Comunicado conjunto pela Unidade Guiné-Bissau-Kabuverdi
Nós, organizações e coletivos abaixo-assinados, compostos por guineenses e kabuverdianu unidos pelo compromisso histórico com a unidade e armundadi entre os nossos povos, temos acompanhado com profunda preocupação os recentes acontecimentos envolvendo trabalhadores guineenses residentes em Kabuverdi, particularmente na cidade da Praia, assim como os discursos e informações que, na sequência desses acontecimentos, têm circulado nas redes sociais.
Em primeiro lugar, manifestamos a nossa total solidariedade para com as vítimas dos atos de violência registados, as suas famílias e toda a comunidade guineense residente em Kabuverdi. O sentimento de insegurança expresso é legítimo e exige uma resposta concreta das instituições responsáveis por garantir a segurança e os direitos de todas as pessoas que vivem no país.
Na sequência dos referidos acontecimentos, membros da comunidade guineense denunciaram publicamente situações de violência física acompanhadas de insultos preconceituosos por parte de grupos criminosos. Estas denúncias não podem ser ignoradas ou relativizadas e devem ser devidamente investigadas pelas autoridades competentes.
Como imigrantes e trabalhadores residentes na diáspora e no continente, mas sobretudo como africanos, conhecemos as dificuldades da vida em sociedades onde a hospitalidade é seletiva. Sabemos que a xenofobia, a discriminação, o preconceito e a afrofobia são problemas reais também nas sociedades africanas, ainda que com contornos diferentes em cada contexto específico. Kabuverdi não está fora dessa realidade africana e, por isso, dizemos que esses fenómenos exigem de nós uma resposta panafricana.
O insulto e o escárnio em relação à comunidade guineense em Kabuverdi são bem anteriores aos recentes acontecimentos, assim como o são as denúncias dessa realidade. A história colonial deixou-nos mecanismos de divisão que permanecem presentes nas nossas relações quotidianas. A pejoração de termos como Mandjaku, transformado num insulto, é uma evidência concreta de um problema sobre o qual o povo kabuverdianu precisa de continuar a refletir e agir.

Ao mesmo tempo, é necessário agir com responsabilidade perante as informações que circulam nas redes sociais. Na sequência dos acontecimentos, circularam informações dando conta da morte de trabalhadores guineenses e de uma alegada “caça aos guineenses” em Kabuverdi. A Associação dos Guineenses Residentes em Kabuverdi afirmou não existir um conflito entre guineenses e kabuverdianu, rejeitando igualmente a existência de uma perseguição organizada contra a comunidade. É, portanto, irresponsável e perigoso transformar factos ainda em processo de esclarecimento numa narrativa de perseguição sistemática de um povo por outro, sem elementos que a sustentem.
Irmãos e irmãs, combater a xenofobia exige também enfrentar a desinformação e a instrumentalização das contradições existentes nas nossas sociedades e, sobretudo, qualquer tentativa de fazer justiça pelas próprias mãos. A denúncia da discriminação não pode transformar o povo kabuverdianu em inimigo do povo guineense, assim como a rejeição das generalizações não pode servir para silenciar as experiências de discriminação denunciadas por trabalhadores imigrantes guineenses.
Precisamos de reconhecer e enfrentar as contradições existentes na sociedade kabuverdianu sem, contudo, aceitar a ideia de que o povo kabuverdianu procura ameaçar a existência ou a segurança do povo da Guiné-Bissau. De igual modo, a relação histórica e consanguínea entre os dois povos deve ser razão suficiente para não se alimentar a falsa ideia de que o povo kabuverdianu é inimigo do povo guineense.
Os recentes acontecimentos devem também ser compreendidos no contexto das profundas desigualdades socioeconómicas existentes no arquipélago, com particular incidência na cidade da Praia. Falamos de uma realidade de violência que atinge sobretudo as populações dos bairros periféricos e socialmente mais vulneráveis, incluindo kabuverdianu, guineenses e outras populações migrantes, e que exige respostas do Estado. Enfrentá-la implica também combater as estruturas políticas e económicas que forjaram e estimulam uma visão discriminatória do “outro”.
Tudo isto nos mostra que é necessário regressar a Amílcar Cabral, cujo nascimento celebrámos recentemente, em Lisboa, na III Marxa Cabral, sob o lema “Em defesa da terra e da vida: reconhecer, reparar e descolonizar”. Cabral ensina-nos que uma luta consequente exige saber identificar corretamente o seu alvo. Mesmo diante da violência do colonialismo português, Cabral e o movimento de libertação souberam distinguir o sistema colonial do povo português, que não foi transformado em inimigo dos povos da Guiné e de Kabuverdi. Essa lição mantém toda a sua atualidade. Guineenses e kabuverdianu não são inimigos.
Num momento em que, em diferentes partes do continente, vemos discursos que procuram fabricar inimigos a partir da condição migrante, a nossa resposta deve ser mais unidade africana, e não menos. A unidade entre os povos da Guiné-Bissau e de Kabuverdi continua a ser um projeto pelo qual vale a pena lutar. Pese embora a rutura política entre os nossos Estados depois das independências, precisamos de voltar a fazer povo e de reconciliar a nossa relação. Esta é também uma tarefa política panafricana da nossa geração.
POR ISSO, APELAMOS:
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ao esclarecimento rigoroso dos acontecimentos e à responsabilização dos autores dos crimes;
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à proteção efetiva da comunidade guineense e das demais comunidades migrantes residentes em Kabuverdi e à investigação séria das denúncias de discriminação, xenofobia, afrofobia e violência;
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à responsabilidade na divulgação de informações, particularmente por parte de quem dispõe de grandes audiências;
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à rejeição de discursos que transformem guineenses e kabuverdianu em povos inimigos;
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à promoção de programas educativos e de intercâmbio entre estudantes e jovens da Guiné-Bissau e de Kabuverdi, que valorizem as nossas próprias histórias e as nossas comunidades na sua diversidade, contribuindo para o conhecimento mútuo e o combate aos preconceitos;
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à construção de espaços permanentes de diálogo e ação conjunta entre organizações guineenses, kabuverdianu e panafricanas.
Esperamos ainda que o compromisso com os Direitos Humanos e os direitos fundamentais do povo guineense, reafirmado pelo Governo de Kabuverdi no comunicado de 14 de julho de 2026, se traduza também, dentro das suas próprias fronteiras, em medidas concretas de proteção da comunidade guineense.
Encorajamos ainda o Governo de Kabuverdi, tendo em conta a sua tradição diplomática de paz e diálogo, a promover junto da UA e da CEDEAO, com carácter de urgência, uma concertação regional sobre a xenofobia, a afrofobia e a discriminação contra trabalhadores migrantes, envolvendo os Estados, as comunidades migrantes e as forças vivas do continente e da diáspora.
Contra a violência, a xenofobia, a discriminação e a afrofobia. Pela segurança e dignidade dos nossos povos. Pela unidade dos povos da Guiné-Bissau e de Kabuverdi. Não erremos o alvo. Unidade e Luta!
Assinado por:
Konferénsia Panafrikanu di Lisboa
Firkidja di Pubis - Movimento Político de Estudantes e Trabalhadores Guineenses
Batukadera Banderinha Panafrikanista
Kriol Think
Casa da Cultura da Guiné-Bissau
MBongi 67
Coletivo Nô Raiz
Muvimentu Federalista Pan-Afrikanu de Kabuverdi