Baralho de Cartas 35
Marta,
não consigo reunir os fogachos dispersos num livro, que seria sempre um monstro desfigurado, mas vou-me embrenhando em disputas nas redes, gastando a energia que tenho em respostas virtuais, num modelo que não creio que tenha algum eco para além da minha ilusão de resposta. Ontem estive a responder a um amigo que via a deserção do Bifo do projecto europeu como uma covardia, quando, parece-me a mim, é, ao contrário, uma tomada de posição face à monstruosidade do presente. O que significa defender a Europa? O que é que estamos a defender quando o fazemos? O livre curso de bens e gentes? O comércio livre? Ao contrário do que se pensa, as principais inovações nazis não terminaram com a guerra, mas proliferaram com uma força desmesurada pela Europa fora, como nos diz Chapoutot no livro “livre de obedecer”. Os nazis defendiam uma concepção não autoritária do trabalho, em que o trabalhador já não era um subordinado, mas sim um “colaborador”. Em oposição ao marxismo, promoveram uma espécie de alienação voluntária do trabalhador. “Promoveram um novo conceito de subordinação que seria aceite pelo próprio subordinado. Os projectos do nazismo eram gigantescos: era preciso produzir, expandir, reproduzir e preparar a guerra em tempo recorde. A repressão não funcionava. Era necessário obter o consentimento, ou mesmo o entusiasmo, dos subordinados. Para que o trabalho prosperasse era preciso criar o que hoje chamamos de “management”, uma série de medidas de gestão que fariam a vida do colaborador parecer alegre, responsável, participativa. Enquanto isso as empresas eram incentivadas a um investimento desmesurado. Um estado nacional socialista que tudo o que fazia era estimular a iniciativa privada, que construía um capitalismo feroz e avassalador. E, principalmente, fundamentaram esta peste que corroi os escritórios onde os egos dos CEO’s se expandem, o darwinismo social: uma sociedade de vencedores e vencidos, em que estes últimos só podiam culpar-se a si próprios pelo seu fracasso. Para ser um cidadão aceitável, era preciso não só pertencer à raça correta, mas também produzir para além das suas possibilidades. É esta a herança que a Europa recebeu e acolheu. Quando hoje falamos em recursos humanos, e nem percebemos que estamos a ser tratados como coisas, materiais de troca e consumo, devíamos ter presente que o termo deriva diretamente do termo “material humano” usado na Alemanha dos anos 40. Portanto, que Europa defendemos face à deserção do Bifo? A Europa pós-colonialista? Eu diria a Europa que se decidiu por uma colonização económica, eficiente, pragmática e de aparência inclusiva, mas com consequências tão devastadoras como a colonização anterior. Uma Europa de propaganda televisiva. A Europa aliada do terror, da propaganda e da exploração das minorias?
O projecto europeu pode ter raízes velhas como um carvalho Celta, mas as feições que conhecemos começou no modernismo com a usurpação do poder pelos mercadores que cartografavam o globo, desde então foram apurando os seus negócios, mostraram-se mais ou menos humanos conforme lhes trazia mais ou menos ouro.
Atlantic Civilisation, 1953, André Fougeron
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(Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)