Em nome da fraternidade e da solidariedade histórica, ativa e combativa

Em nome da fraternidade e da solidariedade histórica, ativa e combativa O relatório denuncia ainda perseguições políticas, repressão policial e um clima generalizado de impunidade, incluindo detenções massivas e restrições ditatoriais ao espaço público. O espancamento e assassinato de pessoas que se erguem para denunciar este sistema tornaram-se parte do seu modus operandi. “Pensar pela própria cabeça e agir para transformar”, ensinamentos preciosos deixados por Cabral, parece ter-se tornado um crime de lesa-Estado na República da Estrela Negra.

16.04.2026 | por Apolo de Carvalho, Alexssandro Robalo, Sumaila Jaló e Yussef Marta

Baralho de Cartas 16

Baralho de Cartas 16 “O 'novo normal' é lidar com cataclismos”, dou por mim a dizer às crianças, como se lhes explicasse que não têm outra hipótese senão preparar-se para os possíveis fins. De qualquer coisa, por ora ainda abstrata, que morre devagar. Talvez desta ilusão de vivermos num mundo dominado pela paz, desenvolvimento e progresso. Longe de mim passar-lhes a cultura do medo, da culpa e de qualquer forma de ansiedade, nem a climática. Mas como se faz para transmitir a mensagem que a sociedade está profundamente assente em desigualdades e, ao mesmo tempo, dar-lhes esperança?

14.04.2026 | por Marta Lança

Baralho de Cartas 15

Baralho de Cartas 15 Como falámos nas primeiras cartas, imaginar o futuro é difícil. Um dos maiores empecilhos é que para chegar a ver certas coisas é preciso estar num estado que deixa aparecer o que já estava à nossa frente, senão, nem as conseguimos imaginar. Só depois da mutação é que conseguimos ver o que até aí nunca nos passaria pela cabeça. Rouch fala nisso, diz que o que muitos colegas chamam o milagre do encontro, a descoberta, é o resultado de uma longa preparação. A razão de termos conseguido colocar a questão certa, deve-se a uma mudança de posição. Como fazer então para caçar esse Leão do futuro?

07.04.2026 | por Ricardo Norte

Baralho de Cartas 14

Baralho de Cartas 14 É melhor ir aprendendo a lidar com as perdas avassaladoras sem nos escancararmos todos, até porque a vida, desde há uns anos, perdeu o travão e os natais e verões sucedem-se sem recuperarmos convenientemente, nem dá tempo para cumprir as promessas de fim de ano. Espero ainda atravessar um enorme manto desconhecido. Façamos o luto para as pessoas não nos ficarem entaladas. Conforta-me pensar que a morte de uns dá origem a novos sinais. Não numa relação causa-efeito, mas associo secretamente os gestos potenciadores que me aparecem a pequenas recompensas do nigredo. Ateia me confesso a encontrar respostas no divino…

01.04.2026 | por Marta Lança

Baralho de Cartas 13

Baralho de Cartas 13 De abril contaram-me o medo que tiveram, de irem buscar o meu irmão às Belas-artes. De África nunca se falou, e o comunismo era um monstro que os assustava. À sexta rezavam o terço com a aldeia na garagem. Havia uma mesquinhez senhorial no uso da religião. Talvez exagere, mas, fazê-lo é hoje parte da minha liberdade, a sua conduta orientava-se no repúdio ao diálogo. Só me resta falar com sombras, elas inclinam-se sempre para os exageros. Era demasiado novo para que fosse simples. O meu pai tirou um bacharel de engenharia, escapou-se às cabras e às ovelhas, e fez uma vivenda sobranceira, como as nortenhas dos emigrantes, numa aldeia perto das Caldas. Da vida com os animais ficou um galinheiro e um porco que se matava uma vez por ano. Cresci numa bolha de incenso. Fizeram da pobreza uma culpa, isso amargava os grelos no quintal. Não eram ricos, tinham mais coisas do que os pais deles, e uma mudez que os amedrontava. O que me salvou, uso o verbo em contra-mão, foram os montes e os pinhais. Os diabos que os habitavam, os bichos de fagulhas no pêlo. Mas era um mundo silencioso, tecido de breu e olhares esquivos, não foi aí que aprendi a falar.

25.03.2026 | por Ricardo Norte

Cova

Cova “Tentação” da Gama, em alto e bom som. Fiz de tudo para não gostar de quizomba, mas é engraçado que a essa canção nunca consegui resistir. Eu subia para o piso mais alto. Papas de milho da avó Eva — umas gotinhas de limão e estava a andar. Descia para o piso inferior. Um cheirinho a detergente de lavanda. Tenho a sensação de que estavam sempre a limpar o chão. A minha tia Titina. Gostava que tivesse sido ela a minha madrinha.

19.03.2026 | por Lara Guimarães

Baralho de Cartas 12

Baralho de Cartas 12 Dos que emigraram a salto, da libertação dos presos de Caxias, da reforma agrária, dos regressados do exílio com entusiasmo, dos regressados de África com uma mão à frente outra atrás. Todas essas histórias do tempo dos nossos pais. Contaram como se obviamente fosse gente solidária, lutadora, do lado bom da história. Contaram tudo isso num certo paternalismo levemente ressabiado. Que não iríamos aguentar as privações, privilegiados e afortunados, utentes de uma liberdade concedida e não conquistada, que espezinhamos, da qual até nos entediamos, pós-utópicos a pensar nos pós-humanos e nas sabedorias ameríndias sem lutar por vida melhor aqui mesmo, no nosso corpo, na nossa casa, na nossa cidade e mundo.

15.03.2026 | por Marta Lança

Baralho de Cartas 11

Baralho de Cartas 11 Abrimos túneis com dinamite nas cordilheiras terrestres, furamos a pedra com gigantes berbequins, mas não há pólvora que nos permita atravessar esta serrania. A Agustina diz que são duas ideias incompatíveis, a de homem e a de mulher, que a incompatibilidade obedece a uma técnica de travagem. Há fronteiras que os nossos amados comboios não atravessam, e, apesar dos mitos de fusão, ainda bem que não o fazem. É esse penhasco que peia o fogo que galga o monte desenfreado. É um país que se esconde na outra vertente do desejo. Atiro-lhe pequenas anotações em papéis amarrotados.

11.03.2026 | por Ricardo Norte

Baralho de cartas 10

Baralho de cartas 10 A Júlia não é uma miúda adorno bonitinho, de franja curta, que liam textos filosóficos para homens mais velhos no Cinema Novo. Talvez tenha uma leve fragrância de Rivette, a voz altiva da Janis Joplin, magreza da Pj Harvey, atrevimento Björk, qualquer coisa do tem-te-não-caias da Alice e da Etelvina, mas não lhe deve faltar futuro e talvez até desenrasque dinheiro.

02.03.2026 | por Marta Lança

Baralho de Cartas 9

Baralho de Cartas 9 Não sei se os insectos sonham, mas os meus cães passam mais tempo desse lado do que do lado de cá. No nosso caso, não é só a dormir que sonhamos, construímos um universo mental que nos protege da realidade. O real morde, rompe, volta, e esfrangalha a visão total que tínhamos do mundo. De repente, dou-me conta dos fragmentos, dos buracos, da vacuidade do que sabia.

24.02.2026 | por Ricardo Norte

Baralho de Cartas 8

Baralho de Cartas 8 Morar perto da estação facilita a elaboração de planos de fuga. Todos os dias me ocorrem, ainda que conforte a agitação nas imediações da estação. Tantos destinos marcados e apressados, até os indigentes parecem ter um desígnio cinematográfico neste décor de fim da linha junto ao rio. As vozes roucas de homens encostados ao balcão, que pausam na tasca para chamuças e imperiais, dão alguma raíz ao universo enquanto comentadores na tv permutam argumentos sobre o Hamas, e o martelo da guerra-mundo nos estilhaça os ossos.

17.02.2026 | por Marta Lança

Crânio Impromptu ( Poesia e Fotografia ) ___ Fim da Trilogia do Mato ____

Crânio Impromptu ( Poesia e Fotografia ) ___ Fim da Trilogia do Mato ____ São poemas concebidos sobre destroços sonoros do corpo oriundos da negrura trágica do DrumN'Bass, do Trance, do Jungle, ou do Free Jazz. São poemas construídos como ruídos e anomalias de corpos negros, entre pesadelos eróticos, feridas surreais, e gritos políticos. Torrenciais jorros de memórias enlameadas por angústias da máquina infernal de sonhos dos trópicos. Talvez esses poemas sejam uma tentativa de responder à pergunta – a Poesia pode salvar-nos?

16.02.2026 | por Brassalano Graça

Baralho de Cartas 7

Baralho de Cartas 7 Com dizias na tua carta, os dias são fogosos, talvez andemos a brincar aos pirómanos. O vaso partido, não é apenas uma cidade que se desagrega, a dispersão ganha um encanto musical, como uma fuga de Bach, as coisas perseguem-se como melodias, entrançam-se umas nas outras. Cheguei ao café onde tínhamos combinado, o tempo passou como um foguete. Não te vou enfadar com conversas de enamorado.

11.02.2026 | por Ricardo Norte

Baralho de Cartas 6

Baralho de Cartas 6 Fluindo veloz, a água submergiu em riachos nunca antes navegados, apesar dos sulcos já lá estarem. Confirmo o que dizes sobre a água escolher sempre os mesmos caminhos, escavando os sete leitos dos rios, tal como a nossa pele muda sete vezes. Uma amiga contou que, na terapia, também há sete sessões para abrir novos canais e sinapses sem insistência no “canal do trauma”. Admiro a determinação feroz da água, empapando a terra, nutrindo-a para que aguente uma muito provável seca.

05.02.2026 | por Marta Lança

Baralho de Cartas 4

Baralho de Cartas 4 Sentirmo-nos mentalmente disponíveis, o que é isso? Talvez o suficiente para entrar pela casa das pessoas a dentro... Não num gesto voyeur, antes como quem se senta à mesa e tem uma conversa franca, encontra os aliados e reconhece neles o mesmo desejo de sair das mumificações do espírito. É sempre em alianças, mais ou menos contingentes, que vou resistindo à aniquilação da mente, que tento «matar o Anjo da Casa», de que fala a Virgínia Woolf para recusar uma certa domesticidade que ainda aprisiona, e quanto!

21.01.2026 | por Marta Lança

Baralho de Cartas 3

Baralho de Cartas 3 O mundo estilhaçou-se, quebrou-se em bocados, como uma esfera de cristal derrubada por um demónio. Reconhecê-lo não é um gesto de inação, nem de tristeza acabrunhada, é identificar como nos isolamos uns dos outros, como se separam as coisas umas das outras, ao ponto de não querermos saber, de não vermos, nem a miséria, nem o sofrimento, inscrito em cada uma delas. As relações criadas neste espartilho são desonestas por defeito. Os empresários de si próprios usam a língua como um instrumento, um ardil, a comunicação só procura efeitos decididos à partida.

14.01.2026 | por Ricardo Norte

Baralho de Cartas 2

Baralho de Cartas 2 Continuo a preferir a intensidade das experiências fora dos sets espectaculares e das redes virtuais. Carne com carne, cornos com cornos. Aliás, é cada vez mais sinistro, e meio bizarro, assistindo às trincheiras ideológicas, nichos de gosto, vigilância e algoritmização da vida, sabendo que estamos a dar tanto guito e informação aos oligarcas tecnológicos, o facto de permanecermos nos adornos virtuais. Como é que ainda nos damos ao trabalho de convencer, seduzir; expressarmos o que quer seja por essa via de “partilha”? Uma das nossas grandes contradições, mas a verdade é que este disparo assim de missivas, para sei lá que destinatários, é meio viciante.

07.01.2026 | por Marta Lança

Baralho de Cartas 1

Baralho de Cartas 1 Não sei defender-me de mim mesmo, embaraço-me com o sono, na dormência da objectividade. As relações pessoais têm a aparência de coisas. Estamos numa relação falsa, enganosa com os outros e com o mundo. No imediato estamos mergulhados nas seduções artificiais que produzimos. As fugas para o imediato não fazem senão dissolver os dias em noites e adiar as noites por vir.

02.01.2026 | por Ricardo Norte

A Encenação Cultural (O Globo)

A Encenação Cultural (O Globo) “Deixei de poder carregar, de mão em mão, o leite da cabra, vindo das montanhas agrestes. A couve. Brassicaceae. Para alimento dos órfãos. O milho. O arroz.O feijão e o tomate, para o manuseio das mulheres. O algodão, para o aconchego dos filhos. A cabeça de boi, para pagamento das dívidas e os reservatórios de combustível… E até o veneno alegre da embriaguez, que me tirava da lucidez, deixou-me, dia após dia, por causa da miséria do meu tempo.”

31.12.2025 | por Indira Grandê

A indecência funcional e a violência discursiva na era pós-colonial

A indecência funcional e a violência discursiva na era pós-colonial A indecência política é, por isso, uma forma de analfabetismo moral deliberado. Ela não falha em compreender. Recusa simplesmente compreender, porque sabe que a incompreensão rende mais. E aqui, justamente, um olhar histórico mais longo, como o de Norbert Elias – um sociólogo alemão – ajuda-nos a compreender a profundidade desta regressão. No processo civilizacional, Elias mostra que a sociabilidade moderna assenta na internalização gradual do autocontrolo dos afectos. A boa educação não é ornamento, mas sim uma espécie de tecnologia de convivência. É através da contenção dos impulsos, da modulação da agressividade e da capacidade de adiar a resposta emocional que os indivíduos se tornam socialmente fiáveis. A civilidade é, neste sentido, uma conquista frágil, sempre ameaçada e sempre em disputa. Mas o projecto colonial europeu introduziu uma distorção decisiva que consistiu nos colonizadores exigirem de si elevados padrões de autocontrolo na relação entre pares europeus, mas suspenção desses padrões na relação com os povos colonizados.

09.12.2025 | por Elísio Macamo