Diário de um etnólogo guineense na Europa (3)

Diário de um etnólogo guineense na Europa (3) O tio Paulo Bano diz que os tugas têm orgulho e vaidade nos símbolos de poder, de violência e de opressão, e não toleram quem não os respeite. Chegaram à Guiné, destruíram todos os símbolos das pessoas, dizendo que eram maus, e colocaram os símbolos deles. Contou-me que os tugas obrigavam toda a gente na Guiné a aprender uma cantiga, para mostrar a sua importância e grandeza, até o próprio mar era nada perante um tuga.

Cidade

14.06.2020 | por Marinho de Pina

Diário de um etnólogo guineense na Europa (2)

Diário de um etnólogo guineense na Europa (2) Fico, tipo: Kumekié, caralho!? N’tão!, vocês vão lá para a Guiné com os vossos padres e as vossas ONGs a falar que devemos nos juntar e mamar como irmãos, e vocês aqui não gostam uns dos outros! Caralho!

Mukanda

13.06.2020 | por Marinho de Pina

Entre dois comboios, 1969

Entre dois comboios, 1969 «Turra», «terrorista», «preto», tudo queria dizer «assassino». Não se lembrava o Martins aquilo que ele próprio era. Ou talvez não o soubesse. Entretanto chega outro soldado, de gabardine militar, que se encostou à porta de gare. O seu aspecto era mais franzino do que qualquer das pessoas e o seu rosto evidenciava a sua origem: classe baixa, campestre, dos campos de entre a Ria e as planícies marítimas da Gafanha.

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08.06.2020 | por Rui Lourenço

Contra o complexo de Babar.
 Pós-memória, periferia 
e literatura

Contra o complexo de Babar.
 Pós-memória, periferia 
e literatura Diferentemente da primeira geração, que tinha o “sonho francês” de uma vida melhor e a ilusão de retornar a Argélia, Guène tem consciência que a relação dos pais com o país de origem é baseada numa certa negação, numa ilusão que eles alimentaram de um país que não existe mais. Ela acrescenta “para nós era também um país que não existia. Para mim a Argélia se divide entre um país real e um imaginário, e a Argélia é parte de mim tanto quanto a França.

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06.06.2020 | por Fernanda Vilar

Entre medo e modernidade: resistência em Amílcar Cabral

Entre medo e modernidade: resistência em Amílcar Cabral Para Cabral a luta armada, filiando-se numa tradição de resistência que remontava ao início da ocupação portuguesa, era igualmente um meio de agregação política de uma população social e etnicamente diversa, na senda da formação de uma “consciência nacional”. Depois, porque no entendimento estratégico de Cabral o modo de travar a guerra pela independência delineava as próprias feições do período pós-independência.

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05.06.2020 | por Inês Galvão, José Neves e Rui Lopes

“Viver dentro de um corpo negro, num país perdido no Sonho”, a partir do livro de Ta-Nehisi Coates

“Viver dentro de um corpo negro, num país perdido no Sonho”, a partir do livro de Ta-Nehisi Coates Esta carta de um pai para o filho, que cresceram, ainda assim, com referências diferentes (o filho teve a sorte de assistir a dois mandatos de um presidente negro, exemplo para a comunidade negra em termos de representatividade e ambição), transparece a continuidade do medo e da raiva. Alicerçam a ideia de comunidade imaginada, uma vez que o corpo negro deita por terra qualquer teoria ou história de superação e sucesso pessoal (estudos, dinheiro, estatuto), enquanto for marcado pela descriminação.

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02.06.2020 | por Marta Lança

Manjacos de Caio

Manjacos de Caio Amélia da Silva escreveu um livro a contar como recusou o noivo tradicional que lhe estava atribuído e questiona a poligamia, uma prática bastante enraizada entre os manjacos que, no seu entender, não dignifica a mulher, nem respeita a sua escolha e liberdade individual.(...) O sujeito indicado para receber as mensagens do irã é o namanha. O irã pode ser considerado um espírito bom, que protege a comunidade e os seus membros, e o espírito mau que deve ser afastado, uma vez que causa problemas.

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02.06.2020 | por Carlos Alberto Alves

Entre prática religiosa e espaço de culto: as dimensões do corpo-crente em "Variações da Fé"

Entre prática religiosa e espaço de culto: as dimensões do corpo-crente em "Variações da Fé" Uma das vertentes deste trabalho foi pensar a relação ideológica entre o espaço de oração (a mesquita) e o espaço de exposição (o palácio), no âmbito das suas interligações históricas, culturais e arquitetónicas. Outra vertente do trabalho foi interrogar o espaço ocupado pelo corpo-crente na relação com as práticas rituais e o local sagrado. Em Variações da Fé, o corpo aparece progressivamente, ao longo do desenrolar da proposta no espaço, até desaparecer. Entramos.

Corpo

31.05.2020 | por Hélène Veiga Gomes

Sahara Ocidental descolonizado, já!

Sahara Ocidental descolonizado, já! A causa saharaui, justa e legítima, é uma questão pendente na nossa transição para a democracia, como tem sido a exumação do ditador Francisco Franco do “Vale dos Caídos”. Não podemos continuar a fazer ouvidos surdos e a olhar para o outro lado. Seria desejável, portanto, que Espanha, como Portugal no caso de Timor-Leste, fizesse o mesmo no caso do Sahara Ocidental – a nossa antiga 'Província 53' - honrando assim as suas responsabilidades históricas e pondo fim à enorme injustiça cometida contra o povo saharaui. É hora de descolonizar.

Jogos Sem Fronteiras

30.05.2020 | por Luis Portillo Pasqual del Riquelme

A Grande Pausa produz efeitos. Surprise!

A Grande Pausa produz efeitos. Surprise! Dividimos por uns meses um apartamento em Bayswater, Londres, que me lembro tinha um fotógrafo que morava em frente e nos tirava fotos pela janelas – todas elas despidas de cortinas, que é aliás algo de que gosto muito. A Monika, sendo sueca, andava nua pela casa quando lhe apetecia e eu, está claro, tuga vestido desde o duche da manhã – sem essas frescuras nórdicas. Fazíamos um casal de lésbicas muito bonito, por isso não nos tocávamos em público ou aquilo era logo uma matilha de lobos.

Corpo

30.05.2020 | por Adin Manuel

As impotências da pós-memória

As impotências da pós-memória Mais do que um signo de união sobre a responsabilidade da transmissão da memória, a pós-memória é separador de águas. Menosprezada pelas ciências sociais, subestimada pelos historiadores, endeusada nos estudos culturais e nas artes, o tema da memória das gerações seguintes às gerações testemunhais é um território controverso, por vezes conflituoso, de qualquer modo estranho.

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29.05.2020 | por Roberto Vecchi

Desta vez

Desta vez No seu vídeo para Apeshit, filmado no Louvre, a cena do joelho dobrado é recriada, com as letras de Jay-Z a recordar à NFL quem precisa de quem, outra fagulha para a discussão sobre quão apreciada é a cultura negra e o quanto ela rende, em detrimento de quem faz essa mesma cultura e dos seus lucros se vê privado. Numa outra cena, Beyoncé retira a bandana pejada de pérolas que lhe cobria o rosto.

Afroscreen

27.05.2020 | por Gisela Casimiro

Cinemas Pós-Coloniais e Periféricos

Cinemas Pós-Coloniais e Periféricos Como investigadores da história do cinema, entendemos a necessidade de estudos sobre o que está a ser produzido numa certa margem do cinema contemporâneo, questionando inclusive a própria ideia de produção periférica ou marginal, uma vez que grande parte dos filmes que aqui trazemos consolida, em torno dos próprios filmes e de seus realizadores, novos “centros” de ativação cultural, deslocando as velhas (novas) relações entre centro-periferia.

Afroscreen

27.05.2020 | por Michelle Sales

Cabemos nesta BUALA há 10 anos! -depoimentos

Cabemos nesta BUALA há 10 anos! -depoimentos "O BUALA iniciou em Portugal uma rutura com a tradicional rigidez canónica do olhar eurocentrado sobre a colonialidade que marca as relações entre antigos poderes coloniais e espaços outrora colonizados. O BUALA desprovincializou o debate pós-colonial em Portugal ao abri-lo a outros contextos geográficos fora do espaço lusófono, libertando-o da redoma académica em que esteve fechado durante muito tempo. Esse caráter polissémico da sua articulação interdisciplinar ajudou ainda a desobstruir o caminho entre academia e militância, entre teoria e prática." Mamadou Ba

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25.05.2020 | por vários

Lembranças, souvenirs, recuerdos

Lembranças, souvenirs, recuerdos Nessa altura mais ou menos exacta, ouvi histórias em várias mãos sobre vontades de fuga, decisões de partir e preparativos de viagem, exílio, estratégias de resistência, ânsias de trabalho e dinheiro, aquisições de casas, anéis e carros, perdas materiais e amorosas, despedimentos, cartas trocadas, memórias esquecidas repensadas e por isso lembradas, a ausência da lembrança, casamentos, primeiras-comunhões e baptizados, mudanças de cidade, mudanças de estado, nascimentos, passeios pela cidade e pelo campo, visitas da família, férias em Portugal, considerações sobre a pátria nem sempre amada, sobre música, desbunda, mandioca e carnaval.

Jogos Sem Fronteiras

24.05.2020 | por Ana Gandum

Justiça e jornalismo nas Américas

Justiça e jornalismo nas Américas Somos suscetíveis à obscuridade. Não apesar, ou por causa da tecnologia moderna. Mas porque "o que é a história senão uma fábula na qual concordamos?" (Napoleão, talvez). Nossas ‘postagens’, ‘partilhas’ e hashtags se dissiparão no vazio digital quando começarmos a nos enxergar como geração que experienciou um excesso de visibilidade individual, se empolgou e esbaldou. E o ‘esbaldar’ é indiferente à mudança, assim como a mídia social é indiferente à justiça social. Hoje em dia, parece que atribuir natureza revolucionária à tecnologia é depreciar nosso potencial revolucionário como seres sociais, com todas as suas complexidades.

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24.05.2020 | por Mirna Wabi-Sabi

A luta contra o petróleo e gás em Portugal: aprender a ganhar

A luta contra o petróleo e gás em Portugal: aprender a ganhar A luta contra o petróleo e gás em Portugal, da perspectiva do movimento pela justiça climática, é claramente uma luta defensiva, isto é, apenas permite evitar aumentar ainda mais o fosso da crise climática. As lutas ofensivas, aquelas que constroem alternativas e maiorias sociais para um mundo sem combustíveis fósseis, são as que permitirão travar o colapso climático. Num momento de crise sanitária, social, de emprego e climática, todas em simultâneo, torna-se ainda mais claro que nenhuma delas é independente e nenhuma será verdadeiramente resolvida se as outras não o forem.

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22.05.2020 | por João Camargo

Os meus "Confinamentos"

Os meus "Confinamentos" Os presos do Tarrafal expressavam o curso da geografia da nossa luta. Também o papel dos meios urbanos na contestação ao colonialismo, a incorporação dos meios rurais no movimento guerrilheiro, e a minha geração de jovens que recusaram as “benesses” que o sistema colonial parecia oferecer.

Cara a cara

21.05.2020 | por Justino Pinto de Andrade

Amílcar Cabral, um agrónomo antes do seu tempo

Amílcar Cabral, um agrónomo antes do seu tempo A agricultura, então chamada de “indígena”, assentava na produção de arroz para o autoconsumo das comunidades rurais, a qual era praticada há cerca de três mil anos e na produção de uma cultura de exportação, a mancarra (amendoim) incentivada pelas empresas estrangeiras que se revezam na sua exportação para a Europa (em bruto ou em óleo). O ciclo da mancarra começa na zona de Buba, incentivada por alemães e percorre um itinerário fácil de identificar pela erosão e degradação dos solos que provoca na Guiné e que passa por Bolama, norte do Oio, Bafatá e Gabú.

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21.05.2020 | por Carlos Schwarz da Silva

Ulisses que não regressa a casa

Ulisses que não regressa a casa Saad, o migrante, o clandestino, o invisível aos olhos de todos, é um universitário, filho de um bibliotecário erudito e poeta, colecionador de livros proibidos pela ditadura, apaixonado por literatura e por mitologia greco-romana. Um pai que partilha com ele o segredo dos livros da sua “Babel de bolso”, nome que dava à biblioteca clandestina que escondia na sala. Mimado pelas irmãs, pela mãe, pela família, no espaço de poucos meses o jovem Saad assiste à morte dos cunhados num ataque terrorista, ao desaparecimento da namorada num bombardeamento, à morte do pai, por erro dos americanos, à morte de três sobrinhos por doença e má nutrição.

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20.05.2020 | por