Uma raiva tão surda

Uma raiva tão surda "No Intenso Agora" João Moreira Salles questiona a memória, seja ela pessoal ou coletiva, e fá-lo a partir da perspectiva da pós-memória. Uma das principais questões do filme é a busca do narrador para entender como sua mãe foi feliz e viveu intensamente num dado momento de sua vida, quando viajou para a China em 1966 integrada numa delegação variada, para testemunhar transformações produzidas pela Revolução Cultural. Em vez de constituir um "interlúdio", pode-se dizer que o foco naquela viagem e as filmagens que sua mãe trouxe consigo poderiam ser uma, ou a, parte central de todo o filme. Mas isso também seria impor uma estrutura que o filme recusa.

01.12.2018 | por Paulo de Medeiros

A cidade o tornou reticente e sombrio

A cidade o tornou reticente e sombrio a história deles se torna a história habitual de muitos imigrantes que vieram das antigas colônias em busca de um tratamento médico ou de uma vida melhor. Em Angola, Cartola era parteiro. Em Lisboa, virou servente de obra, e a cidade o tornou reticente e sombrio. Aquiles, que ainda era adolescente ao mudar de país, deixou de se sentir angolano: “Esse olhar de quem vê o mundo da cama, contrariado, a morder-se de raiva porque ninguém o ouve, ninguém acode, foi a sua nacionalidade assim que pisou em Lisboa.”

29.11.2018 | por Tatiana Salem Levy

Quando nem sequer os mortos veem o fim da guerra

Quando nem sequer os mortos veem o fim da guerra Na obra Soliloquios en Inglaterra e Soliloquios Posteriores, escrita entre 1914 e 1921, o filósofo espanhol George Santayana disse: “Apenas os mortos viram o fim da guerra”. De facto, quando as guerras terminam, nem tudo aquilo que elas destruíram, criaram, violentaram e profanaram parece ter fim. Contudo, entre os muitos restos, destroços e heranças que as guerras vão deixando, e que inevitavelmente contaminam várias gerações, por vezes nem sequer os mortos parecem ver o seu fim.

17.11.2018 | por Fátima da Cruz Rodrigues

Mitologia e memória

Mitologia e memória O mito, ao mesmo tempo que dissimula também revela a ideologia em que se inscreve. É oportuno lembrar que a memória também se configura como um simulacro onde a questão não é a do falso ou do verdadeiro, mas a do acesso subjetivo, o mais amplo possível, à fruição do tempo passado.

12.11.2018 | por Roberto Vecchi

Liberdade /diáspora a cronologia universal da descolonização da História

Liberdade /diáspora a cronologia universal da descolonização da História A presença assertiva, quase arrogante, e o dandismo performado pelos/as personagens retratados/as, demarcam as fotografias de Diop de uma qualquer humilde dignidade, expressão imagética da subjetividade colonizada que o racismo consente. Trata-se, sim, da mimese (mimicry) de que nos falava Homi Bhabha, aquela em que o fracasso na identificação narcísica com os modos de representação do colonizador, o carácter sempre inapropriado dos sujeitos coloniais, cria uma ambivalência que, num espelho cómico e trocista, perturba a autoridade encenada pelo discurso colonial.

04.11.2018 | por Bruno Sena Martins

A dissociação entre a verdade e a memória

A dissociação entre a verdade e a memória Quando a história e o dever de memória não são tratados com o devido interesse, a verdade instala-se facilmente como escolha pessoal. Uma vez acomodadas no discurso do poder, as “verdades” tornam-se impunes; são muitas vezes relevadas e raramente condenadas, apesar de veicularem um discurso de ódio. O ódio foi normalizado e propulsionou um radicalismo onde o “bem” luta contra o “mal”. O mal sendo mais uma vez o diferente, o Outro. Um discurso que não humanize o Outro autoriza a barbárie.

26.10.2018 | por Fernanda Vilar

A tessitura da memória

A tessitura da memória Obviamente, a pintura de Kaphar seria uma denúncia eloquente do racismo, mesmo se vista isoladamente e desprovida de qualquer contexto. Justaposta à fotografia de Papf, no entanto, ela assume uma outra camada importante, pois serve para lembrar e testemunhar a violência e a crueldade da escravidão até mesmo nos espaços mais íntimos e domésticos.

18.10.2018 | por Paulo de Medeiros

"Uma extensão da busca política por novas perspectivas", entrevista a Juliano Gomes sobre Vazante

"Uma extensão da busca política por novas perspectivas", entrevista a Juliano Gomes sobre Vazante será bem vindo um filme que possa reestudar a escravidão e colonialismo brasileiro a partir de matrizes estéticas e conceituais que emergiram com mais visibilidade nos últimos anos. Mas o filme histórico carrega em geral uma barreira financeira muito complexa de ser dissolvida, custa dinheiro, arte, fotografia, locações. Isso toca aquela questão do “poder falar de tudo”

16.10.2018 | por Michele Salles

O design da identidade nacional através do vestuário: o pánu di téra de Cabo Verde

O design da identidade nacional através do vestuário: o pánu di téra de Cabo Verde Do mesmo modo que reinventamos a nossa infância individual, criando uma narrativa – uma dentro das várias possíveis − com a qual escolhemos identificar-nos, podemos afirmar que as identidades nacionais vão sendo criadas, retrospetivamente, através de discursos nos quais os próprios cidadãos são agentes ativos.

15.10.2018 | por Ana Maria Garcia Nolasco da Silva

Como resistir em tempos brutos

Como resistir em tempos brutos Aprendi com os povos da floresta amazônica, que tiveram suas vidas destruídas junto com a floresta mais de uma vez, e que resistem e resistem e resistem, que o principal instrumento de resistência é a alegria. Oswald de Andrade dizia que a alegria é a prova dos nove. Mas eles já sabiam disso muito antes. Metem o dedo na cara do opressor, que continua lá, e riem por gostar de rir. Riem só por desaforo.

09.10.2018 | por Eliane Brum

Esquecer em português

Esquecer em português É um facto: as sociedades esquecem. É um processo necessário à criação de identidades coletivas, de solidariedades políticas, de projetos de governação da sociedade, de sobrevivência e de reinício coletivo após guerras civis ou outros eventos responsáveis por ruturas.

02.10.2018 | por Hélia Santos

A falácia do “racismo inverso”

A falácia do “racismo inverso” E é deste contexto que surge o que denominamos de racismo, uma opressão histórica, violência sistémica, uma relação de poder e de profunda desigualdade. E é por isso que o racismo está intrinsecamente, e historicamente, ligado à inferiorização dos negros (e não dos brancos).

22.09.2018 | por Joacine Katar Moreira

Europa, periferia das ilhas crioulas

Europa, periferia das ilhas crioulas trata-se na verdade de uma peregrinação ao longo do rio Sado em demanda dos rastos de descendentes de escravos negros trazidos para esta zona, para o cultivo do arroz, no século XVIII, que se entrelaça com a vida de outros negros na Europa e da sua própria vida de mestiço, herdeiro de tantas cicatrizes, diásporas e cruzamentos, flagrados em histórias ocultas e silenciadas, em fragmentos dispersos, indícios, fantasmas.

15.09.2018 | por Margarida Calafate Ribeiro

O que pode um livro

O que pode um livro Hoje, no mundo, os arquivos de Direitos Humanos cumprem um papel fulcral nas sociedades em que se inserem: para além de colaborarem com a Justiça, estes arquivos conservam a memória e permitem que as gerações seguintes revisitem a sua história, a fim de compreender os seus medos e, de assim se colocarem na situação de iniciar um processo de reparação. Pode afirmar-se que estes arquivos, para muitos cidadãos são uma fonte essencial para recordar momentos, que embora não os tenham vivido, os fazem sofrer.

11.09.2018 | por Ana Tironi

Memórias familiares e memórias públicas: campos de batalha

Memórias familiares e memórias públicas: campos de batalha O que se guarda no espaço íntimo e privado são imagens efetivas ou simbólicas de vivências pessoais, de experiências agradáveis ou dolorosas. A sua evocação remete sempre para a relação discursiva e vivencial, afetiva e familiar entre gerações, guardada e alimentada na esfera doméstica onde os gestos, os afetos, os símbolos, são até mais importantes do que a ordem e o fundamento do discurso.

01.09.2018 | por Roberto Vecchi

Angola Janga. Marcelo D'Salete (Veneta)

Angola Janga. Marcelo D'Salete (Veneta) Reconto muito particular da Guerra de Palmares (...) Estes homens e mulheres tomaram os seus próprios destinos nas suas próprias mãos e, contra uma força quase impossível de derrotar, foram capazes de recriar uma vida digna e até feliz, durante algum tempo.

25.08.2018 | por Pedro Moura

Luís Lopes de Sequeira, o “mulato dos prodígios” ou o mulato dos discursos coloniais, nativistas e nacionalistas sobre Angola

Luís Lopes de Sequeira, o “mulato dos prodígios” ou o mulato dos discursos coloniais, nativistas e nacionalistas sobre Angola De pai português e de mãe angolana, este oficial de infantaria distinguiu-se em Angola, no século XVII, como comandante militar do exército português, em quatro importantes confrontos armados contra os soberanos angolanos durante a história colonial: a batalha de Ambuíla (1665), a batalha de Mpungu-a-Ndongo (1671), a campanha do Libolo (1679) e a campanha da Matamba (1681). Pretendemos analisar as representações assumidas por este herói colonial, que deu nome a um largo de Luanda e a quem José Mena Abrantes chamou “O Mulato dos Prodígios”, quer no imaginário historiográfico colonial português, quer no discurso nativista e nacionalista angolano.

17.08.2018 | por Alberto Oliveira Pinto

Amílcar Cabral: itinerários, memórias, descolonização

Amílcar Cabral: itinerários, memórias, descolonização Para muitos jovens, hoje, em Cabo Verde, na Guiné-Bissau, em Portugal, em França, no Brasil, nos Estados Unidos da América, Cabral surge como uma possibilidade de crítica a várias formas de poder, de afirmação identitária e de resistência, confirmando, assim, que a originalidade do seu pensamento e da sua ação residia em articular e contrariar várias dimensões da dominação e da violência, desde o neocolonialismo à discriminação com base no género.

04.08.2018 | por Sílvia Roque

Postais das viagens e da luta de Amílcar Cabral

  Postais das viagens e da luta de Amílcar Cabral O relato das viagens de Amílcar Cabral, incontornável líder da luta anticolonial, é aqui, quase, biografia, na exata medida em que conta as experiências do autor num registo novo, que não conhecíamos. Com efeito, este livro compila uma inestimável antologia de alteridade e de construção, na linha da premissa da libertação como ato de cultura e de desafio humanista, preconizados por Cabral, de “aprender, aprender sempre; pensar com as nossas próprias cabeças”.

03.08.2018 | por António Guterres

A invenção do campo português

A invenção do campo português Embora hoje impere a ideia de que a imagem que se vende de Portugal e, por arrasto, do Portugal rural, é politicamente neutra, é curioso notar as semelhanças desse Portugal com o país promovido pelo Estado Novo. Mas, mesmo que atribuamos a essa retórica uma neutralidade ideológica, continua a ser possível uma leitura política dessa representação apolítica e da forma como nela são tratadas as tradições e as “gentes”, que, tal como os lugares que habitam, supostamente ainda não foram corrompidas pela civilização. (...) Portugal saltou do "orgulhosamente sós" para "o segredo mais bem guardado da Europa", até chegar ao boom turístico. Mas o campo foi sempre uma paisagem ideológica.

20.07.2018 | por Bruno Vieira Amaral