Entre Yerevan e Tbilisi, o Cáucaso revela-se uma região de fronteiras esborratadas, memórias imperiais e estilhaços pós-soviéticos. Uma viagem pela Arménia dos prédios de cimento, dos Maybachs reluzentes, do Ararat perdido para a Turquia e de um genocídio que continua a organizar a memória coletiva — com escalas aeroportuárias, mapas em papel e um detox digital condenado ao fracasso.
Vou lá visitar
05.09.2026 | por André Almeida
Os cadáveres empestam e desarmam a esquerda anticapitalista. Não raras vezes são as mesmas vozes da indignação moral anti-fascista. Chamo moral porque, na sua prática, convivem sem problema aparente com uma sociedade profundamente desigual, sem que a questionem para lá da crítica superficial. E como um balão enchido esporádica e rotineiramente que rebenta até ao próximo frémito, como se não tivéssemos estado antes no mesmo sítio, como se o lugar da indignação não tivesse já passado, esvaziando o balão a cada abaixo assinado ou artigo no jornal e remetendo todos ao suspiro com abraços de sentimento do dever cumprido.
A ler
05.09.2026 | por Josina Almeida
Cabo Verde atirou-se ao jogo com o desespero de quem sabia que o lugar deles era ali, ao contrário do que muitos dos seus jogadores ouviram a vida inteira. Não vou reproduzir os palavrões quando, do mesmo lugar de onde fizera o golo, mas agora num livre directo, Sidny faz um remate igual, mas o guarda-redes argentino defende in extremis para canto. Cabo Verde caiu de pé, e muitos argentinos venceram deitados no chão, derreados pelo esforço. Que orgulho devem ter os cabo-verdianos numa equipa verdadeiramente inspiradora. Nem todas as histórias bonitas têm um final feliz. Esta tinha-o merecido sobejamente.
Vou lá visitar
04.09.2026 | por Pedro Goulão
Sendo o cinema uma arte burguesa, há muitas vezes um modo pesado como se filmam as periferias que vem da culpa. Esse olhar ignora a cultura cinematográfica popular que existe no bairro. As pessoas têm o direito de se ver nos filmes de acção e de comédia que fazem parte das suas referências. Podemos fazer cinema popular e oferecer espectáculo sem perder a dimensão política, que está nas histórias que contamos e, sobretudo, na forma como representamos as pessoas.
Afroscreen
04.09.2026 | por Marta Lança
O arquivo sabe muito sobre o corpo de Tereza e quase nada sobre Tereza. Mediu-a, classificou-a, mudou-lhe o nome, registou a sua passagem por Lisboa e voltou a encontrá-la dez anos depois em Angola. Mas não nos deixou sequer a possibilidade de reconhecer o seu rosto. Tereza chamava-se Txilungu. E é precisamente nesse intervalo entre tudo aquilo que o arquivo colonial registou e aquilo que tornou invisível que começa este livro.
A ler
02.09.2026 | por Inês Vieira Gomes
O Militango foi um poema que o meu pai escreveu para um espectáculo concebido e encenado por ele, com o mesmo título, em 2000/2001, para o Grupo Teatrova, e que estreou no Santiago Alquimista. No espectáculo Militango, a dança, a música e a poesia entrelaçavam-se num todo, tendo como linha condutora vários tangos, com destaque para a obra de Astor Piazzolla. Contava com dois bailarinos, Guilhermo e Elina; dois músicos, eu na guitarra, nos arranjos e na produção musical, e José Rui Fernandes na flauta; e Paula Freitas como actriz e na produção. O poema musical Militango encerrava o espectáculo.
É importante destacar que, na viragem do milénio, o pano de fundo era o triunfalismo ocidental perante a queda do bloco socialista e a guerra dos Balcãs, que fez regressar o espectro da guerra à Europa. Seguiram-se a queda das Torres Gémeas, a Guerra do Iraque e tudo o que estes acontecimentos significaram e tiveram como consequência. Entre outros números que integravam o espectáculo, estava o poema de Borges Milonga de dos hermanos, que termina com a ideia de que é a história de Caim, que ainda hoje continua a matar Abel.
Palcos
02.09.2026 | por Adolfo Gutkin
Tropecei na tua frase “o tempo morto arrancado como dente podre”, um minuto antes de abrir a boca ao dentista. Enquanto as suas mãos de luvas suaves se empenham em perfurar o meu osso maxilar, imagino obras em andamento, terras a serem rebentadas, barrigas de baleia esventradas, mandíbulas de tubarão que são estruturas cartilagem, não osso. Confirmo que o cheiro do próprio sangue não perturba tanto como o dos outros.
Mukanda
01.09.2026 | por Marta Lança
O que significa defender a Europa? O que é que estamos a defender quando o fazemos? O livre curso de bens e gentes? O comércio livre? Ao contrário do que se pensa, as principais inovações nazis não terminaram com a guerra, mas proliferaram com uma força desmesurada pela Europa fora, como nos diz Chapoutot no livro “livre de obedecer”. Os nazis defendiam uma concepção não autoritária do trabalho, em que o trabalhador já não era um subordinado, mas sim um "colaborador”.
Mukanda
24.08.2026 | por Ricardo Norte
Já estou a imaginar-me na areia, um chinelo perdido, livro meio deformado pela água com um recibo de supermercado a fazer de separador, conchinhas à volta do umbigo. Está muito quente e ouve-se, ao longe, o som repetitivo das ondas, misturado com notícias sobre incêndios, escândalos políticos, e vozes de trabalhadores sazonais. Uma ventoinha roda lentamente, sem refrescar ninguém.
Mukanda
24.08.2026 | por Marta Lança
Tal como ontem precisámos de apoio e solidariedade internacionais para as nossas independências em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e noutros cantos de África, a luta saharaui convoca-nos hoje a agir em solidariedade. Pois, sem o refúgio em Conacri, sem as armas da China e da URSS, sem os apoios técnicos e logísticos de Cuba ou da Suécia, ou os apoios da Argélia e do próprio Marrocos, mas também sem as mobilizações de solidariedade popular em diferentes geografias, as lutas dos nossos povos não teriam tido a consequência que tiveram na liquidação do colonialismo português em África.
A ler
19.08.2026 | por Sumaila Jaló
À semelhança das edições anteriores, a III Marxa Cabral é o culminar de um processo coletivo de mobilização política desenvolvido ao longo de vários meses. A preparação incluiu a Futebolada Cabral, em homenagem aos valorosos Tubarões Azuis; oficinas de construção coletiva de cartazes; a pintura de um mural promovida pela Associação Juvenil Esperança da Quinta da Princesa; uma roda de conversa; sessões de capoeira e batuku. A 16.ª Konferénsia Panafrikanu di Lisboa, integrada na Marxa, acolheu ainda, pela primeira vez, uma Aula Magna, proferida pelo sociólogo, educador e panafricanista Alexssandro Robalo, com o tema “
A ler
19.08.2026 | por vários
No final dos anos 80, mais ou menos na altura em que Brigite resolveu encerrar, de vez, as portas do seu Salão, o Chiado sofreu um incêndio brutal. E ela soube que o estúdio de fotografia do engenheiro da casa dos óculos, o antigo amor de Amália, ardera por completo. Sentiu uma estranha aflição. Mal chegara a conhecê-lo, e contudo, conhecera-o tão bem. Provavelmente, num fim de tarde que se estendera pela noite, chegara a conhecê-lo melhor do que todos os que o rodeavam. Depois, soube que ele tinha morrido.
Cidade
19.08.2026 | por Manuela Gonzaga
O Festival Tradidanças é, por si só, um motivo pelo qual vale a pena ir até à zona de Carvalhais, em São Pedro do Sul. Mas há muito mais para descobrir nesta região e, este ano, queremos convidar-vos a deixarem-se ficar pelas serras, aldeias e vilas, mergulhando num território ainda tão distante do buliço das grandes cidades. O turismo, o verão e o lazer não se resumem às praias e ao litoral: há caminhos, ribeiras, aldeias, música e histórias para descobrir neste território longínquo e mágico.
A ler
18.08.2026 | por Maria Prata
Voltemos ao ponto de partida do trabalho de Isabel Brison. Ao tirar às estátuas – nem que seja em fotomontagem – o pedestal, sobram estas imagens deslocadas de pedra e bronze, figuras um pouco perdidas, despidas da aura e da altivez concedidas pelo plinto. Ditas e Desditas brinca com esta vulnerabilidade das estátuas despojadas da sua autoridade enquanto imagem. Há nisto – quase como que de viés, mas nem por isso menos intencional – uma reflexão sobre a própria escultura pública.
Jogos Sem Fronteiras
18.08.2026 | por Gerbert Verheij
O festival é feito de um posicionamento político, defendendo e pondo em prática um mundo em que todos acedem a direitos e deveres, em que o respeito pelo outro se constrói muito para além dos números e dos artigos das convenções, através da descoberta, da compreensão e do diálogo. Carlos Seixas, programador e criador do FMM, é reconhecido pelos músicos, programadores e produtores da cena nacional e mundial pelo seu carisma, generosidade e talento. O festival tem a marca da sua curadoria e criou um legado que é importante preservar, reconhecer e dignificar.
Vou lá visitar
14.08.2026 | por Maria Prata
Passados quase cem anos, e num momento em que, um pouco por todo o lado, reaparece o perigo do fascismo, valerá a pena trazermos à nossa atenção o pressuposto brechtiano de que o fascismo não é uma anormalidade ou um desvio, mas emerge como consequência lógica do desenvolvimento do capitalismo que, em contexto de acirramento das suas crises, esbarra na dinâmica pactuada própria das democracias liberais.
A ler
14.08.2026 | por Fernando Ramalho
A pátria é o lar, a família e muito mais que isso. Pátria para os cubanos significa terra, significa história, significa o sangue de milhares de pessoas que entregaram tudo para a construir, há mais de dois séculos. Somos filhos de uma pequena ilha situada a apenas 150 quilómetros da maior potência mundial. Como povo, sempre nos foi difícil darmo-nos bem com os governos dessa potência. E tudo piorou a partir de 1959, quando este povo decidiu seguir o seu próprio caminho, afastando-se das «maravilhas» do capitalismo. Neste julho escaldante, Cuba parece colapsar. As sanções do poderoso vizinho estendem-se a todos aqueles que queiram fazer negócios com a ilha ou investir nela. Centenas de bancos foram penalizados por realizarem transações com empresas cubanas.
A ler
13.08.2026 | por Carlos Padrón Montoya
Os progressos da revolução estavam à vista e eram inegáveis. Desde logo na educação, na saúde, no combate à miséria e no entusiasmo popular. E a admiração de todos os que, pelos cinco continentes, ansiavam por uma terra sem amos era cada vez maior. Por isso mesmo, desde os alvores da libertação, Cuba tornou-se um alvo privilegiado dos donos do mundo, em particular do imperialismo norte-americano.
Vou lá visitar
13.08.2026 | por José António Cerejo
Pensei em escrever um livro, tosco, rude, como um tecido gordo de roupas usadas e lã grossa acabada de cortar. Um tapete de trapos, rústico, pequeno, pesado, bom para ter na rua, debaixo dos pés. À noite apareciam-me coisas escabrosas que me faziam corar, cresciam com as sombras em redor do candeeiro, ficava deslumbrado com as paixões desatinadas e os crimes por realizar. Conhecia mal a minha loucura. Antes de ter as mãos sebosas do ofício já me divertia com os truques e as manhas que viria a usar, como desdobraria as fraquezas, as faltas, as traições.
A ler
12.08.2026 | por Ricardo Norte
O patriarcado deu aos homens autoridade, legitimidade e muitos privilégios. Mesmo o homem mais empobrecido e explorado tem privilégios perante uma mulher da mesma condição. Mas, em troca, essa cultura patriarcal pediu-lhes, obrigou-os até, a deixarem partes importantes de si próprios pelo caminho. A partir de *A Vontade de Mudar*, de bell hooks, este texto pergunta o que significa tornar-se homem numa sociedade que continua a associar masculinidade a virilidade, domínio e autocontrolo. Entre a aprendizagem da dureza, a violência, o trabalho emocional tantas vezes entregue às mulheres e as novas reações misóginas à autonomia feminina, procura-se perceber não apenas o que os homens fazem às mulheres, mas também como são fabricados estes homens. Porque compreender essa engrenagem não significa desculpá-la: talvez seja uma condição para conseguir desmontá-la.
Corpo
11.08.2026 | por Marta Lança