Batuku cabo-verdiano, musica di terra

Batuku cabo-verdiano, musica di terra Foi com a Revolução de 1975 que o Batuku, até então adormecido, renasceu no seio de ocasiões comemorativas como o casamento. E foi numa celebração matrimonial que, ainda criança, tive o meu primeiro contacto com a energia contagiante do Batuku, que é tradicionalmente cantado e dançado, durante toda a noite, pelas mulheres mais velhas, que celebram a união que se avizinha.

Palcos

11.04.2024 | por Nélida Brito

O meu irmão Nhonhô, por Tuna Furtado Lopes*

O meu irmão Nhonhô, por Tuna Furtado Lopes* E de repente eclodiu o 25 de Abril de 1974, considerado pelo Nhonhô numa entrevista à RTC sobre o seu percurso de vida como “uma autêntica revolucão”. E de facto foi a festa infinita que começou com a caça aos informadores da PIDE/DGS na cidade da Praia e na qual o Nhonhô e os seus amigos estudantes da Assomada residentes na cidade-capital da colónia/província ultramarina portuguesa e, logo depois, com a libertação dos presos políticos do Tarrafal, prosseguindo com os frequentes comícios e sessões de esclarecimento, os saraus culturais e as muitas e acaloradas discussões políticas nas quais nós, adolescentes, também nos envolvíamos entusiástica e freneticamente.

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08.04.2024 | por José Luís Hopffer Almada

A propósito do livro “As ilhas crioulas de Cabo Verde- da cidade-porto ao porto-cidade”, de Manuel Brito Semedo, e da desafricanização geográfica, geo-política, geo-estratégica e político-cultural de Cabo Verde propugnada pelo seu autor

A propósito do livro “As ilhas crioulas de Cabo Verde- da cidade-porto ao porto-cidade”, de Manuel Brito Semedo, e da desafricanização geográfica, geo-política, geo-estratégica e político-cultural de Cabo Verde propugnada pelo seu autor o autor resolveu extravasar a substância do livro, em si assaz inócua e inofensiva pois que ratificador do consenso ou, pelo menos, da opinião amplamente maioritária actualmente existente na sociedade caboverdiana das ilhas e diásporas quanto à natureza crioula da identidade cultural caboverdiana e porque largamente descritiva do que o autor considera as expressões arquipelágicas mais relevantes da crioulidade caboverdiana, para nas entrevistas acima referidas tentar recuperar as ultrapassadas teses sobre a suposta diluição de África na crioulidade caboverdiana e da orfandade continental do nosso arquipélago.

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05.03.2024 | por José Luís Hopffer Almada

O holocausto do arquipélago da fome

O holocausto do arquipélago da fome O que fizemos ao certo, nós que não iniciamos nenhuma revolução industrial, nem explodimos a bomba atómica? Nós que não distribuímos o agente laranja e muito menos o chlordécone? Nós os habitantes de um país cuja única guerra foi exatamente para recuperar um bioma, preservar vidas e o direito à respiração? O que fizemos nós, os resistentes da terra, para que ela nos condenasse? De facto, como dizia alguém, um dos crimes do colonialismo foi alienar-nos de tal modo a ponto de acreditarmos que a nossa simples existência constituía/constitui em si, uma aberração.

Mukanda

21.02.2024 | por Apolo de Carvalho

Literatura e Mais Literatura

Literatura e Mais Literatura Vemos, na atual situação mundial, que a literatura pode ser usada como muito bem entendem os poderes públicos e privados, num sistema capitalista e global, em que ela circula segundo as regras da indústria e do comércio, como qualquer elemento de lucro e capitalização, concorrendo com a salsicha. Não tenhamos ilusões, que a palavra pode matar ou perder o sujeito nos labirintos da subvida.

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07.02.2024 | por José Luis Pires Laranjeira

Um incomplacente desmantelamento dos mitos

Um incomplacente desmantelamento dos mitos Daí que, em todas as suas modulações, seja incandescente o percurso de José Luiz Tavares, sem receio da polémica e do sarcasmo quando é preciso, mas também generoso e de uma grande justeza ética. E lembremos aqui a advertência de Wallace Stevens: «a nobreza da poesia “é uma violência interior que nos protege da violência exterior”». E mais não se peça a José Luiz Tavares, porque é daqueles que transporta o fogo e isso, a prazo, é o que dá conforto e fertilidade à morada dos homens. O resto é o gosto fátuo das farófias.

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26.01.2024 | por António Cabrita

Forjando a conexão Guiné-Bissau-Cabo Verde entre 1975 e 1980: O Pensamento-Ação de Amílcar Cabral no campo da Unidade Africana

Forjando a conexão Guiné-Bissau-Cabo Verde entre 1975 e 1980: O Pensamento-Ação de Amílcar Cabral no campo da Unidade Africana Este artigo debruça-se sobre a tentativa da unificação de Cabo Verde e Guiné-Bissau entre os anos de 1975 e de 1980. Apresento uma breve explicação sobre a concepção do PAIGC no domínio da unidade Guiné-Bissau-Cabo Verde. Demonstro como a declaração da independência da Guiné-Bissau (1973) e Cabo Verde (1975) vai determinar a estrutura do PAIGC e, por conseguinte, as figuras para liderarem os dois novos estados soberanos. Falo do percurso da unidade e do golpe de estado de novembro de 1980 (Guiné) e da criação de Partido Africano para Independência de Cabo Verde (PAICV). Evidencio algumas lições para a construção da unidade africana atualmente.

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24.01.2024 | por Lumumba H. Shabaka

Terra Longe / Diásporas - excerto (poema de Nzé de Sant'y Ago)

Terra Longe / Diásporas - excerto  (poema de Nzé de Sant'y Ago) Ai noites de Assomada dos prantos em Fundura suplicando pelas almas redivivas pelas vozes exuberantes nos jardins da Praça Estrela na Praça Camões na Praça do Rossio na Praça Figueira no Largo Martim Moniz no bairro da Mouraria no bairro da Alfama nas colinas da Graça no Canecão no Conde Barão no Lontra no Coquenote no Cave Adão no Monte-Cara lá na Dedês na Casa de Cabo Verde...

Mukanda

19.12.2023 | por José Luís Hopffer Almada

Fluxos e turismo: notas a partir de "As Cidades e as Trocas", de Luísa Homem e Pedro Pinho

Fluxos e turismo: notas a partir de "As Cidades e as Trocas", de Luísa Homem e Pedro Pinho Plano sobre a avenida Marginal: os turistas calcorreiam-na em passeio, os caboverdianos em trabalho. A acumulação de imagens vai criando um olhar paralelo, de um mundo que interage mas mutuamente se desconhece. Começamos então a descortinar uma linha de leitura do filme. Os dois mundos são-nos dados a ver num certo maniqueísmo, notoriamente assumido pelos realizadores. De um lado, a resiliência dos ilhéus e a sua capacidade de aproveitar os parcos recursos. Os caboverdianos lutadores que resistem aos constrangimentos que os fustigam, cuja vida difícil é atenuada por relações interpessoais de solidariedade e de alguma alienação. Aqueles que têm de colaborar no jogo do turismo como uma das escassas indústrias e emprego que se lhes oferece. Noutro lado do espelho, os turistas que ali passeiam, também alienados na sua lógica desterritorializada: tanto faz estarem naquela ilha específica como noutro lado qualquer, não apreendem grande coisa da cultura local, mantendo apenas relações comerciais com aquele lugar. Podem vibrar muito e até apaixonar-se ou mudar de vida, mas podem sempre escolher.

Afroscreen

17.12.2023 | por Marta Lança

O Textamento do Magnânimo e Magnífico José Luiz Tavares [sobre como um segredo na boca do universo]

O Textamento do Magnânimo e Magnífico José Luiz Tavares [sobre como um segredo na boca do universo] A poesia de José Luiz Tavares exige um modo esquivo de dizer ou de se dizer; diz-se sempre num como se fosse – desembaraçado da realidade suposta e das funções pragmáticas da linguagem que pretende servi-la. Se de um segredo se trata, a poesia há de ser íntima e inocente, avessa ao vozear deôntico da praça pública; e se o universo é coisa ubíqua, haverá outra cidade ou outra praça onde ressoa, ecoando, o seu segredo comum.

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06.12.2023 | por Rui Guilherme Silva

O meu irmão David

O meu irmão David Para mim, enquanto pessoa e cidadão caboverdiano, mas sobretudo como irmão mais novo, o exemplo do meu irmão David permanece marcante e indelével tanto como juristas que somos como também como poetas, ensaístas e estudiosos da caboverdianidade que também somos, em especial no que respeita à sua impoluta integridade moral, ao seu gosto pelo saber e pelo conhecimento e à sua intimorata pugna pela nossa afro-crioulidade e por uma caboverdianidade multidimensional no entendimento da diversidade das suas matrizes e das suas acttuais vertentes culturais.

Cara a cara

05.12.2023 | por José Luís Hopffer Almada

Rosto soberano - primeira estação (terceira variação)- segundo excerto

Rosto soberano - primeira estação (terceira variação)- segundo excerto Assistiu ainda jovem adulto Nas vastas terras angolanas À devoração do irmão natural Pela ferocidade das águas impetuosas E tempestuosas do rio Kwanza

Mukanda

29.11.2023 | por José Luís Hopffer Almada

Rosto soberano - primeira estação (segunda variação)

Rosto soberano - primeira estação (segunda variação) Um país em busca Do seu verde nome Ou, melhor, do verde Lacrado no seu nome Ou, muito melhor ainda, Do lugar verde imaginado Lavrado e ajuramentado Com o seu inoxidável nome No sonho do poema de amanhã

Mukanda

10.11.2023 | por José Luís Hopffer Almada

Cidade da Ribeira Grande de Santiago (poema de Nzé de SAnt’Y Ago)

Cidade da Ribeira Grande de Santiago (poema de Nzé de SAnt’Y Ago) Todos nós éramos / todos nós fomos / excursionistas ocasionais / esporádicos caminhantes / das ruas sobreviventes / da mítica Cidade Velha

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11.10.2023 | por José Luís Hopffer Almada

Por ocasião do 48º aniversário da proclamação da República de Cabo Verde livre, independente e soberana

Por ocasião do 48º aniversário da proclamação da República de Cabo Verde livre, independente e soberana      sem a diária interiorização do mal-estar devido à localização geográfica da ilha onde se nasceu, se cresceu e se almeja permaneça envolta exclusivamente em salitre e espuma marítima dos mares incógnitos ondulando navegados pelas naus portuguesas das descobertas, assaz distante da Europa, por demais próxima das terras dos pretos da Guiné e dos demais gentios da restante Costa de África, sem as crenças, a farda, o bivaque, o s de Salazar incrustado aos cinturões dos exercícios para-militares da Mocidade Portuguesa, sem os inspectores, os agentes e os torcionários da PIDE-DGS

Mukanda

23.07.2023 | por José Luís Hopffer Almada

Segunda Parte: A moderna transfiguração nacionalista e pan-africanista do slogan nativista a África aos africanos

Segunda Parte: A moderna transfiguração nacionalista e pan-africanista do slogan nativista a África aos africanos A reivindicação da liberdade de se apossar soberanamente do processo histórico, como realça o discurso cabraliano, será doravante entendida como sinónima tanto do resgate da dignidade africana do colonizado, por demais vilipendiada no seu direito básico de existir segundo a sua própria historicidade identitária e os seus próprios modelos culturais, como também de todos os pressupostos políticos e culturais da produção desalienada das condições de emergência de um ser humano reconciliado com as suas próprias história e cultura e liberto do estado de subjugação política, do atraso endémico, da miséria, do medo, do sofrimento e da ignorância resultantes da dominação colonial e do correlativo subdesenvolvimento crónico das ilhas.

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30.06.2023 | por José Luís Hopffer Almada

Nereida Carvalho Delgado prepara um solo sobre abuso sexual de crianças em Cabo Verde

Nereida Carvalho Delgado prepara um solo sobre abuso sexual de crianças em Cabo Verde   Nereida Carvalho Delgado conta-nos um pouco do seu percurso no teatro que começa em 2004 com a companhia Fladu Fla, na Praia, sua terra natal. Muda-se para São Vicente, onde vai estudar Biologia Marinha e onde fica por nove anos, dando continuidade a formações de teatro numa associação italiana, na comunidade onde vivia, Ribeira de Craquinha. Está em Loulé, no contexto do Festival Tanto Mar, a fazer uma residência artística sobre um tema muito difícil mas com a urgência total em ser falado: a violência e abuso de crianças e adolescentes que, em Cabo Verde, dá-se muitas vezes no seio da família.

Cara a cara

27.05.2023 | por Marta Lança

A minha bandeira

A minha bandeira É com este espírito que continuarei a minha caminhada, agora enquanto emigrante de dupla condição: o que regressa mas sobretudo o que parte em busca de uma vida melhor. O que parte também no ensejo de um dia voltar. Se ca bado ca ta birado, como profetiza Eugénio Tavares no seu poema-canção, que hoje evoco, nesta hora di bai. E nada é mais crioulo do que isso.

Mukanda

05.05.2023 | por João Branco

Djam Neguim artista cabo-verdiano: “Só é possível um futuro em que todes existam de todas as formas”

Djam Neguim artista cabo-verdiano: “Só é possível um futuro em que todes existam de todas as formas” Náná é o sufixo de Funaná, uma dança e música com origens na ilha de Santiago, música forjada, sobretudo por homens no mundo rural onde as mulheres têm um lugar passivo. A proposta de Djam Neguim consiste numa distorção destas "normatizações" da cultura cabo-verdiana, ainda muito rígida. “Com o meu trabalho tento romper com estas representações folclóricas e turísticas”, refere na nossa conversa que aconteceu pelas plataformas digitais.

Cara a cara

28.04.2023 | por André Castro Soares

O neo-lusotropicalismo linguístico: críticas à lei que classifica a língua portuguesa como património cultural imaterial de Cabo Verde

O neo-lusotropicalismo linguístico: críticas à lei que classifica a língua portuguesa como património cultural imaterial de Cabo Verde orque num país de parcos recursos como Cabo Verde qualquer lei que sobrestime a língua portuguesa traduzir-se-á, com base num jogo de soma zero, na amplificação de obstáculos a real promoção e oficialização da língua cabo-verdiana. Dito de uma forma mais direta: qualquer recurso, simbólico ou material, canalizado à língua portuguesa traduz-se no correspondente que não é transferido a língua cabo-verdiana.

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26.04.2023 | por Abel Djassi Amado