Apesar de você

Apesar de você A partir destas duas paisagens vividas de um Brasil que exclui da cidadania grande maioria da sua população, Geovani Martins e Ailton Krenak colocam todas as perguntas sobre a possibilidade de um outro Brasil que se aguarda. Um Brasil em que, na era dos computadores, um jovem favelado como ele não tenha mais de escrever um livro como este numa máquina de escrever que a mãe comprou numa feira de velharias. Mas este gesto – tal como o de Ailton Krenak, em 1987, na Assembleia Constituinte – revela-nos uma energia imparável, e a confiança que dela recebemos permite-nos acreditar na “comunidade que vem”, “apesar de você”, apesar de tudo.

A ler

04.03.2020 | por Margarida Calafate Ribeiro

Bacurau — a propósito de sangue, mapas e museus

Bacurau — a propósito de sangue, mapas e museus É preciso salvaguardar uma possibilidade de futuro — essa poderia ser uma outra definição para bacuralizar, ou uma outra forma de descrever a atitude museológica que coloco como urgente. É preciso habitar Bacurau, aliar-se aos que caíram (João Pedro, Marielle) e aos que resistiram (Elizabeth Teixeira, camponeses, Eduardo Coutinho, Cabra marcado para morrer), convocar outros filmes e outras lutas para conjurar futuros. Como o pássaro-escriva-anjo-museólogo, é preciso convocar os mortos e caídos a esse cortejo fúnebre para, com eles, ir de encontro ao porvir. Esse cortejo não é mais que um museu. É possível que falhemos. Mas eles também falharam.

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04.03.2020 | por Patrícia Mourão

Lugares de memória Irlanda do norte

Lugares de memória Irlanda do norte Belfast, março de 2015. O muro, sem ser contínuo, apresenta cerca de 34 km (em 2017). A maior parte das suas passagens ou portas encerram às 19h. A visita guiada, feita num cab, às memórias dos Troubles, encerrados pelo acordo da Sexta-feira Santa em 1998, conduz-nos aos murais nos bairros independentistas, republicanos e maioritariamente católicos, e nos bairros unionistas e maioritariamente protestantes. Visitámos ainda memoriais a vítimas nos lugares onde estas tombaram, civis católicas queimadas nas suas casas e membros do Sinn Fein, assassinadas por forças paramilitares pró-britânicas.

Vou lá visitar

01.03.2020 | por Josina Almeida

Reinata Sadimba

Reinata Sadimba Reinata Sadimba, artista do povo, artista popular, artista tradicional, artista de elite, artista que se situa entre uma e outra categoria, artista sincrética, onde cabe a individualidade, a novidade e a vitalidade de Reinata? São precisas estas categorias para apreender as qualidades das formas expressivas do seu trabalho? Como interpretar a liberdade de que goza o trabalho de Reinata, a forma como combina diversos elementos culturais, do mundo rural e da cidade, ou dá resposta às profundas transformações sociais?

Cara a cara

27.02.2020 | por Alda Costa

Os perdidos: angolanos ilegais a caminho dos Estados Unidos

Os perdidos: angolanos ilegais a caminho dos Estados Unidos Por terra ou por mar, os angolanos Luzia, Ana e João chegaram ao Panamá. Avançam agora a pé pelo “Tampão do Darién”, selva perigosa e mortífera, a caminho dos Estados Unidos e Canadá. Os corpos de africanos que não aguentaram a viagem afundam-se nos pântanos. Os ladrões, narcotraficantes e violadores escondem-se na vegetação impenetrável. Neste “inferno na terra”, Luzia esperou a morte.

Jogos Sem Fronteiras

26.02.2020 | por Pedro Cardoso

A Lezíria do Tejo: o lugar das memórias, lutas e (des)encontros

A Lezíria do Tejo: o lugar das memórias, lutas e (des)encontros Para uma pessoa urbana, pode ser surpreendente a aparente negligência e o grau de poluição em áreas onde os impactos dessa contaminação não derivam somente da presença das empresas, mas também dos impactos de políticas e ações que promoveram a exploração intensiva da água e dos solos para monoculturas de arroz e tomate e criação intensiva de suínos. Para os habitantes da região, os impactos vão além dos aparentes, pois as paisagens estão diretamente enraizadas nas memórias daquelas pessoas que nasceram ali, aprenderam a nadar em trechos de água onde agora seria impossível.

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24.02.2020 | por Oficina de Ecologia e Sociedade

"Como um gesto de força”, conversa com Catarina Botelho e Sandra Vieira Jürgens

"Como um gesto de força”, conversa com Catarina Botelho e Sandra Vieira Jürgens Barcelona e Lisboa parecem-me paradigmas de um sistema neoliberal que explora de forma intensiva espaços e tempos. Parece-me que a crescente densificação que Lisboa está a sofrer é um sintoma disso. Zonas anteriormente sem função definida parecidas com aquelas que fotografei, estão a ser urbanizadas a velocidades antes impensáveis, os passeios ocupados por esplanadas, quiosques... O espaço é rentabilizado de forma intensiva e claro, o centro é o lugar mais saturado.

Cara a cara

22.02.2020 | por Hugo Dinis

Soberania intelectual

Soberania intelectual Descolonização é um processo de desconstrução de conhecimentos, de uma epistemologia maioritariamente europeia que sempre teve uma vocação universalista, existente tanto na Academia como no espaço público, que implica não só os africanos que vivem em África e os que constituem as diásporas, como também os europeus que vivem na Europa ou são imigrantes em países ex-colonizados.

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22.02.2020 | por António Pinto Ribeiro

De Trump ao cão-tinhoso: notas sobre a besta, o ser humano e outras (in)versões

De Trump ao cão-tinhoso: notas sobre a besta, o ser humano e outras (in)versões Com o amparo de mecanismos de natureza jurídica, científica ou artística, a exploração da diferença tem sido, desde sempre, uma das vias mais seguras para o exercício da dominação. Por penetrar no cotidiano ao ponto de criar uma ilusão de espontaneidade, esta prática engendra uma “estrutura de sentimento” (1) cujos efeitos são perversos e duradouros. Ao reformular pautas, algumas muito antigas e outras nem tanto, o mundo de hoje reconstrói o cenário excepcional do “campo”, além de inventar outros que, por serem móveis e líquidos, poderiam ser chamados de “mares de concentração”. Ergue ainda novos muros, em cima dos quais algumas lideranças se sentam para observar a agonia continuada de indivíduos em situação de risco e sem qualquer dispositivo legal ou político que leia o seu caso.

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21.02.2020 | por Nazir Ahmed Can

Reviver a Guerra do Pai: o fim da violência?

Reviver a Guerra do Pai: o fim da violência? Nas obras literárias da pós-memória, a figura do pai ausente é recorrente quando se quer abordar a questão da persistência do trauma pós-colonial nas gerações seguintes. Em Portugal, o romance Estranha Guerra de Uso Comum, de Paulo Faria, constitui talvez o exemplo mais significativo deste diálogo post-mortem à volta de um inquérito sobre a transmissão da experiência da guerra do pai para o filho. Contudo, neste conjunto de obras, há alguns casos em que o filho decide, através da escrita, reviver o passado traumático do pai desde o interior, num enredo que descreve com pormenores o tempo dos combates do progenitor. Nestes casos, o narrador privilegia os cenários do passado bélico para contar a guerra do pai como se ele estivesse no seu lugar.

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19.02.2020 | por Felipe Cammaert

Arquivos, filmes e memórias: ingredientes para lembrar e esquecer o passado

Arquivos, filmes e memórias: ingredientes para lembrar e esquecer o passado A condição de Funes serve de contraponto a Tudo passa excepto o passado, um encontro internacional em torno das políticas da memória, promovido pelo Goethe-Institut, que teve lugar durante alguns dias de Setembro na Culturgest em Lisboa, em articulação com um ciclo de cinema, Reimaginar o arquivo pós-colonial. Ao contrário do caso de Funes, tratou-se aqui de reflectir sobre a relação entre lembrar e esquecer o passado.

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18.02.2020 | por Inês Ponte

Com a mala na mão contra a discriminação – uma viagem pela história dos nossos direitos

Com a mala na mão contra a discriminação – uma viagem pela história dos nossos direitos Projeto piloto de educação antirracista que pretendeu promover, com os alunos, a reflexão crítica dos processos que conduziram e conduzem atualmente ao racismo interpessoal e institucional. Sem a preocupação com a formação dos mais novos não há preocupação com a sustentabilidade da cidade, logo do próprio Estado. O grupo alvo deste projeto é reflexo claro desta multiculturalidade.

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17.02.2020 | por Ariana Furtado

A Ética do Género e a Verdade do Nome

A Ética do Género e a Verdade do Nome Descobri recentemente que Disforia temos todos, ou seja, um estado latente de várias condições não contempladas pelo estreito, bem estreitíssimo, traço imperialista dos Estados Unidos em modo regiões económicas, onde até a China se constipa de morte. Disforia Intelectual, Social, Económica, Moda e até Médica (foi a mais surpreendente). Disforias que nos deixam a braços com uma vida em teia de mecanismos de cope ou coping ou aguentamento lol. Um colossal trabalho de compensação imaginada, mas sentida e sofrida, ausência de um instrumento de adequação cultural que sabemos estar em falta desde sempre.

Jogos Sem Fronteiras

16.02.2020 | por Adin Manuel

Angolanos ilegais a caminho dos Estados Unidos - os afogados

Angolanos ilegais a caminho dos Estados Unidos - os afogados A rota de migração ilegal de africanos que parte do Equador para os Estados Unidos e Canadá segue de Quito para o Caribe colombiano. No extremo norte do país, o mar é cemitério. Os migrantes angolanos Luzia, Ana e João passam agora por águas e praias onde, há precisamente um ano, crianças angolanas afogaram-se ao tentar cruzar num barco ilegal para o Panamá.

Jogos Sem Fronteiras

14.02.2020 | por Pedro Cardoso

“O nosso trabalho é uma balança”, conversa com Benjamin de Burca e Rayne Booth

“O nosso trabalho é uma balança”, conversa com Benjamin de Burca e Rayne Booth Quando outras pessoas fazem um retrato é um outro negócio mais complexo. Entra-se num contrato entre quem faz o retrato e o retratado. Este contrato é um jogo, uma discussão, um diálogo. Portanto, o retrato que a Bárbara e eu fazemos não é igual e nem tenta imitar o auto-retrato que eles próprios fazem. Talvez, o nosso até seja um pouco mais distante, mas não é tão distante que mude de forma. É uma escolha delicada entre a aproximação entre ambos, ou seja, não é tão perto que mostre tudo, mas não é tão distante para ser outra coisa. Fica a meio caminho.

Cara a cara

13.02.2020 | por Hugo Dinis

Ele estendeu-me a mão e fui

Ele estendeu-me a mão e fui Contei-lhe este episódio já na cama, antes de adormecermos. Ele contou-me que também se perdeu da mãe em menino, o que eu tinha esquecido. Desejei ter-me perdido também, o que nunca me aconteceu. Mas pareceu-me uma imagem da liberdade: uma criança que consegue encontrar o caminho de volta, no meio dos vultos de uma Estocolmo escurecida, entre o tráfego da hora de ponta e a indiferença dos adultos.

Mukanda

12.02.2020 | por Djaimilia Pereira de Almeida

As coisas fundadas no silêncio

As coisas fundadas no silêncio O programa As coisas fundadas no silêncio — verso de Sophia de Mello Breyner — apresenta nove atividades, em Lisboa, para explorar este tema na sua relação com o corpo, com o tempo, com a linguagem, a música, o cinema e com as artes plásticas.

Vou lá visitar

11.02.2020 | por Marta Rema

Depoimentos sobre o BUALA

Depoimentos sobre o BUALA "BUALA conecta Portugal com vários países africanos e o Brasil de uma forma que nenhum projecto do Estado conseguiu; sem paternalismos, põe de pé uma rede de colaboradores a disponibilizar informação, pesquisa, ideias, imagens; conhece a fundo o terreno de que fala...coisa rara; distancia-se, cada vez mais, de uma linha curatorial "de cima para baixo", e compreende que a orgânica das trocas e a fragmentação do meio é o grande "acelarador"; colmata com eficiência e criticismo a lacuna do debate cultural nas trocas do sul, o qual tem vivido à mercê de projetos peregrinos de privados e do Estado." MM

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11.02.2020 | por vários

A Eterna Leveza do Anacronismo: os guardiães do consenso e o regime da cordialidade

A Eterna Leveza do Anacronismo: os guardiães do consenso e o regime da cordialidade A emergência de novos atores sociais, com destaque para os sujeitos racializados, cujas intervenções na sociedade portuguesa sempre existiram mas nunca foram reconhecidas pelas instâncias legitimadoras das narrativas culturais e historiográficas, constitui um fator decisivo na quebra da hegemonia lusotropical. Outro contributo narrativo e representacional é dado pela internacionalização da universidade, o incremento da mobilidade dos académicos portugueses e o crescente interesse de estrangeiros nos arquivos coloniais portugueses.

Mukanda

09.02.2020 | por Patrícia Martins Marcos, Inês Beleza Barreiros, Pedro Schacht Pereira e Rui Gomes Coelho

Bahia dinheiro curto mas sonho comprido. E Angola?

Bahia dinheiro curto mas sonho comprido. E Angola? Onde foi que nos perdemos de nós? Deitamos fora o tempo, não mais nos sabemos direito. Uns para um lado. E outros sem ele. Não insistimos no que nos pertence... e por aqui nos “vence” com estórias que são as nossas. Fazemos nada por ser parecido, quando se é igual. A vida passa ao lado. Nada nos amola. A festa não rola. O que foi que nós fizemos? O que foi que permitimos que nos fizessem?

Cidade

09.02.2020 | por Isabel Baptista