"Nunca me faltou o sonho de expor na minha terra", entrevista a Nú Barreto

"Nunca me faltou o sonho de expor na minha terra", entrevista a Nú Barreto Não existem infraestruturas culturais, tanto educativas como promocionais. Por mais que sejam organizados, os artistas plásticos guineenses, na Guiné, vivem num “anonimato” absurdo, onde só se salvará o ajudado. É de certeza uma caricaturada forma de ver a situação. A bem ver, não existe sequer um espaço cultural, onde os artistas poderiam exibir as suas criações. Num país sem nenhum Centro Cultural Nacional, nenhum museu e nenhuma galeria, é complicado estabelecer qualquer que seja diálogo entre o vazio e o público. Anedoticamente, vira um cemitério sem campa. Talvez uma curta história verídica para ilustrar o grau do sofrimento: Encontrei uma senhora que me reconheceu por me ter visto na televisão, dia antes. Depois duma longa conversa sobre o estado das artes na Guiné, disse-me: «Não é que somos todos iguais. O facto de não haver, não significa que somos todos iguais, mas precisamos para a nossa instrução. O silencio expõe a ignorância».

A ler

13.02.2022 | por Sumaila Jaló

Entrevista a André Amálio, do Hotel Europa, sobre Amores de Leste

Entrevista a André Amálio, do Hotel Europa, sobre Amores de Leste Eu questionava muitas vezes isso, no nosso caso a crítica ao fascismo português era também pela defesa da liberdade de expressão, a liberdade de falar, de tomarmos ações políticas, e fazia-me confusão que a liberdade que estas pessoas falavam era a de comprar, de adquirir, e depois todos estes circuitos que aconteciam, até destes bolseiros que podiam ir ao ocidente comprar roupa ou aparelhagens ou walkmans, e depois faziam fortunas quando iam para o Bloco de Leste e vendiam estas coisas. Por outro lado, também vejo que a liberdade está nas mais pequenas coisas.

Palcos

12.02.2022 | por Josina Almeida e Marta Lança

Arquitetura mindelense: um património ameaçado pelo abandono

Arquitetura mindelense: um património ameaçado pelo abandono A viagem começa pelo Fortim Del Rei, um dos lugares onde acedemos a uma das mais bonitas vistas do Mindelo, numa panorâmica para o Monte Cara e para a Avenida Marginal. Trata-se de um espaço onde restam apenas ruínas de um Forte construído em 1852, guarnecido e partilhado com sete peças de ferro, fundidos em Londres e que serviu de prisão.

Cidade

10.02.2022 | por Sidneia Newton

Emigrantes, pelo Teatro Manga

Emigrantes, pelo Teatro Manga O espetáculo EMIGRANTES parte da obra gráfica de Shaun Tan, “The Arrival”, no original, para contar histórias de migração e pensar os processos de adaptação e integração das comunidades migrantes. Recorta uma viagem, várias narrativas de migração e uma ideia para a integração. Não é uma estória, nem história. É um detalhe na vida de tantos. Um passo, um gesto. Inadvertidamente repetidos. No não-lugar do teatro, são comunicados, numa língua que o dicionário não traduz, apenas dá a ver, desenhos de fugas sem mapas. O corpo humano é ampliado por sons que os gestos escondem e o Homem prolongado por sombras que a sua silhueta encobre. Ao público, é dado o papel em branco para traçar a poesia ressonante da sua viagem, papel sem linhas para desenhar a sua história ou para reutilizar e reciclar conforme entenda.

Palcos

09.02.2022 | por vários

Como o desastre e a tragédia no Haiti desencadearam um movimento radical na música

Como o desastre e a tragédia no Haiti desencadearam um movimento radical na música Conhecida por misturar o político e o profano e denunciada pelas suas raízes vodu, a música rabòday é o som desafiador - e amplamente popular - de uma nova geração haitiana insatisfeita. As estrelas desta corrente tornam-se surpreendentemente influentes ao transformar as ansiedades do público em hinos para dançar.

Palcos

08.02.2022 | por Susana Ferreira

O que é o Sistema?, entrevista a Cristiano Mangovo

O que é o Sistema?, entrevista a Cristiano Mangovo “O Sistema”, sob curadoria de Katherine Sirois, é a mais recente exposição de Cristiano Mangovo, um artista contemporâneo natural de Cabinda, Angola. De entrada livre, na galeria .insofar, a mostra de obras do artista no estilo de expressionismo figurativo, retrata questões sociopolíticas intrincadas através da liberdade das suas pinceladas e escolha de cores fortes. É assim que decide retratar e endereçar a problemática das hierarquias e o exercício de poder. Sentados frente a frente conversámos sobre o seu passado, as inquietações que o movem a pintar e a reflexão sobre o que é “O Sistema”, as injustiças causadas pelo mesmo e como o podemos combater. A realidade, ou melhor, os resultados finais são merecedores de serem observados com todo o tempo e minúcia.

Cara a cara

07.02.2022 | por Alícia Gaspar

"Transições" de Joca Faria, a fotografia como recurso estético e documental

"Transições" de Joca Faria, a fotografia como recurso estético e documental Tem-se dito que a beleza está nos olhos de quem vê. Usando essa premissa, Joca Faria cria e amplia beleza no que vê. De outro modo, o porto de Maputo seria tão-somente um lugar de desembarques, um lugar que está sempre por limpar e ancorado às máquinas. Mas não. É um lugar artístico em potência. Transições é ainda um projecto que incita a pensar a condição do estivador e de um porto que se desenvolve ao ritmo da cidade e de uma nação inteira.

Vou lá visitar

06.02.2022 | por José dos Remédios

Pós-colonialismo até que ponto? Legado de um passado familiar

Pós-colonialismo até que ponto? Legado de um passado familiar Pergunto novamente, legado atual sobre o colonialismo? Sim, ele existe e é evidente. Quando olhamos para o caso de países como o Gana, cuja língua oficial é o inglês, temos a confirmação. A língua oficial, a língua prestigiante, a língua que dá acesso à educação universitária e a postos de trabalhos, é europeia. Sim, uma variedade distinta e com algumas idiossincrasias próprias devido a contactos e trocas com outros povos africanos, mas ainda assim inglês. Poderíamos igualmente discutir a forma de atuação da antiga colónia inglesa, a “Indirect Rule”, no entanto, na palestra focaram-se em alguns países como o Gana, e em como existe multilinguismo no continente africano.

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05.02.2022 | por Arimilde Soares

Futuro e Tradição em Djam Neguin

Futuro e Tradição em Djam Neguin O Single “Ka bu skeci tradison” magnificamente dirigido e interpretado por Djam Neguin convoca-nos à ação, num quadro de inexorável erosão dos nossos traços identitários como povo, nação e individuo. Este jovem artista, com um currículo soberbo nas áreas performativas em Cabo Verde, traz-nos uma preciosa reflexão sobre o tema tradição vs modernidade. Djam é um artista inventivo, irreverente, definitivamente irrequieto e com uma criatividade e sensibilidade muito profundas.

Palcos

04.02.2022 | por Valdevino Santos Bronze

Violência contra comunidade LGBT+ na América Central

Violência contra comunidade LGBT+ na América Central Cabelo liso caindo atrás dos ombros, camisa às riscas brancas e castanhas acinzentadas, lábios pintados de carmim. Braço apoiado numa mesa com uma toalha de renda branca e uma jarra de flores de plástico. Olhos fixos num ponto alto invisível. Fundo de tábuas brancas em ângulo com uma parede verde. Respondia à pergunta: “Quem é Thalia?”. “Thalia é respeitada. Uma das coisas mais lindas que buscamos nesta vida é amar e ser amada. Que alguém te queira pelo que és. Thalia liberta. Somos fortes, também frágeis e débeis, mas somos implacáveis, somos duras.” Quando os paramédicos da Cruz Vermelha chegaram ao casebre, a ativista já não vivia. Uma onda de protestos e manifestações varreu de imediato as Honduras. “Justiça!”.

Corpo

01.02.2022 | por Pedro Cardoso

Memórias Aparições Arritmias, de Yara Nakahanda Monteiro (Companhia das Letras, 2021)

Memórias Aparições Arritmias, de Yara Nakahanda Monteiro (Companhia das Letras, 2021) É difícil ler 'Memórias Aparições Arritmias' sem pensar nos estudos da memória. A memória é uma presença constante neste livro de Yara Nakahanda Monteiro. As suas memórias e as memórias da sua família que lhe foram chegando, ao longo da vida. A poeta faz uso daquilo a que Jan e Aleida Assmann chamaram de “memória comunicativa” (kommunikatives Gedächtnis), que se constitui na interação informal do quotidiano: pelas histórias, imagens e emoções que se transmitem nas famílias e entre pessoas com contacto direto e que abarca as vivências das três a quatro gerações vivas. Essa familiaridade e esse mundo pessoal, que é tanto afetivo como doloroso, pautam grande parte das memórias que pululam de poema em poema, recordando muitas vezes um tempo e um espaço a que a poeta, ou os seus eus líricos, só de forma indireta poderiam ter acesso.

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30.01.2022 | por Luciana Moreira e Doris Wieser

01.01.1970 | por e

No centenário do nascimento de Francisco José Tenreiro (1921-1963): mediações e perspetivas

No centenário do nascimento de Francisco José Tenreiro (1921-1963): mediações e perspetivas Através desse cliché usado (ironicamente) por Pessoa, FJT levantava uma outra questão para a qual ainda não temos grandes respostas: como é possível que “África” seja uma presença tão negativa, ou aparentemente indelével, na obra do nosso maior modernista? Ou, não estaremos perante um problema da crítica literária oficial, que durante anos procedeu a um “branqueamento” da obra de Almada Negreiros? Que essa miopia ou parcialidade crítica existiu prova-o o estimulante ensaio de Pedro Serra, “Usos do 'Primitivo' Africano na cena de Orpheu. Uma incorporação de Fernando Pessoa”, cujo título ilustra uma abordagem quase inédita da obra pessoana. Movendo-nos noutras direções, e inspirado por este ensaio, talvez seja possível proceder a outras revisitações quer da obra de Pessoa quer da de outros poetas maiores da literatura portuguesa no sentido de aí rastrear a presença africana e estudar o seu papel (poético-linguístico, por ex.) no contexto das respetivas obras. Ainda não se estudou em profundidade a influência de “África” (Guiné e Cabo Verde) e de outros lugares multiculturais e poliglotas (como Londres) na obra de Maria Velho da Costa. Como ainda não se estudou suficientemente a “coisa africana” na obra de Herberto Helder, a “frase ocre africana”.

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26.01.2022 | por Maria de Lurdes Sampaio

Lutas dos saberes negros na educação artística: memória do algodão entre Brasil e Cabo Verde

Lutas dos saberes negros na educação artística: memória do algodão entre Brasil e Cabo Verde A partir do ciclo do algodão é criada uma ficção em torno de saberes negr@s em trânsito pela geografia do tráfico atlântico de escravizad@s. Este risco de imaginar o que ficou silenciado e apenas memorizado numa semente, vingada pela união e luta dos povos, provoca uma relação entre a comunidade quilombola de Conceição das Crioulas, no nordeste brasileiro e o projeto Neve Insular no Madeiral, interior da ilha de São Vicente em Cabo Verde. Neste artigo pretende-se fazer uma leitura sobre práticas de educação artística, por um lado a partir de uma lente crítica sobre como os regimes de plantação e colónia atravessam os séculos e as mentes até hoje, e por outro lado uma lente que herda do feminismo a radicalidade face ao patriarcado e ao capitalismo naturalizados como dispositivos de poder e apropriação da própria vida. Em ambas as geografias o algodão e os saberes em torno dele tornam-nos permeáveis a um universo político de questionamento da história da monocultura da planta e do pensamento, abrindo espaço para fazer estremecer a tentação de reproduzir os modos de ensinar e aprender.

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25.01.2022 | por Rita Rainho

“HÉLIO” de Renan Martins

“HÉLIO” de Renan Martins Para além da música, do movimento e da sua forma, para o coreógrafo surge também a importância de questionar, através deste solo, a relação entre toda a sua experiência profissional europeia em dança, fortemente influenciada pelo movimento pós-moderno norte-americano, e o corpo brasileiro dentro de uma expectativa de estética predominante branca. Importa redescobrir o corpo constantemente colonizado por ideais de estética e de comportamento que não condizem necessariamente com a sua história e ancestralidade.

Vou lá visitar

25.01.2022 | por Renan Martins

Cenas do Gueto I Putos do Mocho

Cenas do Gueto I Putos do Mocho À boleia da street art, a Quinta do Mocho soube dar a volta aos estereótipos, ressignificando a vida no gueto para exaltar as qualidades do território e de seus habitantes.

Afroscreen

24.01.2022 | por Otávio Raposo

Rede Cidade

Rede Cidade Diz-se que a história é escrita por vencedores; os mapas também o são. Propõem uma linguagem, um discurso, uma ideologia. Dizem o que existe e o que não existe e circunscrevem o possível, estabelecem o governável. Na sofisticação das suas linhas não há espaço para perguntas. As suas omissões são nossas, delas dependem vidas, territórios, decisões.

Cidade

21.01.2022 | por António Brito Guterres

Calado eras poeta, e outros pensamentos de uma feminista

Calado eras poeta, e outros pensamentos de uma feminista Muitas opiniões ofensivas partiram de homens que defendiam e apoiavam a campanha por considerarem ser culpa da mulher a divulgação de fotografias íntimas na internet. Estas mesmas opiniões ganham força quando veem uma campanha destas ser divulgada pela GNR, uma instituição que foi criada para garantir os direitos dos cidadãos... E esta é apenas uma de várias desculpas que os homens nestes comentários utilizam para justificar os seus pensamentos e atitudes retrogradas.

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21.01.2022 | por Alícia Gaspar

A base social e educacional caboverdiana estará assente na herança Matriarcal/Matrilinear ou Patriarcal/Patrilinear?

A base social e educacional caboverdiana estará assente na herança Matriarcal/Matrilinear ou Patriarcal/Patrilinear? quase “tudo” gira à volta da mulher, ou seja, é ela o pilar da família. Ela é mãe, muitas vezes mãe solteira cujo marido ou pai dos filhos a abandonou para ir viver com outra(s) mulher(es), ela é dona de casa em todos os sentidos, isto é, educa sozinha os filhos, faz os deveres de casa quando os filhos ainda não têm autonomia para ajudarem, é ela que trabalha e, na maioria das vezes, é com o salário dela que os filhos comem, se vestem e vão para a escola. A mulher foi, desde sempre, a pedra basilar da sociedade cabo-verdiana, assumindo-se ainda com mais força enquanto tal nos momentos de maiores dificuldades a nível nacional, quando os homens, devido ao flagelo da imigração por causa da seca e da falta de recursos do país, tiveram de se aventurar por outros destinos, sendo que muitos esqueceram a família, que ficou para trás na forma de um grande peso deixado nas costas das mulheres, as quais se viram obrigadas a assumir todos os papéis que deveriam ser partilhados com o marido/pai dos filhos.

Mukanda

21.01.2022 | por Ednilson Leandro Pina Fernandes

"Moçambique nunca conheceu momentos de paz”, entrevista a Paulina Chiziane

"Moçambique nunca conheceu momentos de paz”, entrevista a Paulina Chiziane Foi a primeira mulher a publicar um romance no seu país. E a primeira africana a ganhar o Prémio Camões, em 2021. Ser tudo isto levou-a a perguntar: “Porquê agora?” A resposta ocupa a conversa com o Expresso. Nela recua-se aos inícios, fala-se do rumo do continente africano, da autocolonização e da colonização da língua

Cara a cara

19.01.2022 | por Luciana Leiderfarb