Constituindo-se como cenário “neutro” que, na realidade, continua a operar sob limites opacos entre consentimento e poder colonial, enquanto a negação das subjetividades protagonistas se expressou em categorias genéricas como “índio” ou “encontro”. Perante essa forma de vigência colonial, todas as narrativas simultâneas que se lhe contrapuseram, bem como as contradições e afrontas à nostalgia imperialista, entraram em confronto com a hegemonia ideológica, arquitetónica e visual imposta por este lugar desenhado segundo os padrões de um claustro colonial ajardinado.
03.03.2026 | por Lorena Tabares Salamanca
Em causa, como no caso da disseminação da Caixa Preta, estariam então uma série de mal-entendidos: entre concepções do tempo e modos de fazer, filiações dramatúrgicas, modos de habitar a cidade, modos de entender o teatro e o fazer artístico. Mas para entender o que está em causa num mal-entendido é sempre necessário proceder a um exercício de localização dos vários entendimentos das partes em questão, ou por outras palavras, o mal-entendido opera frequentemente como revelador de formas de temporalidade e regimes de historicidades diferentes.
01.03.2026 | por Ana Bigotte Vieira
A violência é a matriz da política. A história das nações não é de abraços à volta da fogueira, invocando ancestrais, mas de sangue, medos, tributos e exércitos. Tudo o resto, as leis, os parlamentos, as constituições, são apenas ferramentas de gestão para manter a máquina oleada e disfarçar essa verdade antiga da civilidade: lei do mais forte. Como disse alguém: a paz é a guerra bem administrada. É só estar atento ao termo “pacificação”.
Considerando isso, como podemos ler a situação da Guiné-Bissau, fora de uma análise simplista e maniqueísta?
27.02.2026 | por Marinho de Pina
Perseguido, vilipendiado, ostracizado, completamente arredado do ensino formal oficial, religioso e particular e activamente reprimido, menosprezado, marginalizado e estritamente circunscrito à comunicação oral nos meios populares mais humildes e desapossados pelos poderes estrangeiros opressores vigentes no período da consolidação da dominação colonial portuguesa na sua forma clássica, o crioulo caboverdiano logrou resistir com sucesso às investidas coloniais glotofágicas e assimilacionistas.
24.02.2026 | por José Luís Hopffer Almada
Hoje, cinquenta anos depois da independência, em que a língua materna teve um papel pedagógico e mobilizador fundamental, valorizar o cabo-verdiano passa por assumirmos a responsabilidade de perguntar, sobretudo quando comunicamos para o grande público: o que estou a escrever está conforme? Respeita minimamente as convenções existentes? Contribui para fortalecer ou para fragilizar a língua? Como posso escrever melhor e enriquecer, a partir da nossa própria fonte, com matérias endógenas, esta língua nossa, o cabo-verdiano?
23.02.2026 | por Apolo de Carvalho
Quando os livros finalmente nomearam o que Portugal tinha feito, chamaram-lhe Era da Descoberta, mas pelo menos foi escrito. Por mais que tenham suavizado a linguagem, polida que fosse a história, pelo menos ficou inscrito. O Atlântico deixou um rastro documentado. O deserto deixou marcas quase imperceptíveis na areia, constantemente erodidas pelos redemoinhos do deserto, embora essas areias devem ser assombradas pelos angustiados e ensanguentados, separados das suas linhagens, identidades, vidas e, muitas vezes, membros e órgãos genitais.
21.02.2026 | por Chinenye Egbuna Ikwuemesi
A literatura cabo-verdiana tem continuidade e novos intérpretes. Fredilson Semedo é um deles. A sua poesia revela compromisso com as duas línguas de Cabo Verde e diálogo com grandes mestres da tradição lusófona e universal. Felicito o autor por este marco na sua trajectória literária.
16.02.2026 | por José Luís Hopffer Almada
Passou a visitar as campas dos seus ancestrais frequentemente, o seu maior desejo era ver-se livre desta vida terrena cheia de abismos. Num desses dias enquanto dormia, despertou e ouviu vozes ruidosas a chamar por ele em direção ao cemitério familiar e para lá foi. Quando ali chegou, ajoelhou-se na campa do avô e gritou: levem-me às alturas. No mesmo instante, uma serpente apareceu.
10.02.2026 | por Edna Matavel
O que faz, então, uma família ser uma família? Será puramente genético — uma linhagem que pode ser traçada até uma ancestralidade comum — ligando pessoas de lugares, línguas e vidas diferentes? Sabemos que os laços emocionais e a memória coletiva desempenham um papel importante nas relações de sangue. Ao mesmo tempo, a família é também uma unidade económica e, em muitos aspetos, um microcosmo da sociedade em que existe.
07.02.2026 | por Avital Barak e Edgar Oliveira
Ao privilegiar uma abordagem centrada nas vivências das pessoas, assume-se como uma disciplina humanizadora, que tenta resgatar as particularidades do dia a dia, mais além dos recortes estatísticos e dos determinismos sociais. É claro que existem estruturas, tendências e políticas que ultrapassam as vontades das pessoas e que devem ser analisadas (vejam-se os processos de racialização e de precarização), mas o olhar mais localizado sobre as suas estratégias, sonhos e aspirações permite compreender quais são as suas possibilidades de escolha em campos socialmente delimitados, situando as suas forças e fragilidades.
02.02.2026 | por Raquel Carvalheira e José Mapril
Geração após geração cresceu envolta na mesma violência estrutural que o poder colonial institucionalizou. O cajueiro permanece não apenas como símbolo da violência colonial e do apartheid económico; sobreviveu também à queda do colonialismo, às reformas da revolução e às austeridades do ajustamento estrutural. A castanha de caju — e a instabilidade política — são o mais próximo que a Guiné-Bissau tem de continuidade.
02.02.2026 | por Klas Lundström
Estamos sobre a terra, mas os corpos continuam a querer viver na massa líquida de onde saíram há milhões de anos. A água deixa-nos a alma enrugada, na água passamos com tudo, uma morte rasteira que escorre conforme à gravidade. Seguir o princípio do fogo deixa-nos a cabeça alinhada com os astros, tentamos escapar à humidade onde tudo se confunde. O mundo é deslocação, como lembras na última carta, e a disponibilidade de que fala a Silvina é um combate contra esta queda que procura os lençois freáticos, Bachelard diz que é uma morte onírica, o que vai de encontro à fantasmagoria presente.
28.01.2026 | por Ricardo Norte
Zona de orla marítima povoada por hotéis, piscinas, cais de acesso ao mar públicos e privados, restaurantes, cafés, zonas ajardinadas, miradouros, lugares de lazer e descanso, a promenade estende-se da zona do Lido ao túnel da Doca do Cavacas que antecede a Praia Formosa, tendo daqui continuidade um percurso que vai até à baía de Câmara de Lobos.
Outrora também conhecido por Jardins do Lido, na página oficial deste passeio marítimo refere-se que é pautado por uma flora diversa composta por espécies endémicas e exóticas.
24.01.2026 | por Ana Gandum
Numa perspetiva jurídico-constitucional, o 13 de Janeiro abriu efetivamente espaço para a expansão quantitativa e qualitativa dos direitos e garantias individuais, sem alterar substancialmente os direitos coletivos. O ápice do direito coletivo reside na formação de um Estado soberano enquanto representação política e simbólica da coletividade.
19.01.2026 | por Abel Djassi Amado
Nas regiões semiáridas, como Cabo Verde, a primeira medida é o aproveitamento e a utilização, com o mínimo de perda possível, da água das chuvas, com o intuito de diminuir a velocidade do escoamento, reduzir o desgaste das terras e reter, na medida do possível, as mesmas águas, aumentando a disponibilidade hídrica.
13.01.2026 | por Yussef B
O que é claro é que a situação para a população é aguda e a miséria é profunda. Golpe ou não, as estruturas de realpolitik permanecem intactas: enraizadas num exercício vertical de poder onde as salas internas do poder permanecem trancadas e fora do alcance daqueles que esperam por um comboio algures fora de Lisboa. «O futuro?» diz um guineense a caminho de um trabalho diário no sector da construção e ri. «Estamos a falar de África —e o único futuro que alguma vez tivemos é o que está debaixo dos nossos pés.»
09.01.2026 | por Klas Lundström
Perante um membro do partido, o povo cala-se, torna-se «carneiro» e manifesta alguns elogios ao governo e ao dirigente. Mas, na rua, pela noite, no sossego da aldeia, no café ou junto do rio, ouve-se essa amarga decepção do povo, essa desesperança, mas também essa raiva contida. (Fanon, 1961: 189)
09.01.2026 | por Apolo de Carvalho e Alexssandro Robalo
O que aconteceu na Venezuela ultrapassa o campo da disputa política interna e entra, de forma explícita, no território do imperialismo cru, sem disfarces, sem pudor e sem qualquer compromisso real com a democracia. O discurso de Donald Trump, ao anunciar que os Estados Unidos iriam “governar” a Venezuela e assumir o controle de seu petróleo, escancarou aquilo que a América Latina conhece desde que foi invadida pelos europeus: sempre foi sobre recursos, comércio e lucro.
04.01.2026 | por Gabriella Florenzano
A urzela, ou roccella tinctoria, é um líquen que cresce nas rochas e falésias das orlas marítimas das ilhas da Macaronésia, um conjunto de quatro arquipélagos vulcânicos do Atlântico Norte. Quando a urzela, que se assemelha a um pequeno arbusto verde-acinzentado, é triturada e mergulhada numa mistura de água quente e urina humana fermentada, produz uma substância corante de cor vermelho-violácea. As suas tonalidades vivas e brilhantes foram durante séculos muito apreciadas na Europa, onde as roupagens de cor púrpura eram, desde a Antiguidade, um sinal de estatuto e privilégio. Por essa razão, a história das relações entre a urzela e os humanos encontra-se manchada por inúmeras atrocidades.
31.12.2025 | por Teresa Castro
A visão do governo do MPLA pós-Neto é de criar uma capital à la Dubai, capaz de atrair turismo, negócios e «massas de estrangeiros para a cidade, transformando-a num lócus onde a mão invisível do capitalismo consequentemente elevaria os angolanos da pobreza», enquadra-se nesse contexto. Nessa visão, o moderno, fresco e recém-inaugurado aeroporto Dr. Agostinho Neto funciona como os braços abertos e o sorriso acolhedor de Luanda. Consequentemente, o aeroporto permite que políticos e cidadãos considerem essa peça moderna de infraestrutura como sua própria, não vinculada ao colonialismo português, à arquitetura colonial ou às cicatrizes físicas dos colonos-ocupantes portugueses, nem ao cemitério não oficial de um império moribundo.
15.12.2025 | por Klas Lundström