Cenas do Gueto I Arte urbana num bairro pobre

Cenas do Gueto I Arte urbana num bairro pobre A Quinta do Mocho tornou-se um bairro cool para os visitantes que buscam experiências alternativas ao turismo de massa.

Afroscreen

14.10.2021 | por Otávio Raposo

A propósito de "Largo da Peça (peça em 3 Actos)", de Ana Andrade

A propósito de "Largo da Peça (peça em 3 Actos)", de Ana Andrade Nesta peça, o tempo é o presente, embora este espaço já não exista, acabou porque assim tinha que ser, mas também porque talvez tenha deixado de haver quem pudesse cuidar dele. Mas esta dúvida esvai-se porquanto este quintal, com tudo o que implica, humana e sociologicamente falando, persiste em ser presente porque a arte lhe dá corpo e alguém, afinal, decidiu cuidar dele, pela memória que a escrita garimpa. O que passo a concluir é de minha lavra porque me aproprio do labor da autora: O “Largo da Peça em 3 Actos” é um aviso para que cuidemos do que amanhã vai ser passado, porque nada existe só no presente e porque o passado se torna por vezes tão presente que até dói. É uma homenagem de grande quilate à cidade onde nasceu e que a viu crescer.

Palcos

14.10.2021 | por Filipe Correia de Sá

Haiti. “O horizonte foi embora, ficou sozinho no mundo”

Haiti. “O horizonte foi embora, ficou sozinho no mundo” Um polícia a cavalo, chicote na mão, chapéu à cowboy, persegue um migrante haitiano que corre no deserto do Texas. Ele, o corpo negro, acelera, finta os arbustos rasteiros da terra árida e tropeça. A imagem é real, a indignação nem tanto. Nos últimos dias, milhares de migrantes do Haiti aglomeram-se na fronteira entre o México e os Estados Unidos. A verborreia que tenta justificar a violência contra os ilhéus é muita e cansa. Refugiamo-nos na poesia, canto seguro e transparente. O Haiti migrante e resistente entrelaçado nos poemas de René Depestre.

Jogos Sem Fronteiras

01.10.2021 | por Pedro Cardoso

Isto é o meu corpo

Isto é o meu corpo A história de consumo do Outro, foi fulcral para garantir à igreja um plano estratégico de massacre da carne negra, uma carne amaldiçoada pelo olhar diabólico do mundo europeu com a marca de Caim que só seria expurgada através do trabalho servil, da entrega de si ao serviço do outro. Um corpo carne, um corpo máquina, um corpo deforme, um corpo de talho, pronto para um consumo voraz. Um corpo que serviu de suporte para manter toda a produção da sociedade europeia. Um corpo que ainda serve como cargueiro forte para elevar prédios, construir mansões ou servir de deleite sexual. Um corpo que é ainda é alvo, Um corpo sem política. Um não-corpo.

Mukanda

23.09.2021 | por Rodrigo Ribeiro Saturnino (ROD)

O fetichismo da marginalidade (I)

O fetichismo da marginalidade (I) O que diz sobre como o cinema antecipou, por exemplo, o Holocausto, também o podemos transferir para uma cenário mais próximo, como a Argentina nos anos 70, onde havia um cinema militante que se concentrava nos sectores marginalizados e avisava ou alertava, por assim dizer, sobre o neoliberalismo e a miséria planeada. Com o passar do tempo, este fio foi cortado ou não recebeu importância; houve um aviso, mas não foi atendido (ou, pior ainda, foi reprimido). É interessante porque, face a estas imagens antecipatórias, havia uma maquinaria que tinha de responder com outras imagens para as encobrir. Face a imagens que anteciparam, foi necessário criar imagens que serviram para fortalecer o neoliberalismo, que serviram para fazer as pessoas quererem este modelo de vida. Não se responde a imagens com um pedido de nulidade ou censura, responde-se a elas com outras imagens.

Cara a cara

20.09.2021 | por César González, Tomás Guarnaccia e Miguel Savransky

Jornalismo lento: uma questão de humanidade e profundidade no jornalismo

Jornalismo lento: uma questão de humanidade e profundidade no jornalismo Existe, sim, um espaço para o jornalismo lento, de várias páginas, assim como pessoas que o procuram ler, tal como criar. Exemplo disso é o surgimento de cada vez mais projetos de jornalismo alternativo que se têm vindo a apoiar na construção de uma comunidade de leitores. Porém, todos os órgãos de comunicação, sejam eles alternativos ou mainstream, ocupam o seu lugar na esfera mediática e todos apresentam relevância.

A ler

27.08.2021 | por Andreia Monteiro e Sofia Craveiro

O fogo do purgatório

O fogo do purgatório Em vez de entender um museu nacional como um repositório de objetos artísticos emblemáticos dos valores da elite ou então da sua fetishização de todos os que exclui e rejeita, os curadores aceitaram integralmente a sua responsabilidade educacional e o seu dever em contribuir para a vida cultural no presente. O que, mesmo assim, não evita de todo de nos deixar com a impressão que o fogo do Purgatório afinal ainda arde e muito há ainda a fazer para o extinguir.

A ler

15.08.2021 | por Paulo de Medeiros

Um ecrã em mil tons de branco

Um ecrã em mil tons de branco Discriminação é um sinónimo de violência. É uma violência de contornos específicos, focada na diferença entre um sujeito e o outro, e o espaço que fica reservado a cada um. Esta operação premeditada de diminuir alguém com base na sua pertença está presente em quase todos os recantos da sociedade portuguesa. Estas dinâmicas de opressão estão bem entrelaçadas na estrutura do sistema, mas é na comunicação que são validadas e disseminadas.

A ler

10.05.2021 | por Rute Correia

Raoul Peck: “Não quero provocar só por provocar. Quero revelar”

Raoul Peck: “Não quero provocar só por provocar. Quero revelar” Já ultrapassámos a questão das queixas. Ao fim de centenas de anos de queixas que nunca foram ouvidas, a queixa não resulta! Além do mais, se eu me queixar, vão-me reduzir mais uma vez ao estado de vítima. E, lamento, mas não sou uma vítima. É também uma maneira educada de me dirigir ao outro, de lhe dizer: “Quero só conversar consigo, não esteja tão na retranca.” Quero manter o espectador numa situação permanente de expectativa, sem saber o que virá no plano seguinte, para o manter desperto, atento. Quero bombardear o espectador com coisas fortes, belas, tristes, chocantes, mas verdadeiras. E quero convidá-lo a viajar comigo, não para o magoar, mas para que juntos nos tornemos melhores.

Cara a cara

12.04.2021 | por Jorge Mourinha

Representações do feminino na cinematografia do realizador brasileiro Karim Aïnouz

Representações do feminino na cinematografia do realizador brasileiro Karim Aïnouz No cinema brasileiro, Karim Aïnouz (Fortaleza, Ceará) não trabalha exclusivamente com o universo feminino, mas quando o faz trata-o de um modo muito particular. Entre a ficção e o documentário, ou misturando as duas linguagens, o realizador, que também assina os guiões dos seus filmes, explora a identidade feminina a partir dos seus desejos e frustrações, das suas aspirações sociais e condição económica, do lugar que ocupa na família, no trabalho, etc. Constrói uma galeria de personagens femininas que atravessa os tempos, num contínuo de histórias de opressão, e atualização de resistências. São mulheres fortes, ativas frente a uma sociedade hipócrita.

Afroscreen

31.03.2021 | por Anabela Roque

Opressão da mulher e capitalismo

Opressão da mulher e capitalismo Digamos simplesmente que - embora a frase possa parecer lapidar - o seu modelo de análise do domínio masculino, elaborado com base na sociedade cabileña, na qual as relações de parentesco desempenham um papel central na produção e reprodução de todas as relações sociais, não considera as rupturas introduzidas pelo capitalismo em relação às sociedades pré-capitalistas no que diz respeito à situação das mulheres. Em todo o caso, o nosso artigo irá focar esta questão. Não pretendemos dar uma imagem completa do estatuto da mulher e da sua evolução, mas simplesmente apontar certas rupturas decisivas do ponto de vista das lutas de emancipação.

Corpo

18.03.2021 | por Antoine Artous

Abandono da linguagem racial

Abandono da linguagem racial Uma vez que o racismo continua a ser uma questão actual no discurso público e académico, o mesmo acontece com as estratégias para se chegar ao seu fim. Na tentativa de criar um futuro livre de racismo, há quem acredite que os nossos padrões linguísticos desempenham um papel central. Uma estratégia decorrente desta percepção de importância na África do Sul relaciona-se com o papel da "língua racial" nas nossas sociedades.

Mukanda

17.03.2021 | por Kiasha Naidoo

Cabo Verde, movimentos sociais e pan-africanismo

Cabo Verde, movimentos sociais e pan-africanismo A historiografia cabo-verdiana mostra que a história arquipelágica se confunde com a história de resistência cultural e política e de revoltas. Assim, pensar as vagas dos movimentos sociais em Cabo Verde na esteira dos trabalhos de Aidi e Mueller obriga-nos a buscar os antecedentes históricos num arquipélago marcado pela luta de integração étnico-racial e de intermediação (neo)colonialista.

Jogos Sem Fronteiras

16.03.2021 | por Redy Wilson Lima e Stephanie Brito Duarte Barbosa Vicente

A construção de um legado de inclusão na 7.ª Arte

A construção de um legado de inclusão na 7.ª Arte Invisibilidade pandémica nos melhores filmes de 2018: 33 filmes sem personagens negras ou mulheres afroamericanas; 54 filmes sem personagens asiáticas ou mulheres asiáticas; 70 filmes sem personagens latinas; 89 filmes sem mulheres LGBT; 51 filmes sem mulheres multirraciais; 83 filmes sem personagens femininas com deficiência.

Corpo

13.03.2021 | por Daniel Morais

A irreversível descolonização de mentalidades

A irreversível descolonização de mentalidades A descolonização política já aconteceu. Falta cumprir-se a difícil descolonização de mentalidades. Ela está em marcha há anos. É um processo, como todas as mudanças, com fases de avanços e recuos, adormecimentos e efervescências, durante muitos anos remetida para circuitos académicos, educacionais ou culturais, e agora também presente no espaço público como um todo.

Mukanda

28.02.2021 | por Vítor Belanciano

Mulheres negras e a força matricomunitária

Mulheres negras e a força matricomunitária E as mulheres foram fundamentais para desenhar novas formas de convivência e possibilidades de viver em sociedade, articulando formas de compreender as dinâmicas do escravismo. Aproveitando seu trânsito dentro das casas-grandes e senzalas, igrejas e ruas, para transmitir ideias revolucionárias para fora das estruturas pensantes escravocratas, elas foram fundamentais para a criação de planos de sobrevivência, rotas de fuga e a construção, por grupos de diferentes etnias, de espaços afastados das casas-grandes e senzalas: os terreiros e os quilombos, lugares que reelaboraram a força subjetiva africana de organização e de humanização desses indivíduos.

Mukanda

20.12.2020 | por Katiúscia Ribeiro

Racismo: Portugal, um país em negação

Racismo: Portugal, um país em negação Embora Portugal seja um país em negação, preferindo vangloriar-se com o seu passado de descobertas e de colonizador sem ter consciência de que isso implicou a ocupação de territórios e a dizimação de populações inteiras, o manto do racismo vai-se estendendo e tornando cada vez mais visível. Casos como o do bairro da Jamaica servem para escancarar a ferida. Como muitos países, vivemos aquilo que se chama racismo estrutural, ou seja, quando a discriminação não é algo que se circunscreve às relações interpessoais e ao preconceito mas ultrapassa a nossa vontade.

A ler

05.11.2020 | por Joana Gorjão Henriques

A sociedade autofágica - PRÉ-PUBLICAÇÃO

A sociedade autofágica - PRÉ-PUBLICAÇÃO    Destruição das estruturas económicas que asseguram a reprodução dos membros da sociedade, destruição dos elos sociais, destruição da diversidade cultural, das tradições e das línguas, destruição dos fundamentos naturais da vida: aquilo que por toda a parte se constata não é somente o fim de certos modos de vida para entrarmos noutros – «destruições criadoras» de que a história da humanidade estaria repleta –, é antes uma série de catástrofes a todos os níveis e à escala planetária que parecem ameaçar a própria sobrevivência da humanidade, ou, pelo menos, a continuação de grandíssima parte daquilo que deu sentido à «aventura humana», para submergir os humanos no estado de «anfíbios».

Mukanda

29.05.2019 | por Anselm Jappe

brasil-brasa-chama: algumas notas sobre a situação política brasileira

brasil-brasa-chama: algumas notas sobre a situação política brasileira Desde 2013 e seu junho disruptivo, o sistema político brasileiro está num processo de gradual perda total de legitimidade. O atual momento (de um presidente ilegítimo e com aprovação popular praticamente inexistente[3]) representa por ora o ápice desseque se vayan todos contínuo de quatro anos, bem diferente do caso clássico e incisivo argentino que, em 2001, derrubou vários presidentes em poucos dias a partir de fortes mobilizações de rua.

Vou lá visitar

28.07.2017 | por Jean Tible

DELHI DELIGHT! A Máquina de desejos do século XXI

DELHI DELIGHT! A Máquina de desejos do século XXI      Cozinhada num caldeirão onde a utopia neoliberal constitui actualmente o dispositivo mais poderoso na construção da sua narrativa urbana, onde a sociedade indiana (ainda estratificada e dividida), o seu meio amniótico e os traumas pós-coloniais a sua atmosfera favorita, Delhi (como outras grandes metrópoles globais) constitui o espelho mais próximo do que pode ser considerado o fruto anárquico do urbanismo especulativo. Cresce desvairadamente fugindo ao controlo do plano, superando a própria realidade, numa odisseia que parece ter sido imaginada por Homero, Fritz Lang e Calvino em simultâneo.

Cidade

04.04.2016 | por Sebastião Santos