Subversões da memória

Subversões da memória Para ativar a discussão sobre a relação entre memória e criação artística os organizadores, Maria João Brilhante e Tiago Rodrigues, propuseram três eixos de aproximação ao tema que, resumidamente, questionavam: (1) como o próprio fazer teatral desenvolve-se como um trabalho da memória; (2) como o teatro produz e performa memórias; e (3) em que medida a memória torna-se matéria do teatro, isto é, como o teatro elabora e relaciona memórias coletivas e individuais e pode assim construir contra-versões das “histórias oficiais” produzidas pelas sociedades.

Palcos

04.11.2019 | por Joana Levi

Exposição Meta-Arquivo: 1964-1985: Espaço de Escuta e Leitura de Histórias da Ditadura

Exposição Meta-Arquivo: 1964-1985: Espaço de Escuta e Leitura de Histórias da Ditadura Reflexão acerca da documentação pública arquivada pelo Estado Brasileiro: como ler esses arquivos? Como construir memória a partir deles? Como aprender coletivamente sobre a história do país e de seu povo, a partir de sua análise? Como preservar esses acervos e, como consequência, a memória dos processos civilizatórios que alicerçam a sociedade atual?

Vou lá visitar

03.11.2019 | por vários

A recusa da guerra e o abismo colonial

A recusa da guerra e o abismo colonial a difícil assunção de uma guerra politicamente derrotada e o fecho traumático do ciclo imperial tenderam a produzir uma memória sobre a guerra colonial na qual – ainda que acentuando frequentemente a dimensão «trágica» ou «inútil» do acontecimento – sobressai uma leitura da participação no conflito como um gesto de dever e da figura do ex-combatente como alguém que fora vítima, ora dos «ventos da História», ora de uma guerra que fora obrigado a combater.

A ler

16.06.2019 | por Miguel Cardina

Autopografias - Peter Weiss em Auschwitz

Autopografias - Peter Weiss em Auschwitz A reflexão sobre as dimensões transgeracionais do conceito de memória é, contudo, naturalmente, muito anterior à proposta de Hirsch. Em particular na literatura do Holocausto, a construção de uma “memória do não-vivido”, característica da atitude pós-memorial, constitui um modelo que pode ser abundantemente documentado e que, justamente pela força do paradigma da confrontação com o Holocausto para o conjunto dos estudos sobre violência, trauma e memória, merece uma atenção particular.

A ler

04.05.2019 | por António Sousa Ribeiro

O que se pode fazer ao ver com os olhos de um outro

O que se pode fazer ao ver com os olhos de um outro Através do trabalho de Louise Narbo podemos interrogar esta relação de quem herda o olhar de um passado através de um outro. Ela sugere que o olhar do outro, que comporta em si certas capacidades, interfere na visão de quem o herda; que esse olhar, diminuído ou amplificado, pode nublar, embaciar, deformar a visão de quem o recebe; mas pode ao mesmo tempo constituir o motivo pelo qual o herdeiro desse olhar se interroga sobre essa visão que não é exclusivamente a sua, mas que também já não pertence exclusivamente àquele que lhe transferiu o seu olhar.

A ler

23.03.2019 | por Fátima da Cruz Rodrigues

Comemorações institucionalizadas e monstros da memória

Comemorações institucionalizadas e monstros da memória Como no dia da memória, o fracasso confirma que não será uma tecnicidade que salvará um passado definitivamente perdido, mas uma compaixão humana transformada em consciência histórica, ainda toda por construir, diante de um passado abjeto e terrível. Este será o único antídoto capaz de manter enterrado, no seu horrível refúgio, o monstro de um passado de brutalidade ilimitada, que não se deixa narrar. Pelo menos temporariamente, no entanto.

A ler

12.03.2019 | por Roberto Vecchi

Enlaces: artes periféricas, artivismo e pós-memória

Enlaces: artes periféricas, artivismo e pós-memória O neologismo “artivismo” terá sido introduzido nos anos 1960 para dar conta das manifestações contra a guerra do Vietname, assim como dos movimentos estudantis e de contra-cultura. Nesse sentido, Guy Debord teorizou sobre o situacionismo em seu livro A Sociedade do Espetáculo (1967), onde apontava para a necessidade da superação da política e da arte, para sabotar as diretrizes do capitalismo e, assim, dar um novo saber a arte e, por conseguinte, à vida. É apenas em meados de 1990, com a revolução da internet, que o termo volta a aparecer no vocabulário crítico para ilustrar não apenas uma prática de arte política, mas para reavaliar o que se considera política e arte, numa reactualização do conceito de Debord.

A ler

12.02.2019 | por Fernanda Vilar

Uma raiva tão surda

Uma raiva tão surda "No Intenso Agora" João Moreira Salles questiona a memória, seja ela pessoal ou coletiva, e fá-lo a partir da perspectiva da pós-memória. Uma das principais questões do filme é a busca do narrador para entender como sua mãe foi feliz e viveu intensamente num dado momento de sua vida, quando viajou para a China em 1966 integrada numa delegação variada, para testemunhar transformações produzidas pela Revolução Cultural. Em vez de constituir um "interlúdio", pode-se dizer que o foco naquela viagem e as filmagens que sua mãe trouxe consigo poderiam ser uma, ou a, parte central de todo o filme. Mas isso também seria impor uma estrutura que o filme recusa.

A ler

01.12.2018 | por Paulo de Medeiros

Quando nem sequer os mortos veem o fim da guerra

Quando nem sequer os mortos veem o fim da guerra Na obra Soliloquios en Inglaterra e Soliloquios Posteriores, escrita entre 1914 e 1921, o filósofo espanhol George Santayana disse: “Apenas os mortos viram o fim da guerra”. De facto, quando as guerras terminam, nem tudo aquilo que elas destruíram, criaram, violentaram e profanaram parece ter fim. Contudo, entre os muitos restos, destroços e heranças que as guerras vão deixando, e que inevitavelmente contaminam várias gerações, por vezes nem sequer os mortos parecem ver o seu fim.

A ler

17.11.2018 | por Fátima da Cruz Rodrigues

A dissociação entre a verdade e a memória

A dissociação entre a verdade e a memória Quando a história e o dever de memória não são tratados com o devido interesse, a verdade instala-se facilmente como escolha pessoal. Uma vez acomodadas no discurso do poder, as “verdades” tornam-se impunes; são muitas vezes relevadas e raramente condenadas, apesar de veicularem um discurso de ódio. O ódio foi normalizado e propulsionou um radicalismo onde o “bem” luta contra o “mal”. O mal sendo mais uma vez o diferente, o Outro. Um discurso que não humanize o Outro autoriza a barbárie.

A ler

26.10.2018 | por Fernanda Vilar

A tessitura da memória

A tessitura da memória Obviamente, a pintura de Kaphar seria uma denúncia eloquente do racismo, mesmo se vista isoladamente e desprovida de qualquer contexto. Justaposta à fotografia de Papf, no entanto, ela assume uma outra camada importante, pois serve para lembrar e testemunhar a violência e a crueldade da escravidão até mesmo nos espaços mais íntimos e domésticos.

A ler

18.10.2018 | por Paulo de Medeiros

Esquecer em português

Esquecer em português É um facto: as sociedades esquecem. É um processo necessário à criação de identidades coletivas, de solidariedades políticas, de projetos de governação da sociedade, de sobrevivência e de reinício coletivo após guerras civis ou outros eventos responsáveis por ruturas.

A ler

02.10.2018 | por Hélia Santos

Sou filha desse passado, mas sinto que não faço parte dele.

Sou filha desse passado, mas sinto que não faço parte dele. E isso é uma herança do passado colonial. O estereótipo do negro, do negro que não sabe falar bem, do negro que não se veste bem, do negro que não se comporta bem, do negro que não tem estudos, que não lê, não escreve, não pensa. Isto ficou. Essa herança do passado ficou. E eu sou esse passado. Eu nasci por causa desse passado; sou filha desse passado. Sei disso. Mas sinto que não faço parte dele.

Mukanda

26.09.2018 | por Ariana Furtado

O Museu Casa da Memória (Medellín) e a memória como passado-presente

O Museu Casa da Memória (Medellín) e a memória como passado-presente A proposta museológica passa pois por utilizar a memória como ferramenta reflexiva que permita ressignificar esse passado-presente e que abra espaço para modos partilhados e plurais de contar o acontecido, um elemento que se evidencia percorrendo a exposição permanente Medellín: Memorias de Violencia y Resistencia e - de forma ainda mais evidente – nos processos participativos de construção das exposições Geografías de la Verdad (que esteve patente ao público até agosto) e Medellín ES (atualmente visitável e que terá uma segunda parte inaugurada em final de setembro). Museologia viva em conexão com as comunidades, o MCM tem no recurso à expressão artística um eixo fundamental do seu labor.

Vou lá visitar

25.09.2018 | por Miguel Cardina

Memórias familiares e memórias públicas: campos de batalha

Memórias familiares e memórias públicas: campos de batalha O que se guarda no espaço íntimo e privado são imagens efetivas ou simbólicas de vivências pessoais, de experiências agradáveis ou dolorosas. A sua evocação remete sempre para a relação discursiva e vivencial, afetiva e familiar entre gerações, guardada e alimentada na esfera doméstica onde os gestos, os afetos, os símbolos, são até mais importantes do que a ordem e o fundamento do discurso.

A ler

01.09.2018 | por Roberto Vecchi

État de lieux: França 2018, o debate sobre o passado colonial

État de lieux: França 2018, o debate sobre o passado colonial A vontade de se discutir criticamente a história francesa é ainda minoritária. É possível observar discussões sendo feitas no mundo universitário, com encontros e congressos, mas a memória coletiva precisa de um debate público de qualidade que é ainda muito incipiente e genericamente desinformado, apesar do dito desejo do governo atual de reparar os destroços. As fraturas estão expostas e ainda não foram tratadas, apenas remediadas.

A ler

29.06.2018 | por Fernanda Vilar

Não a um museu contra nós!

Não a um museu contra nós! A ausência das nossas perspetivas nas instituições nacionais e nas discussões públicas está naturalizada e normalizada, rasurando-nos enquanto sujeitos históricos e enquanto contribuidores por excelência para a edificação da sociedade portuguesa nas suas diferentes vertentes. Excluídos do corpo nacional, assistimos a uma disputa pela memória que reforça a glorificação da ideologia colonial e reifica o lusotropicalismo, que continua bem presente, apesar da derrota política do fascismo e do advento da democracia, com a “revolução dos cravos” de 1974.

Mukanda

27.06.2018 | por vários

Declaração de guerra 1

Declaração de guerra 1 A um, que estava muito ferido, eu disse: “A tropa não te pode fazer nada, o que queres antes de morrer?” Ele pediu água, eu disse ao soldado para ir buscar água mas fiz-lhe um sinal para não ir, não seria necessário. Peguei na espingarda-metralhadora FBP, que não era fiável, fiz um disparo para o matar, mas saiu ao lado. Disse ao soldado: “Ó 235, mata o indivíduo”. O soldado encostou-lhe a Mauser à testa e matou-o. A partir daqui, fiquei a pensar que não o devia ter feito, mas por outro lado o indivíduo não se podia safar, morreria à mesma…

Mukanda

24.06.2018 | por Vasco Luís Curado

Vidas que ficaram do outro lado

Vidas que ficaram do outro lado Os atos sexuais que geraram aqueles filhos são tendencialmente vistos como despojados de violência ou interesse; o tom de pele mais claro, denunciador de atos sexuais com o colonizador, foi motivo de ostracismo social e frequentemente familiar; do lado de cá, os pais tentam maioritariamente esquecer ou resistem aos contactos, ciosos dos impactos da descoberta na sua família.

A ler

10.06.2018 | por Miguel Cardina

A Argentina e as suas cicatrizes familiares

A Argentina e as suas cicatrizes familiares A família é o objeto opaco e indecifrável o que torna os estudos das memórias privadas um desafio problemático. De fato, como se pode perfurar o diafragma espesso que protege e encobre os passados subjetivos, privados, denegados, afundados como cárceres de grupos afetivos nas regiões mais escuras e profundas do perímetro familiar?

A ler

12.05.2018 | por Roberto Vecchi