Murmúrio e momentos de um Poeta-a-Dias

Murmúrio e momentos de um Poeta-a-Dias Dos cinquenta e cinco poemas que fazem o livro, onze estão escritos originalmente em kriol (língua guinense), aparecendo ao lado das suas traduções em português, que em nada diminuem os seus efeitos líricos, sendo que, no fim, ainda há um glossário para as expressões não traduzidas ao pé dos textos. Entre estes poemas, destaca-se Fos ku Pitrol (p. 110), “I e ski kontrada di fula ku mandinga”, numa alusão à guerra de Turban (Kansala), entre fulas e mandingas, um acontecimento ainda hoje vivo nas relações entre as duas etnias, permitindo sentir, por exemplo, o sabor local de que também são feitos estes momentos murmurados pelo poeta, que a nós nos coube apenas escutar os sussurros deixados escapar entrelinhas.

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03.12.2021 | por Sumaila Jaló

(S)EM TERRA, de Laura do Céu

 (S)EM TERRA, de Laura do Céu São poemas escritos por uma mulher e a atitude subversiva advém da sua condição de não pertença a um centro de poder estabelecido e da construção do poder a partir do olhar visto a partir da margem e que convoca sentimentos de sororidade, “todas por uma” (coro de irmãs). É a mulher que “pinta os lábios de encarnado rubescente” (Hipálage do Tempo (In)Útil) que luta e reage, autónoma, independente, “dona do desejo e da repulsa” (Onanismo), alguém que poderia juntar-se ao coro de quem uma vez escreveu “Guerreiros, nós, mulheres de corpo inteiro e segura mão”.

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29.11.2021 | por Margarida Rendeiro

Carta para José Saramago, no seu 99.º aniversário, com alguns dias de atraso e umas certas memórias apensas

Carta para José Saramago, no seu 99.º aniversário, com alguns dias de atraso e umas certas memórias apensas No mais rigoroso e nobre sentido da homenagem, meu muito Caro José, não me coíbo de aqui, agora, e antes de prosseguir esta minha missiva, reproduzir a belíssima entrevista feita pelo saudoso Ernesto Sampaio, e dada à estampa no suplemento «Sete Ponto Sete» do Diário de Lisboa de 8 de Março de 1980, aquando da publicação de Levantado do Chão, a qual constitui um documento precioso e fundamental sobre a tua pessoalíssima oficina, contendo nele, ainda, a génese biográfica do próprio romance. Ou, como lhe chamou o nosso impiedoso Luiz Pacheco em «Este sol é de justiça»,

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21.11.2021 | por Zetho Cunha Gonçalves

Angola e os lugares do afeto. Entrevista a Kalaf Epalanga

Angola e os lugares do afeto. Entrevista a Kalaf Epalanga Eu me inicio a partir daquele lugar (Angola), mas tenho em mente que não me encerro naquele lugar. Sou angolano, sou africano, sou um homem, mas, mais do que isto, eu sou as somas de todos os lugares por onde eu passei, de todas as pessoas com quem me encontrei e que causaram alguma espécie de impacto na minha formação e na minha personalidade. Angola é importante para mim, mas não Angola no sentido de nação, no sentido de pátria, porque essa é uma construção e é uma construção que não foi iniciada por angolanos…

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19.11.2021 | por Doris Wieser

Sandra Lemos: “Para mim, escrever é quase como um ato de desdobramento”

Sandra Lemos: “Para mim, escrever é quase como um ato de desdobramento” Enquanto estivemos juntos, no final da tarde, sentávamo-nos na sala, ela costurava minhas camisas ou tricotava e eu lia os textos dos apóstolos; às vezes, ela me pedia para tocar as músicas que mamãe gostava de ouvir. Eu, até, tentava me aproximar daquele piano, mas era como tocar as mãos de meu pai, não conseguia.

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11.11.2021 | por Carlos Alberto Alves

Revista Sul, no Brasil, primeira internacionalização da Literatura angolana

Revista Sul, no Brasil, primeira internacionalização da Literatura angolana Em finais de 1947, um grupo de jovens irreverentes (Salim Miguel, a sua companheira de toda a vida, Eglê Malheiros, Aníbal Nunes Pires, Ody Fraga e Silva e Antônio Paladino) forma o Grupo Sul, em Florianópolis, «numa tentativa de produzir alguma coisa na área da cultura, em Santa Catarina». Operando em várias frentes, desde o teatro ao cinema, das artes plásticas ao jornalismo e à literatura, o grupo publicará em Janeiro de 1948 o primeiro número da revista Sul

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29.10.2021 | por Zetho Cunha Gonçalves

O mar e as correntes da Literatura chinesa

O mar e as correntes da Literatura chinesa Yu Hua deixou-se levar. Foi arrastado por mais de 20 quilómetros na baía de Hanghzou até conseguir regressar à costa e sair. Caminhou de volta todo e cada quilómetro, descalço e resignado. Esta é – muitas vezes antes e hoje por certo – uma imagem triste mas ao mesmo tempo feliz para explicar aquilo por que passam os escritores sérios e outros intelectuais na China. Por vezes percebem que é impossível rumar contra a corrente e deixam-se levar, só para depois retomarem o seu caminho, mesmo que descalços.

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27.10.2021 | por Hélder Beja

O labor da memória como “intervenção radical” e “reparação”: entrevista com Marita Sturken

O labor da memória como “intervenção radical” e “reparação”: entrevista com Marita Sturken O campo dos estudos da memória é desafiado mais do que nunca pela crescente volatilidade dos debates sobre o que as nações lembram e, consequentemente, o que esquecem. Monumentos e memoriais estão a ser vandalizados, demolidos e oficialmente removidos. Estes já não podem mais ser simplesmente vistos como parte de uma paisagem histórica. Em grande medida, muito do que se passa hoje pode ser entendido como um combate pelas narrativas históricas dos monumentos e do seu poder, mas também se trata de tensões em torno de quem a nação lamenta e quem esta vê ou não vê como tendo uma "vida digna de luto" para usar o conceito de Judith Butler. Portanto, vejo o activismo da memória como um lugar chave para a produção de investigação sobre a memória.

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25.10.2021 | por Inês Beleza Barreiros

“As minhas raízes são africanas e as minhas asas são europeias”, entrevista a Yara Monteiro

“As minhas raízes são africanas e as minhas asas são europeias”, entrevista a Yara Monteiro Condição feminina, da condição da mulher no mundo atual, no mundo africano também e até europeu: a imposição do casamento, a imposição da obediência ao homem, que vem muito da religião católica, e isto está relacionado, por um lado, com a negação da mulher e, por outro lado, com a sua contribuição tanto num contexto extremo de guerra como no contexto social em geral.

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14.10.2021 | por Doris Wieser, Yara Monteiro e Paulo Geovane e Silva

Convidar as pessoas a deixarem de fingir que nasceram com os valores universais humanistas na barriga.

Convidar as pessoas a deixarem de fingir que nasceram com os valores universais humanistas na barriga. Coisas que incomodam. A transformação do escritor num etnógrafo da sua cultura. Não é que isso não se faça. Mas isso limita a relevância da sua obra ao seu povo. Isto é, Gurnah não recupera a experiência humana, mas sim a experiência local. Não estou a ser mesquinho. A documentação da experiência colonial e do refúgio só é digna de celebração se ela nos disser algo maior sobre a nossa humanidade comum. Já, agora, o que estes relatos dizem aos membros do comité Nobel sobre os valores da cultura europeia que estiveram por detrás da humilhação do povo tanzaniano? A segunda coisa é esta “inocência branca” – estou a usar um conceito da antropóloga holandesa, Gloria Wekker. O pessoal lá do Comité não sabe o que foi o colonialismo? Não leu o que os historiadores escreveram? Precisava de ouvir isso dum escritor, ou há algo que o escritor está a trazer que transcende o quadro da historiografia e nos convida para outros tipos de reflexão? Porque são importantes os relatos dos horrores do colonialismo? Por serem documentos duma época, ou por nos convidarem a rever os nossos próprios valores? Os europeus estão a fazer isso? É nestes momentos que penso na profundidade duma afirmação de Toni Morrisson quando ela se indagava como um europeu deve se sentir sabendo tudo o que foi feito em nome da sua cultura? Não é possível atribuir um prémio destes a um africano sem responder a essa pergunta.

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08.10.2021 | por Elísio Macamo

“As solas dos meus pés não saíram nunca das quedas do rio Cutato” Entrevista a Zetho Cunha Gonçalves

“As solas dos meus pés não saíram nunca das quedas do rio Cutato” Entrevista a Zetho Cunha Gonçalves Criar uma voz pessoal é um trabalho duma vida inteira e nunca estamos satisfeitos. Qual é o meu melhor livro? O meu melhor livro é aquele que eu ainda não escrevi e que apenas existe na minha cabeça. Tenho alguns poemas para um próximo livro, escrevi dois pequenos livros, cada um tem dez poemas. Um, durante a pandemia, que é A respiração suspensa, e um outro, Exorcismos para ler em voz alta. Em alguns desses poemas entram o quimbundo, o nganguela e umbundo. Toda poesia, toda manifestação de arte, é um acrescento de beleza à beleza que o mundo não tem. Não é o real quotidiano que deve fazer a poesia, mas, ao contrário, a poesia é que deve, em absoluto, criar o real quotidiano.

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07.09.2021 | por Doris Wieser, Zetho Cunha Gonçalves e Paulo Geovane e Silva

“Só consigo escrever quando me relaciono com uma alma angolana”, entrevista a Ana Paula Tavares

“Só consigo escrever quando me relaciono com uma alma angolana”, entrevista a Ana Paula Tavares O facto de eu ter frequentado a escola, ter frequentado o liceu e ter entrado na universidade não era visto, pelas pessoas que me criavam, como profundamente suspeito. Ninguém me impediu de dar um salto para a universidade e de começar um caminho de autonomia pessoal, autonomia de pensar. Ninguém se apercebeu de que a biblioteca do liceu estava à minha disposição, e que eu tinha lido tudo o que estava lá, bom e mau, tudo o que me permitia formar uma consciência das coisas, interrogar os textos, saber das histórias, saber que havia um mundo para além daquele que era um mundo liso e organizado da menina temente a Deus e bem-comportada.

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14.08.2021 | por Doris Wieser, Ana Paula Tavares e Paulo Geovane e Silva

"A palavra nómada", entrevista a Aida Gomes

"A palavra nómada", entrevista a Aida Gomes e, de repente, acabou-se o paraíso deles e voltaram a Portugal… e eles também dizem: “Deixamos tudo…”. Ali ficou um sentimento de perda, um sentimento de saudosismo, que representa o tal retorno, os tais retornados. Há, na palavra retorno, nuances que se perdem. E essas nuances se perderam porque o discurso dominante do retorno sempre foi expresso, articulado por uma classe de portugueses, a maior parte brancos, que falavam duma África mística, maravilhosa etc.

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30.07.2021 | por Doris Wieser, Aida Gomes e Paulo Geovane e Silva

A dignidade é uma substância tão real como a sua própria carne

A dignidade é uma substância tão real como a sua própria carne O trânsito entre duas temperaturas, dois movimentos musicais da atmosfera colados ao corpo. O frio recobre o calor, e o calor absorve o frio, como se fossem duas nuvens epidérmicas. É nesse diálogo, nesse duelo, que a casa se enche de significados imbatíveis. O lugar em que a temperatura somos nós, em que o frio se enche do calor da nossa paz, do nosso sono, da nossa tristeza, do cheiro da nossa fome. Lugar em que o calor desliza sobre os músculos arrefecidos, como uma melodia percorre o silêncio. O lugar a que todos deveriam ter direito no Inverno. Um lugar difícil de aquecer.

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19.01.2021 | por Brassalano Graça

Conhecer e animar o arquivo de RDC: processos e resultados a partir de uma inventariação

Conhecer e animar o arquivo de RDC: processos e resultados a partir de uma inventariação Recorro aos materiais produzidos por Carvalho durante um longo período de tempo para mostrar algumas dimensões do seu processo criativo, procurando fornecer uma primeira interpretação destas em relação a algumas das suas obras. Uso livremente várias áreas exploradas pelo autor, concentrando-me, porém, sobretudo em dimensões gráficas e visualmente estimulantes. Combino essa discussão com a apreciação de alguns resultados do que chamo “animar” este arquivo obtidos através da inventariação e apresentados na exposição, e termino enquadrando um dos vídeos baseados em material de arquivo nela apresentado.

Ruy Duarte de Carvalho

08.10.2020 | por Inês Ponte

Apocalipse Now e os “Soldados Perdidos” da guerra colonial portuguesa na Guiné

Apocalipse Now e os “Soldados Perdidos” da guerra colonial portuguesa na Guiné O cheiro a selva, a pólvora, a carne estropiada, a napalm (como o autor testemunha, apesar do desmentido oficial), a cerveja, a humidade tropical, o whisky. O próprio livro cheira a whisky, sobretudo ao whisky velho da marinha portuguesa, não fosse este nosso alferes ter uma trupe de fuzileiros junto do seu quartel improvisado junto ao rio Cumbijã. Com eles havia de fazer ski aquático no meio da fauna de crocodilos ali existentes, ou pescar com granadas para afastar esses crocodilos e garantir a próxima refeição fresca.

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11.09.2020 | por Ricardo Seiça Salgado

Para lá da metáfora. Violência sexual e (pós-)colonialismo no romance Os Pretos de Pousaflores de Aida Gomes

Para lá da metáfora. Violência sexual e (pós-)colonialismo no romance Os Pretos de Pousaflores de Aida Gomes A crítica feminista tem vindo a apontar as implicações problemáticas da transfiguração do corpo feminino violentado em símbolo de um processo histórico, alertando para os códigos de género tradicionais que sustentam a metáfora: conotações de fragilidade e necessidade de proteção atribuídas ao feminino e estigmas de vergonha e culpa associados à violência sexual. Sara Suleri: a violação enquanto imagem do imperialismo é uma figura cuja obsolescência a tornou insuficiente para uma leitura sustentada das valências do trauma implicadas no simbolismo sexual do colonialismo.

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02.09.2020 | por Júlia Garraio

Os enigmas das monjas

Os enigmas das monjas No século XVII, freiras portuguesas amantes da literatura criaram uma relação especial com uma religiosa erudita do México colonial, Sor Juana Inés de la Cruz. Com poesia e enigmas de amor, defenderam o direito das mulheres ao conhecimento. Os escritos das religiosas ganharam pó por 300 anos na Biblioteca Nacional, em Lisboa. Até que um investigador tropeçou nas folhas soltas.

Corpo

21.08.2020 | por Pedro Cardoso

Os Olhos Negros de Toni: homenagem a Toni Morrison um ano após a sua morte

Os Olhos Negros de Toni: homenagem a Toni Morrison um ano após a sua morte Não se pode dizer que TM seja uma desconhecida em Portugal. Mas será verdadeiramente conhecida? Sabemos que os seus textos, politicamente tão duros, são traduzidos sem que se estabeleça ligação com os debates actuais sobre o racismo e o sexismo ou com o mundo literário afrodescendente. Indicativo disso são as sinopses em que se assiste a um quase esvaziamento das relações de poder – de classe, raça e género – e do peso da história, numa terraplanagem que quase coloca a sua obra na categoria de romance “delicodoce”. Mas, então, quem são as leitoras e leitores dos seus livros?

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05.08.2020 | por Cristina Roldão

Um mundo mais parecido com uma biblioteca

Um mundo mais parecido com uma biblioteca será que o leitor se referia ao seu aspecto físico ou à totalidade da sua percepção da realidade? Ao bairro onde Fidel vivia, ao seu quotidiano e indumentária, condição social, cor de pele, ou a outra condição limitadora? A Primavera não chegou para explicar a mim mesma por que razão as dores de Fidel, os seus medos, os amores de Fidel, os seus anseios, são dores, amores, anseios de segunda — anseios, medos, dores e amores com um grau inferior de generalidade ao da gente que costumamos encontrar dentro dos livros a que chamamos romances.

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24.07.2020 | por Djaimilia Pereira de Almeida