E foi assim que o Brasil viralizou a garota congolesa que rebateu uma postagem infeliz de uma miúda que considerava uma vergonha a seleção de Portugal empatar com a da República Democrática do Congo, traduzindo (mesmo que involuntariamente) para o futebol a soberba da extrema-direita portuguesa que incorpora o discurso fascista para se autovalidar. Se os livros de história nos ensinaram que descendemos dos portugueses, agora a troca de informação global faz nosso sangue banto falar mais alto – o mesmo que nomeou o nosso futebol mu'leke e nos ensinou a, em comemoração, sambar. O preconceito e o ódio uniram o que a colonização separou.
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03.07.2026 | por Gabriella Florenzano
Cabo Verde tem uma relação muito concreta com os limites: repartir o que há, desenrascar o que falta. Num sistema que continua a identificar progresso com crescimento infinito - e das crises ecológica e social produzidas por esse mesmo modelo -, o talento de países pequenos e sem recursos como Cabo Verde, capazes de transformar sobrevivência em comunidade, é uma inspiração. Um modo de lutar por condições que talvez venha da experiência histórica de sobreviver à fome. Da prática de djunta mon - de partilhar mãos e recursos, inter-ajuda entre vizinhos, parentes e emigrante. A música, que transformou perda e dor em coisas bonitas. Das mulheres que sustentam praticamente a economia doméstica durante décadas de emigração masculina. Toda essa energia não se reduz aos diagnósticos e político-sociais-económicos e aos indicadores internacionais.
Vou lá visitar
24.06.2026 | por Marta Lança
Passadas as celebrações dos cinquenta anos de independência e conquistado esse lugar de respeito internacional, as interrogações internas são muitas. O que fazer com o sucesso democrático? A estabilidade é muito boa, mas não basta. A quem chega o crescimento e a prosperidade? Se há salários de trabalhadores hoteleiros que equivalem ao preço de uma noite nesse mesmo hotel, a quem beneficia afinal o turismo, a única indústria nas ilhas? Existe um pensamento estratégico sobre cultura ou esta tem sido tratada como mero ornamento? A língua materna continuará a ser tolerada como «língua dos afetos», institucionalmente secundarizada? Há condições para a juventude ficar nas ilhas ou segue no vapor di imigrason? A diáspora é apenas fonte de remessas e fábrica de saudades, ou será chamada a participar realmente na reinvenção do país?
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22.06.2026 | por Marta Lança
Eusébio é, simultaneamente, o melhor jogador moçambicano de sempre e o melhor jogador português de sempre. A nacionalização de Eusébio, com a sua transladação para o Panteão Nacional, só poderá ser uma matéria tensa. O melhor será devolvê-lo à grande comunidade mundial dos adeptos do futebol e não transformá-lo, mais uma vez, em património nacional.
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10.01.2014 | por Nuno Domingos
Atribuindo-lhe uma função supletiva, alguns dirão que o futebol ajuda a compor um quadro de normalidade num país avassalado pelo fantasma da resolução violenta dos conflitos políticos. Tal ideia não estará errada, mas pode igualmente sugerir-se que o futebol denota o pulsar quase normal de uma sociedade que parece viver à margem dos conflitos e absorvida num comunitarismo e numa solidariedade capazes de fazer com que os conflitos políticos sejam amortecidos nos contextos e dinâmicas da vida dos bairros populares. Na verdade, como que se evidencia um fosso entre as pendências e os processos políticos, por um lado, e o curso de actividades sociais, por outro, como se tais níveis não se intersectassem, o que, sabemo-lo, constitui uma impossibilidade. Ainda assim, a vida na cidade de Bissau parece absolutamente pacífica (tornando como que estranhas e/ou turísticas as aparições das patrulhas da ECOMIB) e o futebol corre livremente.
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05.04.2013 | por Miguel de Barros e Augusto Nascimento
À primeira vista este trabalho é sobre futebol e o modo como era praticado em Lourenço Marques – a maior cidade e centro administrativo da colónia portuguesa de Moçambique – na primeira metade do século XX. O trabalho interpreta o desenvolvimento do jogo, desde a fundação dos primeiros clubes formados por expatriados ingleses, passando pela organização em Moçambique de filiais de clubes metropolitanos como o Sporting e o Benfica, até à abertura deste clubes a membros de uma elite Africana, a maior parte deles mestiços, e à criação da Associação de Futebol Africana, com jogadores, na sua maioria, provenientes das classes trabalhadoras africanas que viviam na periferia pobre da cidade onde estes jogos decorriam.
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12.05.2012 | por Harry G. West
A presença do humor no jogo suburbano, considerava José Craveirinha, distinguia esta actividade desportiva de outras concepções de práticas físicas: «esses agregados de côr inebriam-se com a prática do desporto mas não como uma actividade de revigoramento físico; abstraem-se até desse conceito restritivo» (ibidem). Historicamente, o projecto de transformação do desporto num mecanismo de «revigoramento físico» desenvolvera-se na Europa pela tentativa de institucionalização estatal de uma dinâmica de contornos mais largos, típica das sociedades industrializadas e urbanas onde se expandiram novas práticas de lazer.
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12.05.2012 | por Nuno Domingos