Crânio Impromptu ( Poesia e Fotografia ) ___ Fim da Trilogia do Mato ____

O homem negro busca na memória colonial

o fracasso do seu futuro

um futuro aprisionado nas masmorras

da sua imaginação,

no esgoto da sua falta de arrependimento

ou sentido de culpa,

o homem negro é hoje uma estrela morta

resiste como ruína de um sonho

numa noite que se eterniza

sobre os ombros dos náufragos de África.

( excerto )


vértebras em flor,

a forma inerte de um crânio

a mais na sombra

de um gerânio,

um ruído bifurcado do coração,

o sentido duplo de palavras

repletas de fogo

na escuridão das mãos,

oscila a cauda da Lua

como um animal sorridente

entre deuses devastados

pela ferrugem

de suas próprias certezas___

tremem as noites

à escuta da selva, no escuro

olhos chispantes de animais

que engoliram as íris dos homens,

há agora medo da escuridão brilhante

das feras que sobrevoam as manhãs

com a frieza dos pântanos, os homens

são afugentados para o sangue

do silêncio

enquanto cantam os animais à férvida guerra

entre a luz e a morte,

entre o tempo e a ascensão,

a queda trespassa o corpo

como uma palavra assassina

que diz a totalidade suja do mundo,

a condenação da carne

à podridão, rumo a um novo parto

da liberdade___

as trevas locomovem-se como serpentes,

arrastam-se pelo chão, rondam

os calcanhares como grilhetas,

as trevas são o corpo, triunfam

sob a luz,

a luz é fraca, desliza pela pele como brisa

somente,

a treva é carnívora, corrompe o sangue,

é mais forte que a alma, oculta-se

por trás da luz, à sombra dos prazeres,

tantas vezes a treva é a própria luz

 

que ilumina apenas a mentira.


SinopseOs poemas aparecem-me de modo inesperado. Surgem-me quando mais nada agita a cauda do vazio. Quando me sufoca a beleza do silêncio. Há neles mais instinto do que pensamento ou consciência. São pura sobrevivência. Neles não há optimismo, apenas desejo. Um desejo inerte como o silêncio que ocupam como erva daninha. Não possuem forma nem substância, resumem-se a ruínas e inércia. São do mato. São o corpo mutilado pelo desejo. São poemas concebidos sobre destroços sonoros do corpo oriundos da negrura trágica do DrumN’Bass, do Trance, do Jungle, ou do Free Jazz. São poemas construídos como ruídos e anomalias de corpos negros, entre pesadelos eróticos, feridas surreais, e gritos políticos. Torrenciais jorros de memórias enlameadas por angústias da máquina infernal de sonhos dos trópicos. Talvez esses poemas sejam uma tentativa de responder à pergunta – a Poesia pode salvar-nos? Talvez não nos possa salvar, mas de certeza que nos pode condenar. À clareza de nós próprios, a uma verdade subterrânea como os espinhos das sombras, ao perfume arrepiante das flores, à beleza maldita das Mulheres. Talvez nos possa condenar a uma errância pelas rotas crepusculares do amor. Condenar-nos a sermos intransigentes com a nossa insignificância.

 

por Brassalano Graça
Mukanda | 16 Fevereiro 2026 | poesia