Baralho de Cartas 4

Baralho de Cartas 4 Sentirmo-nos mentalmente disponíveis, o que é isso? Talvez o suficiente para entrar pela casa das pessoas a dentro... Não num gesto voyeur, antes como quem se senta à mesa e tem uma conversa franca, encontra os aliados e reconhece neles o mesmo desejo de sair das mumificações do espírito. É sempre em alianças, mais ou menos contingentes, que vou resistindo à aniquilação da mente, que tento «matar o Anjo da Casa», de que fala a Virgínia Woolf para recusar uma certa domesticidade que ainda aprisiona, e quanto!

21.01.2026 | por Marta Lança

Baralho de Cartas 3

Baralho de Cartas 3 O mundo estilhaçou-se, quebrou-se em bocados, como uma esfera de cristal derrubada por um demónio. Reconhecê-lo não é um gesto de inação, nem de tristeza acabrunhada, é identificar como nos isolamos uns dos outros, como se separam as coisas umas das outras, ao ponto de não querermos saber, de não vermos, nem a miséria, nem o sofrimento, inscrito em cada uma delas. As relações criadas neste espartilho são desonestas por defeito. Os empresários de si próprios usam a língua como um instrumento, um ardil, a comunicação só procura efeitos decididos à partida.

14.01.2026 | por Ricardo Norte

Baralho de Cartas 2

Baralho de Cartas 2 Continuo a preferir a intensidade das experiências fora dos sets espectaculares e das redes virtuais. Carne com carne, cornos com cornos. Aliás, é cada vez mais sinistro, e meio bizarro, assistindo às trincheiras ideológicas, nichos de gosto, vigilância e algoritmização da vida, sabendo que estamos a dar tanto guito e informação aos oligarcas tecnológicos, o facto de permanecermos nos adornos virtuais. Como é que ainda nos damos ao trabalho de convencer, seduzir; expressarmos o que quer seja por essa via de “partilha”? Uma das nossas grandes contradições, mas a verdade é que este disparo assim de missivas, para sei lá que destinatários, é meio viciante.

07.01.2026 | por Marta Lança

Baralho de Cartas 1

Baralho de Cartas 1 Não sei defender-me de mim mesmo, embaraço-me com o sono, na dormência da objectividade. As relações pessoais têm a aparência de coisas. Estamos numa relação falsa, enganosa com os outros e com o mundo. No imediato estamos mergulhados nas seduções artificiais que produzimos. As fugas para o imediato não fazem senão dissolver os dias em noites e adiar as noites por vir.

02.01.2026 | por Ricardo Norte

A Encenação Cultural (O Globo)

A Encenação Cultural (O Globo) “Deixei de poder carregar, de mão em mão, o leite da cabra, vindo das montanhas agrestes. A couve. Brassicaceae. Para alimento dos órfãos. O milho. O arroz.O feijão e o tomate, para o manuseio das mulheres. O algodão, para o aconchego dos filhos. A cabeça de boi, para pagamento das dívidas e os reservatórios de combustível… E até o veneno alegre da embriaguez, que me tirava da lucidez, deixou-me, dia após dia, por causa da miséria do meu tempo.”

31.12.2025 | por Indira Grandê

A indecência funcional e a violência discursiva na era pós-colonial

A indecência funcional e a violência discursiva na era pós-colonial A indecência política é, por isso, uma forma de analfabetismo moral deliberado. Ela não falha em compreender. Recusa simplesmente compreender, porque sabe que a incompreensão rende mais. E aqui, justamente, um olhar histórico mais longo, como o de Norbert Elias – um sociólogo alemão – ajuda-nos a compreender a profundidade desta regressão. No processo civilizacional, Elias mostra que a sociabilidade moderna assenta na internalização gradual do autocontrolo dos afectos. A boa educação não é ornamento, mas sim uma espécie de tecnologia de convivência. É através da contenção dos impulsos, da modulação da agressividade e da capacidade de adiar a resposta emocional que os indivíduos se tornam socialmente fiáveis. A civilidade é, neste sentido, uma conquista frágil, sempre ameaçada e sempre em disputa. Mas o projecto colonial europeu introduziu uma distorção decisiva que consistiu nos colonizadores exigirem de si elevados padrões de autocontrolo na relação entre pares europeus, mas suspenção desses padrões na relação com os povos colonizados.

09.12.2025 | por Elísio Macamo

Um sonho verde

Um sonho verde Penso nas pessoas talentosas que não têm acesso aos holofotes do mundo e que, no seu quartinho à noite, inventam músicas ao violão, e que por vezes em cima de escombros e entulho, ou entre paredes partilhadas com famílias inteiras, esboçam a lápis a sua visão. Que por falta de dinheiro, saúde, ou oportunidade, jamais terão uma plateia. Que paisagens percorrem as suas mãos quando tateiam o escuro? Que navios e estrelas, fogueiras e catedrais povoam os seus sonhos neste preciso momento? E penso nestes macacos que observei, fêmeas que migram e vagueiam durante anos isoladas na floresta, a quem foi roubado o direito de ter uma família. Com o consolo de saber que a natureza é a verdadeira guardiã do tempo, será somente ela a trazer a lava para cobrir as mãos, e a fazer vingar de novo o verde sobre o asfalto.

12.11.2025 | por Rita Brás

Diário de um etnólogo guineense na Europa (dia 16)

Diário de um etnólogo guineense na Europa (dia 16) O que é fascismo hoje? Se fosse só autoritarismo, então o regime do Nicolau Imaturo, do Jinpingpong, do Merdogan, do Filha-da-Putin, do Jennifer Lopez Angolano, ou do Chefe-Único, entrariam na lista. A veneração do líder pela massa que antes também uma marca, hoje é difícil destrinçar nesta sociedade de autocultuamento. O Chefe-Único, todavia, faz questão de ter a sua foto em todas as instituições e espaços públicos. E o Vaticano? O tio Paulo Bano disse-me: “O fascismo fala da pátria, o nazismo da raça, o Vaticano da fé, mas é tudo para ajoelhar e obedecer. O Vaticano não manda matar, só fecha os olhos e reza pelos mortos, e depois absolve os vivos, em nome do perdão.”

29.09.2025 | por Marinho de Pina

Ação "Salazar Caiu"

Ação "Salazar Caiu" É evidente que os regimes totalitários se baseiam na censura, estetizam os heróis e as narrativas metafísicas. O «Partido dos Mortos» realizou performances no forte de Santo António da Barra e na rua que ainda hoje se chama Doutor Oliveira Salazar. Curiosamente, 51 anos após a Revolução das Cravos, em Portugal, mais de 17 topónimos têm o nome de Salazar e mais de 700 têm nomes de figuras do regime do Estado Novo. O que fazer com essa memória política? É necessário demolir monumentos e renomear nomes geográficos? A questão é complexa, mas a situação atual exige claramente reflexão e comentários.

04.08.2025 | por Partido dos Mortos

O cansaço das peças

O cansaço das peças Voltamos a ser encarados como nos primórdios, como nos forçaram a pretender ser E vem o peso do cansaço, e vem a força do tempo relembrar que lá foram nos buscar para agora nos quererem expulsar. Exaustos sim, cansados sim e resistimos. Voltamos a ser peças que em nosso nome. que em nome dos idos, se elevam resilientes

19.07.2025 | por Telma Tvon

Ações na Feira do Livro contra o Genocídio em Gaza

Ações na Feira do Livro contra o Genocídio em Gaza Na tarde do primeiro dia, o grupo promotor da carta - pessoas que fazem livros, tristes pela falta de iniciativas contra o genocídio em curso - montaram uma banca onde trocaram as suas obras pelo montante que as pessoas quisessem dar. Fizeram-se 1000 euros que reverterão integralmente para a Watermelon Relief, uma organização que continua a resistir na Palestina, prestando auxílio humanitário com distribuição de refeições e outros cuidados. Imagine-se o apoio que se poderia recolher em ações continuadas promovidas pela organização da Feira do Livro.

15.06.2025 | por várias

O Estado do Medo

O Estado do Medo Por isso sim, se acreditas num mundo mais justo e queres ser activo nessa transformação, és uma ameaça a este Estado. Quase que basta apenas seres um cidadão preocupado. Elencos, músicos, imigrantes, negros, assistentes sociais, mulheres, anti-fascistas, transeuntes, trabalhadores, jornalistas, queers, militantes, artistas; somos todos ameaças a este Estado; e é também aí que entra a impunidade à extrema-direita: ela é instrumental e o braço armado deste Estado de coisas, para nos impor o medo e meter-nos na ordem.

15.06.2025 | por António Brito Guterres

Canto ao seu Amor Desaparecido

Canto ao seu Amor Desaparecido Um poeta encarnando o seu poema pode abrir mil catarses no peito de um desprevenido. Assim foi com Raúl Zurita, chileno, resistente, e o brutal “Canto ao Seu Amor Desaparecido” em eco num auditório mexicano feito lágrimas. Olhos perdidos, embarquei nessa viagem angustiante por uma necrópole poética onde habitam os mortos e desaparecidos do Chile e do Sul. Os de ontem e os de hoje.

02.06.2025 | por Pedro Cardoso

Capitanias Desnecessárias

Capitanias Desnecessárias Em Portugal, sabe-se tudo sobre o Brasil e no Brasil, fora a época das invasões, a sardinha, o bacalhau e os lindos azulejos, sabe-se quase nada de Portugal. Ah, tem o Cristiano Ronaldo, mas relativamente pouca gente dá grande importância. Se sairmos nas ruas de qualquer cidade de qualquer região do Brasil e perguntarmos se conhecem a Amália, por exemplo, quase ninguém vai conhecer – o que é uma grandíssima pena. E, por causa disto e da real discriminação que a população de imigrantes (e mesmo turistas) brasileiros sofre em Portugal, impulsionada pela crescente da extrema-direita que legitima tudo o que há de podre no comportamento humano, criou-se um movimento de reação através daquilo o que o brasileiro faz de melhor: a zoeira.

22.04.2025 | por Gabriella Florenzano

Migro, logo existo

Migro, logo existo Mas a cor é um território. A sexualidade, território. A crença, território. O corpo, território. O género, território. A memória, território. A dança, território. O cabelo, o sonho, o luto, a trauma (seja lá o que isso for), a língua e a linguagem, são todos territórios. Territórios, não propriedades privadas. Mas queremos colocar fronteiras, colocar linhas e marcas em tudo, apesar de todos vivermos em migrações constantes.

14.04.2025 | por Marinho de Pina

Ainda estamos aqui, com a nossa metodologinga

Ainda estamos aqui, com a nossa metodologinga Com quantas palavras se compra a representatividade étnico-racial na produção de conhecimento, de arte, e de cultura? Quantas são necessárias para barrar o tokenismo e o epistemicídio em curso? Para quando uma justiça distributiva onde o financiamento científico e de formação avançada beneficiem realmente aquelas pessoas, grupos e culturas historicamente escamoteados?

04.03.2025 | por Gessica Correia Borges

Arder no Gelo - pré-publicação

Arder no Gelo - pré-publicação Arder no Gelo é a mais recente novela do jovem multipremiado escritor moçambicano Mélio Tinga, fruto de uma residência literária em Portugal. A prosa de Mélio tenta chegar aos confins da alma para descrever o indiscritível. Um livro feito de sensações que pode definir-se numa da suas diatribes: “És como o pássaro que levaste na gaiola, com a decidida intenção de deixá-lo voar (mas está ainda ali, pendurado). Atiraste-te à rua, infestada de tudo que te foi diluindo. Viver a fugir do vento e do sol. Esbofetear o mundo e entrar para esse teu planeta geométrico, poligonal, imóvel.”

26.02.2025 | por Mélio Tinga

Fogo Amigo - parte 2

Fogo Amigo - parte 2 O amor – e quando falo de amor também estou a falar de amizade – é político muito para lá desta ideia negociada das contrapartidas, de uma gestão do que se ganha e se perde numa relação de amor, apesar de não haver nada errado com as expectativas de que se ganham coisas numa relação de amor (e se perdem), ou das escolhas que fazemos, conscientes, sobre quem queremos manter na nossa vida. Porque aquela primeira efervescência que nos empurra para o sujeito da nossa admiração pode ou não ser desenvolvida. Pode ou não ser trabalhada: à semelhança das festas do divino, como propõe João Leal, o amor dá muito trabalho.

15.01.2025 | por Patrícia Azevedo da Silva

Não nos encostem à parede

Não nos encostem à parede O que aconteceu a 19 de Dezembro, na rua do Benformoso não é um caso isolado, mas não é por isso que não deixa de ser inadmissível. As centenas de pessoas que se mobilizaram para protestar contra o sucedido, sabem que a repressão aos imigrantes e aos trabalhadores mais desfavorecidos implica a criação de uma sociedade menos livre e mais injusta. Por isso centenas de pessoas e dezenas de organizações apelam para que no próximo sábado, dia 11 de janeiro, milhares de pessoas se manifestem em Lisboa. As suas palavras são claras.

08.01.2025 | por várias

A Morte do Meu Pai

A Morte do Meu Pai Lembrei-me dos momentos que passei com o meu pai, de cada segundo que fui seu filho. Considerei-os insuficientes. Culpei-me por não ter feito tudo que estava ao meu alcance, culpei-o por não ter feito o seu papel de pai, um turbilhão de pensamentos atormentadores. Algumas das minhas habilidades estavam adormecidas como um cadáver na gaveta de uma morgue. Não conseguia ouvir quase nada, além de mim mesmo. E quando senti que finalmente apanhei sono, escutei o azan da mesquita da Malhangalene. Allahu Akbar (Deus é grande), gritava, através de um funil para despertar os crentes para a primeira oração do dia.

05.01.2025 | por Jessemusse Cacinda