Pequeno histórico do BUALA (2010 - 2026)
Lançado em 2010, na BIenal de São Paulo, o BUALA nasceu como plataforma digital de pensamento crítico, edição e circulação cultural, afirmando-se como um espaço incontornável no debate sobre pós-colonialismo, culturas africanas e afrodiásporas em língua portuguesa e não só. Num panorama mediático português ainda profundamente eurocêntrico e pouco permeável às vozes do sul global, o projeto surgiu como lugar de fricção intelectual, arquivo vivo e laboratório de cruzamentos entre arte, política, memória e investigação. Desde o início, recusou separar produção cultural de reflexão histórica e crítica social, aproximando ensaio, literatura, artes visuais, música, performance, cinema e ativismo.
A manutenção contínua do portal BUALA, desde maio de 2010, foi acompanhada pela criação de galerias online dedicadas a artistas como Francisco Vidal, Mauro Pinto, John Liebenberg, Pascal Martin Saint Léon, Tchalé Figueira, René Tavares, Zanele Muholi, Ana Silva, Reinata Sandimba ou Andrew Esiebo, afirmando desde cedo uma atenção particular às práticas visuais africanas contemporâneas e às representações da negritude, da violência colonial, das tensões nas cidades e das identidades dissidentes. Paralelamente, o BUALA começou a construir redes internacionais através de universidades brasileiras, seminários em Zurique, Clermont-Ferrand ou Mérida, e apresentações em contextos como a 29ª Bienal de São Paulo.
Ao longo da década de 2010, o BUALA consolidou-se como plataforma híbrida entre publicação, programação cultural e intervenção pública. Organizou concertos de música africana, ciclos de debates, encontros de pensamento crítico, residências literárias e colaborações curatoriais, aproximando artistas, investigadores, ativistas e públicos diversos. Projetos como Roça-Língua, em São Tomé e Príncipe, os concertos e tertúlias no Bartô, ou programas inseridos no Próximo Futuro da Gulbenkian e no Festival do Silêncio revelaram uma aposta clara em criar espaços de circulação sul-sul e diálogos transatlânticos entre África, Europa e América Latina.
Ao mesmo tempo, o BUALA aprofundava um trabalho de investigação e pensamento em torno das heranças coloniais, das políticas da memória e das práticas de emancipação cultural. O ciclo Paisagens Efémeras, dedicado a Ruy Duarte de Carvalho, em 2015 (com colóquio e exposição), os seminários sobre colonialidade e curadoria, ou as reflexões sobre comunicação e emancipação social desenvolvidas em colaboração com o CES de Coimbra mostram a importância da dimensão teórica e crítica do projeto. O BUALA não se limitou a “representar” seja o que for, mas procurou questionar as próprias estruturas de representação, os silêncios da história portuguesa e os mecanismos de exclusão racial e epistemológica. Foi-se tornando um grande arquivo com intervenções de linguagens variadas.
A partir de 2016 e sobretudo depois de 2018, o trabalho do BUALA tornou-se ainda mais explicitamente ligado às disputas sobre espaço público, racismo estrutural e memória. Surgem então iniciativas como o programa Para nós, por nós: produção cultural africana e afrodiaspórica em debate, coorganizado com Raquel Lima, Corpos Dissidentes, Cidades Rebeldes, ou o apoio ao Memorial às Pessoas Escravizadas da associação DJASS. Estas iniciativas colocaram o BUALA no centro de debates contemporâneos sobre reparação histórica, representatividade e reconfiguração simbólica das cidades europeias pós-coloniais.
Em paralelo, o projeto desenvolveu uma importante vertente editorial e pedagógica. Publicou livros em coedição como Diálogos com Ruy Duarte de Carvalho, projeto Antropocenas ou projetos ligados à poesia falada e ao spoken word, apoiou audiolivros, e organizou oficinas de jornalismo cultural, imagem, escrita e comunicação nos PALOP, em cidades como Bissau, Mindelo, Kinshasa e São Tomé. O BUALA tornou-se assim também uma plataforma de formação e transmissão de ferramentas críticas, especialmente dirigida a jovens jornalistas, artistas e agentes culturais africanos e afrodescendentes.
A dimensão internacional foi sempre central. O BUALA construiu uma circulação contínua entre Lisboa e múltiplas geografias atlânticas, colaborando com festivais, universidades, associações, bienais e centros culturais em Cabo Verde, Brasil, Bélgica, Reino Unido, Alemanha ou Guiné-Bissau e sobretudo a apoiar a divulgação de muitos eventos culturais em Portugal. Projetos como “Trânsitos no Sul Global” e o “Pós do pós, metáforas do futuro”, foram projetos do BUALA apoiados pela Dgartes, que tem contado também com apoio financeiro da Câmara Municipal de Lisboa. O BUALA por sua vez participou na construção da BIBLIOTERA na Mediateca Abotcha, na Guiné Bissau. Coeditou entrevistas a artistas africanos para a WAAU, e organizou os encontros Roça Língua em São Tomé. Essas iniciativas reforçaram a ideia do BUALA como uma plataforma transnacional de pensamento e imaginação política.
Nos últimos anos, o BUALA intensificou o trabalho em torno das políticas da memória e da descolonização do espaço público português. A dinamização do site ReMapping Memories: Lugares de Memória (Pós)coloniais, e o prémio “Lisboa, Cultura e Media” na vertente digital, para uma série sobre os problemas de Lisboa,
os debates sobre memorialização da escravatura, reparação e colonialismo, o encontro dedicado às “Vozes da afrodiáspora em Lisboa” mostram uma preocupação constante em agir no presente, na produção de conhecimento aprofundado e pela transformação social. Virá que eu vi, a Amazónia no cinema, o livro de Anabela Roque inaugura a coleção de livros do BUALA na Tigre de Papel. Em 2025 celebrou criticamente as Independências com um Seminário Como se constrói um país - 40 anos de Independência de Angola, com apoio da Gulbenkian.
Ao longo de trabalho diário em desasseis anos, o BUALA tornou-se simultaneamente arquivo, revista, plataforma crítica, espaço curatorial e comunidade de afinidades. A sua trajetória acompanha a emergência, em Portugal, de um debate mais amplo sobre as histórias e consequências do colonialismo, e novos desafios na contemporaneidade, ajudando a abrir espaço para novas vozes, linguagens e narrativas. O BUALA contribuiu para deslocar o centro do discurso cultural português, insistindo numa ideia de cultura atravessada por conflito, história, circulação e justiça. A cultura como campo de disputa simbólica e ferramenta de reescrita histórica. Foi-se reinventando para acolher todos os contributos que ajudem a desintoxicar o mundo.
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