A Encenação Cultural (O Globo)
— Alguém nos tirou o rio! E dizem que a salvação é a Cultura.
Se ando em desespero — (suspira profundamente) — tenho motivos reais:
“Deixei de poder carregar, de mão em mão, o leite da cabra, vindo das montanhas agrestes.
A couve. Brassicaceae.
Para alimento dos órfãos.
O milho. O arroz.O feijão e o tomate, para o manuseio das mulheres.
O algodão, para o aconchego dos filhos.
A cabeça de boi, para pagamento das dívidas e os reservatórios de combustível…
E até o veneno alegre da embriaguez, que me tirava da lucidez, deixou-me, dia após dia, por causa da miséria do meu tempo.”
— E o que lhe resta, Agricultor?
— Só me resta a seca. E ponto. Só me resta o mosaico do tabaco.
— E onde, onde o levarão as suas escolhas? Onde?
— A mim? Mais cedo ou mais tarde me levarão para perto dos antepassados.
E o rio?
Não lhe resta nada.
Não lhe nasce nada.
Não se tira nada.
A não ser morte.
Senão morte.
— (Chora em prantos o Agricultor)
QUEM?
QUEM NOS TIROU O RIO?
QUEM?!
(Uma pausa. Suspira. Ergue-se à procura de uma voz divina.)
Disseram-me que eu salvaria a minha aldeia se encontrasse a Cultura. Estarei enganado?
Sei que são forasteiros, desconhecidos até, com ar de poucos amigos, não me são familiares… Porém, cheguei hoje à capital. Alguma palavra de conforto?
— Meu caro Agricultor, de conforto não podemos falar. Andamos pelas ruas, dormimos a céu aberto, conforme os ventos e as luas. Acho que não somos os homens certos, mas posso lhe dar alguns conselhos. Já fui um homem da burguesia, conheci sociólogos, filósofos, homens de letras e arquitetos…
— HOMENS DE LETRAS?! — pergunta o Agricultor, sem saber o que são.
— Bem… acredito, pela responsabilidade do que nos pede. Só existe um lugar.
— Um lugar?! — pergunta o Agricultor, entusiasmado.
— Sim. Ouvi falar de um hotel na Baixa de Luanda. Não é lugar de Agricultor, mas talvez encontre algumas respostas…
— E encontrarei a Cultura? Poderei salvar a minha aldeia?
— Salvar? — questiona o homem das ruas. — Veja onde vivemos. Veja, seu tolo! Onde veio procurar Cultura. (Risos.) Mas até o entendo… Estou nas ruas há vinte anos. Se calhar também sou tolo. Um tolo incorrigível.
(Atenção, caríssimos leitores: são quatro os homens que o Agricultor encontrou. Sem nome, sem destino certo — como todos nós? Talvez concordemos apenas com o destino. Continuemos.)
— Oh, Agricultor, o que você sabe da capital? É um tolo!
— Estamos dando muitas voltas. Digam-me, nem que seja pelos órfãos, mulheres e crianças: onde encontrarei a Cultura?

(…)
“O termo ‘cultura’, tal como empregado nos estudos científicos, não se refere a um juízo de valor. Ele diz respeito aos modos de vida de uma sociedade como um todo, e não apenas ao que ela considera mais desejável. Para o sociólogo, tocar piano ou ler Robert Browning são apenas elementos entre muitos da cultura.”
(…)
Os homens das ruas indicaram o caminho. Era quase meia-noite. E ele, com a ingenuidade de uma criança, pôs-se a andar.
— Oh, Agricultor, não se esqueça: nas noites escuras da capital, tenha a astúcia de uma cobra e a sabedoria de uma coruja. Afinal, você é da aldeia! Seu tolo!
O Agricultor tapou os ouvidos, mas o eco era fervoroso.
— Sou tolo?
Continuou caminhando. Viu um barracão aberto. A fome e a sede apertavam. Num quintal, panelas fechadas com cheiro de comida quente. No barracão, muitas madeiras, algumas com desenhos, artefatos e figuras míticas africanas.
Primeiro encontro do Agricultor com um Artesão.
— De onde veio essa ideia de que a Cultura apaga incêndios, faz brotar rios, alimenta rebanhos e enche o ventre das mulheres? Sou Artesão. Meu alimento são as árvores. Meu sustento são as madeiras. Desconheço a Cultura! Mas sei onde é o Globo.
— Jacinta!
— Sim, chefe.
(A Jacinta, como qualquer mulher africana, era curvilínea, de lábios fortes, tom de cacau e olhos de águia.)
— Agricultor, aqui todos me conhecem. Não será assaltado nem maltratado. Ninguém anda a pé às três da manhã na capital sem procurar confusão.
— Então eu corri perigo?
— Agora não.
— Quem é você, Jacinta?
— Sou prostituta. Minha arte é o prazer. Meu sustento são os homens perdidos.
(…)
Romanos 8:12…
(…)
O coito fora feito. O Agricultor não deixou de ser fiel à amada. Apenas conheceu os prazeres da capital. Não estava embriagado. Apenas cansado.
— Agricultor, acho que tenho respostas para você encontrar a Cultura.
— Já me deu prazer, Jacinta. O que mais tem para me ensinar?
— O amor, a paixão, o desejo. Eis a nossa tradução da Cultura.
(…)
Na esquina da Rua 17, homens dançavam, mulheres rebolavam, saltitavam, tarrachavam.
— Olha, Agricultor, aquela multidão!
— Tanta gente…
Jacinta lhe dá um beijo longo.
— O que você tem para me oferecer?
O Agricultor tira da mala duas sementes:
— Uma semente, plantada e regada, dará uma flor de lótus. A outra, um girassol, para que nas noites escuras você possa se recompor.
Pega-lhe a mão:
— Além do prazer, gostaria que você conhecesse o amor num casamento prometido.
— Tolo — ri-se Jacinta.
O Agricultor entra no Hotel Globo. Já eram sete da manhã.