Conversas em torno da matéria líquida, atentas às suas agências materiais, fluxos históricos e envolvimentos políticos. Estas conversas reflectem sobre como a arte, a literatura e as práticas de escuta situadas podem transformar modos de sentir, conhecer e relacionar-se com a água - reimaginando gestos de cuidado insurgente e de resistência. Entre os temas abordados estão a aquapoética feminista africana, o activismo e as poéticas hídricas na América Latina indígena, bem como a dimensão política das materialidades sonoras em contextos aquáticos.
09.05.2025 | por Salomé Lopes Coelho
Uma leitura da obra Do Tempo Suspenso (1998) de Maria Alexandre Dáskalos a partir da perspetiva teórica do in-betweenness (Bhabha, 1994), com o objetivo de decifrar a construção dinâmica de uma determinada identidade africana na poesia, sempre enquadrada pelo contexto pós-colonial, pós-guerra e de diáspora, que não se pode desligar da posição peculiar do sujeito poético entre diferentes lugares de memória (Assmann, 2008), divergentes paisagens de humanidade e variadas terras geoculturais.
30.04.2025 | por Peilin Yu
Um sistema de escrita é apenas uma ferramenta para grafar a língua — e não pode, por si só, “conter” as variedades linguísticas. Escrita não é língua. Se o objetivo é permitir grafar qualquer variedade, então essas variedades devem aparecer com as suas especificidades. Como as palavras apresentam formas distintas em cada variedade, não se pode adotar uma escrita uniforme — como a proposta pelas autoras — sem perdas significativas.
21.04.2025 | por Eleutério Afonso
A memória, pessoal, colectiva ou cultural, nestes tempos hediondos que vivemos e aos quais ninguém é imune ̶ década segunda do século XXI, que deveria ser o século da mais consumada e prazerosa felicidade humana ̶ porém, tempos de inequívoca e perfeitíssima Idade da Pedra lascada “futurista” ̶ , onde a sua rasura (da memória, bem entendido), adulteração, apagamento e extermínio são milimetricamente calculados e mui democraticamente impostos e acriticamente aceites como «o novo normal» ̶ , é outra das questões fulcrais que se nos colocam.
04.03.2025 | por Zetho Cunha Gonçalves
é uma infeliz tentativa de imposição de um crioulo sumamente artificioso com recurso a regras gramaticais originárias predominantemente das variantes de barlavento da língua caboverdiana, precisamente naqueles pontos que foram considerados pelo grande filólogo caboverdiano Baltasar Lopes da Silva como as suas insuficiências intrínsecas, isto é, a sua incompletude vocálica...
02.03.2025 | por José Luís Hopffer Almada
"O BUALA iniciou em Portugal uma rutura com a tradicional rigidez canónica do olhar eurocentrado sobre a colonialidade que marca as relações entre antigos poderes coloniais e espaços outrora colonizados. O BUALA desprovincializou o debate pós-colonial em Portugal ao abri-lo a outros contextos geográficos fora do espaço lusófono, libertando-o da redoma académica em que esteve fechado durante muito tempo. Esse caráter polissémico da sua articulação interdisciplinar ajudou ainda a desobstruir o caminho entre academia e militância, entre teoria e prática." Mamadou Ba
01.03.2025 | por vários
Não temos memória de em Angola alguém pertencente à Segurança de Estado ter feito, e da forma como fez, uma ruptura tão grande com o regime e com contornos que têm claramente o perfil de uma denúncia politico-constitucional, pois toda a sua narrativa é feita na prespectiva de quem entende que em Angola o Estado Democrático de Direito está seriamente condicionado por interesses pessoais ou de grupo no âmbito de uma estratégia maquiavélica onde o fim maior, que é a eternização do actual poder rubro-negro, justifica todos os meios que estão a ser usados o que passa, nomeadamente, pela manipulação da comunicação social e do próprio processo eleitoral.
23.02.2025 | por Reginaldo Silva
Essas ilhas cabo-verdianas dentro de uma metrópole ainda colonial reconfiguram uma autêntica zona libertada onde homens e mulheres de gerações diferentes não cessam de se afirmar a sua existência. Não será exagerado comparar uma horta urbana cabo-verdiana com um jardim crioulo na acepção glissantiana. Todos esses lugares de sementeira são insurgências silenciosas contra a plantação, contra a monocultura (linguística). A música é um dos maiores veículos de polinização deste territórios arquipelágicos que nos ligam.
22.02.2025 | por Apolo de Carvalho
O corpo negro é um dos termos aborrecidos, limitantes e desgastantes que abundam no discurso decolonial. O facto de ser um termo desconhecido, ou quase desconhecido, na Guiné-Bissau, faz-me perguntar: como é que se decoloniza a África sem os africanos estarem envolvidos?
12.02.2025 | por Marinho de Pina
Apenas tinha consigo uma fotografia da mulher quando era ainda uma rapariga, retrato em que ela lhe parecia da Indochina, muito segura, numa gola em bordado inglês. Dava conta de ir se esquecendo a pouco e pouco da cara dela. Só restava a sua voz do outro lado da linha como lembrança, a cada mês mais estrangeira e recomposta, à medida que a saúde ia melhorando.
27.01.2025 | por Luciana Martinez
Durante muito tempo, aterrorizava-me a cena final de Kids, o filme de Larry Clark, que estreou há 30 anos (1995). Vomitei internamente mas também externamente, tenho quase a certeza, naquela cena cruzada de contaminação: Telly, personagem interpretada por Leo Fitzpatrick, que mais tarde veríamos como Johnny Weeks no The Wire), viola Darcy (Yakira Peguero), adormecida e abandonada no final de uma festa, já depois de sabermos que Jennie, interpretada pela icónica Chloë Sevigny, foi contaminada por Telly e tem HIV. Jennie acaba por colapsar também nessa festa e é violada por Casper, Justin Pierce (skatista e arruaceiro, que morreu em 2000), amigo de Telly, e assim contaminando-o. “What just happened?” é a frase que fecha o filme e que me assombrou durante mesmo muito tempo.
18.01.2025 | por Patrícia Azevedo da Silva
A violência e a opressão manifestam-se desde o início da narrativa no cenário infernal do trabalho desumanizado, na inclemência do sol, no sofrimento silencioso de um velho, atinge o auge na hora do almoço (na violação de Maria), mas avança ainda, sem decrescer, até uma explosão, no espancamento brutal (e morte?) de um jovem trabalhador, para depois se atenuar no retorno ao trabalho (e à cena inicial), em obediência às ordens do capataz – e também às palavras firmes de Djimo. No fim, já nada é o mesmo; algo indefinível está em movimento e o leitor pode continuar a história como melhor lhe aprouver.
16.01.2025 | por Maria de Lurdes Sampaio
O avião a descolar e o mundo de Fred a implodir, com as suas referências congeladas na impotência escultórica: Charifo Victor Salimo, Rei Costa e Zena Bacar. Miragem. Estamos perante a atmosfera musical da cidade de Nampula, um regresso ao Kwashala enquanto género musical, que ecoou um pouco por toda a região norte de Moçambique e parte de província da Zambézia, sobretudo nos distritos de Gilé, Alto-Molocue, Gurué, Ile e Namarroi, através do cordão Emakhuwa, língua falada nestas regiões e partilhado por quase trinta por cento da população nacional.
08.01.2025 | por S. Preto
Após a independência, estabeleceu-se um outro tipo de relação, chamada de “cooperação” internacional, que pressupõe a relação entre dois ou mais países ou instituições, para reforçar os laços económicos e políticos e contribuir para o desenvolvimento de uma ou mais das partes envolvidas. Sendo que a Cooperação Internacional pode ser estabelecida entre quaisquer países (a União Europeia, por exemplo, não deixa de ser um formato macro de cooperação entre países), este artigo pretende ser uma pequena reflexão sobre a Cooperação entre Portugal e os países africanos onde também se fala português.
22.11.2024 | por Maria Lima / Daniela Lima
Havia autocolantes a serem distribuídos gratuitamente com a inscrição: “No one is born in the wrong body” [Ninguém nasce no corpo errado, em tradução livre]. Havia livros, com o custo de 30 euros para cima, que indicavam ser a ajuda que os pais precisavam para “salvarem” os seus filhos da disforia de género. Havia panfletos de propaganda a igrejas que “providenciam um lugar seguro e passível de reflexão sobre o que significa ser gay, lésbica, bissexual e cristão, através de reuniões, rezas, retiros e conferências”.
20.11.2024 | por Mariana Moniz
Da vida quotidiana às relações internacionais, os exemplos poderiam multiplicar-se. A violência é parte fundamental da normalidade em que vivemos. Mas sobre a violência recai, frequentemente, um manto tão pesado de eufemismos e «explicações» que se torna difícil pensá-la, estabelecer os seus limites, até identificá-la. Iluminar um ponto em que se manifesta implica deixar muitas das suas manifestações na sombra. A sua invisibilidade é um produto da sua ubiquidade. A maioria dos episódios partilhados no parágrafo anterior – quando chegam às notícias – não convocam sequer a palavra «violência».
11.11.2024 | por Diogo Duarte
A nossa identidade é, toda ela, traçada com o passado. Seria então muito imprudente retirar ou apagar um momento histórico dessa mesma matriz genética, como as nossas fomes cíclicas e as murmuradas histórias de canibalismo, as ideologias e divisões feudais ainda muito presentes em Cabo Verde, Amílcar Cabral e toda a história da luta pela independência, a nossa condição africana, as atrocidades feitas a nós próprios, ou aos nossos irmãos africanos, ou qualquer outro elemento que possa ter contribuído de alguma forma para aquilo que somos hoje.
29.10.2024 | por Nuno Miranda
Uma primeira expressão do fervor afro-crioulista, pan-africanista, pan-negrista, ecumênico e internacionalista de Amílcar Cabral encontra-se nalguns dos seus poemas mais icónicos e assume laivos de esfuziante entusiasmo quando, em 1949, toma conhecimento, através do amigo e camarada angolano Mário Pinto de Andrade, dos poemas negritunidistas de poetas francófonos reunidos e organizados por Leópold Senghor na 'Anthologie de la Nouvellhe Poésie Négre et Malgache', a qual contou com um marcante prefácio do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre intitulado “Orphée Noir”.
28.10.2024 | por José Luís Hopffer Almada
Ser uma jovem migrante brasileira negra investigadora em Portugal é resistir à destituição do meu potencial singular e complexo, quando a lógica colonial insiste em me cristalizar em identidades marcadas para morrer. É tentar equilibrar o aforismo gramsciano - pessimismo da razão e otimismo da vontade - numa fronteira cultural, social e política cujo agente de imigração não vai com a minha cara. Mas na escrevivência posso ser fronteiriça, posso ser tudo e nada, posso até abandonar esse texto sem uma lição que o valha.
27.10.2024 | por Gessica Correia Borges
Os limites do humor estão em permanente expansão, constrição e discussão. E por muito que isso seja chato, seja para veteranos como eu, com pouca paciência para novidades, seja para velhos enquistados, ou jovens com tempo a mais e vida a menos ou o contrário, é bom que assim seja. O humor faz parte do discurso e o discurso faz parte dos tempos. Muda. Aliás muda tudo, muitas vezes para tudo ficar na mesma.
25.10.2024 | por Pedro Goulão