo nono da constituição política da república de Cabo Verde

Proposta de ante-projecto de revisão do artigo nono da constituição política da república de Cabo Verde  Forjado na sociedade colonial-escravocrata como meio de comunicação entre os diferentes grupos étnicos negros escravizados trazidos cativos da costa africana vizinha para as ilhas e os seus senhores brancos chegados com as navegações marítimas europeias, o tráfico negreiro e o comércio triangular transatlântico, o crioulo cabo-verdiano emergiu, assim, como a expressão (linguística) mais eloquente e visível da cultura crioula surgida da interacção, do confronto e do diálogo civilizacionais entre dominados e dominadores, entre explorados e exploradores, no chão agreste das ilhas cabo-verdianas, encontradas desertas de populações autóctones e virgens dos pontos vista antropológico e sociológico.

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28.08.2025 | por José Luís Hopffer Almada

Kabuverdi e so un (sima Sonsent e so bo)

 Kabuverdi e so un (sima Sonsent e so bo) Que se reerga a grande ilha do Porto Grande e Monte Cara pelo alento das suas valorosas gentes, com a solidariedade fraterna e firme dos cabo-verdianos de todas as ilhas e diásporas, contra projetos supremacistas malsãos engendrados por mãos estrangeiras, ainda acolitadas por serventuárias nacionais. Hoje mais do que nunca faz sentido o verso de «súplica« de Djoya «sonsent nxina-me oiá lus di sol». Que o sol do novo dia te seja de novo radioso, Sonsent.

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26.08.2025 | por José Luiz Tavares