“A esquerda tem mostrado uma maturidade enorme para engolir sapos.”

“A esquerda tem mostrado uma maturidade enorme para engolir sapos.” É perigoso porque toda a diferença é estigmatizada. Se eu me considero superior moralmente e penso que uma família é um homem e uma mulher, tenho toda a justificação para liquidar os homossexuais. É uma lógica repressiva. O Brasil, ao contrário de outros países da América Latina, tem uma sociedade civil bastante organizada, com muitos movimentos sociais. É evidente que vai haver resistência. Há uma sociedade civil que não está desarmada social e politicamente. Nas últimas semanas houve uma mobilização extraordinária, que não foi suficiente, mas mostra um apego à democracia que o Latinobarómetro não previa.

06.11.2018 | por Boaventura de Sousa Santos

Jimmie Durham e a mentalidade colonial no Brasil

Jimmie Durham e a mentalidade colonial no Brasil Ao questionar a história, Durham questiona a própria ideia de passado, e traz a tarefa de tratarmos de nossos traumas no presente. Ele não faz comentários sobre a arte brasileira especificamente, muito menos sobre nossa antropofagia cultural. O artista está interessado nas características e consequências da mentalidade colonial da sociedade brasileira.

18.10.2018 | por Maíra das Neves

"Entrámos noutro século, o paradigma é diferente", entrevista a Marcolino Moco

"Entrámos noutro século, o paradigma é diferente", entrevista a Marcolino Moco Umbuntu, umbundo tem a mesma origem. No Zimbabué, dizem ”uno”, umbuntu quer dizer “uno” em umbundo. “Eu não significo nada sem ti.” Se fico em casa sozinho começo a pensar nisso: em que consiste a minha hombridade? Sozinho não troco ideias, sou pessoa porque existem outras pessoas. A princípio era uma filosofia de carácter étnico, o grande segredo de Mandela e Tuto foi conseguir elevá-la para outra coisa, não é só “eu não sou nada sem o outro umbundo” para torná-la trans-étnica.

09.07.2018 | por Marta Lança

Uma conversa entre a “arte engajada" e a "arte arquivista": ocupando as categorias para abrir os seus sentidos

Uma conversa entre a “arte engajada" e a "arte arquivista": ocupando as categorias para abrir os seus sentidos Ao ocupar qualquer espaço como modo de liberação de um território, é imediatamente tão fundamental quanto, ocupar os arquivos e memórias nele presentes para liberá-las também do discurso único – será esse o papel do artista arquivista? Nesse sentido, assim como, ao ocupar um espaço, o “espaço que é o mesmo já é outro”, ao ocupar um arquivo, o “arquivo que é o mesmo torna-se outro”. Ocupar é também inventar, produzir uma camada que se soma ao dispositivo, seja ele arquivístico ou espacial, criando uma heterotopia a partir dele e então nenhum espaço ou arquivo jamais serão os mesmos.

22.06.2018 | por Ana Pato e Joana Zatz Mussi

“A ‘teoria’ não são só palavras numa página, mas também coisas que se fazem”, entrevista com Nick Mirzoeff

“A ‘teoria’ não são só palavras numa página, mas também coisas que se fazem”, entrevista com Nick Mirzoeff Na Europa e nos Estados Unidos, existe também o regresso específico da forma e da nostalgia coloniais. Em Portugal, fiquei impressionado com a presença visível daquilo que ainda é referido como “exploradores” ou as “descobertas”, em vez de “colonizadores” e “encontro.” A representação de corpos africanos na arte e nos monumentos oficiais é muitas vezes estereotipada, quase degradante. Infelizmente, não vejo este caso como uma exceção, mas como um exemplo das novas divisões.

11.06.2018 | por Inês Beleza Barreiros

Felwine Sarr na luta pela representação de África

Felwine Sarr na luta pela representação de África “Afrotopia é uma utopia activa que procura no real africano os diversos espaços do possível e os fecunda”. Não defende nem o afro-pessimismo (que olha para o continente como estando à deriva), nem o afro-euforismo (que olha para África como o futuro económico). Qual será o lugar de um afrotópico? “O realismo”, responde.

08.05.2018 | por Joana Gorjão Henriques

E tu disseste: o que é que isso interessa? conversa com Adolfo Luxúria Canibal

E tu disseste: o que é que isso interessa?  conversa com Adolfo Luxúria Canibal Não há grandes formas de resistência, talvez só no pensamento: uma pessoa estar consciente das manipulações que ocorrem em si e à sua volta. Nada foge à recuperação capitalista, podes criar micro-espaços de respiração saudável mas nunca absolutamente limpa. É impossível criar uma redoma que te proteja das cores e dos cheiros do capitalismo, do devir geral da máquina. A única forma é rebentar com tudo ou deixar que a coisa impluda.

01.05.2018 | por Marta Lança

Achille Mbembe “Por que julgamos que a diferença seja um problema?”

Achille Mbembe “Por que julgamos que a diferença seja um problema?” Em entrevista, o filósofo camaronês fala sobre xenofobia, nacionalismo, o lugar do estrangeiro, os perigos de “culturas únicas” e espaços de articulação para a diferença. A diferença se tornou um problema político e cultural no momento em que o contato violento entre povos, por meio da conquista, do colonialismo e do racismo, levou alguns a acreditarem que eram melhores que outros. No momento em que começamos a fazer classificações, institucionalizar hierarquias em nome da diferença, como se as diferenças fossem naturais e não construídas, acreditando que são imutáveis e portanto legítimas, aí sim estamos em apuros.

30.04.2018 | por Katharina von Ruckteschell-Katte

A poética dos desvios na montagem visual de Ícaro Lira, entrevista

A poética dos desvios na montagem visual de Ícaro Lira, entrevista Em meio a recortes de jornais, imagens, pedras, documentos, reproduções de obras de arte e lascas de árvores, a obra do artista visual Ícaro Lira vira do avesso os materiais para mostrar o que escondem as sombras dos acontecimentos históricos. Como opera Walter Benjamin em sua montagem literária no livro Passagens (1940), Ícaro cita sem usar aspas: enfrenta o arquivo na sua materialidade para submetê-lo à reflexão.

13.03.2018 | por Eduarda Kuhnert

"falar de períodos críticos de transição da história de Angola", entrevista a José Luís Mendonça

"falar de períodos críticos de transição da história de Angola", entrevista a José Luís Mendonça No Reino das Casuarinas, de José Luís Mendonça (2014), tenta esclarecer estórias atravessadas na História de Angola, com sabor a desilusão. O estilo literário e o rigor jornalístico tornam a leitura aprazível. Um reino na floresta da Ilha de Luanda, um grupo de aparentes indigentes afinal tão visionários. O autor, director do jornal Cultura, tem esperança de se fazer ouvir num país onde diz faltar o diálogo, e onde não se deve deixar de sonhar com uma nova sociedade na qual o cidadão tenha valor. E tem propostas para tal.

19.02.2018 | por Marta Lança

A hora da micro-política

A hora da micro-política O poder do inconsciente colonial-capitalístico abarca a subjetividade da própria esquerda, já que ela nasce no interior da mesma cultura e dela forma parte ainda hoje. Sendo assim, esta tende a funcionar segundo uma micropolítica reativa e a estar desconectada da experiência do fora-do-sujeito, reduzindo-se assim à do sujeito. Com esta limitação, seu único recurso disponível para interpretar e avaliar o que acontece é o consumo e a mimetização de visões pré-estabelecidas (neste caso, visões de esquerda).

07.01.2018 | por Antonio Pradel e Aurora Fernández Polancos

A etnopoesia de Hubert Fichte, entrevista a Diedrich Diederichsen

A etnopoesia de Hubert Fichte, entrevista a Diedrich Diederichsen ichte desenvolveu as premissas que são hoje discutidas nos Estudos Queer ou Pós-coloniais, mas isso 30 ou 40 anos antes. Ao lado da história da sexualidade e das Diásporas Africanas, interessava-lhe a economia política da pobreza e da exploração. No Brasil, ele pesquisou, por exemplo, a respeito da participação de grandes grupos empresariais alemães na ditadura militar.

28.11.2017 | por Eleonore von Bothmer

Perspetivas de mundo, conversa com Daniel Lima, curador de AGORA SOMOS TODXS NEGRXS

Perspetivas de mundo, conversa com Daniel Lima, curador de AGORA SOMOS TODXS NEGRXS A questão racial tem sido uma disputa permanente no debate público brasileiro, conquistando mais espaço e posicionamentos articulados. São várias as exposições de artistas negros pelo país que inscrevem na sua obra, entre outras coisas, uma antiga história de opressão e de resistência com continuidades no presente. A reflexão e produção negra há muito tempo que vem questionando as estruturas de poder, no entanto, considera-se haver agora uma espécie de boom no circuito da arte contemporânea.

13.11.2017 | por Marta Lança

A propósito de "O Olhar de Milhões", entrevista a Raquel Castro

A propósito de "O Olhar de Milhões", entrevista a Raquel Castro Interessava-me pensar sobre a forma como somos e estamos permanentemente entretidos, a velocidade a que vivemos, os estímulos permanentes a que estamos expostos, esta coisa de estarmos sempre ligados, sempre a receber informação, distraídos de nós próprios.

01.11.2017 | por Ana Bigotte Vieira

“Atlântico Vermelho”, de Rosana Paulino

“Atlântico Vermelho”, de Rosana Paulino A obra da artista brasileira mostra a vulnerabilidade a que sempre estiveram sujeitos os negros e, duplamente, as mulheres negras; e outros efeitos que o colonialismo, a escravatura e a expropriação dos recursos naturais na América Central, do Sul e em África, vieram provocar.

24.10.2017 | por António Pinto Ribeiro

Exceção/Extração/Extinção - projeto ANTROPOCENAS

Exceção/Extração/Extinção - projeto ANTROPOCENAS Vejo o campo da arte como um espaço para se refletir sobre a nossa condição contemporânea, o passado e o futuro. Regimes estéticos implicam regimes políticos constituídos por disputas entre formas de in/visibilidade e apagamento, disputas sobre a criação de narrativas dissidentes de discursos de dominação. Neste sentido creio que o meu trabalho, assim como o seu, tem uma militância que opera no campo da imagem e das narrativas, ao complicarem a maneira pela qual entendemos o que convencionamos chamar de natureza.

25.09.2017 | por Pedro Neves Marques e Paulo Tavares

O intervalo entre o espectador e o filme como gesto que desenha um espaço comum. Entrevista a Luciana Fina

O intervalo entre o espectador e o filme como gesto que desenha um espaço comum. Entrevista a Luciana Fina O gesto é político e o que nos apresenta rejeita qualquer hipótese informativa, propondo-nos um filme numa linguagem cinematográfica muito percetiva e relacional, que não cai em descrições e narrativas da diferença e preserva a intimidade da vida e do espaço privado. A matéria do cinema, o movimento que nasce do conhecimento e da relação para a criação de universos que partilhamos a partir do som e da imagem é um gesto profundamente político, porque move lugares e reifica histórias, dando conta de uma partilha do sensível.

15.06.2017 | por Mariana Pinho

“Nunca pediria asilo à embaixada portuguesa, com medo de ser entregue”, entrevista a José Eduardo Agualusa

 “Nunca pediria asilo à embaixada portuguesa, com medo de ser entregue”, entrevista a José Eduardo Agualusa Pessoas que se sentiram abandonadas,de repente os seus patrões, que lhes davam ordens, passaram do campo socialista para o capitalista sem nenhum problema. Tudo aquilo que eles tinham feito, morto e torturado, em nome de um ideal socialista, tinha deixado de ter sentido. Essas pessoas sentem, algumas delas são muito atormentadas. Outras não. Outras também mudaram de lado com os patrões.

13.06.2017 | por Nuno Ramos de Almeida

O que estamos vendo no planeta hoje é um combate de povos e não de classes. Ou as classes estão voltando a se redefinir como povos.

O que estamos vendo no planeta hoje é um combate de povos e não de classes. Ou as classes estão voltando a se redefinir como povos. O antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro esteve em Lisboa para o ciclo “Questões indígenas: ecologia, terra e saberes ameríndios” do Teatro Municipal Maria Matos, no qual também participou o líder indígena Ailton Krenak. De uma longa conversa para o BUALA ficam fios de reflexões sobre antropoceno, apocalipse, crise da antropologia, noções de humano, antropomorfismo, reindigenização da modernidade, devir índio, os povos por vir e os direitos da natureza.

18.05.2017 | por Rita Natálio e Pedro Neves Marques

Uma rave escondida em Queimada Grande com os Ninos du Brasil

Uma rave escondida em Queimada Grande com os Ninos du Brasil Sobre a ilha de Queimada Grande, dizem ser uma forma de sugerir que as suas músicas, por mais festivas que sejam, “têm algo de obscuro, místico”. É essa espécie de misticismo, que nos perturba mas ao mesmo tempo hipnotiza que sentimos ao ouvir, por exemplo, “Novos Mistérios”, o penúltimo álbum que lançaram, editado pela Hospital Productions. Da capa, aos títulos das músicas e letras, tudo nos faz mergulhar nesse imaginário misterioso.

08.05.2017 | por Mariana Pinho