A destruição começa na imaginação

A destruição começa na imaginação Quando a arte é controlada apenas por um tipo de pessoa que pertence a um grupo que foi socializado a partir de uma cultura colonial, como a portuguesa, não é só difícil pensar nestas perguntas, como é quase impossível uma mudança estrutural. Seria preciso não só reinventar o modo de produção artística, como ainda destruir este modelo para criar um novo baseado numa nova ética, em que pessoas sem sobrenome importante podem participar com voz ativa dos circuitos que distribuem o poder. A arte é política.

Mukanda

21.06.2022 | por Rodrigo Ribeiro Saturnino (ROD)

O Brasil é uma heterotopia

O Brasil é uma heterotopia Foucault identificava uma série de heterotopias de crise biológica, como chamou, e onde ele lia e inscrevia sociedades, como as sociedades ameríndias, nas quais o corpo ganha uma representação coletiva – a puberdade ou a primeira menstruação, por exemplo. Eu diria que nessas sociedades não se trata apenas de uma representação coletiva do corpo, mas sim da possibilidade de criar inscrições dignas do corpo no espaço comum. Enquanto nós ‘evoluímos’ para lugares onde as inscrições sociais dos corpos se fazem apenas pelo que queremos de fato excluir: assassinatos, estupros, violências, entre outros. Ou seja: o desprezo e o controle sobre os corpos são a marca política característica das sociedades ocidentais. São elas mesmas que criam a lista dos desvios e o modo das transgressões. Os indesejáveis e os descartáveis.

A ler

16.06.2022 | por Ana Kiffer

Nós, os Refugiados

Nós, os Refugiados Um refugiado costuma ser uma pessoa obrigada a procurar refúgio devido a algum acto cometido ou por tomar alguma opinião política. Bom, é verdade que tivemos que procurar refúgio; mas não cometemos nenhum acto e a maioria de nós nunca sonhou em ter qualquer opinião política radical. O sentido do termo “refugiado” mudou connosco. Agora “refugiados” são aqueles de nós que chegaram à infelicidade de chegar a um novo país sem meios e tiveram que ser ajudados por comités de refugiados.

Jogos Sem Fronteiras

15.06.2022 | por Hannah Arendt

Cenas do Gueto I Muro de Berlim

Cenas do Gueto I Muro de Berlim Embora invisível, há um “muro” a separar a Quinta do Mocho da cidade à sua volta. Empurrados para bairros precarizados e segregados, as populações imigrantes e/ou afrodescendentes são guetizadas por políticas públicas promotoras da marginalização social. É o que explica o Sr. Vítor sobre a construção da Quinta do Mocho: “já havia a ideia de se construir um gueto”.

Afroscreen

07.06.2022 | por Otávio Raposo

Moradores da rua: vulnerabilidade social e a insistência de vida

Moradores da rua: vulnerabilidade social e a insistência de vida Em resumo, os moradores de rua localizam-se territorialmente, sobretudo, através do seu corpo. Por um lado, suportam as mazelas físicas e morais impressas pelas interdições à sua presença, sofrem uma tensão latente que encurva e amarra seus movimentos, comprimem os corpos de maneira a caber nos interstícios e espaços ociosos dos quais se apropriam. Por outro, desviam-se dos obstáculos, moldam técnicas corporais de sobrevivência, demarcam lugares de intimidade, arranjam maneiras de saciar suas necessidades corporais, tornam-se miméticos do espaço acomodando a sua presença à paisagem urbana, criam visibilidades desnorteantes quando necessitam se fazer notar. Essa corporalidade pressupõe resistência à sua eliminação. E se não existe tenacidade possível na manutenção de uma propriedade material, há na forma de preservar sua existência material e simbólica. A subjetividade garantindo o corpo vivo.

Cidade

05.06.2022 | por Simone Frangella

Cenas do Gueto I Street art tour

Cenas do Gueto I Street art tour Durante os tours de street art o enfoque nas obras artísticas vai para “segundo plano” diante da curiosidade dos turistas pelo quotidiano multicultural da Quinta do Mocho. Nesse processo, o guia Kally promove uma “curadoria informal”, articulando em suas falas representações alternativas sobre o bairro com elementos estéticos que não raramente dialogam com o sonho de uma sociedade mais justa.

Afroscreen

12.05.2022 | por Otávio Raposo

Entrevista com Miguel Sermão. “A pergunta que faço é: O que é uma cara africana?”

Entrevista com Miguel Sermão. “A pergunta que faço é: O que é uma cara africana?” Acho que existe um preconceito, não só na sociedade, mas no meio artístico também. Não podemos ter em conta que um personagem tenha a cor de quem a representa, a não ser para certos personagens históricos, que impliquem zelar pelo que escreveu o autor. Qualquer personagem é feito por qualquer outra pessoa, só que, infelizmente, quem dirige ou coordena as companhias, ao pensar num espectáculo não pensam nos actores negros, sejam africanos ou afrodescendentes. Não existe esse pensar de que há no meio artístico português actores negros. Quando se pensa tendencialmente, os pápeis são característicos digamos.

Cara a cara

27.04.2022 | por Sílvia Milonga

Ângelo Varela – “As minhas curta-metragens são reflexões de problemas que me rodeiam e sobre os quais acho que se deve falar”

Ângelo Varela – “As minhas curta-metragens são reflexões de problemas que me rodeiam e sobre os quais acho que se deve falar” As pessoas têm de perceber que a arte não tem de ser adaptada. Ela é uma forma de expressão. Estou muito curioso para ver como serão os próximos tempos e como é que os artistas visuais vão lidar com a nova criação de vídeos na vertical. A adaptação não é algo necessariamente negativo, mas acima de tudo não deveria ser algo que inibisse o artista de ser ele próprio. Uma coisa é certa, apesar de tudo, a sociedade tem aberto mais olhos para as pessoas com menos representação nas esferas sociais e tem havido criações mais diversificadas, com perspetivas mais originais e críticas.

Cara a cara

26.04.2022 | por Arimilde Soares

“O impossível hoje é possível amanhã”.

“O impossível hoje é possível amanhã”. Este é um livro-homenagem a Paulo Freire que se tornou um educador do mundo pela ampla difusão de suas ideias filosóficas, de seu método pedagógico e de sua ação, primeiro no Brasil, depois no Chile, seguindo para países da América Latina, Estados Unidos, Europa, África, Ásia e Oceania. Em relevo estão momentos-chave da trajetória de Paulo Freire e o itinerário internacionalista de um pensamento cuja recepção por largos anos foi marcada pelo interdito, pela censura, por uma circulação clandestina e pelo exílio.

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21.04.2022 | por Adelaide Gonçalves, Débora Dias e Fernando de la Cuadra

"Partilhar histórias de migração é criar pontes empáticas", entrevista a Tiago de Faria

"Partilhar histórias de migração é criar pontes empáticas", entrevista a Tiago de Faria Não há ninguém que não tenha feito pelo menos uma experiência de migração. A escala pode ser diferente, tu podes mudar de uma sala de aula para outra, isso é uma migração. Podes mudar de um bairro para outro e isso é uma migração. De uma cidade para outra, de país para país e depois de continente para continente. As emoções associadas são as mesmas, com matizações associadas a escalas absolutamente diferentes.

Jogos Sem Fronteiras

14.02.2022 | por Teatro Manga

A base social e educacional caboverdiana estará assente na herança Matriarcal/Matrilinear ou Patriarcal/Patrilinear?

A base social e educacional caboverdiana estará assente na herança Matriarcal/Matrilinear ou Patriarcal/Patrilinear? quase “tudo” gira à volta da mulher, ou seja, é ela o pilar da família. Ela é mãe, muitas vezes mãe solteira cujo marido ou pai dos filhos a abandonou para ir viver com outra(s) mulher(es), ela é dona de casa em todos os sentidos, isto é, educa sozinha os filhos, faz os deveres de casa quando os filhos ainda não têm autonomia para ajudarem, é ela que trabalha e, na maioria das vezes, é com o salário dela que os filhos comem, se vestem e vão para a escola. A mulher foi, desde sempre, a pedra basilar da sociedade cabo-verdiana, assumindo-se ainda com mais força enquanto tal nos momentos de maiores dificuldades a nível nacional, quando os homens, devido ao flagelo da imigração por causa da seca e da falta de recursos do país, tiveram de se aventurar por outros destinos, sendo que muitos esqueceram a família, que ficou para trás na forma de um grande peso deixado nas costas das mulheres, as quais se viram obrigadas a assumir todos os papéis que deveriam ser partilhados com o marido/pai dos filhos.

Mukanda

21.01.2022 | por Ednilson Leandro Pina Fernandes

FIM

FIM Com esta Newsletter do projecto MEMOIRS, a nº 147, damos por concluída um percurso iniciado a 5 de maio de 2018. Ao grupo de investigadores do projecto, às dezenas de colaboradores externos, a todos os artistas que contribuíram com as suas imagens, aos produtores e designers, o profundo agradecimento dos responsáveis pela edição, que de duas coisas estão certos: terem contribuído para a partilha de um bem comum, o conhecimento, e terem-no feito num espírito de serviço público.

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10.01.2022 | por António Pinto Ribeiro

Em tempo de balanço

Em tempo de balanço Mais de três anos volvidos, as questões referidas mantêm toda a sua virulência e continuam a alimentar ciclicamente um debate público em que aquilo a que vários têm chamado o inconsciente colonial das sociedades europeias continua muito presente, traduzido numa atitude de recusa dos problemas de uma sociedade multicultural inevitavelmente marcada pela herança pesada do passado colonial.

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27.12.2021 | por António Sousa Ribeiro

1000 anos de Ai Weiwei e Ai Qing

1000 anos de Ai Weiwei e Ai Qing "1000 anos de alegrias e tristezas" é o título do livro de memórias do artista chinês Ai Weiwei (艾未未). Digo artista mas podia também dizer ativista. Digo chinês mas poderia também dizer cidadão do mundo, ou inconformado ou até mesmo cidadão do mundo inconformado. Ai Weiwei fala-nos do passado mas parece estar sempre a explicar o presente. Como se para se entender uma flor, tivéssemos que começar pelo seu caule e depois seguir atentamente cada pétala. E não basta entender a flor, mas saber onde se posiciona: se é um girassol num cartaz de propaganda maoista ou se é uma orquídea colhida naquele dia e colocada por cima das câmaras de vigilância de Caochangdi, perto da morada de Ai Weiwei em Pequim. A memória, essa corda que se pode agarrar e avançar ou voltar para dias que ficaram no passado.

Vou lá visitar

15.12.2021 | por Sara F. Costa

Cronices Crónicas: Cartorzinhas... um problema de adultos

Cronices Crónicas: Cartorzinhas... um problema de adultos Estamos habituados a que um homem tenha muitas esposas, habituados a marcar casamentos quando se descobre que a pessoa nasceu com uma vagina (e ainda nem sequer lhe demos um nome), às vezes, o casamento é marcado com homens já com outras esposas e com netas mais velhas que a recém-nascida. Habituados a que o homem possua mulheres (em todas acepções da palavra), que quando vemos um homem a desfilar com catorzinhas, assumimos simplesmente que ele está no seu direito e que ela é que é puta.

Corpo

06.12.2021 | por Marinho de Pina

Piscinas fantasmas: memória, fim

Piscinas fantasmas: memória, fim Yvone Kane não é uma encenação do fim da ideologia, mas sim o registo da derrota de uma certa ideologia, que considerava a emancipação como uma possibilidade real, em conjunto com uma noção já há muito necessária e inclusiva, de pertença. É sobre o fim dessa utopia em particular que Yvone Kane faz o seu luto e manifesta a sua melancolia que nunca deve ser confundida com qualquer forma de nostalgia que, aliás, rejeita categoricamente.

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15.11.2021 | por Paulo de Medeiros

Caros amigos brasileiros

Caros amigos brasileiros Repito, amigo, A NOSSA EXISTÊNCIA NÃO É MERA RESISTÊNCIA, NÃO É MERA SOBREVIVÊNCIA. É vida e alegria e confusão e harmonia e choros e risos e festas e amigos e bestas e esgares e pesares e desaires. Portanto, pelamordideus, amigo, para de fazer os teus artigos… científicos… a chamar de resistência à nossa forma de existência

Mukanda

05.11.2021 | por Marinho de Pina

Europa, je t'aime moi non plus

Europa, je t'aime moi non plus Passou para as gerações seguintes através das figuras do ex-colonizador e do ex-colonizado. Estas “personagens” reencenam uma complexa fantasmagoria profundamente relacionada com o espectro mais íntimo do subconsciente europeu: o seu fantasma colonial que se manifesta inter alia sob a forma de "transferências de memória" colonial — como racismo, segregação, exclusão, subalternidade – ou sob a forma de "erupções de memória", e assim questiona a essência das sociedades multiculturais europeias, desenhadas pelas heranças coloniais e alimentadas por vagas migratórias.

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31.10.2021 | por Margarida Calafate Ribeiro

Cenas do Gueto I Festa no Mocho

Cenas do Gueto I Festa no Mocho Festa no Mocho - A festa é o momento de confraternização por excelência, quando diferentes gerações se juntam para comer, dançar e celebrar.

Afroscreen

20.10.2021 | por Otávio Raposo

Cenas do Gueto I Arte urbana num bairro pobre

Cenas do Gueto I Arte urbana num bairro pobre A Quinta do Mocho tornou-se um bairro cool para os visitantes que buscam experiências alternativas ao turismo de massa.

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14.10.2021 | por Otávio Raposo