Curiosamente, o velho lema de "pegar em armas" hoje anda à direita. Assim como o antigo lema da esquerda da liberdade de expressão. É "proibido proibir", já cantou Caetano Veloso. Hoje a esquerda é moralista, censora, lacradora, uma "esquerda lugar de fala", Alexandre de Moraes.
29.05.2025 | por Leonardo Bertolossi
No julgamento, apesar da tensão e das interrupções, muitas vezes claramente racistas, dos juízes, aproveitámos para explicar a razão pela qual defendíamos a independência de Angola e como as nossas vivências na colónia nos tinham conduzido a essa posição, aliás coincidente não apenas com a das Nações Unidas, mas até com as defendidas por Encíclicas papais. As acusações que me eram feitas, e que eram, a meu ver, ridículas – vou aliás lê-las – mereceram-me a pena de 20 meses de prisão, que me pareceu francamente desproporcionada, mas honrosa.
27.05.2025 | por Diana Andringa
Nós, docentes e investigadoras/es a trabalhar no ensino superior e na investigação em Portugal, condenamos a violência infligida ao povo palestiniano pelo Estado de Israel. Não seremos cúmplices da invasão militar, da ocupação colonial, da discriminação, do apartheid e do genocídio. Instamos as nossas instituições a tomar uma posição em solidariedade com o povo palestiniano.
27.05.2025 | por várias
“Não existe uma África nem um homem africano. Não existe uma tradição africana válida para todas as regiões e todas as etnias. Existem grandes semelhanças ou constantes, como a omnipresença do sagrado, a relação entre os mundos visível e invisível, entre os vivos e os mortos, o sentido de comunidade e o respeito quase religioso da figura da mãe.
Mas também existem grandes diferenças nos deuses cultuados, símbolos sagrados, proibições, costumes sociais, entre outros, que variam de região para região e, às vezes, de uma aldeia para outra.” (Bâ, 1992)
26.05.2025 | por Apolo de Carvalho
Piracema, palavra de origem Tupi, designa o movimento dos peixes que sobem o rio rumo à nascente. Nu Bai, expressão kriolu cabo-verdiana, significa “nós vamos”. Juntas, as palavras evocam um gesto coletivo e afirmativo de deslocamento, encontro e transformação. Como afirma a curadora, cineasta e pesquisadora Maíra Zenun: “Na kontra-korrente deste sistema, nu bai djunto! Nu bai cinema! Nu bai djuntu!” Porque, como explica Francisco Huichaqueo, curador e cineasta Mapuche presente na mostra, “El cine y el arte indígena son medicina para el pueblo. Este cine opera de manera circular y contracolonial, promoviendo la liberación.”
25.05.2025 | por várias
Serve este breve parêntese histórico apenas para destacar o relacionamento do processo eleitoral angolano com as sucessivas crises políticas que o país vem conhecendo, ao ponto de até ao momento a UNITA nunca ter reconhecido os resultados dos quatro processos já realizados nestes 23 anos da chamada paz definitiva, inaugurada com a morte em combate de Jonas Savimbi em Fevereiro de 2002.
25.05.2025 | por Reginaldo Silva
O filme, que conta com Sérgio Coragem, Cleo Diára e Jonathan Guilherme nos principais papéis, segue a história de Sérgio, engenheiro ambiental português que viaja para uma metrópole da África Ocidental. Ali, trabalha para uma ONG, na construção de uma estrada entre o deserto e a selva, e envolve-se numa relação íntima mas desequilibrada com dois habitantes da cidade, Diara e Gui. À medida que se adentra nas dinâmicas neocoloniais da comunidade de expatriados, esse laço frágil torna-se o seu único refúgio perante a solidão ou a barbárie.
24.05.2025 | por várias
Se a independência foi uma festa, a celebração conviveu com o medo a ferro e fogo e, se o futuro era incerto para os jovens de então, também o é para os jovens de hoje. Olhar criticamente para a história e para a sociedade é o melhor modo de aprender, transmitir e desenvolvê-las. Assim, no sentido de abordar a complexidade dos diferentes momentos - como o colonialismo, a Luta de Libertação, a Independência, a guerra civil, a difícil aprendizagem da democracia, a transmissão da história, patrimónios difíceis e reparações e a situação atual nas suas urgências - incitamos ao exercício de pensar em conjunto também sobre as promessas da Independência que não foram cumpridas.
21.05.2025 | por Marta Lança e Leopoldina Fekayamãle
Uma iniciativa artística e comunitária que propõe uma reflexão crítica sobre o passado colonial a partir do acervo e arquivo fotográfico das missões antropológicas portuguesas realizadas em África nas décadas de 1940 e 1950. Como olhar hoje para estas imagens produzidas num contexto de domínio colonial? Como revisitá-las de forma crítica, afetiva e sensível? Como transformá-las num gesto de escuta, reparação e futuro?
20.05.2025 | por vários
O colonialismo foi feito a medir. Colonialismo à medida. Cartografar, classificar, mensurar. Só se domina o que se conhece. Todavia, a medição não foi invenção do colonialismo. Sumérios, babilónios, egípcios, incas, astecas, todos mediram. Mediram o tempo, o mundo, agrimensuraram e codificaram ângulos, horas, minutos, semanas e calendários. Mediram triângulos ainda antes de Pitágoras ter começado a sonhar com eles. O projeto colonial apenas seguiu essa pulsão, colocando-a ao serviço da hierarquia. Medir para reinar. Exibir para confirmar o poder. Hoje, a obsessão continua, mas disfarçada de neutralidade tecnológica. Máquinas medem por nós, com a nossa permissão. Damos-lhes os nossos dados biométricos através de telemóveis, relógios, câmaras e microfones. A existência continua a ser traduzida em número.
18.05.2025 | por Marinho de Pina
O ângulo morto da negritude/branquitude enquanto binómio estrutural para se pensar a chamada «cultura ocidental» e a organização da vida social que impõe. Verdadeiramente, não é o problema da raça que se torna complexo. É antes – e, volte-se a sublinhar, por recurso a um dispositivo poético potentíssimo – o problema do trabalho que se complexifica. E complexificando-se o problema do trabalho, complexifica-se, para os revolucionários, o problema da revolução.
13.05.2025 | por Fernando Ramalho
Pensei neste livro como uma corda de funâmbulo que permite passar de um edifício para outro, entre tempos, espaços, vivências. As estadias de terreno são experiências nuas, que nos retiram do nosso mundo e nos levam para um outro. Implicam transições, com a lentidão adequada, que abrem para iluminações, ou para a obscuridade, saindo da meia-luz das nossas próprias vidas. Por vezes, provimos de mundos em que aparentemente muito é possível, mas pouco acontece, sobretudo além do previsto. Durante as estadias de campo que se distanciam do nosso local habitual, há um desprendimento de nós que nos torna mais aptas à experiência marcante, em que tropeçamos num real que nos era desconhecido ou invisível, numa revelação.
12.05.2025 | por Paula Godinho
O curso do Português é ousado, veio a galope com um povo que marchava no chão, longe do imperador, distante dos letrados eclesiásticos, matando a sede nas bocas alheias, resvalando-se no que encontrava pelo caminho. Tornou-se, assim, muitas coisas antes de decretar-se português para tornar-se ainda mais coisas ao despencar do cavalo e montar o atlântico. É a língua que rege a gramática, e não ao contrário. Os códigos que registem a história do som das palavras povo. O resto, é só domínio, domesticação e poder. E contra isso teremos sempre a invicta e irresistível língua errada do povo, língua certa do povo.
10.05.2025 | por Manuella Bezerra de Melo
Conversas em torno da matéria líquida, atentas às suas agências materiais, fluxos históricos e envolvimentos políticos. Estas conversas reflectem sobre como a arte, a literatura e as práticas de escuta situadas podem transformar modos de sentir, conhecer e relacionar-se com a água - reimaginando gestos de cuidado insurgente e de resistência. Entre os temas abordados estão a aquapoética feminista africana, o activismo e as poéticas hídricas na América Latina indígena, bem como a dimensão política das materialidades sonoras em contextos aquáticos.
09.05.2025 | por Salomé Lopes Coelho
Uma leitura da obra Do Tempo Suspenso (1998) de Maria Alexandre Dáskalos a partir da perspetiva teórica do in-betweenness (Bhabha, 1994), com o objetivo de decifrar a construção dinâmica de uma determinada identidade africana na poesia, sempre enquadrada pelo contexto pós-colonial, pós-guerra e de diáspora, que não se pode desligar da posição peculiar do sujeito poético entre diferentes lugares de memória (Assmann, 2008), divergentes paisagens de humanidade e variadas terras geoculturais.
30.04.2025 | por Peilin Yu
Um sistema de escrita é apenas uma ferramenta para grafar a língua — e não pode, por si só, “conter” as variedades linguísticas. Escrita não é língua. Se o objetivo é permitir grafar qualquer variedade, então essas variedades devem aparecer com as suas especificidades. Como as palavras apresentam formas distintas em cada variedade, não se pode adotar uma escrita uniforme — como a proposta pelas autoras — sem perdas significativas.
21.04.2025 | por Eleutério Afonso
A memória, pessoal, colectiva ou cultural, nestes tempos hediondos que vivemos e aos quais ninguém é imune ̶ década segunda do século XXI, que deveria ser o século da mais consumada e prazerosa felicidade humana ̶ porém, tempos de inequívoca e perfeitíssima Idade da Pedra lascada “futurista” ̶ , onde a sua rasura (da memória, bem entendido), adulteração, apagamento e extermínio são milimetricamente calculados e mui democraticamente impostos e acriticamente aceites como «o novo normal» ̶ , é outra das questões fulcrais que se nos colocam.
04.03.2025 | por Zetho Cunha Gonçalves
é uma infeliz tentativa de imposição de um crioulo sumamente artificioso com recurso a regras gramaticais originárias predominantemente das variantes de barlavento da língua caboverdiana, precisamente naqueles pontos que foram considerados pelo grande filólogo caboverdiano Baltasar Lopes da Silva como as suas insuficiências intrínsecas, isto é, a sua incompletude vocálica...
02.03.2025 | por José Luís Hopffer Almada
"O BUALA iniciou em Portugal uma rutura com a tradicional rigidez canónica do olhar eurocentrado sobre a colonialidade que marca as relações entre antigos poderes coloniais e espaços outrora colonizados. O BUALA desprovincializou o debate pós-colonial em Portugal ao abri-lo a outros contextos geográficos fora do espaço lusófono, libertando-o da redoma académica em que esteve fechado durante muito tempo. Esse caráter polissémico da sua articulação interdisciplinar ajudou ainda a desobstruir o caminho entre academia e militância, entre teoria e prática." Mamadou Ba
01.03.2025 | por vários