Graça Simbine, viúva de Samora Machel e esposa de Nelson Mandela. A referência aos seus dois «maridos e heróis», como ela gosta de os chamar, bastaria para fazer desta moçambicana de 63 anos uma figura ímpar da história africana contemporânea. Mas Graça Machel é muito mais do que a mulher de dois homens excepcionais. Ela sabe-o melhor do que ninguém, e nunca quis ser apenas «primeira-dama».
Em Novembro 2008, no secular salão nobre da Academia de Ciências de Lisboa , o antigo presidente da África do Sul e Prémio Nobel da Paz foi proclamado seu sócio de honra. A ausência física foi substituída pela voz e pela presença de Graça Machel que recebeu também a distinção de sócia correspondente estrangeira, e o apresentou despido do mito.
23.03.2011 | por António Melo
Passando tempo no mercado, a Feira do Ponto da cidade de São Tomé, Olavo pintou várias séries de quadros com vendedoras. Falava com elas enquanto desenhava esboços, retratou-as na sua vida pública de trabalho. Na tela, as mulheres, cestos e bacias à cabeça, crianças nas costas, a luta diária: ganhar a vida, cuidar da família. O confronto com a vivência quotidiana das vendedoras sobrepôs-se ao seu impacto figurativo e os contornos das mulheres emanciparam-se para delinear os estreitos corredores do mercado. As mulheres moldaram-se nos trajectos repisados por elas todos os dias, e mais tarde os trajectos devolveram-se às mulheres na multiplicidade dos seus caminhos interiores, mais extensos e complexos.
15.03.2011 | por Nuno Milagre
No título da exposição está todo um programa e uma teoria privada do autor relativamente à fotografia: "Moi,un blanc" (Eu, um branco). E poderíamos continuar a frase subentendendo todo esse programa timidamente enunciado: Eu, um homem branco viajei para África e dentro deste enorme continente viajei no interior do Mali, um país da costa oeste atravessado pelo mítico Rio Niger.
11.03.2011 | por António Pinto Ribeiro
Apesar de se inspirar na música e instrumentos tradicionais de Angola, onde nasceu o seu trabalho como compositor, revela um potencial de transformação para além das estruturas da tradição.
04.03.2011 | por Kevin Murray
O país chorou e, com verdade, Malangantana. Todos, povo, partidos, governo foram verdadeiros na dor da despedida. Vale a pena perguntar, no entanto: fizemos-lhe em vida a celebração que ele tanto queria e merecia? Ou estamos reeditando o exercício de que somos especialistas: a homenagem póstuma? Quem tanto substitui pedir por conquistar acaba confundindo chorar por celebrar. E talvez o Mestre quisesse hoje menos lágrima e mais cor, mais conquista, mais celebração de uma utopia nova. Na verdade, Malangatana Valente Ngwenya produziu tanto em vida e produziu tanta vida que acabou ficando sem morte. Ele estará para sempre presente do lado da luz, do riso, do tempo. Este é um primeiro equívoco: Malangatana não tem sepultura. Nós não nos despedimos.
02.03.2011 | por Mia Couto e Abraão Vicente
Essa forma de colonialismo bárbara e explícita de invadir países deu lugar a uma nova forma de colonialismo assente na economia e nas trocas comerciais. É uma nova forma de colonialismo que perpetua resquícios de colonialismo passado, com recurso a dependências económicas, tecnológicas, culturais e ideológicas. Quer seja através do comunismo quer seja através do capitalismo, a Europa continua a impor a sua ideologia no processo de desenvolvimento de alguns países.
23.02.2011 | por Bruna Pereira
Se é verdade que a arte africana acontece, na sua grande maioria, no hemisfério Norte, e as suas maiores conquistas (políticas, financeiras, filosóficas, estéticas, etc.) aqui tiveram lugar, é certo que o continente africano se afirma cada vez mais como espaço relacional privilegiado para os agentes culturais. Jorge Rocha trabalhou sobre as relações sociais que se estabelecem em torno da comida. Digamos que entrou pela boca de cada um dos participantes, que o mesmo é dizer, pelos seus desejos, necessidades, ou primitivismos. Entrou pela boca, no centro de África. Pelos seus paladares, cheiros, cores, e sabores.
08.02.2011 | por Marta Mestre
“Sol da consciência” das mudanças do nosso mundo, o poeta martiniquenho morreu na passada quinta-feira, dia 3 de Fevereiro, em Paris.
06.02.2011 | por Valérie Marin la Meslée
Entre a ditadura da verdade e a liberdade da ficção, Sol de Carvalho optou pela segunda. Jornalista da Rádio Moçambique e da revista Tempo na era do partido único, o cineasta moçambicano percebeu-se incapaz de apresentar a realidade como facto, preferindo assumir-se como um transfigurador do real. Com um olhar declaradamente do Sul e um passado orgulhosamente revolucionário, o documentarista social traz para a tela, entre outros, retratos de um país de futuro hipotecado pelo VIH/sida. Com ou sem claquete, gosta de provocar.
28.01.2011 | por Cristiana Pereira
“É o fecho de um ciclo”, diz-me António Ole enquanto conversamos num café de uma das ruas mais movimentadas da Praça do Chile, em Lisboa. Falamos a propósito da exposição que estava para estrear em Luanda, no Centro Cultural Português, e que decidiu estruturar a partir de uma das séries de trabalhos mais internacionalmente conhecidas – as Township Walls, ou paredes de “bairros de lata” (favelas) –, fechando assim um ciclo criativo que na verdade se recicla, proporcionando outras abordagens artísticas.
25.01.2011 | por Lúcia Marques
Que bichos são estes, senão nós mesmos. Sempre o homem, na sua condição mortal e precária, com as suas grandezas e misérias, no centro da obra de Arménio Vieira. Mesmo quando convoca os Bichos do seu animalário, ou sobretudo quando os convoca, para se tornarem no espelho de todas as nossas perplexidades, onde buscamos as impossíveis respostas para este improvável destino de bicho-gente que somos.
25.01.2011 | por José Cunha
Na obra do artista caboverdiano Tchalé Figueira, o político, a prostituta, o mendigo, o paupérrimo, o medo, a vergonha, a vaidade, a superficialidade, a tensão ou o desejo estão presentes, vivos e pulsantes. As telas gritam-nos perguntas acerca do nosso próprio papel.
24.01.2011 | por Irineu Rocha
África é hoje, em 2011, o último território, entre aspas, por descobrir. A África de expressão portuguesa ainda está um bocadinho ignorada e o meu papel pode ser um pouco esse: servir de interlocutor.
22.01.2011 | por Susana Moreira Marques
Entrevista com Matchume Zango, músico moçambicano do grupo Timbila Muzimba. Matchume toca timbila, criada pelo povo Chope e declarada pela UNESCO Patrimônio Cultural da Humanidade em 2005. Este instrumento confunde-se com a história da música moçambicana.
18.01.2011 | por Denise Guerra
No seu mais recente livro, António Tomás reflecte sobre o que o rodeia. E nessa reflexão constata que em Luanda escasseiam espaços que cumpram uma função social, como as barbearias. Quem vive no musseque está, nesse aspecto, mais bem servido de lugares para o comentário social, afirma o antropólogo
12.01.2011 | por Isabel Costa Bordalo
Enfant mais que terrible da literatura do Zimbabué, outsider da vida e da escrita, Dambudzo Marechera cresceu na miséria mais negra e viveu uma tempestuosa existência afligida por perseguições políticas, fome, clandestinidade, exílio, brigas de bar, drogas, doença… Morreu só, com Sida, aos trinta e cinco anos, e tornou-se o ídolo de milhares de jovens compatriotas que estamparam o seu belo rosto em t-shirts, copiaram as suas excêntricas indumentárias, decoraram os seus poemas e partilharam o seu desencanto pelo Zimbabué pós-Independência.
11.01.2011 | por José Pinto de Sá
O programa mais visto da televisão de São Tomé e Príncipe foi suspenso por decisão do Governo. Conceição Lima, jornalista, poeta e responsável pelo programa, considera ter sido alvo de "saneamento" e teme que o episódio possa ser um mau sinal para o futuro da democracia no seu país. Este mês chega às livrarias portuguesas o seu novo livro de poemas, "O País de Akendenguê".
10.01.2011 | por Jorge Marmelo
Apenas mais tarde se soube, de um país haver percorrido o Mundo para embarcar o seu pintador enfeitiçado da vida, que, agora, naquela enorme nave, voltava para vivê-la na consanguinidade moçambicana das suas telas. Desse homem, nosso colorido marinheiro do mundo e de seu nome MALANGATANA, só mesmo elas, justa e merecidamente, poderão falar.
06.01.2011 | por Eduardo White
Interpretar o viajante, na actualidade, decorre de um pensamento multilateral ampliado pela situação geográfica e cultural que existe entre o ponto de partida e o ponto de chegada. A latitude humana que se encontra nas distâncias percorridas entre princípio e fim de um percurso é, para muitos, um agente provocador que resulta num campo de experimentação artística e intelectual, onde a força de espaços inócuos nos leva a partilhas e à construção de conceitos.
02.01.2011 | por Jorge Rocha
Alguns países, em África, não possuem ferramentas que permitam a execução de um mesmo objecto indefinidamente. Para ultrapassar esta carência tecnológica, seria preciso integrar conceitos de execução como, por exemplo, a peça única em série. Efectivamente, porque não valorizar as pequenas diferenças entre os objectos que se inspiram no mesmo padrão? Porque não jogar com a exploração destes “futuros erros” de produção em vez de ficar à espera da implantação de uma tecnologia normalizada?
13.12.2010 | por Thierry William Koudedji e Lucie Touya