Baralho de Cartas 39
Marta
Estive quinze dias sem escrever uma linha, não pensei senão em música. Sabes como trocamos, por vezes, um entusiasmo por outro, para redescobrir o miúdo que inicia um caminho? Convidaram-me para por música num bar, andei duas semanas embrenhado nisso. Como se a música me devolvesse uma filiação, como se, através desse mergulho imediato que a vibração nos faz dar, me raptasse de um território ocupado. Foi um engano ingénuo, voltaria engasgado à linguagem, à boca enlameada, à incapacidade de dizer… Agora, passo os dedos pelos nervos sensíveis, e não tenho palavras para a electricidade que os percorria. Fico mudo, como uma criança junto à vitrine onde o comércio expõe a sua falsa transparência e perversidade.
No entanto, deixei-me embriagar e fazer do corpo uma marioneta rítmica, que desajeitada ou não, ia ecoando os balanços dos que me rodeavam. Entrei na noite como já não fazia há algum tempo.
Sou levado pelo nariz pelas florestas que ainda grassam. Os encontros tentam-me aos furtos. Os aromas melosos, previsíveis e rasteiros como os gestos de conveniência, são um enjoo adiado, uma incapacidade de me desapegar, abrandam e esterilizam, enquanto a acidez, o azedo, o perfume rançoso, a ebulição do bolor, leva-me a contra gosto. O espírito fica de atalaia para o oculto, de rabo esticado como um cão de caça. A repulsa que trava o colher do fruto vem do retrair covarde junto ao delírio, enquanto o princípio vital já baba veneno com o que adivinha. Antes mesmo que se decida a atravessar o entusiasmo, já o medroso conta os cabelos que vai perder, os nervos que queimou, o tempo que levará a redescobrir a cama. Nunca fui capaz de fabricar nada vagarosamente. As linhas passeiam sob o olho do diabo, até que as escarre para a valeta. A queda é o mais certo, dos cabelos, dos dentes, das cabeças, das nomeações. A queda nos regatos que espelham as saias esvoaçantes. Nada se espelha nos aromas, tudo se funde, se dissolve e exalta. O esboroamento de uma alquimia invertida, fico feliz em mostrar que há uma certa distância entre mim e o que digo, o erro que ressuscito, o espaço poroso da invisibilidade. A alegria, sem espelho, inebria-se na queda, rebenta como uma nuvem. O futuro que já não é, ao mesmo tempo que o passado que ainda não chegou. Tudo contraria o macaco que censura a sua sombra.
Trisha Brown dance company, 1983, Lois Greenfield
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(Troca epistolar entre janeiro e setembro de 2025)