A nossa BUALA

Portal transdisciplinar e colaborativo que deve o seu nome à palavra de origem quimbundo usada em Angola no sentido de bairro, periferia, valorizando a ideia de comunidade. 

Atuando nos domínios do pensamento, arte e memória, de modo transversal e problematizante, acompanha o debate pós-colonial e as diversas vozes críticas que o têm construído, nos domínios da história, ciências sociais em geral, literatura, cinema, arte, e jornalismo. O conjunto de assuntos é bastante amplo mas para simplificar descrevemos que trata de questões pós-coloniais e do sul global.

A sua organização não obedece às tipologias clássicas por áreas mas mais a afinidades de formatos. Assim, as seções são: Vou Lá Visitar trata de grandes eventos culturais (bienais, festivais e exposições); Cara a Cara, percursos de personalidades e entrevistas; Afroscreen, cinema e multimédia; A Ler, ensaios e reportagens; Mukanda, textos de natureza política e literária, de autores canónicos; Palcos, artes performativas e crítica de espetáculos; Cidade, urbanismo e globalização; Jogos sem Fronteiras, fronteiras, mobilidades e espaços de resistência; Corpo, biopolítica e feminismo; e a secção Ruy Duarte de Carvalho pretende ser um arquivo de materiais sobre o escritor angolano e do próprio autor, aqui com lugar de destaque mas que seria o primeiro de vários grandes autores de língua portuguesa. 

O objetivo principal que impulsiona este portal é o acesso alargado ao conhecimento e ao discurso crítico, tanto para os leitores como para as colaborações que se enquadrem na nossa linha editorial. Desde que foi lançado em 2010, mantém uma atividade regular com um arquivo em actualização permanente que disponibiliza uma grande quantidade de artigos, sobretudo em língua portuguesa, de investigadores europeus, latino-americanos e africanos - desde ensaios, entrevistas, manifestos, reportagens, críticas a espetáculos, exposições, filmes, colóquios; exposições virtuais; páginas de autores e o blog de divulgação cultural Dá Fala. Tendo os conteúdos disponíveis para falantes de português, inglês e francês, as questões lusófonas inscrevem-se na produção mundial de conhecimento, criando alternativas à hegemonia da cultura anglo-saxónica, sendo a língua portuguesa valorizada na sua criatividade e diversidade lexical e morfológica, mantendo-se os textos no português do Brasil ou de Angola. Os colaboradores regulares são artistas, investigadores, jornalistas e escritores, de várias partes do mundo, assim como de âmbito internacional é o alcance de leitores, embora haja uma predominância de países de língua portuguesa, e a ponte cada vez mais estreita entre Europa, África e Brasil. 

Antes do discurso pós-colonial pautar os debates na academia, na arte e nas redes sociais, o BUALA já divulgava referências atualizadas – de temáticas, autores e artistas. Ao longo destes anos, de acordo com a constante demanda e entusiasmo de quem lê e de quem colabora, e tendo em conta a utilização recorrente dos materiais do seu arquivo em contextos curriculares e de investigação, o reconhecimento entre artistas e investigadores e as suas relações de cooperação intercontinental, podemos considerar que o BUALA tem exercido um forte serviço público. 

HISTORIAL e motivação

O BUALA foi criado por Marta Lança que é a sua editora. Teve a colaboração da curadora Marta Mestre na sua concepção. Iniciou o percurso online a 25/4/2010 (dia de África), lançado oficialmente no programa Terreiros da 29ª Bienal de São Paulo (com curadoria de Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos). Contou com um apoio inicial da Fundação Calouste Gulbenkian e da Casa das Áfricas de São Paulo, através da figura da historiadora Daniela Moreau. O webdesign é de autoria dos we are boq,. A pertinência de uma plataforma desta natureza foi-se suturando após a constatação de vários fatores, entre os quais uma certa ausência de espírito crítico e a reduzida visibilidade para as vozes na vanguarda da discussão pós-colonial. No contexto português não havia nenhuma publicação no campo artístico e teórico assumidamente ligada a estes temas, à excepção do Artafrica, criado em 2001 pelo antropólogo Fernandes Dias, no quadro do Serviço de Belas Artes da Fundação Calouste Gulbenkian, que inventariava a produção artística contemporânea nos países de língua portuguesa e diásporas, incluindo fichas de artistas, exposições virtuais, ensaios e agenda de eventos. 

Constatámos que os temas pós-coloniais circulavam de modo endógeno, circunscritos a abordagens académicas ou artísticas, dificilmente acedidos fora do seu circuito fechado e muito numa perspetiva eurocêntrica. Persistia também um certo alheamento e suspeição mútua entre o meio artístico e as ciências sociais. Era imperioso o gesto de descentralizar a reflexão crítica, teórica e artística dando a conhecer uns e outros, e colocando-os em diálogo, assim como novos contextos de produção, eventualmente mais periféricos, de acordo com o lugar de perceção, incentivando a relação permanente entre local e global. Outro incentivo foi o evidente desconhecimento sobre a presença ativa e dinâmicas socio-culturais da população negra e/ou migrante em Portugal, assim como da vida artística e pensamento produzido nos países africanos e latino-americanos e sobre a produção não-ocidental de forma generalizada. 

É importante referir que a criação do BUALA em 2010 deu-se no seguimento de longas temporadas em Cabo Verde, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau e Brasil, nas quais constatámos o potencial da crítica e da vida cultural nesses países, não conhecido em profundidade nem em Portugal nem entre nos países de língua portuguesa entre si e, menos ainda, no mundo marginalizados na pouca internacionalização (por exemplo só há um poeta africano de língua portuguesa traduzido em inglês – o cabo-verdiano Corsino Fortes). Foi no interesse de promover o conhecimento entre esses países e colmatar o lado redutor e folclórico do que chega a Portugal que se iniciou o BUALA. A lusofonia, amplamente disseminada enquanto discurso, não era sinónimo de um conhecimento integrado e apelativo das singularidades destes países. Para repensar e inscrever novos dados na História comum que a lusofonia apregoa seria necessário ampliar horizontes de conhecimento, trazer complexidade à formação desse espaço linguístico e cultural, descortinando a origem destas relações. Assim, o BUALA tem incentivado o entendimento do confronto histórico, e afetivo certamente, entre ontem e hoje, para não vivermos esta história do lado nostálgico neocolonialista e para chegarmos à verdadeira interculturalidade (contra a homogeneização das culturas). Constatamos que, apesar da manifesta (e não retórica) dificuldade na sua análise (um tabu social ou, do ponto de vista da lusofonia, um orgulhoso reavivar), o passado colonial está muito presente nas vivências, nas redes de poder, na forma de relacionamento, no trato, nas mazelas psicológicas dos ex-combatentes da guerra colonial, no input que os retornados deram à economia portuguesa, e tantas outras questões que sustentam o presente. Como tivemos oportunidade de escrever no artigo “A lusofonia é uma bolha” (Lança, 2008)

Interessava-nos facilitar o acesso a narrativas não hegemónicas e periféricas, que não pareciam ter lugar nos meios de comunicação. Para tal, percebíamos desde logo a necessidade de um ponto de encontro de fácil navegação web, em que a simultaneidade de acesso e atualização de conteúdos facilitasse os meios de produção e de leitura.

PRINCIPAIS OBJETIVOS DO PORTAL 

1. dar a conhecer novos autores, textos críticos, promovendo contactos entre os vários núcleos de colaboradores: artistas, agentes culturais, investigadores, jornalistas, programadores, estudantes.

2. combater a falta de ferramentas críticas das sociedades, condicionadas por um modo de vida de leituras rápidas e fragmentárias, oferecendo artigos de reflexão extensa em diálogo com uma cultura visual mais elaborada. 

3. resistir ao desaparecimento das publicações de ensaio, jornalismo cultural e experimental. 

4. manter uma linha editorial independente e reforçar uma estrutura de coletivo descentralizada.

5. criar um corpo de referências de textos fundamentais no BUALA sobre temas pós e descoloniais, pesquisando o que é imperativo traduzir, passando essas referências à nossa equipa de tradutores.

6. promover um diálogo com os leitores e abrir um espaço de debate a partir de textos publicados no BUALA. Criar pontes entre o mundo digital e o encontro real entre colaboradores e leitores. Produzir e traduzir novos artigos a partir destes debates, eventualmente angariando novos colaboradores.

7. trazer temas do mundo académico para discussão na sociedade civil, partilhando-os com pessoas com vários backgrounds e proveniências geográficas, profissionais e etárias. Contribuir para abordagens interdisciplinares em que a arte dialoga com as ciências sociais, e vice-versa, sem a suspeição habitual entre estes campos.

8. incentivar uma prática descolonial que desconstrua as relações de poder envolvidas em linhas de continuidade entre os discursos coloniais e os estereótipos sexuais e raciais contemporâneos.

Esta plataforma de acesso livre, tanto produção como recepção, potencia a diversidade de pontos de vista e contribuições, promovendo o diálogo intercultural e combate a discriminações.

Os nossos conteúdos e debates tentam combater preconceitos raciais e sexuais, articulando questões de género e raça, na denúncia das injustiças mas, sobretudo, através de reflexões aprofundadas sobre essas agendas históricas.

Editámos uma revista em papel Este Corpo que me Habita (em 2014) ligando temas tão prementes como a morte, a precaridade, as cidades, a biopolítica. Igualmente reflectimos sobre a situação das mulheres em vários contextos locais e sócio-culturais.

O nosso âmbito não é tanto a informação ou actualidade mas mais a crítica e reflexão. O BUALA dirige-se a um público diversificado, com várias áreas de interesse, oferecendo também registos muito abrangentes, do  jornalístico ao académico passando pelo artístico.

Empenhados em combater visões redutoras, imaginámos uma rede de trabalho que, pela sua imediata adesão e proliferação, evidenciou como estava em falta um espaço não institucional nem corporativista, que desse conta destas realidades e fosse um modelo de comunicação participativa e independente integrado nos “citizen media”. A Internet tornou-se pois a ferramenta adequada pela simultaneidade de acesso e actualização de conteúdos, e facilidade de meios de produção.

Futuro do Buala?

Para a implantação do site recebemos, no início do projecto, apoio da Casa das Áfricas [Brasil] e da Fundação Calouste Gulbenkian [Portugal]. Porém, ao longo destes anos, uma equipa composta pela editora, programadores do site, tradutores e produtora, além de colaboradores mais ou menos regulares, tem desenvolvido um trabalho voluntarista, situação que limita a consolidação da sua estrutura, essencial para o desenvolvimento do portal e da associação. A criação das condições necessárias para uma gestão eficiente, pro-ativa e autónoma, que permita alargar o espaço de intervenção do BUALA, torna-se pois fundamental, sob pena de cair mais um projecto que gerou tanto entusiasmo e utilizada.

Reconhecido por muitos sectores enquanto serviço público, bem embora tenha funcionado sem financiamento, gostaríamos de consolidar a fase de profissionalização do BUALA, indispensável à sua continuação.São inúmeros os professores, alunos e leitores de várias partes do mundo (e em lugares onde não existe qualquer informação alternativa aos jornais do “regime” e grande capital), que consultam o BUALA como fonte de aprendizagem e documentação. Pelo acesso “universal” e gratuito, pela sua linha editorial independente e congregadora, o BUALA tem estimulado a livre expressão e aprofundamento dos valores democráticos. O contínuo aumento de utilizadores do portal demonstra a importância e a necessidade de se aprofundar as temáticas já abordadas, mas também de ter condições para daqui em diante alargar as possibilidades de partilha, maior produção de conteúdos e traduções, em direção à profissionalização da estrutura permanente. 

 

números Buala:

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