Arquivar o que foi apagado
Em Archivos negros, Tania Safura Adam recompõe, a partir de fragmentos, uma história da presença negra, do panafricanismo e das lutas antifascistas em Espanha.
O que significa construir um arquivo a partir de fragmentos? Esta é a pergunta que atravessa Archivos negros | Black Archives, investigação de Tania Safura Adam agora reunida numa edição digital bilingue, publicada pela L’Internationale Online. Curadora, investigadora, fundadora da plataforma Radio Africa e responsável pelo projeto España Negra, Adam procura os vestígios de uma presença negra que a história oficial espanhola tornou descontínua, marginal ou simplesmente invisível.
Dividido em três partes, o trabalho atravessa campos de batalha, salas de música, arquivos coloniais e comunidades da diáspora. Não procura construir uma história linear ou uma identidade negra homogénea. Reúne documentos, imagens, músicas, biografias e episódios dispersos para mostrar que a ausência no arquivo não corresponde à ausência na história. Corresponde, muitas vezes, ao êxito de políticas de silenciamento.
O primeiro ensaio recupera as redes de solidariedade panafricanista e antifascista formadas em torno da invasão italiana da Etiópia e da Guerra Civil de Espanha. Figuras como Langston Hughes, Paul Robeson, Salaria Kea e os combatentes negros das Brigadas Internacionais compreenderam cedo que o fascismo europeu, o colonialismo em África e a segregação racial nos Estados Unidos faziam parte do mesmo sistema. Para muitos deles, defender a República espanhola era também combater as estruturas que oprimiam as populações negras noutros lugares do mundo.
No segundo capítulo, dedicado ao jazz, Adam analisa a ambivalência da circulação cultural negra em Espanha. Desde a década de 1920, o jazz abriu espaços de liberdade, encontro e imaginação, mas foi também progressivamente separado dos corpos, das lutas e da história política que o produziram. Apropriado pelas vanguardas e pelas classes médias brancas, pôde ser celebrado como música moderna ao mesmo tempo que a presença negra permanecia ausente da vida pública. A música era ouvida; os seus sujeitos históricos, apagados.
O último ensaio aproxima os percursos de Sor Chikaba, Antonio Machín, Richard Wright, Chester Himes e James Baldwin da história colonial da Guiné Equatorial e das comunidades africanas que se organizaram em Espanha nas últimas décadas do século XX. A investigação expõe uma contradição persistente: enquanto o racismo norte-americano era denunciado por setores progressistas espanhóis, a violência colonial exercida na Guiné Equatorial permanecia fora do debate público. Mesmo após a independência, em 1968, a documentação classificada, a repressão franquista e a amnésia colonial continuaram a dificultar o conhecimento dessa história.
Archivos negros não é apenas um exercício de recuperação do passado. É uma intervenção sobre o presente e sobre as instituições que decidem o que merece ser guardado, nomeado e transmitido. Ao reunir trajetórias interrompidas, Tania Safura Adam não preenche simplesmente as lacunas de um arquivo nacional: questiona a própria ideia de nação que produziu essas lacunas.
O projeto foi desenvolvido em diálogo com a exposição Project a Black Planet: The Art and Culture of Panafrica, apresentada no Art Institute of Chicago, no MACBA, em Barcelona, e na Barbican Art Gallery, em Londres. A edição digital de Archivos negros | Black Archives pode ser consultada na L’Internationale Online.

Ler Espanha Negra, da mesma autora.