Uma raiva tão surda

Uma raiva tão surda "No Intenso Agora" João Moreira Salles questiona a memória, seja ela pessoal ou coletiva, e fá-lo a partir da perspectiva da pós-memória. Uma das principais questões do filme é a busca do narrador para entender como sua mãe foi feliz e viveu intensamente num dado momento de sua vida, quando viajou para a China em 1966 integrada numa delegação variada, para testemunhar transformações produzidas pela Revolução Cultural. Em vez de constituir um "interlúdio", pode-se dizer que o foco naquela viagem e as filmagens que sua mãe trouxe consigo poderiam ser uma, ou a, parte central de todo o filme. Mas isso também seria impor uma estrutura que o filme recusa.

A ler

01.12.2018 | por Paulo de Medeiros

Veio o tempo em que por todo os lados as luzes desta época foram acendidas

Veio o tempo em que por todo os lados as luzes desta época foram acendidas A luz negra, que havia encarnado em tudo com toda intensidade, foi aos poucos escorregando por entre os cantos do labirinto, banhando nosso corpo e se cravando outra vez no profundo. Estivemos ali por muito tempo, cozinhando junto com a terra. Pouco a pouco, à medida que nossos corpos foram recuperando o acesso às pernas, decidimos nos separar e mover pelo labirinto de túneis, a tentar captar as repercussões do nosso ataque, e estudar as implicações do que havíamos feito.

Corpo

26.11.2018 | por Jota Mombaça

“A esquerda tem mostrado uma maturidade enorme para engolir sapos.”

“A esquerda tem mostrado uma maturidade enorme para engolir sapos.” É perigoso porque toda a diferença é estigmatizada. Se eu me considero superior moralmente e penso que uma família é um homem e uma mulher, tenho toda a justificação para liquidar os homossexuais. É uma lógica repressiva. O Brasil, ao contrário de outros países da América Latina, tem uma sociedade civil bastante organizada, com muitos movimentos sociais. É evidente que vai haver resistência. Há uma sociedade civil que não está desarmada social e politicamente. Nas últimas semanas houve uma mobilização extraordinária, que não foi suficiente, mas mostra um apego à democracia que o Latinobarómetro não previa.

Cara a cara

06.11.2018 | por Boaventura de Sousa Santos

Eleger tiranos democraticamente

Eleger tiranos democraticamente Resistir à tentação de trocar humanidade por segurança, de trocar disparidade por homogeneidade, de trocar o desencanto da modernidade pela canção das sereias fascistas. E essa luta travamo-la na nossa cabeça todos os dias. Travamo-la quando sentimos a tentação de falar em deportar brasileiros que votaram Bolsonaro ou quando sentimos a tentação de o defender porque ganhou umas eleições democráticas.

Mukanda

31.10.2018 | por Simão Cortês

A dissociação entre a verdade e a memória

A dissociação entre a verdade e a memória Quando a história e o dever de memória não são tratados com o devido interesse, a verdade instala-se facilmente como escolha pessoal. Uma vez acomodadas no discurso do poder, as “verdades” tornam-se impunes; são muitas vezes relevadas e raramente condenadas, apesar de veicularem um discurso de ódio. O ódio foi normalizado e propulsionou um radicalismo onde o “bem” luta contra o “mal”. O mal sendo mais uma vez o diferente, o Outro. Um discurso que não humanize o Outro autoriza a barbárie.

A ler

26.10.2018 | por Fernanda Vilar

Exposição '⌾'

Exposição '⌾' Todas as obras presentes na exposição possuem conotações alegóricas, míticas, intuitivas e se utilizam de símbolos para emanar novas ideias e propostas de existência e relação, ativando tanto cosmologias ancestrais quanto situações históricas de resistência, luta e ativismo.

Vou lá visitar

21.10.2018 | por Catarina Duncan

Jimmie Durham e a mentalidade colonial no Brasil

Jimmie Durham e a mentalidade colonial no Brasil Ao questionar a história, Durham questiona a própria ideia de passado, e traz a tarefa de tratarmos de nossos traumas no presente. Ele não faz comentários sobre a arte brasileira especificamente, muito menos sobre nossa antropofagia cultural. O artista está interessado nas características e consequências da mentalidade colonial da sociedade brasileira.

Cara a cara

18.10.2018 | por Maíra das Neves

Chega de ódio, pela democracia no Brasil e no mundo

Chega de ódio, pela democracia no Brasil e no mundo Não se trata de mais um acto eleitoral, assistimos ao sintoma de uma preocupante escalada de forças e movimentos de extrema-direita no mundo. Lançamos por isso um alerta para o sério risco de retrocessos sociais, ecológicos, políticos e humanos, que estão em jogo nas eleições brasileiras.

Mukanda

15.10.2018 | por vários

Como resistir em tempos brutos

Como resistir em tempos brutos Aprendi com os povos da floresta amazônica, que tiveram suas vidas destruídas junto com a floresta mais de uma vez, e que resistem e resistem e resistem, que o principal instrumento de resistência é a alegria. Oswald de Andrade dizia que a alegria é a prova dos nove. Mas eles já sabiam disso muito antes. Metem o dedo na cara do opressor, que continua lá, e riem por gostar de rir. Riem só por desaforo.

A ler

09.10.2018 | por Eliane Brum

Lula Liberto!

Lula Liberto! Esse continuum escravocrata não tolera as brechas criadas e conquistadas – provocando uma tragédia com o Brasil, jogando-o numa espiral recessiva e numa sobreposição de crises (política, econômica, social, existencial). A fome – seu fim como símbolo maior das conquistas do período Lula – volta a rondar muita gente.A austeridade, criminosa em qualquer canto do planeta, ganha outras camadas de perversidade por essas bandas.

Mukanda

13.09.2018 | por JeanTible

CAN - 1 década do "Navio Negreiro do Cinema"

CAN - 1 década do "Navio Negreiro do Cinema" Os filmes com temática afro ainda são um tabu em função da ignorância e insensibilidade de grande parte dos curadores de festivais do Brasil (e, que infelizmente, apesar da crescente busca por visibilidade preta em todas as mídias, ainda permanece). Durante boa parte da trajetória do CAN, ele se consolidou como um espaço aberto para exibição e lançamento dessas obras.

Afroscreen

10.09.2018 | por Clementino Junior

A esquerda dividida por Junho de 2013 e a possibilidade de construir novas conexões

A esquerda dividida por Junho de 2013 e a possibilidade de construir novas conexões No Brasil, em outros contextos, parte da esquerda tentava opor classe e diferença e isso está muito preso no debate político nacional. O que, a meu ver, nos ajuda a pensar é o seguinte: a classe sempre foi preta, a classe sempre foi mulher, a classe sempre foi indígena. O conceito de multidão pode nos ajudar a entender justamente isto: como essas questões se colocam, ou seja, muitas vezes ficamos nos opondo a questões que estão muito mais conectadas. Inclusive, os adversários dos “de baixo” percebem isso.

A ler

28.06.2018 | por JeanTible

Martírio, de Vincent Carelli, no cinema Ideal

Martírio, de Vincent Carelli, no cinema Ideal O filme Martírio é talvez um dos mais importantes e perturbantes documentos da atualidade brasileira e do etnocídio indígena em curso, perpetuado pelo governo brasileiro. Vincent Carelli, em colaboração com Ernesto de Carvalho e Tatiana Soares de Almeida, recolhe imagens históricas da resistência guarani Kaiowá ao conflito com as instituições governamentais.

Afroscreen

26.05.2018 | por Rita Natálio e vários

quando quebra queima, coletivA ocupação: explosão, levante político-artístico e revolução do cotidiano

 quando quebra queima, coletivA ocupação: explosão, levante político-artístico e revolução do cotidiano peça construída por estudantes que viveram o processo de ocupações e manifestações do movimento secundarista em 2015 e 2016. Frutos da primavera secundarista, 14 corpos insurgentes deslocam para a cena a experiência dentro das escolas ocupadas, criando uma narrativa coletiva e comum a partir da perspectiva de quem viveu intensamente o cotidiano dentro do movimento. Ocupando o tempo presente, a ColetivA provoca de maneira pulsante o universo que compõe esse movimento que transformou o corpo e vida de todos que participaram.

Palcos

13.05.2018 | por JeanTible

Adjetivo esdrúxulo: Maria Auxiliadora

Adjetivo esdrúxulo: Maria Auxiliadora Até ao dia 3 de Junho, o MASP​ (Brasil)​ apresenta "Maria Auxiliadora da Silva: vida quotidiana, pintura, resistência" no contexto da sua programação dedicada às histórias afro‑atlânticas: as histórias dos fluxos e dos refluxos entre a África e as Américas através do Atlântico. Este texto aborda o trabalho​ ​ da artista​ ​e​ ​os elementos​ ​críticos e criativos que foram negligenciados em favor de sua “crônica de vida”, apontando​ ​alguns dos desafios curatoriais à exposição deste trabalho, no contexto institucional.

Vou lá visitar

13.05.2018 | por Marta Mestre

A poética dos desvios na montagem visual de Ícaro Lira, entrevista

A poética dos desvios na montagem visual de Ícaro Lira, entrevista Em meio a recortes de jornais, imagens, pedras, documentos, reproduções de obras de arte e lascas de árvores, a obra do artista visual Ícaro Lira vira do avesso os materiais para mostrar o que escondem as sombras dos acontecimentos históricos. Como opera Walter Benjamin em sua montagem literária no livro Passagens (1940), Ícaro cita sem usar aspas: enfrenta o arquivo na sua materialidade para submetê-lo à reflexão.

Cara a cara

13.03.2018 | por Eduarda Kuhnert

Diretoras Negras do Cinema Brasileiro

Diretoras Negras do Cinema Brasileiro “Falar das trajetórias das mulheres negras no cinema brasileiro é remontar uma história de invisibilidade e apagamentos. Até por isso, o que é impactante na produção atual é a sua coletividade e a pluralidade de projetos e obras. Uma série de iniciativas das próprias cineastas marcam esse cenário de transformação e afirmação, propondo novas formas de viabilizar e divulgar o cinema feito pelas mulheres negras.

Afroscreen

27.11.2017 | por vários

Teat(r)o oficina: corpos livres em perigo

Teat(r)o oficina: corpos livres em perigo No país da história golpeada, estamos vivendo os nefastos desdobramentos da sua mais recente reedição, ocorrida em 2016, que reverbera em variadas esferas. Todas as conquistas e aspirações dos de baixo estão sendo questionadas: proteção social, educação pública de qualidade, saúde para todos, combate às desigualdades sociais e raciais, políticas culturais, o limitado voto... Nessa encruzilhada, estamos: sabe(re)mos resistir (o que significa, para a esquerda, re-existir)? É este o contexto da nova ofensiva contra o Teatro Oficina Uzyna Uzona, ativo há quase seis décadas na cidade de São Paulo, no bairro do Bixiga.

Cidade

18.11.2017 | por JeanTible

Perspetivas de mundo, conversa com Daniel Lima, curador de AGORA SOMOS TODXS NEGRXS

Perspetivas de mundo, conversa com Daniel Lima, curador de AGORA SOMOS TODXS NEGRXS A questão racial tem sido uma disputa permanente no debate público brasileiro, conquistando mais espaço e posicionamentos articulados. São várias as exposições de artistas negros pelo país que inscrevem na sua obra, entre outras coisas, uma antiga história de opressão e de resistência com continuidades no presente. A reflexão e produção negra há muito tempo que vem questionando as estruturas de poder, no entanto, considera-se haver agora uma espécie de boom no circuito da arte contemporânea.

Cara a cara

13.11.2017 | por Marta Lança

Do fogo que nos une: notas sobre antropofagia e micropolítica

Do fogo que nos une: notas sobre antropofagia e micropolítica A fronteira ela mesma entre eu e outro fica burlada na burla que é a antropofagia como jogo e possibilidade de afecção. A antropofagia é da ordem da aliança e do devir através da guerra. A guerra que empodera o inimigo ao predá-lo, porque mais que empoderar o eu, afirma simultaneamente o outro. A guerra antropofágica torna o estranho algo nomeável, produz corpos e pessoas, gente como a gente, permuta de perspectivas, afinidades.

A ler

08.11.2017 | por Leonardo Bertolossi