E, se outro mérito não tivesse a sua obra ficcional do autor de Bola Com Feitiço, essa pequena jóia rara em qualquer literatura, esta fulguração criadora da linguagem sustentada pelo húmus mais fecundo da Terra que se abre aos mais interiores horizontes angolenses, com seus perfeitos e felizes casamentos de kimbundu e português na consumação dos seus dizeres efabulatórios e sábios, esta fulguração criadora, dizia, bastaria para colocar num muito especial patamar aquele que escrevia «em jejum absoluto», «de madrugada o que me tem custado maka», muito embora «até agora nunca me considerei escritor», conforme se lê no «Inquérito aos Escritores» levado a cabo pela União dos Escritores Angolanos, adiante reproduzido.
09.10.2025 | por Zetho Cunha Gonçalves
Quando criança todo mundo escuta. É no crescer dos ossos que nos fragmentamos. Ouvir com todos os sentidos pode ser doloroso em alguns momentos, constrangedor em outros. Fica difícil ser um adulto funcional e se manter sensível à microescuta dos seres. Tantas vezes em que tivemos que ouvir desaforos e responder entre gritos silenciosos. As vozes que engolimos falam muito mais alto dentro e ensurdecem nossos receptores. É o que dizem as estudiosas da microaudiologia, nove em cada dez mulheres adoecem por tudo que escutam em silêncio.
09.10.2025 | por Gabriela Carvalho e Rita Rainho
O presente é desmesurado e apela ao cuidado com a história única. Angola é o resultado de muitas histórias de vida e resistência de participação e dissidência. Os livros não param de aumentar. A moderna biblioteca permite hoje um levantamento e uma cronologia de diferentes momentos desde os antigos movimentos de libertação aos “révus” do século XXI. A ideia de uma república popular foi anunciada nos primórdios da independência e praticada por grupos de jovens que muito perturbaram a ideia do homem novo saído da guerrilha e pronto para mudar o mundo.
09.10.2025 | por Ana Paula Tavares
A verdadeira catástrofe do nosso tempo é a colonização do espírito. A indústria cultural, agora digital, não apenas molda os gostos — fabrica o próprio sujeito que deseja. A linguagem empobrece, a imaginação administra-se, e a crítica converte-se em algoritmo.
O que Bloom chamava de “morte da alma” é hoje uma condição planetária: o sujeito globalizado é um híbrido de consumidor, militante e espectador, preso à ilusão de autonomia que o mercado lhe vende.
05.10.2025 | por Eugénio Matusse
Quanto à escrita de Kanafani, ela não existe num vazio, mas como parte de uma prática política revolucionária no sentido mais amplo. Seja a partir da produção literária, onde relata, a partir de baixo e da sua própria experiência como refugiado, a Nakba palestiniana, recusando a sua naturalização ou eventualidade, ao introduzir o povo palestiniano como sujeito histórico que vive a Catástrofe como rutura que transformou radicalmente o seu quotidiano e a sua experiência espácio-temporal, mas também como processo em curso a ser contrariado por um permanente movimento de recusa e de retorno. Seja a partir de uma produção teórica que se alimenta e que alimenta a prática política revolucionária, quer a partir do que hoje chamaríamos de Estudos Culturais e Literários, quer a partir de complexas análises sociológicas, sempre informado pelo materialismo histórico como método.
01.10.2025 | por Bruno Costa
Da mesma forma que no Ayiti, foi a união dos diferentes povos africanos, então desmembrados dos seus territórios, que permitiu a maior revolução de todos os tempos. Ambas as revoluções, ayitiana e guineense, entram, sem dúvida, para a história das grandes revoluções pan-africanas. Mas, parafraseando Cabral e Deolinda Rodrigues, não devemos celebrar vitórias como se fossem eternas. É preciso sempre lembrar que a vida de uma nação é luta, luta todos os dias para manter a sua liberdade e soberania.
24.09.2025 | por Apolo de Carvalho
para a pugna, contra o requentado duma tal ciência
abstrusa. (Bem mais limpa é a poesia que trago presa
à bossa, e borbulha de vida & verdade nas suas várias
declinações. Bruxuleando, pede-me apenas a paciência
de aguardar que se equilibre sobre a pré destinada mesa,
contra as porcinas patas dessas tão façanhudas alimárias).
24.09.2025 | por José Luiz Tavares
Lívia denuncia o contraste brutal entre a celebração dos chamados “nómadas digitais” e a invisibilidade dos imigrantes que sustentam a cidade com seu trabalho precário. Lisboa, segundo ela, vive uma contradição gritante: valoriza o poder de compra enquanto ignora os direitos. É um apartheid velado que separa mundos que coexistem na mesma geografia, mas em realidades paralelas. Considera escandalosa a forma como os bairros de autoconstrução, colados ao conforto lisboeta, são ignorados por grande parte da população, um apagamento que revela o abismo entre classes e raças.
22.09.2025 | por Marta Lança
Maria Condado desloca para o espaço expositivo o espaço privado, mostrando uma ideia de atelier como espaço de vida e de experimentação, onde o pensamento e a prática se entrelaçam. Assim, o processo do fazer, pressupondo as suas circunstâncias e problemáticas, é entendido como parte integrante da obra, mostrando como, para a artista, público e privado se fundem, tal como o artista não se desliga da vida concreta. Este gesto reafirma o compromisso de Maria Condado com a realidade social e política, e com uma prática situada e que reclama o tempo presente e é capaz de intervir criticamente sobre este. Ao evocar um período histórico de conflitualidade social e engajamento político e ao remeter-se ao universo do atelier, apela à urgência da ação, instigando a responsabilidade da arte como instrumento ativo de interpretação, intervenção e transformação do seu tempo.
22.09.2025 | por Patrícia Barreira
Persiste a falta de reconhecimento da relevância das cosmologias dos povos originários como base estrutural da sua existência. Ao expor os absurdos dessa incompreensão, 'Um Rio Sem Fim' abre espaço para refletir sobre a violência e o aniquilamento de comunidades inteiras que este equívoco provocou, e continua a provocar. Sobre o livro, Verenilde Pereira refere com frequência: “Não há mais um leitor inocente diante dessa paisagem amazónica que venha a ler. A responsabilidade é sua: compreender ou não, ou descartar. Não há inocente diante da paisagem que os personagens oferecem. E essa paisagem eu conheço.”
20.09.2025 | por Anabela Roque
A política governamental para a língua cabo-verdiana deverá ser incumbência de uma unidade de missão a funcionar junto do conselho de ministros, atuando também como provedoria da língua, seguindo e coordenando, com força legal, todos os desenvolvimentos nesta matéria até à oficialização plena. Ao mesmo tempo deverá ser implementada uma política de formação alargada em linguística e ensino, com incidência no estudo da língua cabo-verdiana e estudos comparados com outras línguas crioulas, através da concessão de bolsas pelo estado e pela Universidade de Cabo Verde, e o incentivo à criação de cursos de âmbito linguístico, nomeadamente crioulística, pelas universidades privadas.
19.09.2025 | por José Luiz Tavares
A implementação do programa para a oficialização da língua cabo-verdiana é, sem dúvida, um processo complexo, que não poderá ser desenvolvido em linha reta, mas é necessária, urgente e possível. Os objetivos poderão ser atingidos num horizonte temporal exequível, com uma definição de estratégias e metas e com o planeamento da provisão da assistência técnica e dos recursos humanos e financeiros necessários.
19.09.2025 | por Maria Cândida Gonçalves
Paralelamente às suas primeiras estórias escritas e avulsamente publicadas, em finais da década de 1950, escreveu Luandino alguns poemas que circularam em jornais e revistas, tendo a poesia, no seu mais apurado grau de elaboração e factura, tomado e entranhado o rigor da prosa que foi escrevendo num crescendo de oficina lenta, implacável, furiosamente pessoal, encantatória. E que maravilhosa antologia poética se pode fazer com os «pontos luminosos» (Ezra Pound) da sua obra de ficção! Eis, entre tantos outros possíveis, um exemplo — obviamente não cooptado para este livro, mas aqui convocado pela sua fulgurante potenciação poética inequívoca:
18.09.2025 | por Zetho Cunha Gonçalves
Esse trabalho analítico mobilizou a diversidade de saberes e experiências dos membros do grupo de trabalho, em todas as áreas que interagem na conceção e na elaboração do Manual, enquanto instrumento de suporte do ensino e da aprendizagem da língua materna e da cultura cabo-verdiana. São saberes e especializações em Linguística, Sociolinguística, Crioulística, Língua Cabo-verdiana e Literatura Cabo-verdiana; em Didática das Línguas, Pedagogia e Desenvolvimento Curricular. São saberes e experiências na conceção e na implementação de projetos bilingues, dentro e fora de Cabo Verde; no exercício da docência de várias disciplinas e da própria língua cabo-verdiana, do ensino básico ao universitário, em Cabo Verde e em Portugal;
18.09.2025 | por várias
Se o surgimento do movimento dos Soulèvements de la terre foi a melhor notícia dos últimos anos no que diz respeito às lutas ecológicas e ambientais, a publicação do livro que aqui abordamos parece-nos um contributo essencial, com os recursos teóricos, táticos e estratégicos que nos apresenta, para as lutas ecológicas, agrícolas e sociais, transmitindo o gosto e a necessidade absoluta da ação direta coletiva.
12.09.2025 | por várias
Nesta Marxa, sob o mote “Di povu pa povu: Libertação, Dignidade e Soberania popular”, reconhecendo a importância indiscutível das lutas pela independência, olhamos criticamente para o percurso feito até agora e afirmamos o nosso compromisso com a luta pela soberania popular e panafricana ainda por construir.
10.09.2025 | por vários
Além do atropelo de todos os comandos legais sobre a língua cabo-verdiana, que é, nem mais, e por lei da Assembleia Nacional, «fundamento de soberania», e por isso objeto de proteção especial, e daí a exigência constitucional da intervenção do senhor presidente da República, não podendo nenhuma intervenção técnica num simples manual escolar mudar a sua feição, há ainda a incompetência orgânica do ministério da educação para a realização de um ato de padronização linguística, ainda que encapotada, pois as mentes engendradoras de tal façanha, apesar das evidências em contrário, e por todos apontadas, juram por este mundo e pelo outro que não se trata de tal coisa.
10.09.2025 | por José Luiz Tavares
Estranho seria que, sobretudo numa fase experimental, as autoras e avaliadoras externas do Manual (que nele também participaram) se recusassem a escutar e a debater avaliações críticas e sugestões, particularmente se resultantes de uma análise cuidada e séria, feita por membros, alguns honorários, como eu, de uma Associação que, não sendo de linguística nem para linguistas, se dedica ao estudo, promoção e valorização da língua cabo-verdiana. O próprio Ministro da Educação, numa intervenção televisiva, se afirmou aberto a observações e críticas científicas.
07.09.2025 | por Dulce Pereira
Forjado na sociedade colonial-escravocrata como meio de comunicação entre os diferentes grupos étnicos negros escravizados trazidos cativos da costa africana vizinha para as ilhas e os seus senhores brancos chegados com as navegações marítimas europeias, o tráfico negreiro e o comércio triangular transatlântico, o crioulo cabo-verdiano emergiu, assim, como a expressão (linguística) mais eloquente e visível da cultura crioula surgida da interacção, do confronto e do diálogo civilizacionais entre dominados e dominadores, entre explorados e exploradores, no chão agreste das ilhas cabo-verdianas, encontradas desertas de populações autóctones e virgens dos pontos vista antropológico e sociológico.
28.08.2025 | por José Luís Hopffer Almada
Outra faceta de António Jacinto — uma espécie de “conselheiro sentimental”, passe a expressão — é-nos dada pela sobrinha Maria Cecília, ao contar o caso da sua irmã Nica, apaixonadíssima por um colega de escola, «que não lhe deu bola nenhuma.» Desesperada, procura junto do tio amado, não só consolo, mas também a sugestão de um modo capaz de aliviar a dor do seu “mal de amor”. Conselho do sábio Jacinto: «— Nica, nunca se namora com ninguém da mesma escola, nem da mesma rua. Nunca se esqueçam disso.»
26.08.2025 | por Zetho Cunha Gonçalves