“Se o capitalismo desaparecer, uma infinidade de mundos pós-capitalistas o sucederá”. Entrevista com Jérôme Baschet e Laurent Jeanpierre

Ouvimos com frequência que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Com seu novo livro, Mondes postcapitalistes (Mundos pós-capitalistas), publicado no dia 19 de fevereiro pela La Découverte, o historiador Jérôme Baschet e o sociólogo Laurent Jeanpierre desafiam esse ditado persistente e delineiam os contornos de sociedades alternativas libertas das garras do capitalismo.

A entrevista é de Emilie Echaroux, publicada por Usbek & Rica, 19-02-2026. A tradução é do Cepat.

Foram necessários nada menos que 76 escritores e uma quantidade igualmente grande de expertises para produzir o que já está sendo aclamado como um marco na literatura pós-capitalista. O resultado de quatro anos de trabalho, a obra coletiva Mondes postcapitalistes (La Découverte) apresenta — em um formato enciclopédico de 900 páginas — uma visão de como seria uma sociedade liberta da lógica capitalista dominante. Em resumo, “uma sociedade mais livre e gratificante, além de mais respeitosa com o planeta”, como descreve a contracapa do livro.

Para alcançar esse objetivo, historiadores, sociólogos, filósofos, físicos, engenheiros e ativistas juntaram seus conhecimentos e fundamentaram sua visão em áreas tão diversas quanto dinheiro, amor, religião, trabalho, energia, biodiversidade e transporte. Revigorante, embora talvez um pouco acadêmico e denso demais para o leitor médio, este vasto panorama oferece um exame lúcido dos estragos e limitações da ordem capitalista, ao mesmo tempo que propõe caminhos para alternativas libertadoras. Isso poderia nos permitir “reabrir o futuro” para perspectivas promissoras, esperam o historiador Jérôme Baschet e o sociólogo Laurent Jeanpierre.

Coordenadores deste trabalho colaborativo, os dois pesquisadores não são estranhos a projetos pós-capitalistas. Laurent Jeanpierre, professor de ciência política na Universidade Paris 1, explora possibilidades e utopias reais há cerca de quinze anos; enquanto isso, Jérôme Baschet, historiador inicialmente especializado no período medieval, aprimora sua crítica ao capitalismo no México a partir do seu envolvimento com o movimento zapatista, que acompanha desde 1997, dividindo seu tempo entre a Universidade de Chiapas e a EHESS em Paris. Nos encontramos com eles para discutir as principais lições aprendidas com a escrita deste verdadeiro atlas de futuros emancipadores.

Eis a entrevista.

O que motivou vocês a escreverem sobre o pós-capitalismo, que, por enquanto, continua sendo um tema muito menos explorado do que o anticapitalismo?

Jérôme Baschet: Este livro é uma continuação de nossos respectivos livros — La perspective du possible (La Découverte, 2022), de Laurent, e Adeus ao capitalismo. Autonomia, sociedade do bem viver e multiplicidade dos mundos (Autonomia Literária, 2021), meu. Há uma necessidade clara de uma crítica do mundo atual, mas uma crítica que não pode se bastar a si mesma. Para ganhar força e credibilidade, ela também precisa oferecer reflexões sobre como seria um mundo livre da lógica e da dominação do sistema capitalista, em suas múltiplas dimensões. Esse esforço para imaginar outras possibilidades parece essencial para as nossas próprias vidas.

Laurent Jeanpierre: O capitalismo é uma fonte de patologias econômicas, sociais e ecológicas, para citar apenas algumas. Pareceu-nos essencial ir além da crítica e explorar a busca por uma representação do pós-capitalismo. Isso é ainda mais importante considerando que a questão do pós-capitalismo — que, simplificando, era chamada de questão comunista no século XX — pode agora ser colocada de uma maneira completamente diferente daquela dos dois séculos anteriores. Não porque tenhamos necessariamente progredido, mas porque as coordenadas do problema mudaram. Nossa motivação, portanto, não é apenas ética e política; é também intelectual e científica, na medida em que essa questão pode ser abordada com instrumentos, ferramentas e uma análise do problema diferentes daqueles dos últimos dois séculos.

Que metodologia vocês adotaram para abordar o tema, levando em conta essas novas coordenadas?

Laurent Jeanpierre: Este não é um livro completo, acabado, definitivo, mas um livro aberto: o primeiro volume de uma enciclopédia, da qual muitos verbetes ainda precisam ser escritos ou ampliados. Essa natureza experimental também se aplica ao método.

Nas últimas décadas, a questão do pós-capitalismo tem sido colocada — em grande parte devido ao aprofundamento da crise ambiental — em bases mais rigorosas do que aquelas dos séculos XIX e XX, mais filosóficas e baseadas em certezas sobre as leis do desenvolvimento histórico. Hoje, não podemos mais confiar nessas certezas, que pressupunham que o futuro seria necessariamente melhor. Há, portanto, mais espaço para tentativas e erros, o que exige o desenvolvimento de métodos específicos para pensar o futuro e o que é possível.

Este livro explora vários desses métodos: abordagens dedutivas, que examinam o que aconteceria se removêssemos um elemento do presente, como o patriarcado; abordagens mais temáticas; e outras, mais ficcionais, que buscam imaginar as condições para um futuro considerado melhor do que o estado atual.

Jérôme Baschet: A pluralidade dessas abordagens também se reflete nos perfis dos autores, que vêm de todos os continentes, e na diversidade de suas posições. Rejeitamos a ideia de um pós-capitalismo homogêneo e unificado, baseado em uma única teoria, seja ela marxista, ecossocialista, decrescimentista ou outra. Algumas figuras importantes dessas correntes contribuem para o livro, mas o projeto não está afiliado a nenhuma escola de pensamento, ideologia ou proposta política específica.

Por que rejeitar esses rótulos doutrinários?

Jérôme Baschet: Porque queremos que este livro seja um espaço de diálogo, encontros e troca de ideias que, por vezes, são compartimentadas demais. Se o capitalismo desaparecer, não haverá um único mundo pós-capitalista para sucedê-lo, mas uma multiplicidade de mundos pós-capitalistas. Devemos, portanto, considerar sua diversidade e garantir que ela possa ser preservada. Essa, em nossa visão, é precisamente a essência de uma das limitações das utopias socialistas ou comunistas dos dois séculos anteriores: fundadas em uma visão altamente universalista, elas carregavam consigo uma perspectiva amplamente homogeneizadora da qual buscamos nos distanciar.

É por isso também que vocês abordam no livro temas tão diversos e variados como o trabalho, o amor, os transportes, a família, a energia, a tecnologia digital, a saúde, o dinheiro e a morte?

Laurent Jeanpierre: Sim, queríamos abranger um leque amplo precisamente porque a forma como abordamos o problema do pós-capitalismo mudou. Uma das limitações do século XX foi privilegiar uma perspectiva fundamentalmente economicista do capitalismo. A nossa perspectiva, ao contrário, pretende ser mais ampla e realista. O capitalismo não é simplesmente um modo de organização econômica; é também a imposição dos valores da ordem econômica sobre esferas sociais que, historicamente, estiveram em parte fora do seu controle. Todos os aspectos da vida são afetados. As feministas demonstraram claramente isso ao enfatizarem que o trabalho doméstico não é uma questão externa ao capitalismo, mas uma condição essencial à sua possibilidade. Todas estas dimensões subjetivas que são o amor, a sexualidade, a cultura, as artes e os rituais são, portanto, essenciais para a compreensão do pós-capitalismo. Teremos também de nos libertar do capitalismo nestas esferas. É por isso que as tratamos com o mesmo cuidado que as questões econômicas mais tradicionais, como o trabalho, a produção ou o dinheiro.

Quais são as áreas mais urgentes em que devemos investir para avançar rumo a mundos pós-capitalistas?

Laurent Jeanpierre: Essa é uma pergunta difícil. Se olharmos para o índice, os primeiros capítulos do livro são elementos constitutivos da ordem capitalista: a economia, o patriarcado, a colonialidade, o Estado e o dinheiro. Interdependentes, ocupam uma posição central na formação histórica que chamamos de capitalismo. Deveríamos, portanto, abordá-los primeiro? Sim, em certo sentido, porque são centrais; não, em outro, porque não são necessariamente os mais fáceis de desmantelar. O que é certo é que não há uma única prioridade, mas uma dinâmica a ser posta em movimento em todos os lugares e a partir de agora. Em todos os setores da vida, existe a possibilidade de construir aqui e agora elementos de uma vida pós-capitalista.

Além disso, o texto de vocês nos deixa com uma longa lista de medidas concretas que tendem a formas pós-capitalistas, como a rotação de tarefas para evitar que o trabalho árduo ou desvalorizado seja sempre atribuído aos mesmos grupos, e a abolição das fronteiras convencionais para alinhá-las às das biorregiões…

Jérôme Baschet: Muitas dessas propostas de possibilidades pós-capitalistas estão enraizadas em realidades baseadas na comunidade e na ajuda mútua. Acabei de voltar de Chiapas, no México, onde há mais de 30 anos existe uma experiência que se define como anticapitalista e que poderia até ser descrita como pós-capitalista: a experiência zapatista. Após a revolta armada de 1º de janeiro de 1994, eles criaram o que chamam de “espaço de autonomia”. Em termos concretos, retiraram-se da autoridade do governo federal mexicano e estabeleceram suas próprias formas de autogoverno: autoridades eleitas nos níveis municipal e regional, compostas por moradores que decidem sobre a organização da educação, da saúde, da justiça, da produção… Em suma, todos os setores essenciais da vida coletiva. É um exemplo extremamente inspirador.

Jérôme Baschet: Poderíamos também mencionar o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra no Brasil que, segundo diferentes métodos e lógicas políticas, criaram espaços de auto-organização. Essa capacidade de auto-organização coletiva, baseada na ideia de uma vida comunitária autodeterminada, assume múltiplas formas — espaços autônomos, práticas coletivas — e existe em muitas regiões do mundo.

Concretamente, como fazemos a transição para mundos pós-capitalistas?

Laurent Jeanpierre: Para entendermos essa transição para mundos pós-capitalistas, nos baseamos em um arcabouço tripartite proposto pelo sociólogo marxista estadunidense Erik Olin Wright. Ele distingue três mecanismos para a transformação do capitalismo. A estratégia intersticial consiste na geração de pequenas mudanças nos interstícios das instituições dominantes, que podem então se conectar, se espalhar por imitação ou contágio sucessivo e transformar gradualmente os modos de vida. A estratégia simbiótica, por outro lado, baseia-se na tomada do poder público para implementar reformas capazes de regular, domesticar e limitar o capitalismo. Por fim, a estratégia disruptiva baseia-se em ações locais ou nacionais destinadas a transformações radicais, muitas vezes através da tomada do poder estatal.

Nenhuma dessas estratégias, consideradas individualmente, conseguiu ainda transcender o capitalismo. Portanto, parece mais relevante considerar a sua combinação do que privilegiar uma em detrimento das outras.

Uma vez ocorrida a mudança, como seriam esses mundos?

Jérôme Baschet: Quero enfatizar novamente que devem existir múltiplos mundos pós-capitalistas, não um único modelo — e certamente não um mundo ideal. Além disso, o capitalismo poderia dar lugar a um sistema ainda mais brutal e destrutivo. Mas o pós-capitalismo que estamos considerando neste livro deve, no mínimo, ser um mundo um pouco mais justo, um pouco mais democrático e menos destrutivo para o planeta.

Procuramos raciocinar por contraste com a realidade atual. Primeiro, o sistema atual continua produzindo cada vez mais, independentemente das reais necessidades humanas, e de uma forma que ameaça a habitabilidade do planeta — ou seja, as condições para a vida humana na Terra. Em um mundo pós-capitalista, uma parte significativa desse aparato produtivo precisaria ser desmantelada, a produção desnecessária eliminada e as atividades consideradas relevantes realocadas. Isso nos permitiria atender melhor às necessidades reais, com cadeias de suprimentos curtas, eficientes em termos energéticos e que exigem menos infraestrutura, além de proporcionar melhores condições para a tomada de decisões democráticas.

Esta é a segunda grande diferença: ao contrário da erosão dos sistemas democráticos que testemunhamos hoje, a relocalização poderia viabilizar o exercício de uma democracia genuína e autogovernada.

Jérôme Baschet: Por fim, o pós-capitalismo que vislumbramos baseia-se nos princípios do comum: o bem viver, a cooperação e a partilha de recursos. Trata-se de mundos que permitem a todos viver com dignidade e plenitude, beneficiando-se de necessidades materiais suficientes e experimentando a maior riqueza possível em suas relações com os outros e com o mundo, ao mesmo tempo que deixam espaço para a criatividade e a autodeterminação.

Ouvimos com frequência que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Será realmente plausível imaginar a saída deste sistema?

Jérôme Baschet: Estamos claramente presos num presente saturado de informações, que nos levam a crer que este é o único mundo possível. Este é o famoso “presentismo”, simbolizado pelo mantra “There is no alternative” (Não há alternativa), atribuído a Margaret Thatcher.

Transformar radicalmente o mundo e romper com as lógicas dominantes estabelecidas ao longo de mais de dois séculos não é simples nem rápido. Mas a escala das catástrofes, particularmente a devastação ecológica, nos obriga a imaginar outras possibilidades. Uma vez que essa perspectiva esteja clara, o desafio é, primeiro, torná-la desejável, depois crível e, finalmente, organizar-se coletivamente para concretizá-la. O pós-capitalismo não surgirá espontaneamente: é uma luta que exige a mobilização de consideráveis forças coletivas. Estamos no começo de um processo.

Laurent Jeanpierre: Escrevemos este livro para mostrar que a questão do pós-capitalismo não é estúpida nem fútil. Deixar de refletir sobre ela aumenta a probabilidade de que essa mudança permaneça impossível. Podemos fazer um paralelo com um médico que, em 1910, pensava em tratamentos para o câncer: se lhe tivessem dito que seu trabalho era inútil, nenhuma pesquisa teria avançado. A transformação histórica sempre progride por caminhos improváveis e, se não considerarmos essas possibilidades, ela nunca acontecerá. Este é um ponto fundamental.

Alexandre Monnin, um dos coautores, vê o “desmantelamento” do capitalismo como um teste democrático que envolve a decisão coletiva sobre o que deve cessar, segundo quais critérios e como distribuir o ônus da renúncia. Mas quem exatamente deve decidir?

Laurent Jeanpierre: Duas tendências principais emergem. A primeira, mais estatista e tecnocrática, baseia-se na expertise e na burocracia: nem todos têm plena capacidade de controle. Ela diz respeito, especialmente, às escolhas relativas à produção ou ao desmantelamento. A segunda, mais radicalmente democrática, busca aproximar as decisões o máximo possível dos espaços da vida cotidiana. Ela propõe escalas locais e supralocais, dois tipos de arenas que podem coexistir para organizar coletivamente a vida, a produção e o desmantelamento. É essa segunda perspectiva que prevalece no livro.

Para alcançarmos mundos pós-capitalistas, precisamos também repensar nossa relação com o futuro?

Jérôme Baschet: Com certeza. Ao contrário das abordagens pós-capitalistas do século XX, não postulamos mais a existência de um sentido ou de uma lei histórica que garanta a inevitável realização de um futuro melhor. Hoje, nossa relação com o futuro é profundamente marcada por uma visão apocalíptica, intimamente ligada às crises ecológica e climática, que questionam a habitabilidade da Terra. Ao mesmo tempo, persiste uma crença modernista no progresso técnico e científico, personificada pelo aceleracionismo, que aposta todas as suas fichas no desenvolvimento tecnológico radical e que, supostamente, libertaria a humanidade das limitações materiais.

Jérôme Baschet: Para nós, nenhuma dessas perspectivas é viável. O aceleracionismo reproduz os impasses do passado, enquanto a visão apocalíptica nos aprisiona em um presente sem futuro. Pelo contrário, precisamos reinventar um sentido para o futuro, baseado não na certeza histórica, mas na possibilidade — por mais improvável que seja — de mundos pós-capitalistas. Esses futuros são frágeis, imperfeitos, marcados por conflitos e tensões, mas oferecem uma esperança razoável.

Nós rejeitamos a ideia de um futuro ideal, um fim da história ou um Éden reconquistado. Não existe sociedade perfeita, nem trajetória histórica concluída. A história humana está permanentemente em movimento, é complexa, sujeita aos caprichos da natureza e às fragilidades das sociedades humanas. A tarefa, portanto, é inventar, sem certezas, possibilidades a partir das quais se pode agir.

Que obra melhor ilustra esses mundos pós-capitalistas?

Laurent Jeanpierre: Pensadores do século XXI das ciências sociais, como Immanuel WallersteinErik Olin Wright e Mark Fisher, já exploraram essas questões. Mark Fisher, crítico cultural inglês e autor de Desejo pós-capitalista (Autonomia Literária, 2025), desenvolveu a noção de “comunismo ácido”, que associa a cultura tecnológica e reflexões sobre as drogas ou as experiências alucinatórias como possíveis acompanhamentos de uma transição pós-capitalista.

Outras obras nos inspiraram, como Os despossuídos (Editora Aleph, 2019), de Ursula K. Le Guin, que, embora não se declare explicitamente pós-capitalista, faz parte de um importante conjunto de trabalhos sobre os socialismos plurais. Há também Everything for Everyone: An Oral History of the New York Commune, 2052-2072 (Tudo para todos: Uma história oral da Comuna de Nova York, 2052-2072), de M. E. O’Brien e Eman Abdelhadi, que imagina uma Nova York sob uma organização comunitária, democrática e radical. Não é uma descrição perfeita do que estamos tentando propor no nosso livro, mas é uma forma relevante e estimulante de experimentação.

Jérôme Baschet: O livro Bâtir aussi: Fragments d’un monde révolutionné, resultado das oficinas Antémonde, apresenta uma perspectiva mais ficcional, narrando um momento próximo ao ponto de inflexão pós-capitalista, descrevendo a vida e a organização das pessoas nesse mundo em transformação, com todas as dificuldades que isso acarreta. É um dos meus favoritos.

Artigo originalmente publicado aqui.

por vários
Cara a cara | 23 Fevereiro 2026 | pós-capitalismo