Batuku cabo-verdiano, musica di terra

A história e origem do Batuku cabo-verdiano é ainda hoje um emaranhado de mistério, no entanto, muitas são as histórias contadas no arquipélago sobre o início deste género musical, património imaterial e um tesouro para as Ilhas de Cabo-Verde. 

Uma das narrativas mais conhecidas sobre a origem do Batuku remonta à época em que os escravos foram trazidos para as ilhas. Com poucos afazeres no navio, as mulheres encontraram no Batuku uma forma de preencher o tempo, cantando enquanto batucavam nas pernas. É esta mesma narrativa que Estela Correia realça em“Batuko | Batuque | Batuku - Less known world heritage of Cabo Verde1. Temerosos pela dança que acompanhava os cantos do Batuku, os colonizadores portugueses proibiram esta expressão musical em Santiago, arquipélago onde precisamente mais se desenvolveu o Batuku

Foi com a Revolução de 1975 que o Batuku, até então adormecido, renasceu no seio de ocasiões comemorativas como o casamento. E foi numa celebração matrimonial que, ainda criança, tive o meu primeiro contacto com a energia contagiante do Batuku, que é tradicionalmente cantado e dançado, durante toda a noite, pelas mulheres mais velhas, que celebram a união que se avizinha. 

O Batuku não é só um género musical, a sua riqueza estende-se na melodia, letras e dança únicas. Através dele cantam-se os sentimentos da nação cabo-verdiana. Canta o amor, a saudade sentida por todos aqueles que emigram e as lutas diárias dos que deixam e ficam no arquipélago. Muitas são canções que falam em nome das mães (e também dos pais), cantando a saudade das que deixam os filhos e migram para que lhes possam oferecer uma vida melhor. “N’ben strangero busca vida, n’dexa mininus pikinoti, sem intendi nada, sem podi fla nada. N’fles ma n’ta ben, ma n’ka ta dura, mas só ki indi n’ka consigui2. Assim canta Ana Mileida na canção “Nha Minino” das Freirianas Guerreiras. O texto do Batuku é também de denúncia dos problemas sociais e das más condutas. “Di mi ku bó dja dura, dja dura ki djan odja ma ka sta da. Di mi ku bó é ka di goci, dja fazi tempo ki djan odja ma ka sta dá. Nós nu ka mininu, dja nu ten noçon di nos problema. Nu começa ku paz, nu termina ku paz, sem maltrata kumpanhero”. “Sem Maltrata Kumpanhero”[fn]Em 2022 uma cabo-verdiana grávida foi assassinada pelo marido no Barreiro. A canção “Sem Maltrata Kumpanhero” (“Sem nos maltratarmos”) denuncia o crime. (também das Freirianas Guerreiras) é uma denúncia do feminicídio e “Nha Minino3, do grupo de  batucadeiras Tradison di Terra é um canto de aviso a todos os jovens jovens que demonstram pouco interesse pela educação e deixam-se influenciar por aqueles que são chamados de “inimigo encoberto”:“N’cumpral material di escola é djunta tudo é ba deta lá cobón”/“Ami djes flaba mi, pa ka cunfia na amigo di hoxi, pamodi amigo di hoxi é inimigo incuberto4. Por meio do Batuku enaltece-se a bandeira e a mulher cabo-verdiana. 

“Cabo–Verde nha terra sabi. Di paz, amor e tranquilidade. Sabura nascel de natureza. Ma nha bandera n’ka ta troka nem ku dinhero”5

Tradison di Terra, “Nós Bandera

“Mudjer cabo-verdiana, é kel ser ki Nhor Des trazel pa mundo, del vida, é ta carega vida, é ta perdi vida na rabida”6.

Dáda Di Bia e Batucadeiras Berdianas, “Mudjer cabo-verdiana

 Tchabetas  Tchabetas

O batuko é uma tradição musical em que se une o individual ao coletivo através do canto em tom de diálogo entre a cantadora, que canta só, e o coro de batucadeiras que repete ou complementa o que foi vocalizado. No centro da sua melodia estão as tchabetas, que antigamente eram panos entre as pernas e hoje são peças adornadas com plástico, para que ressoem ainda mais alto. 

Na alma do Batuku está a dança, a mulher que dança com o seu pano di terra em volta da sua cintura acompanhando harmoniosamente a vibração das tchabetas. Esta é a dança que celebra a liberdade do Batuku que renasceu e canta vida. 

Este é um género musical  que marca a rica cultura de Cabo Verde e nele ecoam a alma e história do povo cabo-verdiano. 

Referências 

Capoeira Ljubljana. (2021, 23 de março). Batuko | Batuque | Batuku - Less known world heritage of Cabo Verde [Vídeo]. https://www.youtube.com/watch?v=2LUlhvc4zb8

Castro Ribeiro, J. M. (2012). Inquietação, memória e afirmação no batuque: música e dança cabo-verdiana em Portugal [Universidade de Aveiro]. https://ria.ua.pt/bitstream/10773/7559/1/246480.pdf

Links para os batukus mencionados 

Dáda Di Bia e Batucadeiras Berdianas

 “Mudjer cabo-verdiana”- Dáda Di Bia FT. Batucadeiras Berdianas Unidas - Mudjer Cabo verdiana

Freirianas Guerreiras 

Nha Minino”- Freirianas Guerreiras - Nha Minino 

Sem Maltrata Kumpanhero”- Freirianas Guerreiras - Sem Maltrata Kumpanhero 

Tradison di Terra 

Nha Minino”- Tradison di Terra.. Nha Minino 

Nos Bandera”- Tradison di Terra - Nós Bandera 

  • 1. Fundadora da associação Delta Cultura Home - deltacultura.org
  • 2. “Vim para o estrangeiro à procura de uma vida, deixei os meus filhos pequenos, sem entender nada, sem saber falar. Disse-lhes que vinha e não demorava, mas ainda não consegui”.
  • 3. “Meu Menino”
  • 4. “Comprei-lhe material escolar, ele juntou tudo e foi largar na vala”/ “Já me tinham avisado para não confiar nos amigos de hoje, porque agora o amigo é inimigo encoberto”.
  • 5. “Cabo Verde, minha terra querida. de paz, amor e tranquilidade. A alegria está na sua natureza. A minha bandeira eu não troco nem por dinheiro”.
  • 6. “A mulher cabo-verdiana é aquele ser que Deus trouxe para o mundo, deu-lhe vida, ela carrega a vida e perde a vida na venda”- Batuku que faz referência à grande parcela da mulheres cabo-verdianas que jovens se tornam vendedoras (de frutas/ legumes/ peixe, vestuário etc.) para ter um sustento.

por Nélida Brito
Palcos | 11 Abril 2024 | batuko, Cabo Verde