As novas Terras Médias

As novas Terras Médias Os interesses e os investimentos – financeiros e políticos – por detrás desta evolução são incontornáveis, e não prevêem recuos. O que está em jogo é uma visão do mundo onde o que mais conta é o controlo sobre os recursos energéticos e naturais estratégicos. A função desempenhada por Israel, com todas as consequências que acarreta, cabe também nesta lógica.

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10.05.2026 | por Stefano Rota e Rodrigo Magalhães

“Depois vem o português, que é a língua de cultura moderna, língua de ciência”

“Depois vem o português, que é a língua de cultura moderna, língua de ciência” O que está em causa, como bem referiu o Professor Domingos, é o modo como o português tem sido ensinado na Guiné-Bissau, como língua materna [13, 14], e a disfuncionalidade do sistema educativo, fruto, em grande medida, do mau funcionamento do próprio sistema político. Além disso, quando se fala da necessidade de oficializar o crioulo e de o adotar como língua de ensino na Guiné-Bissau, não se trata de substituir o português. Seria uma péssima decisão política.

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09.05.2026 | por Ronaldo Mendes

Política linguística e educação em Cabo Verde: dois silêncios estruturais

Política linguística e educação em Cabo Verde: dois silêncios estruturais A língua, enquanto património afetivo, cognitivo e cultural, continua a ser convocada no discurso, mas raramente assumida como objeto de uma política estruturada de Estado. Quem está disposto a assumir, com seriedade institucional, que a língua não é apenas símbolo, mas também sistema? Quem está disposto a aceitar que a ciência deve informar a política linguística, e não o inverso? O convite permanece aberto, mas o silêncio é, muitas vezes, mais eloquente do que a respost

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07.05.2026 | por Eleutério Afonso

Baralho de Cartas 19

Baralho de Cartas 19 Durante anos, por volta de abril, pelas três da manhã, vinha um andorinhão para o meu telhado, com um tesão desgraçado, ainda com o fulgor africano a estremecer-lhe as penas, guinchava noite adentro à espera de uma resposta. As janelas são de papel, os carros zumbem-me na cabeceira. Não tinha como não acordar com os berros do pássaro solitário. Cheguei a pendurar-me na janela, não fosse ter um ninho no beiral. Quase me estatelei no alcatrão. Acabei por me habituar à passarada.Quando fico doente procuro concentrar-me nas alterações da percepção, como se fosse uma droga. A gripe não vai muito longe, mas, mesmo assim, com alguma atenção, o espaço modifica-se e estou noutra relação com o corpo. O centro de gravidade baixa ligeiramente, o ar fica líquido.

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06.05.2026 | por Ricardo Norte

Será que existe um novíssimo cinema português?

Será que existe um novíssimo cinema português? Encontra-se antes um pretexto para procurar as filiações de um novíssimo cinema português, em busca dessa raiz perdida, dessa escola, de uma unidade, ainda que frágil. Isto, não obstante, e dando de barato que, num mundo global, somos todos inevitavelmente influenciados de forma global. Todavia, não se deve subestimar o potencial do vizinho do lado. Se não existe um corpo suficientemente bem definido para caracterizar um cinema português, com um pouco de boa vontade há, pelo menos, escolas, linhas e movimentos — alguns deles provavelmente involuntários, mas que, sem querer, se desenham.

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04.05.2026 | por Manuel Halpern

Entre jornalismo e amor público: contar o coletivo em tempos de crise

Entre jornalismo e amor público: contar o coletivo em tempos de crise O jornalismo é importante em si mesmo. Mas, sobretudo, é importante pela forma como se ramifica e impacta transversalmente o que somos enquanto sociedade. Num tempo em que, com as redes sociais, virtualmente todos e todas podem aceder e produzir informação — nem sempre fiável, nem sempre contextualizada, nem sempre reconhecendo a complexidade da realidade —, o jornalismo continua a ser insubstituível, ainda que também ele não esteja imune a tensões, limitações e disputas internas. O jornalismo informa. Mas faz isso de uma forma que mais nenhuma outra prática faz.

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29.04.2026 | por Sofia José Santos

Baralho de Cartas 18

Baralho de Cartas 18 Alguns moradores de rua, concentrados nesta zona oriental da cidade, aquartelados no Beato com cama e refeição - já me deparei com uma petição contra eles, vociferando insegurança e sujidade no bairro - andam por aí, personificando as doenças generalizadas do capitalismo. Cabeças despenteadas e dedos grossos a contar moedas, a segurar o pacote de vinho barato. Sei lá que pessoas terão sido com as suas vidas passadas esfaceladas na violência do presente. Guardam nos olhos mistérios e venenos que talvez o Herberto Helder extraísse em poemas, projetando neles uma “alegria desesperada”.

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28.04.2026 | por Marta Lança

Lília Momplé no lançamento de “Ninguém Matou Suhura”

Lília Momplé no lançamento de “Ninguém Matou Suhura” Ela sempre escreveu sobre o que viu, sentiu e viveu. O livro “Ninguém matou Suhura” marca a estreia de uma voz ímpar na história da literatura moçambicana. A sua escrita fala sobre a denúncia da exploração dos humanos pelos humanos, fala das circunstâncias-limite que a humilhação colonial condicionou milhares de homens e mulheres de África. Fala da resistência e luta de todo um povo. Publicado pela primeira vez nos anos 1980, passados 40 anos, o livro volta às bancas como um lembrete do tempo que jamais deverá ser esquecido. Um lembrete para as gerações de hoje e as de amanhã de que a liberdade e a justiça para todos constrói-se com educação, amor, saúde, transporte e empatia.

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27.04.2026 | por Lília Maria Clara Carrière Momplé e Venâncio Calisto

25 de Abril todos os dias

25 de Abril todos os dias instigante sentir o tsunami de gente diversa a “sair à rua (avenidas, desculpem) de cravo na mão a horas certas”. Há muitos anos que sou uma célula dessa massa de água e de carne, e tem sido animador ver a data da revolução reativar-se, ganhar fôlego e multidão, mais causas e palavras de ordem. Reconheço o 25 de Abril no meu percurso, como se o praticasse todos os dias e tenho pensado neste nosso lugar geracional: os filhos do 25 de Abril, que viemos com o fim da ditadura para pôr em prática a liberdade, com tantas possibilidades para florescer e sempre tão queixosos.

Mukanda

26.04.2026 | por Marta Lança

Porque o 25 de Abril nasceu em África

Porque o 25 de Abril nasceu em África Trazer à tona estes momentos históricos intrinsecamente ligados — Revolução Francesa e Revolução Haitiana —, onde os povos praticaram uma solidariedade internacionalista militante própria das épocas revolucionárias, revela-se, mutatis mutandis, de toda a pertinência. Isto porque as lutas de libertação em África contra o colonialismo português e as lutas travadas pelo povo português no 25 de Abril encontraram igualmente essa solidariedade nos dois sentidos. Esta foi possibilitada tanto pelas relações económicas entre a metrópole e as colónias como pela pertença à mesma classe trabalhadora dos povos em luta em Portugal e no continente africano — não obstante a heterogeneidade de situações dentro dessa classe —, o que significava terem pela frente os mesmos exploradores e opressores.

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23.04.2026 | por Yussef B

Evaristo Abreu – o homem e o teatro moçambicano

Evaristo Abreu – o homem e o teatro moçambicano Nascido em 1969, quando chegou a independência, Evaristo Abreu era, à semelhança das crianças do seu tempo, um menino acabado de nascer num mundo também ele recém-parido. Evaristo era um continuador da revolução, parte da geração que Samora Machel apelidou de “flores que nunca murcham”.

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23.04.2026 | por Venâncio Calisto

Thomas Sankara, o revolucionário contra o neocolonialismo

Thomas Sankara, o revolucionário contra o neocolonialismo A sua governação coincidiu com um período em que muitos Estados africanos enfrentavam crises económicas, forte endividamento e persistentes formas de influência herdadas do passado colonial. Foi neste contexto que Sankara procurou afirmar uma via própria, centrada na valorização da produção nacional, no combate à corrupção, na emancipação das mulheres e na mobilização popular como instrumento de desenvolvimento.

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22.04.2026 | por Pedro Oliveira

SURPRESA! 45 anos de Oficina da Criança

SURPRESA! 45 anos de Oficina da Criança Gosto de pensar que … Supresa!! é como que uma secreta homenagem à persistência deste impulso inicial, algo utópico, que sobrevive no dia-a-dia da Oficina da Criança, mesmo se a sua formulação seja menos segura e assertiva que há 45 anos. (…) E gosto de pensar que a exposição iluminava, também, uma fé subjacente à criação e existência de espaços como a Oficina da Criança. É a fé na possibilidade – e não só na possibilidade, na exigência – de uma maneira diferente de fazer, baseada na generosidade, nos valores democráticos (antídoto eficaz contra o cinismo dominante de que “não é possível”, “não há alternativa”, “não vale a pena”), nas crianças e nos seus direitos e capacidades – fé que hoje pode parecer ingênua mas que alimentou e se alimenta de 45 anos de sólida prática. E porque não será possível? “Estamos vivos. Nada nos detém,”

Vou lá visitar

22.04.2026 | por Gerbert Verheij

Baralho de Cartas 17

Baralho de Cartas 17 Os sentidos soltam-se das coisas para a sua consciência com o vagar de quem se passeia pela sua imaginação. Isto, fantasio eu, que só vejo um rosto do outro lado da janela. Dobro-o, estico-o, alongo-o, no meu espelho empenado. Lembro-me do Rouch, olhei cinco minutos para esta mulher e estou aqui em divagações. Cinco minutos parece ser suficiente para me arrancar ao espírito do tempo, tão veloz é a sua demência. Precisávamos de outros mitos para habitar uns com os outros. Coleridge escreveu algures que o amor talvez seja um "sense of Being seeking to be self-conscious.” Deslocação perpétua, como um felino que se atravessa à nossa frente até sermos capazes de o ver.

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21.04.2026 | por Ricardo Norte

O Diogo

O Diogo Durante 35 anos, desenvolvemos uma amizade estreita e consistente. Estabelecemos uma espécie de comunhão espiritual, feita de muitos e bons convívios. Convívios também, por vezes, instáveis e voláteis, altamente combustíveis. Em muitas coisas éramos irreconciliáveis. Zangámo-nos algumas vezes. Gozámos um com o outro. Discordámos e provocámo-nos mutuamente, amuámos. Mas, no fim do dia, íamos sempre ter a uma mesa de café para preservarmos e renovarmos a nossa amizade. O Diogo conseguia ser imensamente terno, de uma ternura e inocência que me deixavam quase sem palavras.

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18.04.2026 | por João Pedro George

Em nome da fraternidade e da solidariedade histórica, ativa e combativa

Em nome da fraternidade e da solidariedade histórica, ativa e combativa O relatório denuncia ainda perseguições políticas, repressão policial e um clima generalizado de impunidade, incluindo detenções massivas e restrições ditatoriais ao espaço público. O espancamento e assassinato de pessoas que se erguem para denunciar este sistema tornaram-se parte do seu modus operandi. “Pensar pela própria cabeça e agir para transformar”, ensinamentos preciosos deixados por Cabral, parece ter-se tornado um crime de lesa-Estado na República da Estrela Negra.

Mukanda

16.04.2026 | por Apolo de Carvalho, Alexssandro Robalo, Sumaila Jaló e Yussef Marta

Baralho de Cartas 16

Baralho de Cartas 16 “O 'novo normal' é lidar com cataclismos”, dou por mim a dizer às crianças, como se lhes explicasse que não têm outra hipótese senão preparar-se para os possíveis fins. De qualquer coisa, por ora ainda abstrata, que morre devagar. Talvez desta ilusão de vivermos num mundo dominado pela paz, desenvolvimento e progresso. Longe de mim passar-lhes a cultura do medo, da culpa e de qualquer forma de ansiedade, nem a climática. Mas como se faz para transmitir a mensagem que a sociedade está profundamente assente em desigualdades e, ao mesmo tempo, dar-lhes esperança?

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14.04.2026 | por Marta Lança

Kikongo, língua, história e identidade, uma conversa com Pedro Armando

Kikongo, língua, história e identidade, uma conversa com Pedro Armando O estudo da língua Kikongo vai além do simples exercício linguístico, constitui uma via de acesso ao conhecimento de uma realidade histórica e cultural profundamente enraizada na África Central. Integrado no vasto grupo das línguas Bantu, o Kikongo é falado por milhões de pessoas em países como Angola, República do Congo e República Democrática do Congo, sendo a língua tradicional do povo Bakongo.

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14.04.2026 | por Pedro Oliveira

Diogo Ramada Curto, um amigo

Diogo Ramada Curto, um amigo Quanto a mim, apenas uma gota de água num oceano imenso de amigos de todas as idades, classes e quadrantes, feitos no Colégio Militar e no râguebi, nas noites do Bairro Alto, nos corredores das universidades, nos jantarinhos da Lisboa-elite, recordarei para sempre as conversas maledicentes e bem-humoradas dos sábados de manhã, na esplanada do Clara Clara, após uma jornada de caça bibliófila, ou os cafés e os almoços às mesas da BN, servidos pelo senhor Paulo ou pela São, e na companhia do João Pedro George, que hoje estão destroçados. Como nós todos.

Cara a cara

13.04.2026 | por António Araújo

Baralho de Cartas 15

Baralho de Cartas 15 Como falámos nas primeiras cartas, imaginar o futuro é difícil. Um dos maiores empecilhos é que para chegar a ver certas coisas é preciso estar num estado que deixa aparecer o que já estava à nossa frente, senão, nem as conseguimos imaginar. Só depois da mutação é que conseguimos ver o que até aí nunca nos passaria pela cabeça. Rouch fala nisso, diz que o que muitos colegas chamam o milagre do encontro, a descoberta, é o resultado de uma longa preparação. A razão de termos conseguido colocar a questão certa, deve-se a uma mudança de posição. Como fazer então para caçar esse Leão do futuro?

Mukanda

07.04.2026 | por Ricardo Norte