Olhares Críticos no Arquivo Colonial – Sombras e Memórias

de 23 abril – 31 agosto, 2026 Artistas: IIídio Candja, Jorgette Dumby, Márcio Carvalho, Nuno Silas, Osias André, Raquel Lima Curadoria: Márcio Carvalho, Nuno Silas e Sophie Kotanyi

Olhares Críticos no Arquivo – Sombras e Memórias é uma exposição de arte contemporânea que convida a uma reflexão crítica sobre as coleções museológicas do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), atualmente integradas no Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa (MUHNAC-ULisboa).

Seis artistas foram convidados a desenvolver obras inéditas a partir de uma investigação nos arquivos das missões científicas coloniais realizadas na Guiné-Bissau, em Angola e em Moçambique entre as décadas de 1930 e 1950. A exposição apresenta o resultado de vários meses de pesquisa nas reservas do museu, através de diferentes linguagens artísticas, propondo uma reflexão sobre o papel do museu enquanto repositório de memórias e patrimónios africanos.

Longe de serem neutros, estes acervos foram constituídos em contextos marcados por profundas desigualdades de poder, envolvendo a apropriação de objetos e saberes, a repressão de práticas culturais locais e, nalguns casos, o recurso ao trabalho forçado.

Particular destaque é dado às coleções de antropobiologia, que incluíam medições e registos de corpos humanos frequentemente realizados sem consentimento. Estes procedimentos contribuíram para a produção e legitimação de teorias raciais, participando em processos de desumanização das populações colonizadas. As coleções são, assim, simultaneamente testemunhos científicos e evidências de um sistema de conhecimento profundamente marcado pela violência, pelo racismo e pelo poder colonial.

Através de formatos artísticos diversos, Olhares Críticos no Arquivo – Sombras e Memórias promove encontros com o passado para estimular um pensamento contemporâneo decolonial e para imaginar, em conjunto com os públicos, narrativas de reparação histórica, justiça memorial e transmissão de memória.

A exposição integra dois importantes programas do MUHNAC: o Plano de Ressignificação e Reparação de Coleções Coloniais, que desenvolve um trabalho continuado com comunidades de origem e seus descendentes, e o Programa de Arte, Natureza e Ciência (PANC).

Marta Lourenço, Diretora

Museu Muito (des)Natural

Num momento de grande rebelião no questionamento da história do colonialismo, os museus europeus voltaram-se para si mesmos à procura de novas propostas e respostas para repensar o modelo institucional no presente e as suas implicações na história do imperialismo na África, Ásia e nas Américas.

Portugal ainda se encontra num processo histórico muito delicado. Vive-se um presente atravessado pelo debate sobre o racismo, a xenofobia, a exclusão, a desigualdade, mas com pouco trabalho institucional que proporcione uma compreensão profunda, nomeadamente sobre a complexidade do passado colonial e suas implicações na sociedade de hoje.

Esta exposição nasce dessa consciência de questionamento que nos interpela e procura torná-la visível; assim, um dos principais desafios curatoriais desta exposição é juntar obras de caráter experimental e liberdade artística que dialogam criticamente com os arquivos coloniais.

A exposição propõe uma reinterpretação crítica do colonialismo português como um sistema histórico de dominação, violência e produção de imaginários e conhecimento que se perpetuam na atualidade.

Ao problematizar os arquivos e reservas do MUHNAC-ULisboa, Olhares Críticos no Arquivo Colonial – Sombras e Memórias ensaia um museu entendido como processo crítico, revisita as histórias oficiais e propõe exercícios de desconstrução da ideologia imperial, tornando visíveis os mecanismos simbólicos e as disposições expositivas que o colonialismo normalizou no museu europeu.

A exposição levanta a necessidade de desenvolver posições históricas críticas, procura caminhos para uma eventual descolonização, formas de reparo histórico, criação de novos repositórios de memória e imaginários, incluindo processos colaborativos e participativos.

Para além de manter um âmbito institucional e experimental, a exposição cria um espaço onde se podem debater e criticar as formas de produção de conhecimento e de transmissão da memória na sociedade contemporânea portuguesa.

Elabora uma articulação entre o visual e o sensorial não ilustrativo, constrói estratégias críticas que problematizam os regimes de visibilidade das narrativas históricas e das políticas museológicas — o museu como um espaço de conflito.

Interroga não apenas os objetos colecionados durante o colonialismo, mas também as estruturas de legitimação e de direitos de propriedade, as hierarquias de representação que sustentam o museu.

A exposição tenta transformar os elementos das coleções vistos como curiosidades etnográficas em objetos e sujeitos com agência e com potencial para criarem novos imaginários.

Os curadores procuraram problematizar vestígios históricos enquanto dispositivos políticos e epistemológicos, que revelam as camadas de violência que viabilizaram a sua apropriação nas coleções museológicas em Portugal. Quando um homem morre, fica para a história. Quando os objetos morrem, vão para o museu.

O museu português sempre foi capaz de levar a cabo o seu projeto – representar o mundo à imagem da Europa.

Hoje, anos após a queda da fantasia colonial, no Portugal pós-colónia que pretende ser pós-colonial, o museu está num lugar privilegiado para desenvolver gramáticas de reparação que convidem a diferença, que convoquem a união entre sujeitos e saberes, resistindo assim à redução, à objetivação, à assimilação e à exigência de uma suposta homogeneidade do saber e do recordar coletivo.

A proposta central de Olhares Críticos no Arquivo Colonial – Sombras e Memórias é desafiar o museu português a repensar a humanidade que sempre esteve por trás das suas coleções, das culturas representadas e seus sistemas de crença, epistemologias, dinâmicas económicas, políticas e culturais.

Propomos ajudar o museu a se tornar num espaço de confluência entre pessoas, movendo-as para a partilha, o reconhecimento e o respeito.

Para isso, a exposição apresenta ritmos de convivência que permitem reimaginar o lugar do museu português no desenvolvimento da contemporaneidade, com e entre a diversidade de suas populações, com grande investimento na participação, na ação e na escuta ativa como ferramentas para desaprender a autoridade do arquivo tradicional e desenvolver modelos afetivos de reparação.

Pode a arte contribuir para a descolonização da sociedade portuguesa, para a confluência entre pessoas, movendo-as para a partilha, o reconhecimento e o respeito?

 

Descrição das Intervenções Artísticas

A exposição apresenta diferentes intervenções artísticas que funcionam como símbolos de reparação e restituição de voz, sons e de memórias dos objetos. A artista Raquel Lima na instalação artística, vídeo-poema intitulado de(com-posição reflete sobre o que significa sair do silêncio para dar voz aos objetos selecionados e fechados.

Nas palavras da artista: do trejeito performativo germina uma ocupação — dentro e fora do museu. A pessoa

negra que a toca afirma-se nesse espaço, e ao mesmo tempo o transmuta, ao entrelaçar-se à kalimba e tornarem-se uma entidade viva. Que posições assume quando vibra? Peça de arquivo, prova de espoliação, testemunha, arma sonora ou corpo em potência? Como compor música para o silêncio instituído e institucionalizado? Cada nota é uma tentativa de restituição. Neste sentido, propor produzir música com a kalimba não só restitui a função do instrumento, mas igualmente ativa a capacidade do objeto de voltar a produzir experiências presentes capazes de despoletar novos sentidos sonoros. Os processos criativos podem ser reparadores, podem estar envolvidos com a crítica. Tocar música torna-se assim um ato de reparação que não pretende voltar ao estado anterior do instrumento, mas sim projetar o mesmo para um futuro onde os objetos museológicos ganham vida, e quem os toque ganhe agência.

O processo criativo do artista moçambicano Osias André envolveu visitas recorrentes no MUHNAC desde 2024 a sujeitos remanescentes humanos moçambicanos, trazidos em 1947 no Contexto Colonial Científico para estudos e classificações de populações, encomendadas pelo médico e político português Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior. Numa tarde em que desenhava em 2024 no MUHNAC, Osias André Moiane contou o princípio do seu processo: Quando desenho, sinto que são os meus ossos que estão a ser estudados. Sinto um peso. Sinto-me envolvido, como se pudesse estar eu ali a estudar. (…). Sinto uma ligação com os ossos. (…). Parece que os três são da mesma região. Mas não gostei da parte que diz que eles não tinham família. (…). Porque eles deviam saber que são pessoas e que tinham família! (…). Poderia ser qualquer um de nós… e dizer que não tem família.

(…) Todos têm família. (…)e o espírito permanece presente. Quando há uma morte, a família e a comunidade acompanham-na e falam sobre ela. Isso ajuda esse espírito a não atormentar ninguém. (…). Trabalho com a pintura, com respeito, é por isso que desenho cada osso. Como se eu pegasse um bebé, como se o acalmasse. A arte cura! E traz à luz uma verdade (…) acho que esse é o meu papel.

No caso da obra do artista Ilídio Candja Candja, sua instalação repensa dois espaços: um vertical e outro horizontal. Surge uma pintura no campo expandido, uma ideia de altar que é símbolo, lugar de culto cerimonial de silêncio, gesto ritual. A instalação é constituída de duas pinturas em vertical e uma grande pintura horizontal numa tela com três diferentes tipos de barro vermelho, preto e grés. A instalação inclui uma peça central, um grande pilão, e suspenso por um fio peneiras e outros objetos. O artista usa o barro como tintas sobre uma tela onde seca. Candja convoca uma releitura imaginária de resistência sobre a sua história, relacionada com o colonialismo e com os espaços de recordação. A instalação é composta de pinturas expandidas e objetos pertencentes à coleção etnográfica do MUHNAC. A instalação torna-se num espaço de diálogo e homenagem para enfatizar a importância da criação de lugares simbólicos para uma possível reparação histórica. Ao incluir objetos de curandeiros como um pilão que se usa para produzir a cerveja tradicional bebida nos enterros no sul de Moçambique para satisfazer todos os antepassados e apoiar a passagem do morto para um estado ancestral desejado.

As obras apresentadas pela artista Jorgette Dumby criam tensões com o lugar do museu, nomeadamente a sua condição autointitulada de espaço ou arquivo imparcial. Dentro de uma grande parte dos museus europeus, um olhar mais atento e crítico conclui que objetos e sujeitos são raramente expostos recorrendo aos saberes e a tecnologias de conhecimento das culturas de origem. Na maior parte das vezes são apresentados com base em conceitos europeus que se pretendem universais como “história global” e preservados a partir de um paternalismo que delega à Europa a autoridade definir o que é ciência ou não, para conservar, expor e narrar o património cultural de outras culturas sem a participação das mesmas. Dumby convida-nos a uma viagem sensorial que reivindica o tempo enquanto cronologia colonial que pode favorecer de forma deliberada a desigualdade e a violência. A artista reclama um outro olhar sobre as coleções do museu, que partem de outras formas de ver e viver no mundo e que possam proporcionar outros encontros com o passado, formas de debater o presente e projetar o futuro. A artista cria pontes entre objetos de violência encontrados na coleção do museu e textos discursivos, em diversos formatos, que permitem questionar objetos e artefactos, suas formas, seus pesos, a banalidade com que são apresentadas e a falta do museu que viabilize processos de reparação efetivos.

Para a criação da obra Memórias para 14 bustos, Márcio Carvalho decidiu sair do espaço interior dos arquivos, do arquivo enquanto arquitetura ou repositório para focar no arquivo do museu que se encontra hoje a céu aberto, “escondido” à vista de todos no Jardim Botânico Tropical, em Belém. O artista propõe apresentar processos artísticos e participativos para a recontextualização e ressignificação de 14 bustos que habitam no Jardim, comissariados pelo Estado Novo para fazerem parte da secção colonial da Exposição do Mundo Português de 1940. Estes bustos foram criados para representarem, segundo Henrique Galvão, diretor da secção colonial da exposição, as “raças” das colónias portuguesas e para adornar um zoo humano que expôs cerca de cento e sessenta pessoas trazidas das antigas colónias. A obra de Carvalho divide-se em duas partes. A primeira pode ser vista na sala de exposições do MUHNAC onde o artista apresenta 14 obras de desenho e pintura sobre tecidos da família e panos - a capulana ou pano-história das comunidades moçambicanas, o pano-pente da Guiné-Bissau ou a samakaka em Angola com os quais o artista tem relação íntima e que considera ser objetos-arquivos do futuro. O conjunto de obras revela fragmentos da escrita da cidade, fragmentos de narrativas coloniais com epicentro no Jardim Botânico Tropical, convidando o público a um trabalho de rememoração e de imaginação sobre o passado, presente e futuro do património colonial de Lisboa. A segunda parte da obra é apresentada no Jardim Botânico Tropical, em Belém onde o artista abre espaços para cerimónias, performances e ações de recontextualização e ressignificação públicas em coautoria com as associações Batoto Yetu e Tributo aos Ancestrais, e o apoio da equipa do Padrão dos Descobrimento. Afrodescendentes, africanos e portugueses, relacionam-se com os acontecimentos coloniais no Jardim Botânico, reinterpretando e contribuindo a movimentar a memória amnésia que congela Portugal num passado a ultrapassar. As estatuetas não fazem parte de nenhuma obra de arte, contudo estão em relação à obra de Márcio Carvalho. A chamada “arte de aeroporto”, produzida na Guiné-Bissau, começa com uma consciência cultural e necessidade económica que influenciou a prática da manufatura de objetos culturais locais.

A instalação artística de Nuno Silas, constrói um espaço onde o território e as vitrines surgem não como paisagem natural, mas como construção histórica e geopolítica, atravessada por regimes de poder económicos, coloniais egeográficos e pelo capitalismo selvagem. A instalação é composta por um conjunto de objetos heterogéneos: alguns provenientes das coleções coloniais, das missões geográficas, geodésicas e antropológicas, outros intimamente relacionados com o artista, que funcionam como vestígios de experiências pessoais com o racismo tranquilo, a apropriação, do deslocamento e apagamento da história. Silas justapõe ta gigantesca exploração das florestas, a esmagadora exploração dos trabalhadores, reduzidos no trabalho forçado, numa espiral infinita de repetição da escravidão, que foi perpetuada sob diversas formas, leis e terminologias enganosas. No centro do dispositivo, troncos e restos de árvores abatidas funcionam como corpos e arquivos de uma violência contínua; o corte como gesto violento, o fotógrafo, antropólogo e voyeurista, o projeto econômico e político colonial. No meu trabalho, fala da extração, do corte, da morte violenta, do tempo, espaços e silêncios das paisagens, que chamo paisagens coloniais. Os mapas coloniais, que encontrei nas reservas, serão referenciados na minha obra como superfícies de memória e traumas. Nas linhas divisórias dos territórios revejo as marcas da exploração e da separação violenta do território dos outros. Vejo o meu bairro na Matola, no meu país. As medições que encontrei nas reservas serão referenciadas na minha obra como elementos ou sistemas estrangeiros que transformaram a terra em número e propriedade. Falo de apropriação da terra, de extração violenta em nome capitalismo das empresas portuguesas.

Biografias

Ilídio Candja Candja (Maputo) frequentou a Escola de Artes Visuais de Maputo entre 1997 e 1999. Iniciou o

seu percurso artístico em 2002. Das suas exposições individuais destacam-se: “Resonance of Form: A Tribute to Sarah Baartman”, This is not a White Cube Gallery, Lisboa, PT (2024); “Black Silence in the Form of Chocolate”, Johnson Lowe Gallery, Atlanta, EUA (2023); “Octopus e Miopia”, Galeria Quadrum – Galerias Municipais de Lisboa, com curadoria de Rafael Mouzinho, Lisboa, PT (2021); Participou em diversas exposições coletivas, entre as quais: “Lúcido Devaneio”, com curadoria de Hiuwai Chiu e Raphael Fonseca, Galeria Municipal do Porto (2025); “Problem of Primitivism from Portugal”, com curadoria de Marta Mestre e Mariana Pinto dos Santos, CIAJG, Guimarães (2024); “Anozero’24 – Bienal de Coimbra”, com curadoria de Marta Mestre e Ángel Calvo Ulloa (2024). As suas obras integram as seguintes coleções: Marshall & Stephanie Abes Collection, Atlanta, EUA; The Spier Art Collection, Cape Town, ZA; Atlantic Private Bank, Lisboa, PT; Camões Institute, Maputo, MZ; Coleção de Arte da Universidade Eduardo Mondlane, MZ; Coleção de Arte do Centro Cultural Franco-Moçambicano, Maputo, MZ; Banco de Moçambique, Maputo, MZ. Jorgette Dumby (Lisboa) feita em Luanda. Nascida no Atlântico. Tentando viver pacífica, indignada e revoltada ao mesmo tempo. Talvez morra no Índico. Acredita na educação e vive apaixonada pela sedução de criar pelo mundo adentro.

Márcio Carvalho (Lagos), oriundo de uma família composta por angolanos e portugueses, partilha os antepassados de duas geografias distintas, com sistemas epistemológicos e de crenças diferentes. É a partir desse cruzamento que complexifica as noções de memória autobiográfica e coletiva. O seu trabalho artístico examina a vida pública e os arquivos, a memória autobiográfica e a memória coletiva, com especial enfoque nos atos de recordar e nas suas influências biológicas, culturais e sociais.

Através do desenho, do filme, da instalação ou da performance, a sua prática procura criar formas de participação pública nas quais as realidades históricas e memoriais da cidade são questionadas e cocriadas por grupos de cidadãos e pelas suas memórias. É mestre em Artes Performativas pelo Hochschulübergreifendes Zentrum Tanz Berlin e doutorando na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Participou em eventos e projetos artísticos nos cinco continentes, colaborando com artistas, curadores e comunidades locais. Desenvolve igualmente trabalho curatorial em arte contemporânea, tendo organizado regularmente projetos, exposições e festivais em Berlim, Estocolmo, Turku, Bergen, Yaoundé e Lisboa.

Nuno Silas (Maputo) é curador e diretor artístico, investigador multidisciplinar e artista. O seu trabalho centra-se na prática curatorial e na história das coleções museológicas. É doutorando em História e Filosofia da Ciência, com especialização em Museologia, na Universidade de Évora e na Universidade de Bayreuth.

Colaborou com instituições de referência como o Humboldt Forum, o Iwalewahaus Bayreuth, a Haus der Kulturen der Welt (HKW), em Berlim, a EGEAC, o CCFMA e o Goethe-Institut Moçambique. É licenciado pela Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha (Instituto Politécnico de Leiria) e frequentou o mestrado em Artes Verbais e Visuais Africanas na Universidade de Bayreuth.

Na Universidade de Bayreuth integrou projetos de investigação financiados pela DFG, entre os quais Black Atlantic Revisited – African and South American UNESCO World Heritage Sites and Shadowed Spaces of Performative Memory e Multiple Artworks – Multiple Indian Ocean. Foi recentemente cocurador e diretor artístico do projeto Black Skin, White Masks: The Black Body in Presence, apresentado nas Galerias Municipais de Lisboa. Atualmente, organiza o International Symposium on Museums, Heritage and Memory: Displacements, Legacies, a realizar em Maputo, e é curador principal da Bienal de Arte Contemporânea de Moçambique 2027–2028.

Osias André (Maputo) vive e trabalha em Lisboa. A sua prática artística centra-se na pintura, através da qual desenvolve figurações multidimensionais e intensamente vivas, construídas numa lógica de simultaneidade entre história, tempo, futuro e imaginação. As suas obras configuram-se como desdobramentos do passado, operando processos de reconstrução que implicam novas formas de pensar a memória e a experiência contemporânea.

Formou-se em Cerâmica na Escola Nacional de Artes Visuais, em Maputo (2015), e frequentou o curso de Artes Plásticas no AR.CO – Centro de Arte e Comunicação Visual. Foi bolseiro da Bolsa RAMA – Residência Artística (2024), da Bolsa Eunice Cruz (2022), da Fundação Carmona e Costa (2021), da Fundação Graça Costa Cabral (2020) e da Fundação PT (2019). Expõe regularmente em Portugal e no estrangeiro. Entre as exposições mais recentes destacam-se a participação na 1-54 Contemporary African Art Fair, em Marraquexe (2026), a exposição individual no Instituto Camões, em Lisboa (2026), a exposição internacional no Museu da Água e na galeria This Is Not A White Cube, em Lisboa (2025), bem como exposições na Galeria Balcony, em Lisboa (2025), na Galeria Perspective, em Paris (2024) e no Porto (2024), e a participação na ARCO Lisboa com a Galeria Coletivo Amarelo (2024).

Raquel Lima (Lisboa) é poeta, educadora artística, performer, ensaísta, curadora e artista transdisciplinar. É licenciada em Estudos Artísticos e doutoranda em Estudos Pós-Coloniais. A sua investigação centra-se na oralidade, na escravatura e nos movimentos afrodiaspóricos.

Coorganizou a conferência Afroeuropeans: Black In/Visibilities Contested (ISCTE, 2019) e coeditou o livro Afroeuropeans: Identities, Racism, and Resistances (Routledge, 2025). Apresentou o seu trabalho académico em várias conferências internacionais, nomeadamente na conferência Authoring Human Rights in West Africa and Beyond: Expressions of Slaveries in Literature and the Arts, na Universidade de Cape Coast, no Gana (2023), e em Decolonial Remains: Scrutinizing African Studies in Africa and the Unfinished Business of Decolonization, na Universidade de Ibadan, na Nigéria (2022).

Em 2022 foi convidada para a Bienal de Veneza como oradora no evento Loophole of Retreat e para proferir a conferência de abertura do Congresso Mundial das Mulheres, em Moçambique. Em 2023 participou na 35.ª Bienal de São Paulo e foi incluída na lista das 100 personalidades negras mais influentes da lusofonia, publicada anualmente pela revista Bantumen.

Sophie Kotanyi (Budapeste) é curadora e investigadora multidisciplinar, realizadora e antropóloga. Cresceu em Bruxelas como refugiada política e vive atualmente entre Berlim e Lisboa.

Realizou documentários como Amor Fati (1997), dedicado à fuga da sua família da Hungria e aos primeiros anos de exílio em Bruxelas. Entre 1976 e 1977 produziu, com G. Heidrich e T. Wyss, três filmes em Cabo Verde, em formato 16 mm: A Cooperativa Agrícola de Santana, Um Tribunal Popular e Ex-Campo de Concentração do Tarrafal. Realizou ainda a longa-metragem Djarama Boé, na Guiné-Bissau (1987–1990).

Posteriormente concluiu estudos de mestrado em Antropologia Africanista (Etnopsiquiatria), Ciências Religiosas e Psicologia, e doutorou-se na Universidade de Heidelberg em 2016. Em Moçambique realizou os filmes EspíritoCorpo – Viver de Novo: Não se Decide Sozinho (1999–2003), destinados a utilização comunitária. Dirigiu também La Palabre qui Tranche (2011–2012), na República Democrática do Congo.

Os seus filmes foram apresentados em festivais internacionais e difundidos na televisão. As obras realizadas em África foram devolvidas às comunidades filmadas nas respetivas línguas originais, contribuindo para o diálogo entre universos simultaneamente partilhados e divergentes. Desde 2023 colabora com o Plano Nacional das Artes e com a Associação de Professores de História, tendo cocriado, em 2024, projetos em torno das memórias difíceis e da descolonização em Portugal.

Márcio Carvalho, Nuno Silas e Sophie Kotanyi

Curadores e investigadores

por vários
Vou lá visitar | 23 Junho 2026 | arquivo, museu