Escrever a hospitalidade radical da dança
A propósito de Dança Fora de Si. A Obra Coreográfica de Marlene Monteiro Freitas, de Alexandra Balona.
O espetáculo terminara: mais de uma hora de gestos precisos, intensos, um ritmo que nos contaminava e nos instigava a força e a persistência das palmas. O bailarino agradecia, generoso, presente, como fora durante toda a duração da dança que nos entregou. A certa altura interrompeu-nos. Israel Galván, o extraordinário bailarino e coreógrafo de flamenco contemporâneo, agradecia agora por palavras ao grande auditório do CCB esgotado, ao mesmo tempo que nos pedia para aplaudir, não a ele, mas uma outra bailarina, que ele quis ali calorosamente homenagear, pedindo-lhe para sair do meio da plateia, do anonimato do público, e subir ao palco. Uma mulher levanta-se do lugar exatamente à minha frente e vai ter com ele, com um sorriso rasgado e reconhecido. Era a Marlene Monteiro de Freitas, ele também aplaudiu. Isto aconteceu talvez há uns dez anos. Muito antes de o Théâtre de la Ville Paris e o Festival d’Automne, em 2022, ter finalmente acolhido RITE, uma colaboração que juntou estes dois artistas em palco. Poderia começar este texto pelas muitas intensidades sentidas e reflexões advindas da experiência da obra de Freitas, mas conto-o aqui porque, ao ler Dança Fora de Si. A Obra Coreográfica de Marlene Monteiro Freitas, foi o movimento presente neste livro de “hospitalidade radical” que mais me acompanhou durante toda a leitura, como uma chave. Uma hospitalidade que abre espaços, cede palco, desvia reconhecimentos, cria redes de afetos, de emoções, de criação, de investigação, de sociabilização.
Marlene Monteiro Freitas
Não é vasto, mas tem vindo a abrir espaço para existir, o panorama das publicações sobre dança contemporânea portuguesa. Apenas a título de exemplo, em 2024 surgiram Vera Mantero — Matérias. Forças. Imaginário, organizado por Ana Pais e editado pela Orfeu Negro, e o dança não dança: arqueologias da nova dança em Portugal, com edição de Ana Bigotte Vieira, Ana Dinger, Carlos Manuel Oliveira, João dos Santos Martins, pela Fundação Calouste Gulbenkian, traçando genealogias da dança em Portugal ao longo do século XX e início do XXI. Em 2019 e 2022, Hugo Calhim Cristóvão e Joana Von Mayer Trindade publicaram, na fricção entre dança, filosofia e outras artes, Dos suicidados – O vício de Humilhar a Imortalidade e Fecundação e Alívio Neste Chão Irredutível onde Com Gozo me Insurjo (ed. Nuisis Zobop e Instituto de Filosofia/UP). Aguarda-se ainda, para breve, a publicação do livro-catálogo da exposição INTROSPECTIVA, dedicada ao trabalho de João Fiadeiro e apresentada em 2024 nas galerias e no auditório do MAC/CCB. Desde 2023, a Revista Estud(i)os de Dança (RED), publicação científica editada pelo Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança (INET-md), polo da FMH da Universidade de Lisboa, em colaboração com o Centro de Estudos em Artes Performativas (CEAP), passou a ter maior periodicidade, permitindo uma divulgação mais regular de investigação teórica nesta área.
É neste contexto de publicações que se inscreve Dança Fora de Si. A Obra Coreográfica de Marlene Monteiro Freitas, da investigadora, curadora independente e professora Alexandra Balona, lançado em setembro de 2025 pela Dafne Editora e, em simultâneo, na sua versão inglesa, pela Lenz Press, num gesto que acompanha a circulação internacional da obra de Marlene Monteiro Freitas. Assumindo o exigente exercício de colocar em escrita uma experiência que tantas vezes escapa a esse formato de partilha, Balona enuncia desde logo a consciência desse desafio, apresentando o seu livro como um ensaio que procura pensar a dança através de uma escrita capaz de “acompanhar”, sem fixar, a metamorfose singular da obra de Marlene Monteiro Freitas — coreógrafa e bailarina distinguida, em 2018, com o Leão de Prata da Bienal de Dança de Veneza.
Percebe-se que este livro resulta de um longo trabalho de acompanhamento: por um lado, da obra de Marlene Monteiro Freitas, das suas apresentações e dos lugares de gestação do seu imaginário — Cabo Verde a afirmar-se como uma das matrizes afetivas e imaginárias; por outro, do próprio sentir da autora, da sua experiência transformadora enquanto espectadora, que a incitou à escrita e se desdobrou numa investigação académica culminando numa tese de doutoramento, antes de ganhar forma editorial. Balona inicia o livro a partir do “espanto” vivido no encontro com Paraíso — Coleção Privada, uma das peças analisadas. Atravessando leituras de Guintche (2010), Paraíso — Coleção Privada (2012), Jaguar (2015), Bacantes — prelúdio para uma purga (2017) e Mal — embriaguez divina (2020), o leitor adentra progressivamente as constelações que compõem o universo coreográfico de Marlene Monteiro Freitas, sem que a escrita e o pensamento próprios de Alexandra Balona se dissolvam ou passem para segundo plano.

Esse espanto é acolhido como força metamórfica: transforma quem vê, mas também orienta o modo de investigar. Como escrever a partir de forças sentidas? Como integrar o espanto num método singular capaz de dar lugar ao estudo e à construção de uma linguagem crítica? Como a própria constata, a autora deixa-se atravessar pela experiência da obra numa trajetória que descreve como um movimento do Espanto ao Estudo. O espanto move e comove, põe forças em ação e gera a vontade de mantê-las vivas ao longo da escrita, evitando a desvitalização da experiência. Daí a insistência numa escrita que não fixa: quando Balona identifica a obra de Freitas como estruturada pelos termos “abertura, impureza e intensidade”, percebe-se que não se trata de categorias estanques, mas de palavras que ensaiam entradas possíveis na complexidade desta obra coreográfica.
A exigência de colocar a dança em escrita é sublinhada logo no início por Gabriele Brandstetter, prefaciadora do livro e investigadora de referência nos estudos de performance e dança da Universidade Livre de Berlim. Situando o seu prefácio na tríade Tradução, Metamorfose Créola e, convocando Édouard Glissant, Poética da Relação, Brandstetter mobiliza a noção de “metamorfose crioula” para situar a obra de Marlene Monteiro Freitas numa zona de fricção entre culturas, linguagens e imaginários. A “poética da relação” permite, por sua vez, compreender a dança como espaço de circulação, contaminação e abertura transcultural. Já a tradução surge como tarefa paradoxal e inevitável: traduzir o indizível coreográfico para a materialidade da linguagem escrita.
Neste contexto, Brandstetter convoca o pensamento do filósofo senegalês Souleymane Bachir Diagne, que atribui à tradução um valor ético, político e epistemológico, através da noção de “hospitalidade da tradução”. Diagne, uma das vozes centrais da filosofia africana contemporânea, tem refletido sobre a universalidade a partir da experiência africana, apelando à construção de um “sentido comum da humanidade” e entendendo a tradução como forma de superar legados coloniais e como ato de acolhimento do outro.
Tanto a obra de Marlene Monteiro Freitas como o trabalho de escrita de Alexandra Balona constroem, assim, espaços onde traduzir significa abrir-se ao heterogéneo sem absorver nem dominar, potenciando antes o encontro e as intensidades que dele emergem. São “espaços de estranheza e contradição”, onde corpos e materiais em diáspora se transformam na busca de sentidos plurais. Para além da análise crítica, Balona convoca o arquivo pessoal da coreógrafa e coloca-o em diálogo com obras da história da arte, construindo uma leitura que funciona como um verdadeiro “Atlas”, capaz de sustentar múltiplas referências e imaginários. O livro lança ainda um olhar atento sobre métodos, processos e mecanismos que estruturam a criação coreográfica, oferecendo ao leitor pequenas “máquinas críticas para ler o ilegível”.
O livro pode ser percorrido de diversas formas: numa leitura linear, numa navegação aleatória pelos capítulos ou através dos cadernos de imagens. Funciona como um espaço de circulação e choque entre imagens, fragmentos teóricos, referências musicais, excertos fílmicos e notas de ensaio, mobilizando estudos da performance, da história da arte, da filosofia, da psicanálise, entre outros campos. Balona constrói os capítulos como constelações, à maneira do Atlas Mnemosyne, de Aby Warburg, entendendo o livro como uma “mesa de trabalho” onde se experimentam ligações, ramificações e evocações plurais a partir da obra de Marlene Monteiro Freitas. Esta estrutura reflete, de resto, os próprios processos de escrita coreográfica da artista e traduz um interesse pela saturação de elementos e pela potência dos universos compósitos e híbridos que resultam da agregação de materiais díspares.

É particularmente relevante o trabalho de fricção entre universos estéticos que caracteriza tanto as peças de Marlene Monteiro Freitas como a escrita de Balona: passando por Cabo Verde e pelo seu sincretismo cultural e religioso; por legados ocidentais e não ocidentais; articulando referências que vão da ópera ao pop, do flamenco às marionetas, dos espaços oníricos (convocando Freud e Lacan), aos imaginários sociais periféricos e dominantes. Neste contexto, Balona não se limita a descrever intensidades formais, mas analisa a forma como estas se configuram em forças políticas no encontro entre palco e plateia, considerando os corpos como “entidades vivas”, “onde se ensaiam modalidades alternativas de existência e comunalidade, com o potencial de catalisar processos de subjetivação” (Balona, 2025 p.18) e dialogando com filósofos como Giorgio Agamben (e conceitos como o aberto, e a reflexão acerca do humano e do animal), Georges Bataille (no modo como pensou os conceitos de erotismo e informe).
Um exemplo particularmente elucidativo deste hibridismo surge na articulação entre a cultura de matriz grega e a cultura cabo-verdiana, no encontro entre o cortejo das Bacantes e a música Tabanca, interditada durante o período colonial. Originária da ilha de Santiago, a Tabanca combina música, dança, canto e encenação ritual com um forte cariz dionisíaco, refletindo processos de resistência, criatividade e sincretismo cultural. Balona articula ainda estas forças vindas do passado — as bacantes, as ninfas de Warburg, a memória colonial — com o presente, evocando um poema de Pasolini lido na peça e que Balona descreve como “(…) uma força do passado não implica habitar ou identificar-se apenas com o passado, mas sim estar vivo no presente, reconhecendo que os gestos repetidos durante épocas recolhem os sentimentos dessas gerações, e os perpetuam.” (Balona, 2025, p. 200). A questão que se impõe é a seguinte: o que pretendemos conservar dessas forças agora tornadas visíveis e dadas à experiência?
No plano da metodologia coreográfica, Balona destaca a prevalência da ficção, a influência de métodos historiográficos criados pela forma como Aby Warburg pensava através das imagens e a centralidade do conceito de Figura. A figura surge como presença recorrente — monstruosa, híbrida, instável — remetendo tanto para Warburg como para a antropologia e as teatralidades populares. Trata-se de Figuras compósita e ambivalentes, potentes – e aqui, Balona convoca o conceito bio-objeto de Tadeusz Kantor, a propósito da figura da marioneta: “(…) uma fusão de elementos vivos e artificiais para criar uma forma plástica figural que desmantela as distinções e hierarquias entre o animado e o inanimado, o passado e o presente.” (Balona, 2025, p. 146). As figuras mitológicas operam igualmente para além de dicotomias fixas: do mortal ao imortal, do racional ao irracional, do permitido ao interdito, do sagrado ao profano. Em Paraíso — Coleção Privada, por exemplo, estas figuras híbridas mantêm-se em permanente instabilidade, recusando qualquer leitura baseada na linearidade ou na coerência.
Como acolher estas formas instáveis, irrompendo de outros tempos? Importa aqui, em jeito de conclusão, regressar à noção de hospitalidade crítica evocada por Brandstetter no prefácio. Alexandra Balona exercita este acolhimento, através da criação de uma metodologia ensaística e de uma escrita crítica que pensa por aproximação e contágio com a obra, procurando manter-se hospitaleira à sua intensidade. Dança Fora de Si. A Obra Coreográfica de Marlene Monteiro Freitas afirma-se, assim, como um livro rigoroso que é, ele próprio, um objeto coreográfico — um livro que nos faz dançar o pensamento e os sentidos.

Balona, Alexandra, Dança Fora de Si. A Obra Coreográfica de Marlene Monteiro Freitas, Porto: Dafne Editora, 2025. ISBN: 978-989-8217-69-1.