Quando a música é Queer

Quando a música é Queer Qualquer tentativa de definir uma «música queer» no contexto português depara-se, desde logo, com uma realidade: não existe entre nós uma frente assim identificada. O que verificamos no tecido musical do país é a gestação de algo que, de uma forma ainda disseminada e desorganizada, anuncia uma tendência. Tentamos juntar as peças desse puzzle e compreender o que está a acontecer no exato momento em que ocorre e não a posteriori, algo que caracteriza, infelizmente, a musicologia. Como o que se vai ouvindo vem de muito distintos núcleos de criação, raras vezes com oportunidades de confluência (concertos nos mesmos espaços, por exemplo), de uma frente não se trata. A motivação para escrever este capítulo está na possibilidade de, juntando microrrealidades específicas, tentar revelar o que as une.

Corpo

05.09.2022 | por Rui Eduardo Paes e Alix Didier Sarrouy

Planta baixa do corpo alto

Planta baixa do corpo alto Em mil quatrocentos e qualquer coisa, ao desembarcarem de seus barcos usando suas pernas em território americano, humanos usaram seus braços para carregar até os barcos coisas que não eram suas, depois usaram seus barcos para levá-las embora. Fizeram este movimento de braços e barcos por séculos Acredita-se que os braços humanos podem ter processado um esticamento por excesso de uso

Corpo

02.08.2022 | por Manuella Bezerra de Melo

Danço-Congo na IX Bienal de São Tomé e Princípe

Danço-Congo na IX Bienal de São Tomé e Princípe Com o seu caráter original e “foco nos movimentos e falas, nas piadas de bobos, no ritmo dos tambores”, no Danço Congo “a história como um todo, assim contada pelas pessoas mais idosas, diluiu-se e deixou de ter importância.” Todos os participantes vestem-se a rigor, com destaque para os “capacetes feitos de banças de palmeira decoradas com coloridos pedacinhos de plástico.”

Palcos

30.06.2022 | por João Moreira da Silva

O Brasil é uma heterotopia

O Brasil é uma heterotopia Foucault identificava uma série de heterotopias de crise biológica, como chamou, e onde ele lia e inscrevia sociedades, como as sociedades ameríndias, nas quais o corpo ganha uma representação coletiva – a puberdade ou a primeira menstruação, por exemplo. Eu diria que nessas sociedades não se trata apenas de uma representação coletiva do corpo, mas sim da possibilidade de criar inscrições dignas do corpo no espaço comum. Enquanto nós ‘evoluímos’ para lugares onde as inscrições sociais dos corpos se fazem apenas pelo que queremos de fato excluir: assassinatos, estupros, violências, entre outros. Ou seja: o desprezo e o controle sobre os corpos são a marca política característica das sociedades ocidentais. São elas mesmas que criam a lista dos desvios e o modo das transgressões. Os indesejáveis e os descartáveis.

A ler

16.06.2022 | por Ana Kiffer

Moradores da rua: vulnerabilidade social e a insistência de vida

Moradores da rua: vulnerabilidade social e a insistência de vida Em resumo, os moradores de rua localizam-se territorialmente, sobretudo, através do seu corpo. Por um lado, suportam as mazelas físicas e morais impressas pelas interdições à sua presença, sofrem uma tensão latente que encurva e amarra seus movimentos, comprimem os corpos de maneira a caber nos interstícios e espaços ociosos dos quais se apropriam. Por outro, desviam-se dos obstáculos, moldam técnicas corporais de sobrevivência, demarcam lugares de intimidade, arranjam maneiras de saciar suas necessidades corporais, tornam-se miméticos do espaço acomodando a sua presença à paisagem urbana, criam visibilidades desnorteantes quando necessitam se fazer notar. Essa corporalidade pressupõe resistência à sua eliminação. E se não existe tenacidade possível na manutenção de uma propriedade material, há na forma de preservar sua existência material e simbólica. A subjetividade garantindo o corpo vivo.

Cidade

05.06.2022 | por Simone Frangella

Companhia de Dança Contemporânea de Angola | Temporada 2022

Companhia de Dança Contemporânea de Angola | Temporada 2022 Na sua Temporada de 2022, a Companhia de Dança Contemporânea de Angola apresenta ISTO É UMA MULHER?, uma criação conjunta de Ana Clara Guerra Marques e da coreógrafa Irène Tassembédo do Burkina Faso. Esta peça convoca o público à descoberta, desafiando-o a confrontar-se consigo próprio e a envolver-se num universo onde, em cada pergunta e em cada resposta, existe uma probabilidade de razão. Não se pretendem apresentar soluções, muito menos se tenciona homenagear, exaltar, mostrar compaixão ou assumir qualquer lugar comum, pretendendo-se apenas integrar a construção de um lugar humanizado e evoluído onde ser Mulher já não cabe nos paradigmas do passado.

Palcos

16.05.2022 | por vários, Ana Clara Guerra Marques e Irène Tassembédo

Políticas antigênero em contexto pandêmico na América Latina: um voo de pássaro

Políticas antigênero em contexto pandêmico na América Latina: um voo de pássaro Os estudos compilados nessa coletânea oferecem uma atualização do cenário das políticas antigênero na América Latina, desde 2019, quando foram finalizados os estudos do ciclo anterior. Essa nova rodada contempla sete países (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador e Uruguai) e o ambiente da OEA. Essa atualização foi examina a interseção entre as ofensivas antigênero e antiaborto e as condições decorrentes da pandemia de COVID-19. Esse exercício, assim com no caso dos estudos anteriores, exigiu a análise de outras dimensões do contexto regional.

Corpo

07.04.2022 | por Sonia Corrêa e Magaly Pazello

Violência contra comunidade LGBT+ na América Central

Violência contra comunidade LGBT+ na América Central Cabelo liso caindo atrás dos ombros, camisa às riscas brancas e castanhas acinzentadas, lábios pintados de carmim. Braço apoiado numa mesa com uma toalha de renda branca e uma jarra de flores de plástico. Olhos fixos num ponto alto invisível. Fundo de tábuas brancas em ângulo com uma parede verde. Respondia à pergunta: “Quem é Thalia?”. “Thalia é respeitada. Uma das coisas mais lindas que buscamos nesta vida é amar e ser amada. Que alguém te queira pelo que és. Thalia liberta. Somos fortes, também frágeis e débeis, mas somos implacáveis, somos duras.” Quando os paramédicos da Cruz Vermelha chegaram ao casebre, a ativista já não vivia. Uma onda de protestos e manifestações varreu de imediato as Honduras. “Justiça!”.

Corpo

01.02.2022 | por Pedro Cardoso

Cenas do Gueto I Bráulio dança

Cenas do Gueto I Bráulio dança O corpo é rítmico e balança ao sabor da música rap. Os sentimentos de felicidade e liberdade acompanham a performance de Bráulio Pitra, que nem o ruído do avião é capaz de conter.

Afroscreen

30.11.2021 | por Otávio Raposo

Isto é o meu corpo

Isto é o meu corpo A história de consumo do Outro, foi fulcral para garantir à igreja um plano estratégico de massacre da carne negra, uma carne amaldiçoada pelo olhar diabólico do mundo europeu com a marca de Caim que só seria expurgada através do trabalho servil, da entrega de si ao serviço do outro. Um corpo carne, um corpo máquina, um corpo deforme, um corpo de talho, pronto para um consumo voraz. Um corpo que serviu de suporte para manter toda a produção da sociedade europeia. Um corpo que ainda serve como cargueiro forte para elevar prédios, construir mansões ou servir de deleite sexual. Um corpo que é ainda é alvo, Um corpo sem política. Um não-corpo.

Mukanda

23.09.2021 | por Rodrigo Ribeiro Saturnino (ROD)

O corpo preto na narrativa de ser mulher: estado da questão em Portugal

O corpo preto na narrativa de ser mulher: estado da questão em Portugal Corpos que se levantam diariamente às 4 da manhã; corpos invisíveis numa sociedade onde são a base da pirâmide; corpos que sofrem diariamente violência obstétrica por serem consideradas “não merecedoras” de um direito fundamental; corpos que deixam os seus filhos sem amparo todos os dias em busca do sustento; corpos sem direito a lazer devido a insuficiência económica; corpos que sofrem diariamente múltiplas opressões e agressões, corpos incapazes de cuidar da sua saúde mental, uma vez que é esperado deste corpo força, destreza e resiliência.

Mukanda

24.05.2021 | por Neusa Sousa

O corpo por vir

O corpo por vir Historicamente, os artistas têm combatido criticamente as doenças e os preconceitos na sua prática, com vista a alterar dinâmicas institucionalizadas. Num momento em que epidemias, o capitalismo e aquecimento global ameaçam todas as formas de vida, queremos interrogar os modos como as diferenças e as formas de vulnerabilidade dos nossos corpos são capturadas em categorias estruturantes das relações sociais, criando estigmas que moldam percepções normativas. Vamos debruçar-nos também sobre a forma como essa mesma vulnerabilidade implica inevitavelmente a interdependência das nossas existências. Quais são as coreografias de solidariedade e cuidado?

Vou lá visitar

10.05.2021 | por vários

“Ser mulher é como correr a maratona no deserto mas o chão é revestido de arame farpado, está em chamas e estamos descalças”

“Ser mulher é como correr a maratona no deserto mas o chão é revestido de arame farpado, está em chamas e estamos descalças” Já mais tarde, com 13 anos, e ao entrar numa nova escola e ciclo comecei a deparar-me com padrões de beleza femininos irrealistas. No entanto, para mim e para a maioria das raparigas, não eram irrealistas. Ter uma pele perfeita, olhos verdes num dia e no outro roxos, o cabelo loiro puro e umas ancas largas mantendo uma cintura de 3cm era possível! E sem as tretas do Ómega 3. Claro que não eram precisos os milagrosos produtos por apenas 49,99€ o comprimido, existia algo ainda melhor e - atenção, atenção - gratuito! O photoshop.

Corpo

24.03.2021 | por Alícia Gaspar

Para lá do plátano

Para lá do plátano         O meu otimismo pode ser desconcertante, desconfortável, incompreensivo, pode deixar mais dúvidas que respostas mas é por aqui a minha confiança, segurança, os meus alicerces como resposta ao desafio que a vida me colocou. Tenho confiança, por olhar para o lado, para o passado, de que a tendência é dos corpos melhorarem; bem e mal cruzam-se mas o olhar e a sua vontade levam a ver em tudo ganhos e, nos passos atrás, ganhar balanço para dar dois à frente.

Corpo

21.02.2021 | por José Maria Belo

“A mãe está calada!” O que revelam as experiências de parto das mulheres?

“A mãe está calada!” O que revelam as experiências de parto das mulheres? A violência obstétrica é considerada uma manifestação de violência estrutural de género e, para a entender, é necessário olhar para mecanismos sociais e culturais mais vastos que desvalorizam a mulher, colocando-a numa posição subalterna. A ideia de que o corpo feminino necessita de correção tecnológica para parir é intrinsecamente sexista. Segundo esta perspetiva, o corpo parturiente desafia a ideia de feminilidade normativa, sendo necessário discipliná-lo para que volte a ser bem-comportado e submisso.

Corpo

20.12.2020 | por Catarina Barata

O corpo e os seus percalços

O corpo e os seus percalços apesar de hoje tantos de nós escreverem ao computador, anestesiados em relação à sujidade, logo esquecidos das emendas, escrever é mais parecido com andar, nadar, dançar e carregar sacos de compras do que com as coisas que não envolvem o corpo e os seus percalços: e é uma pena que corramos o risco de o esquecer, nos nossos escritórios arrumados, diante de ecrãs em branco, sem sombra do nosso rasto de papéis.

Corpo

25.11.2019 | por Djaimilia Pereira de Almeida

O corpo contra o Capital: uma breve estória da Itália de hoje

O corpo contra o Capital: uma breve estória da Itália de hoje Cattelan questiona, a partir da inserção do corpo na política de elisão corporal do capitalismo financeiro, justamente a possibilidade de democracia frente ao sistema que vive bem ali na Piazza Affari em Milão: A sociedade de controle por si. Um questionamento da possibilidade de concretização da concepção agambeniana de que o nomos de nossa sociedade contemporânea é o campo de concentração.

Corpo

14.08.2019 | por Allende Renck

Veio o tempo em que por todos os lados as luzes desta época foram acendidas

Veio o tempo em que por todos os lados as luzes desta época foram acendidas A luz negra, que havia encarnado em tudo com toda intensidade, foi aos poucos escorregando por entre os cantos do labirinto, banhando nosso corpo e se cravando outra vez no profundo. Estivemos ali por muito tempo, cozinhando junto com a terra. Pouco a pouco, à medida que nossos corpos foram recuperando o acesso às pernas, decidimos nos separar e mover pelo labirinto de túneis, a tentar captar as repercussões do nosso ataque, e estudar as implicações do que havíamos feito.

Corpo

26.11.2018 | por Jota Mombaça

Cumplicidade: constelação possível

Cumplicidade: constelação possível Tal como muitas de nós — muitas de nós que temos ocupado várias ordens de solidão — procuro cúmplices. E quando digo que procuro cúmplices, quero dizer que procuro corpos falantes e significantes que, empáticos antes de simpáticos e implicados antes de similares, procurem, de forma conjugada entre si, lançar-se ao conjunto material e comunitário do mundo, correr o risco mal-calculado de uma vulnerabilidade imprevisível, e exercer muita, muita pressão sobre o conceito da justa medida.

Corpo

13.10.2017 | por Daniel Lourenço

Quase XX anos depois

Quase XX anos depois O machismo e a violência de género nos comportamentos de homens e mulheres portugueses é resultante de forças perenes de inculcação dos modos de ser homem e mulher guiados pelas estruturas discursivas do poder. Depois da leitura deste livro, espero que não restem dúvidas acerca das raízes de uma ideologia perfeitamente devastadora em relação ao papel de cão de guarda atribuído à mulher, nada mais, nada menos que uma mulher-ser-silêncio. Essa ideologia não esteve – em absoluto – centrada no Estado. Foi promovida por muitos outros sectores da sociedade e contou com uma forte regulação intra-género, mas onde é possível encontrar resistência também a partir do Estado.

Mukanda

27.03.2017 | por Inês Brasão