O inconsciente colonial

O inconsciente colonial É um lugar-comum dizer-se que a produção de memória arrasta consigo, inevitável e concomitantemente, a produção de esquecimento. Há muitas formas de esquecimento, a mais insidiosa das quais é, sem dúvida, a rasura da memória, a reescrita do passado como parte de uma estratégia deliberada de intervenção no presente.

Jogos Sem Fronteiras

28.02.2021 | por António Sousa Ribeiro

Reforçar os alicerces: contra o apagamento da memória

Reforçar os alicerces: contra o apagamento da memória Os acontecimentos destes últimos seis anos deram uma maior acuidade às observações de Gilroy. Simultaneamente, tornaram cada vez mais evidente que, não obstante o progresso real alcançado, as tentativas de manter privilégios baseados na desigualdade estrutural e sistémica, no tocante à classe, ao género ou à raça, se tornaram ainda mais obstinadas. Tentativas que vão de mãos dadas com os esforços, inúteis, mas devastadores, de negar a História e impor o apagamento da memória.

A ler

18.02.2021 | por Paulo de Medeiros

A história e protagonistas da música afro-portuguesa

A história e protagonistas da música afro-portuguesa A relevância da participação negra em Portugal nas mais diversas áreas – incluindo a música – remonta já a várias centenas de anos, mas raras vezes é articulada nas narrativas públicas dominantes. Não se trata, naturalmente, de os negros em Portugal não terem voz ou não se encontrarem presentes no quotidiano do país. Trata-se, isso sim, muitas vezes, de falarem sem serem considerados, de verem sem serem vistos, de cantarem sem serem escutados – pelo menos, fora de uma esfera cultural tendencialmente mais circunscrita.

Palcos

30.01.2021 | por Inês Nascimento Rodrigues

Patrice Lumumba, 60 Anos Depois

Patrice Lumumba, 60 Anos Depois No dia 30 de junho de 1960, na cerimónia de proclamação de independência do Congo, houve três discursos: do rei Baudouin da Bélgica, antiga potência colonizadora, do Presidente do Congo, Joseph Kasavubu, e de Patrice Lumumba, primeiro-ministro, este último, numa intervenção não prevista no protocolo inicial. Foi um discurso curto de cerca de doze minutos, escrito numa linguagem acessível e incisiva, performativa e visual, um discurso que, como defende o historiador Jean Omasombo Tshonda, “funda o Congo independente”. Os primeiros oito minutos são a mais clara definição do que é o colonialismo do ponto de vista de um continente, de um país, de uma comunidade, de uma pessoa.

A ler

30.01.2021 | por Margarida Calafate Ribeiro

Esta guerra não é tua (2)

Esta guerra não é tua (2) Os pormenores são repugnantes, mas não consigo deixar de sentir um júbilo secreto por ter deparado com mais uma história exemplar do colonialismo, no sentido mais lato da palavra «colonialismo». O colonialismo é fazermos a alguém aquilo que entendemos como «bem», mas que essa pessoa sente como «mal», para que essa pessoa nos possa servir melhor. Reformulo: o colonialismo é instrumentalizarmos o outro, fazendo-lhe bem somente na medida em que esse benefício nos possa beneficiar a nós. Resta dizer que o carácter exemplar de uma história escapa quase sempre ao seu narrador.

Mukanda

16.01.2021 | por Paulo Faria

A última lição de Eduardo Lourenço

A última lição de Eduardo Lourenço Eduardo Lourenço foi, sozinho, uma grande família intelectual: filósofo, professor, crítico literário, pensador, mitólogo, crítico de artes, de cinema, ensaísta, precursor da crítica pós-colonial e dos estudos culturais, escritor, homem de letras, só para fornecer uma lista funcional e sempre incompleta. Foi um triunfo não de disciplinas, mas de “indisciplina”, num mundo sempre mais virado para o elogio (preguiçoso) da “especialização”.

A ler

16.01.2021 | por Roberto Vecchi

Obras de arte na condição da pós memória (Conclusão)

Obras de arte na condição da pós memória (Conclusão) Em face desta nova narrativa que reconhece uma produção artística e um apreço de comunidades africanas pela mesma, de que modo tradições culturais seculares de países africanos interagem hoje com a formação e produção artística, no caso dos artistas afrodescendentes, que nasceram e fizeram a sua formação em países europeus? Como se combinam os acontecimentos da história de África e dos africanos com linguagens artísticas das “escolas europeias” e, em particular, com as temáticas contemporâneas?

A ler

28.12.2020 | por António Pinto Ribeiro

Esta guerra não é tua

Esta guerra não é tua O que procuro nestes encontros com veteranos do Ultramar é algo que não sou capaz de traduzir numa fórmula simples e telegráfica. Há entre estes veteranos um sentido de comunidade fortíssimo, uma comunhão quase familiar, quase tribal, que em certos momentos me parece incompatível com um sentido de comunidade mais vasto. É uma comunhão que tende a excluir-me, a mim e a todos os que não partilharam a mesma experiência. O que busco nestas conversas são os momentos, semelhantes a epifanias, em que os veteranos exprimem a pertença a uma comunidade humana mais vasta, mais abrangente, necessariamente organizada em torno de valores morais.

A ler

13.12.2020 | por Paulo Faria

Não dá para ficar parado: Vítor Belanciano assina livro sobre a “música afro-portuguesa”

Não dá para ficar parado: Vítor Belanciano assina livro sobre a “música afro-portuguesa” Esta “música afro-portuguesa” que gira à volta de “celebração, conflito e esperança” é uma ideia em constante construção: “Há imensos agentes relevantes. Acaba por estar tudo ligado. O impacto dos Buraka Som Sistema foi central, mas ele só existiu porque antes o hip hop em Portugal se afirmou e depois houve Cool Hipnoise ou Spaceboys e tantas outras coisas. Da mesma forma que o percurso internacional de Batida ou da Príncipe Discos beneficiou desse efeito Buraka. A redescoberta do Bonga, por exemplo, está também conectada com esta dinâmica, porque existe um recontar da história, um trabalho de memória que importa fazer. E depois, hoje, tens imensos vectores, desde a crioulização do Dino D’Santiago, à atitude combativa de Scúru Fitchádu, ou novas gerações que tanto se inspiram em motivos da cultura global como local, como o Tristany.

A ler

08.12.2020 | por Alexandre Ribeiro

A quem pertence...?

A quem pertence...? No seu ensaio, Kertész deixa clara a grande distância crítica que o separa de muitas formas de apropriação e mesmo instrumentalização da memória do Holocausto por uma segunda ou terceira geração, mas isso não turva a lucidez com que analisa o processo nos termos que referi e, particularmente, a consciência clara de que, sendo a memória um legado, a forma que a apropriação desse legado poderá assumir não é legislável pelo seu detentor original. Esta lucidez não é universalmente partilhada.

A ler

29.11.2020 | por António Sousa Ribeiro

Amadú Bailo Djaló, Antigo combatente africano das forças armadas portuguesas: uma homenagem

Amadú Bailo Djaló, Antigo combatente africano das forças armadas portuguesas: uma homenagem Amadú Bailo Djaló é, até à data, o único antigo combatente africano das Forças Armadas Portuguesas (FAP) que publicou um livro sobre a sua experiência na Guerra Colonial portuguesa. Amadú tinha 70 anos quando o seu livro Guineense, Comando Português (1964-1974) foi publicado pela Associação de Comandos, em 2010. Este livro foi escrito a partir de um dos seus diários. Tinha, pelo menos, mais dois que desejava poder publicar um dia.

A ler

16.11.2020 | por Fátima da Cruz Rodrigues

O gigante aparente: da reescrita do racismo às obras de arte da pós-memória

O gigante aparente: da reescrita do racismo às obras de arte da pós-memória Ora, nas obras artísticas da pós-memória ocorre um fenómeno semelhante no que diz respeito à distância temporal do artista relativamente ao passado traumático objecto de uma reapropriação. Quando, na sua obra, o artista da segunda geração (que normalmente possui um vínculo familiar com a história colonial europeia) recupera um legado distante, o que está a fazer é integrá-lo na sua vivência biográfica, na sua condição presente de herdeiro de um passado colonial. Isto é, o artista (venha ele do campo da literatura, das artes, do cinema ou da música) tem o valor de aproximar-se daquele Gigante Aparente, que ao longe parece tão desmesuradamente grande, mas que de perto apresenta umas dimensões naturais.

A ler

01.11.2020 | por Felipe Cammaert

Com a boca cheia de sangue: da responsabilidade dos intelectuais

Com a boca cheia de sangue: da responsabilidade dos intelectuais Uma maneira de resistir a este esvaziamento do âmago daquilo que significa ser-se humano é manter a memória e não deixar que a morte imponha o silêncio. Quando George Floyd, Marielle Franco, Bruno Candé, e tantos outros, são assassinados abertamente, temos que resistir ao medo, invocar as memórias de resistência, e falar. Tal como Morrison também assevera, o fascismo acaba por destruir todos, passo a passo. Mesmo que as nossas bocas estejam cheias de sangue ao testemunhar as violências sistemáticas sobre os nossos companheiros seres humanos, ao assistir à sua degradação, à sua desumanização, e ao seu assassínio, temos de continuar a falar.

A ler

19.10.2020 | por Paulo de Medeiros

Quem define as memórias que cabem na Europa?

Quem define as memórias que cabem na Europa? Este crescimento da extrema-direita tem parasitado o modo como a acumulação neoliberal cria, em significativas parcelas da população, um cenário de expectativas socioeconómicas minguantes. Um tal quadro favorece populismos de direita que se declaram anti-sistema ao mesmo tempo que mantêm o extrativismo capitalista a salvo. A estratégia consiste em mobilizam preconceitos contra alvos de expiação concretos: LGBTQ+, imigrantes, negros, ciganos, Estado Social, corrupção, etc.

A ler

08.10.2020 | por Bruno Sena Martins

Obras de arte na condição da pós-memória: alguns atributos (2)

Obras de arte na condição da pós-memória: alguns atributos (2) estávamos ainda no início dos debates sobre o pós-colonialismo e não havia uma reflexão aprofundada sobre o contexto de produção das obras de artistas afro-descendentes. Uma geração mais tarde, assiste-se a uma reflexão teórica e a uma produção académica e literária que estuda e reconhece os artistas afro-descendentes como artistas da pós-memória. As suas obras têm um lugar no panorama da arte contemporânea. Destacam pela expressão de continuidade de um universo veiculado por memórias de vivências diferidas, ou seja, não experienciadas na primeira pessoa, que permanece como inspiração, e através do qual se convocam novas formas de inquirir o real e de produzir novas representações pós-imperiais do mundo.

A ler

27.07.2020 | por António Pinto Ribeiro

Heranças africanas em língua portuguesa: «sempre habitámos um espaço maior que nós»

Heranças africanas em língua portuguesa: «sempre habitámos um espaço maior que nós» os textos que compõem o quarto volume da coleção MEMOIRS respondem à necessidade de fazer com que o conceito de “África lusófona” que os reúne seja lido através da “multiplicidade flexível” (p.15) que caracteriza a produção artística dos países africanos de língua portuguesa na actualidade. O projecto MEMOIRS, dedicado nomeadamente às representações da pós-memória do colonialismo europeu na Europa, não podia deixar de considerar esse outro espaço, o africano, que de alguma maneira é a origem real e metafórica das transferências de uma grande parte das memórias entre as gerações pós-imperiais da sociedade europeia actual.

A ler

18.07.2020 | por Felipe Cammaert

Pós-colonialismo e pós-holocausto: o “caso” Mbembe

Pós-colonialismo e pós-holocausto: o “caso” Mbembe Do ponto de vista de uma condenação intransigente do colonialismo, a denúncia das actuais práticas do Estado de Israel relativamente ao povo palestiniano é uma consequência lógica. E condenar todas as formas de colonialismo não corresponde ao assumir de uma posição ideológica, é, pura e simplesmente, um imperativo moral.

A ler

04.07.2020 | por António Sousa Ribeiro

Papéis velhos

Papéis velhos Os “papéis velhos” representam para mim a herança arqueológica de trajetos de vida, memórias e eventos nacionais. Por circunstâncias várias, sou eu a guardiã destas memórias materiais que invadem o meu escritório com o seu perfume do antigamente. Existem silêncios, lacunas e incógnitas. Amiúde, interrogo-me: o que terá decidido não arquivar e deixar de fora? Que narração decidiu guardar para que não fosse condenada ao esquecimento? Não entendo o arquivo como um fim em si mesmo, é antes uma porta que se abre para a exploração do testemunho que o avô desejou deixarmos.

A ler

27.06.2020 | por Yara Monteiro

Vendavais (3)

Vendavais (3) Sobre o conhecimento da violência do imperialismo, do colonialismo, e do racismo – que se mantém como um dos elementos estruturantes mais persistentes e insidioso das nossas sociedades –, podemos afirmar que, na realidade, esse conhecimento é partilhado por todos. O que varia é apenas o grau de pormenor que cada um de nós decidiu aprender, ou foi obrigado a aprender, assim como o modo como cada um se posiciona a si próprio ou é forçado a tomar uma posição relativamente a esse conhecimento.

A ler

19.06.2020 | por Paulo de Medeiros

Contra o complexo de Babar.
 Pós-memória, periferia 
e literatura

Contra o complexo de Babar.
 Pós-memória, periferia 
e literatura Diferentemente da primeira geração, que tinha o “sonho francês” de uma vida melhor e a ilusão de retornar a Argélia, Guène tem consciência que a relação dos pais com o país de origem é baseada numa certa negação, numa ilusão que eles alimentaram de um país que não existe mais. Ela acrescenta “para nós era também um país que não existia. Para mim a Argélia se divide entre um país real e um imaginário, e a Argélia é parte de mim tanto quanto a França.

A ler

06.06.2020 | por Fernanda Vilar