Lucrecia Martel, queres viver?

Lucrecia Martel, queres viver? O espírito do mundo sai-lhe pelos olhos. Lucrecia volta a emprestar o corpo ao mundo – desta vez radicalmente - e transforma-o em cinema. Em Zama, voltamos a encontrar-nos com uma coreografia de corpos e animais, de crianças e adultos, de oprimidos e opressores, de torrentes de água e de naturezas asfixiantes, onde a beleza é o lugar onde repousam os segredos, como atrás dos habituais longos e brilhantes cabelos, que sussurram desejos e histórias perdidas.

12.06.2018 | por Cláudia Varejão

Martírio, de Vincent Carelli, no cinema Ideal

Martírio, de Vincent Carelli, no cinema Ideal O filme Martírio é talvez um dos mais importantes e perturbantes documentos da atualidade brasileira e do etnocídio indígena em curso, perpetuado pelo governo brasileiro. Vincent Carelli, em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tatiana Soares de Almeida, recolhe imagens históricas da resistência guarani Kaiowá ao conflito com as instituições governamentais.

26.05.2018 | por Rita Natálio e vários

Passado e presente só se distinguem pelo desgaste da madeira

Passado e presente só se distinguem pelo desgaste da madeira Tomara que "O Canto do Ossobó" seja amplamente visto. Primeiro porque a história da escravatura praticada sob o império e colonialismo “à portuguesa” precisa de ser conhecida na sua complexidade, contrapondo a realidade dos factos ao persistente mito lusotropicalista dos brandos costumes. Depois, por ser a voz de um santomense que perscruta a dor de “homens e mulheres esgotados pelo peso do trabalho”.

15.04.2018 | por Marta Lança

O tenso enegrecimento do cinema brasileiro

O tenso enegrecimento do cinema brasileiro Uma onda de cinema negro é a grande novidade na história recente do cinema brasileiro, acentuando com originalidade e com tensões uma característica que se fazia notar nos últimos trinta anos, uma cinematografia de muita diversidade temática, de estilos e até regional. Entretanto, apesar desta multiplicidade de narrativas, esse mercado audiovisual se recusava a incorporar uma maior participação de cineastas, elenco, e o protagonismo da parcela negra, maioria populacional do país.

04.04.2018 | por Joel Zito Araújo

Sobre algumas ruínas, uns lamentam, outros dançam: algumas impressões sobre a presença portuguesa na 20ª edição do Videobrasil

Sobre algumas ruínas, uns lamentam, outros dançam: algumas impressões sobre a presença portuguesa na 20ª edição do Videobrasil Olhando para o passado, essa melancolia tropical e sensual, encoberta por folhas de palmeiras, e registrada com luz estourada por sob um sol de rachar, talvez não estivesse consciente do fracasso que viria a seguir, quando mais uma vez voltaríamos a ser o país que poderia ter sido o do futuro. É no contexto dessa derrota que o Videobrasil chega a sua 20º edição. Mas no lugar de expandir e tensionar nosso entendimento do Sul hoje, a escolha pela melancolia parece encampar e reafirmar um consenso hegemônico dentro de uma epistemologia que se quis e se quer desterritorializante, vasta e dinâmica.

28.02.2018 | por Patrícia Mourão

Diretoras Negras do Cinema Brasileiro

Diretoras Negras do Cinema Brasileiro “Falar das trajetórias das mulheres negras no cinema brasileiro é remontar uma história de invisibilidade e apagamentos. Até por isso, o que é impactante na produção atual é a sua coletividade e a pluralidade de projetos e obras. Uma série de iniciativas das próprias cineastas marcam esse cenário de transformação e afirmação, propondo novas formas de viabilizar e divulgar o cinema feito pelas mulheres negras.

27.11.2017 | por vários

A inquietação de [não] ser julgado pela cor da pele

A inquietação de [não] ser julgado pela cor da pele Em "I’m not your negro", a força da realização de Raoul Peck impõe-se na montagem das palavras do escritor com as imagens, plenas de sentido, que aproximou destas. Documentário de reutilização de imagens, ilustra que a história é o presente e actualiza, pelo olhar, a luta contra a morte do coração, diagnosticada por James Baldwin.

29.10.2017 | por Maria do Carmo Piçarra

Doc's Kingdom 2017 I Emergir no conflito

Doc's Kingdom 2017 I Emergir no conflito Gostaríamos de convidar-vos para uma viagem. Não para atravessar o oceano, mas para examinar a sua superfície. Esqueçam a história sólida e luminosa dos continentes e os seus faróis que desfazem a noite com as suas certezas deslumbrantes. Em vez disso, entrem na sombra macia das profundezas, do outro lado do espelho opaco da água, numa paisagem infinitamente mutante que ignora as velhas fronteiras e os limites do corpo. Movimento líquido de subversão, ondas de vozes e ondas de rádio, telepatia. Space is the place. Este não é lugar para monumentos, para além dos ossos daquelas que são atiradas borda fora. Migrantes que têm como única bússola o desespero, mulheres grávidas que fertilizam as profundezas do oceano.

20.08.2017 | por vários

Manthia Diawara: Percursos Intensivos

 Manthia Diawara: Percursos Intensivos Um programa sobre o autor maliano, da diáspora africana, que pretende proporcionar uma reflexão sobre a contemporaneidade africana através do conhecimento aprofundado da sua obra e do seu pensamento. Através da criação de uma espécie de “sala de estudo” pretende-se que o visitante possa ver e consultar, de acordo com o seu próprio critério e motivação, os filmes e livros da autoria de Diawara e outros ensaios.

12.05.2017 | por vários

Orfeu da Conceição: uma tragédia não negra

Orfeu da Conceição: uma tragédia não negra Orfeu da Conceição se realiza, em termos de modelo compositivo, a partir das determinações de uma “plagiotropia”[4] (êxito: signans o aspecto sensível do signo estético) isto é, Vinicius, como um típico modernista tardio, serve-se de dados da tradição tendo em vista sua transfiguração no presente. A transformação do modelo trágico e do mito grego de Orfeu – herói que inspeciona o Hades arrastado pelo amor – nesse outro Orfeu, sambista do morro carioca, imaginado pelo poeta brasileiro, diz respeito a uma transposição intersemiótica.

24.04.2017 | por Ronald Augusto

A respeito da violência

A respeito da violência Esta aparente versão benigna das relações coloniais traduzida pelo termo paternalismo, na qual o poder se exercia a partir de uma pretensa proximidade afectiva, continua hoje a servir para relatar a experiência colonial portuguesa e o seu ilusório excepcionalismo. Este paternalismo, desprezível em sim mesmo, só operava, no entanto, perante a possibilidade última da violência. Inúmeras vezes esta possibilidade passou do estado latente para o manifesto, pela acção do Estado colonial, da empresa privada e dos particulares, tanto no espaço público como doméstico. Pela força destas imagens de arquivo e pelo ritmo que lhes é dado pelas palavras de Fanon, inseridas no ecrã, Olsson introduz-nos neste universo concentracionário que importa por demais voltar a discutir.

21.09.2016 | por Nuno Domingos

Fime Resgate em campanha de crowdfunding.

Fime Resgate em campanha de crowdfunding. Depois de passar quatro anos na famosa Cadeia Central de Maputo por roubar carros, BRUNO (34) é finalmente um homem livre e quer distância da antiga gangue. Com o apoio da dedicada namorada, MIA (28), abre uma pequena oficina de mecânica. A vida deles parece estar no caminho certo quando Bruno é surpreendido por um misterioso empréstimo bancário feito pela falecida mãe. Se não pagar USD30.000, o banco ficará com a casa que herdou. Sem dinheiro, ele está determinado a defender a dignidade da mãe e a casa. A única saída é fazer alguns ‘jobs’ para a antiga gangue.

18.08.2016 | por vários

La Milagrosa

La Milagrosa As cores e os objetos ganham uma especial importância na videoinstalação, tendo em conta a sua correspondência na mitologia ioruba trazida pelos escravos. Há todo um panteão de deuses através de santos, cores e objetos. Por exemplo, elementos ligados à água, como peixes ou estrelas do mar, correspondem à deusa do mar e da maternidade - Yemayá - sincretizada com a Virgen de Regla (pelo que a sua cor é o azul marinho);

13.04.2016 | por Rui Mourão

"Posto Avançado do Progresso" - entrevista a Hugo Vieira da Silva

"Posto Avançado do Progresso" - entrevista a Hugo Vieira da Silva Desconstruindo de forma sistemática os relatos de viagem e diários dos exploradores, cientistas ou comerciantes europeus que deambulavam pela África tropical no final século XIX, prova-se que os documentos são muitas vezes idealizados ou imprecisos e que na maior parte do tempo estes europeus estariam num estado permanente de êxtase provocado pela doença, altas dosagens de quinino, álcool, opiáceos e outras drogas.

14.03.2016 | por António Pinto Ribeiro

De Dakar a Brazaville, de Abidjan a Niamey: o manifesto anticolonial de Afrique 50

De Dakar a Brazaville, de Abidjan a Niamey: o manifesto anticolonial de Afrique 50 Afrique 50 é um documentário assumidamente anti-colonial que procura revelar a verdade de um regime colonial francês que baseia a sua supremacia no primado da força e da violência, na exploração capitalista da mão-de-obra negra assalariada, na negação da liberdade dos povos africanos e na falsa ideologia do progresso e da superioridade da cultura europeia.

21.12.2015 | por Joaquim Pedro Marques Pinto

O discurso contra-epopeico em "Non ou a Vã Glória de Mandar": contributos para uma leitura lourenciana

O discurso contra-epopeico em "Non ou a Vã Glória de Mandar": contributos para uma leitura lourenciana Do início ao fim, como dialéctica universal e ininterrupta, a História percorre o seu próprio tempo à procura da partícula do sentido, sem medo de se repetir. As nações formam-se, desenvolvem-se, mitificam-se, oferecendo o seu contributo ao progresso da civilização. Non é a palavra maldita e monossilábica que encerra o apogeu e declínio do destino português. A verdade é a suprema essência que transcende a realidade dos homens, o plano mitológico onde se cumprem os seus actos heróicos e funestos. O que fica para a humanidade é, de facto, não o que se tira, mas o que se dá.

12.12.2015 | por Joaquim Pedro Marques Pinto

Les Statues Meurent Aussi: contribuição teórica para uma leitura pós-colonial

Les Statues Meurent Aussi: contribuição teórica para uma leitura pós-colonial para além da ideia de constituir um ensaio estético sobre o valor da arte negra, Les Statues Meurent Aussi visa sobretudo uma discussão crítica sobre a prática da “(…)museologização dos objectos extraídos a uma cultura onde não há museus e, por consequência, sobre as relações de poder – económico, político e simbólico – entre a cultura europeia e as culturas africanas, sob a organização colonial”.

28.11.2015 | por Joaquim Pedro Marques Pinto

Filmar (em) Angola, entrevista a Jorge António

Filmar (em) Angola, entrevista a Jorge António Acontece normalmente de uma forma simples, que é como eu a gostava de a ver contada. Não num sentido totalmente popular ou mercantilista, usando todas as matrizes básicas para fazer render a “coisa”: acção violenta ao minuto dois com explosões ao minuto três e sexo do minuto quatro ao décimo (risos). Continuo a acreditar que se podem contar histórias que possam ser vistas e sentidas de várias formas, que possam ser inteligentes, respeitando o público.

16.11.2015 | por Maria do Carmo Piçarra

«ALDA E MARIA – POR AQUI TUDO BEM» - um filme de Pocas Pascoal

«ALDA E MARIA – POR AQUI TUDO BEM» - um filme de Pocas Pascoal É uma história de emigração e de afetos que Pocas Pascoal, a realizadora angolana que vive hoje na ponte aérea Paris-Lisboa, trouxe para a nossa intimidade, apesar dos nossos receios e da nossa fragilidade intelectual e emocional.

02.10.2015 | por Luísa Fresta

“Todas as Fronteiras” - Doc's Kingdom

“Todas as Fronteiras” - Doc's Kingdom O programa de 2015 convida a uma rota por “Todas as Fronteiras” – geográficas, geopolíticas, entre quem filma e quem é filmado, o visível e o invisível, o centro e a periferia, o público e o privado, o som e a imagem – e conta com a presença dos realizadores Adirley Queirós, Catarina Mourão, Eloy Domínguez Séren, Eric Baudelaire, Eyal Sivan, Filipa César, Joana Pimenta, Nelson Carlo de los Santos Arias e Salomé Lamas.

13.09.2015 | por vários