Dar a mão à mãe

O livro da Paola D’Agostino acompanhou-me em dias menos apressados de verão, entre mergulhos, areia quente, o computador a fechar e a custo reabrir, e uma viagem da Rede Expresso, em dois dias, Lisboa-Lagos-Lisboa, para celebrar a primeira década da minha filha. Dez anos, até me dá vertigens!

Coincidiu ainda com o regresso a alguns textos antigos também sobre a minha procura, e chegada, à maternidade, que entretanto publiquei em Essas Pessoas na Sala de Jantar (Tigre de Papel, 2026). Num deles regfiro uma amiga moçambicana que morreu no parto da filha. Em países com elevadas taxas de mortalidade materna e infantil, como Angola ou Moçambique, “morrer para dar à luz” quase se naturalizou, mas continua a ser uma das maiores violências, e ironias, da história da humanidade. Um sacrifício quase divino. No caso da mãe da Paola, assumido com consciência; no da minha amiga, imposto pela desigualdade do lugar onde nasceu. Será sempre involuntariamente que uma mãe é atravessada por esta extração à vida. 

Outra coincidência: tenho pensado muito nas maternidades ao contrário. Nos momentos em que é a filha a cuidar da mãe, oferecendo-lhe tempo, corpo, voz, atenção, paciência. Quando a filiação muda de direção, mantendo-se a dedicação e cuidados a alguém mais vulnerável. Outro assunto ainda que me anda a ocupar são as contingências da “liberdade de escolha”. O que é isso de escolher realmente? Paola nasceu por uma “vontade determinadíssima de uma mulher que, nos limites da sua noção de liberdade, livremente me quis, doando-me a própria vida”. 

Bom, ler Ocupação da mãe neste verão talvez não tenha sido propriamente uma coincidência. Foi apenas a vida, essa grande montadora invisível, a colocar beleza e tragédia no mesmo plano. Mesmo escancaradas. Lia um pouco de manhã, outro tanto ao fim da tarde, sobretudo à noite, regressando ao livro com a sensação de que obedecíamos ao mesmo ritmo das marés, ou a alguma coisa mais antiga do que nós.

A escritora Paola D’Agostino é uma pessoa luminosa e doce com quem me vou cruzando pelas ruas, ou pelas janelas floridas, da nossa amada Lisboa desde que o querido Alberto Pimenta nos apresentou, lá no finzinho do século passado quando Paola, nascida em Itália, se mudou para cá. Especialista em Literatura Portuguesa Contemporânea, tradutora, editora, professora e autora bilingue, construiu uma obra que se move entre a poesia e a prosa, entre Nápoles e Lisboa, entre a língua herdada e a língua escolhida. Ao longo de livros como Largo das Necessidades, Este frio e outras histórias de amor ou Tancredi, o napolitano foi desenhando uma escrita muito própria, feita de deslocações, memória, acidentes das identidades e pertenças.

Essa biografia não aparece como mero pano de fundo da sua literatura. Pelo contrário, ajuda a compreender a singularidade da sua escrita. D’Agostino escreve sempre a partir de um lugar de fronteira, onde a tradução não é uma passagem entre duas línguas mas uma condição de existência. O português é menos uma língua de empréstimo do que uma casa construída lentamente, capaz de acolher histórias vindas de outra margem do Mediterrâneo. Há, na sua prosa, um ouvido particularmente atento às palavras, sonoridades escondidas na poética do léxico, como se cada idioma transportasse uma maneira diferente de recordar, de amar e de nomear o mundo.

Quando li Largo das Necessidades (Fenda, 2006) fiquei desde logo tocada pela forma amorosa como olhava Lisboa sem fazer da cidade um cenário, reconhecendo-lhe os conflitos, as contradições e as pequenas violências. Ainda estávamos longe da turistificação desenfreada e da cidade transformada em mercadoria, mas já havia naquele livro uma perceção muito fina das suas fraturas. Esse livro pertence à linhagem rara dos livros sobre Lisboa escritos por quem vem de fora e, justamente por isso, consegue vê-la de dentro. 

Lisboa está na nossa geografia afetiva tal como alguns amigos. Tivemos também uma grande amiga em comum, que morreu demasiado cedo, deixando um filho pequeno, o que também se prende com o tema do livro. Mas eu desconhecia este enorme e fundador assunto na vida da Paola, agora transformado em literatura. E que coragem a de pegar numa dor tão íntima sem a fechar sobre si própria, deixando-a abrir-se às histórias de muitas outras mães e de muitas outras filhas.

A premissa do livro parece simples e, ao mesmo tempo, totalitária. Uma mulher do sul de Itália, em 1975, interrompe os tratamentos de quimioterapia para levar a gravidez até ao fim, morrendo pouco depois do nascimento da filha. Cinquenta anos mais tarde, essa idade em que nos permitimos algumas das mais ousadas loucuras interiores, a filha regressa à história da mãe para reconstruir um diálogo que nunca chegou verdadeiramente a existir. Ocupação da mãe anda à volta desse vazio, escava cuidadosamente a margem desse buraco impossível. Especula sobre uma morte prematura que é, paradoxalmente, a condição da sua própria existência. Não procura apenas compreender quem foi Ida Maria, mas encontrar uma língua para poder escrevê-la. 

É também um livro sobre tudo aquilo que fica interrompido quando uma mulher morre demasiado cedo. Os gestos, as pequenas histórias familiares, as receitas, as zangas, as formas de amar, a relação com o desejo, os medos. E a narradora parece que ouve as perguntas que vamos formulando ao longo da leitura: Quem ensinaria a filha a tornar-se mulher? Quem lhe contaria como era aquela mãe antes de ser mãe? Como foi passar aquele bebé para os braços da irmã? Como continuou a vida dos familiares que ficaram?

Não ter tido uma mãe viva não significa não ter tido uma mãe. Significa viver acompanhado por uma presença da ausência, por uma herança feita de fragmentos, de silêncios e de narrativas emprestadas e imaginadas. É esse território que Paola D’Agostino habita. Não para preencher o vazio, para criar uma sensação de pertença muito própria. Ela que queria “saber porque nasci, se foi egoísmo ou incompetência”, como escreveu no seu diário. A brutalidade da pergunta acompanha discretamente todo o livro.

A autoficção tornou-se um dos territórios mais férteis da literatura contemporânea, sobretudo escrita por mulheres. Continua, ainda assim, a provocar alguma desconfiança, porque algum desse escrever sobre si roça o exercício narcísico, terapêutico ou ajuste de contas. Mas quando a autoficção encontra a sua melhor forma, deixa de ser um espelho e transforma-se numa janela, em que o “eu” deixa de ser destino para passar a ser um lugar de passagem. E tem uma espécie de verdade com a qual nos conectamos. É isso que acontece aqui. Paola escreve sobre si para conseguir escrever outra pessoa. A escrita não procura afirmar uma identidade mas construir uma relação que o tempo impediu. Não estamos perante uma memória recuperada, mas diante de uma memória construída com fotografias, documentos, vozes familiares, artistas que souberam inscrever as suas próprias perdas, dores, fragmentos dispersos e uma imaginação que nunca procura substituir os factos, apenas aproximar-se deles. Com muitas hipóteses.  A literatura aparece então como o lugar onde a verdade factual revela a sua insuficiência. Há experiências cuja verdade só pode ser alcançada pela imaginação. A mãe real morreu quando a filha tinha dois anos. A mãe literária pode finalmente falar.

A escritora italiana Paola escolheu escrever este livro em português, o que não é um apontamento biográfico. Tem algo de programático. O português passou a ser a língua capaz de acolher uma mãe que nunca o falou. Em vez de receber uma língua materna - uma “ficção negociada” como escreve - é a filha quem oferece uma língua à mãe. Penso na frase hiper-citada de Derrida: Je n’ai qu’une langue, ce n’est pas la mienne. Mas também em tantas histórias atlânticas feitas de migrações, traduções, desenraizamentos e reaprendizagens. Pessoas que vivem em línguas emprestadas. Que lindo inventar uma casa através das palavras.

O centro do livro não é nem a Paola nem Ida Maria. Mas uma ausência povoada por exercícios especulativos de ternura e de contexto social, cultural, político. Sobre uma das mil armadilhas de ser mulher: quando não era possível, ou ainda normal, escolher. Nos direitos reprodutivos, na doença. Envolve esse grande temas - a procriação, o aborto, o cancro - vítimas do contexto em que se vive .  O corpo que deixa de pertencer à mulher e é administrado pela religião, pela medicina, pela lei ou pela família.

A decisão daquela mulher, em Itália, em 1975, não pertence apenas à esfera privada. O seu corpo estava atravessado pela legislação sobre o aborto, pela moral católica, pelas expectativas em torno da maternidade e pela ideia de que uma boa mãe é aquela que sabe sacrificar-se. Antes de ser uma tragédia familiar, foi uma história inscrita num determinado momento histórico.

O livro é profundamente político, e nunca faz da política um discurso. Sem panfletos nem indignação performativa, Paola vai descobrindo como a biografia individual é atravessada pelas suas épocas e meio. A consciência de classe, a “normalidade burguesa”, o peso da Igreja, os silêncios familiares, tudo isso se vai revelando aos poucos, como se a autora retirasse sucessivas camadas de verniz a uma fotografia antiga. O corpo feminino aparece como lugar onde medicina, religião, direito e afecto disputam soberanias, mas o livro nunca fica prisioneiro dessa leitura. A política emerge como uma consequência da intimidade, nunca como um programa. O livro nunca fica prisioneiro de uma leitura ou tese, e além disso a sua prosa é suave e bem esculpida, numa inteligência e beleza das frases nada ornamentais. Há uma contenção muito italiana, não bem explicar o que é isto mas acho que entendem, talvez, mas também muito portuguesa, feita dessa consciência de que a dor não precisa de levantar a voz para nos ocupar. O livro emocionou-me sem dramatizar o sofrimento.

Há uma delicadeza na forma como convoca a fotografia, a pintura, Clarice Lispector, Pasolini, Calvino, Audre Lorde ou Francesca Woodman. As referências nunca servem para ornamentar o texto nem para exibir uma biblioteca. Fazem parte da investigação emocional da autora, ampliando a sua experiência. Como se só pudesse ser compreendida com a ajuda de outras vozes (é assim que nos tornamos mulheres, não é?). Às vezes é preciso uma biblioteca inteira para conseguirmos escrever uma única frase.

A escrita respiram, avança por fragmentos, aproximações sucessivas, pequenos círculos concêntricos. Não procura um clímax nem desenlaces ou uma revelação final de todo o seu mistério. Como a memória, regressa continuamente aos mesmos lugares, mas nunca da mesma maneira, nunca completamente certa de ter encontrado a margem dos mares que conta.

Pensei muitas vezes na água. No Mediterrâneo da infância da mãe e no Atlântico onde a filha acabou por construir a sua vida. Como se o mar fosse uma segunda língua. Ou uma língua franca anterior às línguas. Entre aquelas duas águas circulam pessoas e muitas perdas. A escrita de Paola D’Agostini é uma matéria líquida sem dominar correntes, a deixar-se conduzir por ela.

Fecho o livro um pouco mais acima do Atlântico, na praia da Parede. Ontem a minha filha veio do Algarve, hoje partiu para um acampamento onde vai ficar 8 dias sem família e a comunicar por carta. Observei-a a dormir naquele abandono absoluto que só as crianças conhecem depois de um dias muito inteiros de praia. O livro da Paola lembra-me de agradecer e celebrar aquilo que normalmente é garantido, mas nem por isso. Ter tido uma mãe que me acompanhou. Ter uma filha a acompanhar e o tempo que nos é dado partilhar. É impossível não pensar em tudo aquilo que a Paola nunca pôde fazer com a mãe. Tantas privações. Conversas que nunca tiveram. Desacordos diretos que não aconteceram. Os pequenas conflitos da adolescência que são o maior drama, as cumplicidades da idade adulta, os telefonemas banais, a velhice que Ida Maria nunca conheceu. Ocupação da mãe devolve-nos alguma coisa desse tempo impossível entre mãe e filha. Não o recupera, porque isso ninguém o pode fazer, mas concede-lhe uma segunda duração, e que generoso este gesto. “A escrita é o único lugar onde coisas e pessoas, e as ligações entre elas, existem para sempre.” O livro não resolve a perda, ao dar-lhe forma. Também não faz da literatura um consolo, mas resgatou um pouco do potencial de vida de um gesto absoluto. 

 

Ocupação de Mãe, Paola D’Agostino, Companhia das Letras, 2026. 

 

 

 

 

por Marta Lança
Corpo | 7 Agosto 2026 | cancro, corpo, maternidade, Paola D'Agostino, perda